A flor e o florete – II

Feitas as apresentações, Brás Esteves Leme demonstrou saber mais de mim do que Manuel Borba Gato. Um encontro providencial que não foi mera coincidência, pois Brás Leme era parente de Fernando Leme, sogro de Manuel Borba. Estes contatos serviriam para espalhar meu nome entre seus familiares na Ibéria e outros reinos da Europa.

– Homem, depois desta caminhada, deve estar com sede e fome. Faça-me a gentileza de me acompanhar até meu humilde lar.

O casarão dos Leme imitava com exagero as casas tradicionais, nada convenientes para o clima mais quente e tropical do condado de Vera Cruz, mas adequado para viver na Vila de Piratininga e suas estações confusas. Ao redor, muitas casas com taipa e tijolos perfazia o arraial do que depois seria conhecido como o bairro de Pinheiros.

– Ornellas, o capitão disse… de que parte da Ibéria?

– Saragoça.

– Eh? Contam que lá vivem muitos bruxos e feiticeiros.

– Engraçado… contaram-me a mesma coisa desse condado inteiro.

– Ah, deixemos essas bobagens aos padrecos. O senhor tem algum parente ou familiar habitando nesse condado?

– Eu não creio.

– Isto não convém a um fidalgo. Nós não somos pagãos. Eu faço questão que o senhor seja meu convidado, até estabelecer sua residência.

– Espero não ser inconveniente.

– Bobagens. Nós, patrícios e brasileiros, temos que nos ajudar. Nós estamos cercados de selvagens e eu não estou apenas me referindo aos aborígenes. O capitão contou-me que encontraram com… franceses! Que Deus nos ajude!

– Bom, com estes, não precisará mais ficar preocupado.

– Heh… o capitão contou-me que viu algo sobrenatural.

– O senhor Borba exagerou.

– Mas é verdade que deu cabo de vinte deles só com esta sua bengala?

– Eh… isso eu não posso negar.

– Isso há de ser bom uso pelo capitão governador de São Vicente. Cá estamos em disputa com a Capitania do Rio de Janeiro. O nosso capitão-mor, Rodrigo de Meneses, está em briga com o capitão-mor Martin Afonso de Sousa. Nós até desconfiamos que os cariocas estejam se mancomunando com os aborígenes e os franceses para aumentar seus territórios.

– Eu deixo a política aos políticos, senhor Brás. Eu sou um homem de ação. [eu menti descaradamente]

– Ora, mas certamente é um homem de valor que merece ser reconhecido. O mínimo que posso te oferecer é compartilhar de meu teto. Eu te garanto, nós somos civilizados. Nós ganhamos nosso sustento com lavradores assalariados e a venda de um grão chamado café. Nós não somos como os senhores de engenho do norte, que empregam escravos e vivem da cana de açúcar.

– Algo me diz que estas terras serão em breve mais ricas e mais civilizadas do que todo o condado.

– Pois eu digo mais, senhor Ornellas. Em breve o senhor estará entre os novos ricos e os nobres de papel passado.

Eu fui deixado em uma parte do casarão cujo espaço é mais do que suficiente para duas pessoas, todo mobiliado e com farto suprimento de comida na mesa, constantemente atendida por mulatas que o preocupado Brás teve o cuidado de explicar que eram serviçais pagas. Bom, pagas ou não, eu era constantemente acompanhado e servido também na cama.

O dia seguinte estava agitado e meu anfitrião apareceu afogueado diante da minha porta, como se portasse uma noticia ou um anúncio muito grave.

– Homem, se vista! Tem ideia de quem veio nos visitar?

– O digníssimo senhor capitão-mor de São Vicente?

– Nem chegou perto. Eu mal me aguento nas pernas. Eu avistei uma vez o grão príncipe do condado de Vera Cruz, o rei de Portugal e isto foi um feito que eu irei contar a meus netos. Eu tenho em mora que o senhor conhece a duquesa de Varennes. Pois cá te digo que eu estou com alguém ainda maior e mais importante bem diante de meus pórticos e exige conversar contigo.

