A flor e o florete – III

Pessoas comuns, para conseguir algo, tem que juntar uma papelada enorme e pagar pelas tarifas dos serviços públicos. Pessoas públicas, investidas de um poder institucional, só precisam verbalizar sua vontade que as moscas voam em volta para providenciar tudo. Tudo mesmo, minha mala estava pronta e arrumada, um coche me aguardava para levar imediatamente ao porto de Santos e lá teria uma fragata britânica à minha disposição para me conduzir a Westeros.

Mas mesmo reis não podem burlar as leis da natureza e da física. Levou um dia para que chegar a Santos e mais oito para eu chegar a Porto Real, Westeros. Ali, na Fortaleza Vermelha, o Senhor das Terras da Tempestade, Robert Baratheon, recebia a coroa dos Sete Reinos e era aclamado rei dos Ândalos, Roinares e Primeiros Homens. Ao seu lado, com o sorriso mais falso do mundo, estava Cersei Baratheon e os três “incidentes”, todos bem crescidos. Isso não me espantou ou me ofendeu, eu conheço bem a natureza humana para cometer tal tolice. Como se fosse a coisa mais frugal do mundo, o novo senhor absoluto de Westeros interrompe a coroação para me saudar.

– Ora, mas que grata aparição! Eu não esperava que o Reino da Ibéria teria a gentileza de enviar um emissário para minha coroação.

– Eu quem devo estar lisonjeado por estar em vossa presença, majestade. Muito embora minha presença aqui não seja uma cortesia oficial de Don Vasques, Imperador da Ibéria. Eu sequer posso considerar-me um emissário do bom rei de Portugal, Dom João Terceiro.

– Pois que seja por suas pernas mesmo, se não viestes por convite do rei da Espanha. Senhor Ornellas, nós que somos de nascimento nobre temos que nos reconhecer mutuamente. Seja como meu bom amigo Eddard Stark aqui presente e pode me chamar de Bob.

– Senhor Ornellas, seja bem vindo à Westeros. Eu tenho conta de que o senhor é um exímio espadachim. Eu gostaria de marcar uma tenta com o senhor, com espadas de madeira, evidente.

– Eu atenderei sua solicitação, senhor Stark, assim que for possível. No momento, os senhores tem uma coroação a concluir.

– Bah, eu estou cansado dessa ladainha. A coroa está em minha cabeça e o cetro em minha mão. Vamos pular para a parte da festa, por favor?

– Ora, ora meu marido e senhor, o que nossos filhos vão pensar? O que nossos parentes, familiares e todos da corte vão pensar? Que somos selvagens?! Oh, não, isso não. Aguente mais um pouco pois este tempo é necessário para os preparativos da festa, querido.

– Oh… meu amor… ah, senhor Ornellas, esta é Cersei. Eu sou o senhor de Westeros, mas ela é a senhora do meu coração.

– Eu estou encantada, senhor Ornellas. Estes são meus filhos: Joffrey, Myrcella e Tommen.

– Eu percebo que serão grandes regentes. Eu sinto o poder fluindo nestas veias.

– Sem dúvida! Mas creia-me, senhor Ornellas, mesmo agora, em meio a tantos convidados que celebram minha coroação, eu sei que muitos secretamente ensejam minha destruição. Assim que esse teatro farsesco terminar, eu gostaria de ter uma prosa contigo.

– Eu tentarei mantê-lo ocupado, Bob, até que se conclua a coroação.

– Heh? Cuidado, senhor Ornellas, pois Eddard pode muito bem querer te empurrar suas filhas para um casamento.

Eu dei meu melhor sorriso amarelo enquanto Robert era arrastado por Cersei de volta ao altar, até diante do sacerdote da Velha Religião. Eddard conduziu-me para junto de seus familiares, apresentou-me para sua esposa Catelyn e seus filhos Robb, Sansa, Arya, Bran e Rickon.

Robert estava perigosamente certo, pois ao lado dos Stark eu podia sentir sombras em conspiração. Eu não era o único mercenário contratado para “resolver” o problema da usurpação do trono, haviam outros iguais a mim, contratados por outras famílias, o que era evidente, pois se Robert chegou ao trono pela força, ele deu espaço para que os outros senhores tentassem o mesmo.

– Você está sentindo também, não é? Parece que mil adagas estão direcionadas ao nosso rei. Eu mesmo posso ser alvo desses mensageiros da morte. Tendo a vida que eu tive, eu sei o final que me aguarda e não tenho medo, mas receio o futuro de meus filhos. Robb está quase como eu, pode muito bem se garantir, mas Bran e Rickon… ainda precisam de amas de leite. Eu nem quero pensar no que pode acontecer com minhas meninas. Então seja sincero, senhor Ornellas… sua presença aqui é para tratar de assuntos… profissionais. Por acaso meu nome ou o de Robert estão em sua lista?

Dizem que um homem condenado e com poucos dias de vida consegue ver tudo com clareza. Eddard Stark não era tolo, fútil ou ingênuo como seu amigo e rei. Ele sente como eu o cheiro de sangue e morte. Outro no lugar dele teria feito um escândalo e tentaria duelar comigo. Mas não Eddard Stark. Ele sabe e aceita sua morte. Ele me acolhe pelos princípios universais da hospitalidade, mesmo suspeitando que eu esteja ali para mata-lo.

– Heh… eu o estou aborrecendo com minhas queixas. Por sua reputação, eu sei que coisa alguma irá te deter. Eu sou capaz de apostar que seus irmãos aqui presentes terão o mesmo destino que o meu. Eu não vou negociar minha vida contigo, senhor Ornellas. Nem do Robert. O que quer que nos aconteça, foi merecido. Mas se ainda há algo de humano no senhor, poupe meus filhos. Ou melhor, olhe por eles, ou pelo menos olhe por minhas meninas.

Eddard teve o vislumbre do panorama, mas não deve ter visto que Bran tem a proteção de um espírito animal. Rickon tem uma coroa em seu futuro, o que confirma o destino selado de Eddard. Eu olho as meninas. Sansa é o centro das atenções dos homens no saguão e eu não os posso censurar, Sansa transparece que atingiu a idade núbil. Arya é quem capta minha atenção. Ela carrega dentro dela uma alma antiga e terá uma longa jornada até que atinja sua maturidade física. Sansa não me agrada nem um pouco. Seu físico é maravilhoso para as mentes comuns, mas ali eu não vejo conteúdo algum. Arya é seu exato oposto. Os homens a temem por que ela é guerreira, mas seu interior é macio e suculento como uma fruta pronta para ser colhida.

– Senhor Stark, por razões do ofício eu não posso negar ou afirmar qual é minha missão aqui, nem indicar meus contratantes. Assim como o senhor, eu sou prisioneiro do Destino e da Fortuna, assim como o senhor eu sigo o fluxo do melhor jeito possível. Mas o senhor está correto quanto a conspirações e sombras que se movem traiçoeiramente. Eu corro tanto risco quanto o senhor. Eu diria até mais, pois eu sou estrangeiro e muitos devem estar com as mãos formigando para me desafiarem, em busca de recompensa ou de notoriedade. Eu não posso fazer coisa alguma a respeito dos eventos que se fecharão, mas seus filhos não estão em risco. Suas meninas também não, embora tenham uma longa estrada para percorrerem, cheia de sofrimento e obstáculos. Minha intervenção não se faz necessária, mas eu me agradei de sua filha Arya.

– Arya? O senhor está certo disso? Não prefere Sansa?

– Eu tenho um gosto mais… exigente, senhor Stark.

Eddard piscou duas vezes, incrédulo e superficial como todo homem comum, apesar de seu sangue nobre. Deixou seus filhos brincando com seus lobos, deixou Sansa com seus futuros pretendentes e, com uma formalidade inconveniente, me apresenta para Arya, a única que estava sozinha no meio de tanta gente.

– Ahem… Arya, meu anjo, eu quero te apresentar…

– Ornellas! Senhor Nestor Ornellas! O maior espadachim, bruxo e assassino do mundo! Eu… eu… eu não sei o que dizer… eu sou sua fã!

O pobre Eddard não sabia o que dizer ou fazer. Não é todo dia que sua filha diz na cara de seu convidado o que todo mundo sabe, mas não tem coragem de dizer. Não é todo dia que um pai vê sua filha, desenganada por ser masculina demais, sorrir e abraçar um completo estranho. Que se dane Cersei e meu contrato. Meu objetivo será cuidar de Arya Stark.

– Vamos lá fora! Agora mesmo! O senhor é o único que tem arte e técnica o suficiente para me ensinar algo. E eu estou cansada de bater em meu péssimo professor de esgrima!

Ela me leva pelas mãos, pelo brilho no olhar e pelo sorriso. Meu coração bate acelerado enquanto ela desembainha seu florete e assume a posição de combate.

– Há! Em posição!

Ela tem a leveza e a força certa no pulso e conduz habilmente o florete. Eu deixo ela se mostrar para mim e fico extasiado com seus volteios, seus cabelos curtos acompanhando suas estocadas e seus quadris me enlouquecendo com o espetáculo de suas pernas torneadas por músculos e um bumbum definido.

– Há! Huff! Hiai! Hei! Como eu estou indo, senhor Ornellas?

– Magnífica, senhorita Stark.

– Há! Puff… puff… eu estou fazendo todo o esforço aqui… o senhor vai ficar só na defensiva?

– Senhorita Stark… quer que eu ataque?

– Sim, pelos Deuses Antigos! Deixe-me ver um pouco de sua famigerada técnica! Se conseguir me desarmar, eu te dou um beijo!

Ela mal vê meu manejo, mas seu florete gira furiosamente pelo céu antes de fincar inerte no chão de grama. Eu vejo seu olhar, um olhar que eu vi milhares de vezes, o olhar da alma que antecipa a dor e a morte. Mas minha estocada final não é com o sabre, mas com meus lábios. Eu a envolvo em meus braços e a sinto tremer. Primeiro de medo, depois de prazer.

– A… ah… senhor Ornellas… eu sou uma dama… o que vão pensar? O senhor está colocando em risco minha virtude…

– Que os padres carreguem consigo a virtude. Nós vivemos pela espada, senhorita Stark. O aço é impossível de ser maculado. A senhorita sempre será uma dama.

– Oh, bem… eu fui chamada tantas vezes de dama de ferro… de repente, eu estou gostando da ideia. Eu quero ser a sua dama de ferro, senhor Ornellas.

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