– Senhor Brás, eu não sou bom em enigmas. E eu não conheço majestade maior do que a duquesa de Varennes.

– Ora, pois, que isto é teu coração que fala. Venha, homem, sem demora.

As mulheres se levantam e saem pelos fundos, para evitar serem flagradas em pouca roupa e saindo da casa de um homem estrangeiro. Eu faço o que posso para aprumar minhas roupas enquanto meu anfitrião apressa meu passo até o saguão central de seu casarão. Assim que eu entrei no local, eu senti o clima pesado, soldados em armaduras guarneciam todas as portas daquela sala e não eram amistosos. No centro de tudo, refestelada em uma poltrona ricamente decorada, uma mulher de origem anglo-saxônica transparecia em sua expressão sua impaciência.

– Com licença, vossa majestade… eu vos trouxe o fidalgo que vossa alteza deseja travar um concílio.

– Até que enfim. Podeis vos aproximar.

– Vossa majestade, eu vos apresento…

– Nestor Ornellas. Nascido de Saragoça, filho da nobre família de Ornellas, primos da Casa Real da Espanha, Aragão e Castela.

– Definitivamente, o senhor corresponde com a reputação que lhe precede, senhor Ornellas. Senhor Brás, nós temos assuntos de ordem real, ordens de segurança do Reino de Westeros a tratar com esse nobre senhor. Por favor, nos deixe a sós.

– Claro… vossa majestade… eu estou às vossas ordens.

Meu pobre anfitrião, acostumado demais com os nobres de papel, destoa completamente do protocolo adequado com verdadeiros aristocratas. Os soldados saem juntamente com ele e fazem questão de trancar as portas.

– Senhor Ornellas, sem muitas delongas, eu sou Cersei Baratheon, rainha das Terras da Tempestade. Eu tenho muitos conhecidos meus e parentes que falaram muito bem de sua pessoa, embora eu achasse estranho como eles sussurravam seu nome em meus ouvidos, como se temessem algum castigo divino.

– Eu agradeço vossas palavras, vossa majestade, eu me sinto lisonjeado e honrado por vós saber de minha pequena existência.

– Oh, por favor, Nestor! Nós dois somos nobres de direito e nascença, forjados pelo fogo e pelo aço. Cersei, apenas.

– Ainda assim é um elogio ter meu nome sendo proferido por estes lábios, Cersei.

– Também me avisaram de sua língua de mel, Nestor. Mas eu sou uma rainha justa. Se me ajudar em meu plano, eu posso lhe providenciar ricos presentes que superam em sabor este corpo envelhecido.

– Pois eu sou um bom apreciador de vinho, Cersei e você sabe que o melhor vinho é o que tem um corpo envelhecido.

– Oh, por favor, pare! Eu estou bastante encrencada exatamente por ser uma mulher sexualmente ativa, então não me provoque.

– Eu imagino que minha ajuda seja para remover quaisquer acidentes que possam revelar que você andou coroando outras cabeças.

– Precisamente, meu justiceiro. No momento, meu marido cornudo está em campanha contra os Targaryen, levando consigo seus cães, os Stark. Nesse momento, nesse exato e precioso momento, eu fiquei sabendo estar grávida… de meu próprio irmão.

– Cersei, eu não conheço os meandres da corte de Westeros, mas este tipo de “deslize” nunca constituiu um problema muito sério nas cortes européias.

– E eu não teria a satisfação de conhecê-lo. Mas Robert Baratheon tem andado na companhia de monges que o tem açodado com ideias de pecado e castidade. Eu te digo que eu gargalhei muito quando eu vi aqueles semblantes sérios, porém hipócritas, falando em moral e bons costumes.

– O que eu posso fazer por ti, além de preencher mais teu ventre?

– Oh… meus futuros herdeiros compreenderão a necessidade de sua futura mãe. Para que eles sejam reis e rainhas, eu terei que remover dois obstáculos: Robert Baratheon e Eddard Stark.

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