A flor e o florete – I

O leitor não deve tentar ler ou entender minhas narrativas de forma linear. Por limitações dessa plataforma, eu ainda tenho que utilizar palavras comuns e apenas o básico de uma redação, o que é frustrante. Mas eu deixei várias pistas de que a existência transcorre em uma espiral, então em termos cósmicos é ridículo falar em ontem, hoje, amanhã, em encarnações passadas ou futuras. Na visão do todo, do pleno, essa realidade é apenas uma de muitas bolhas.

Os cinco primeiros minutos do desencarne são desagradáveis e seguem um processo inverso ao encarne. Quando o seu verdadeiro eu toma uma forma física, ou melhor dizendo, quando sua alma é envasada em seu corpo, a sensação é de nojo, mas isso pode ser facilmente superado. Quando o corpo sucumbe e a alma ainda está presa a essa falsa noção e imagem de personalidade que formamos para sermos funcionais no mundo material, o ego, a sensação do desencarne é a mesma quando esfolamos o nosso couro.

A última imagem que eu tenho é de ver Rei Ayanami, absolutamente bela e sorridente, em sua forma de Lilith, abraçada com Shinji Ikari, em sua forma de Adama. A dor que eu sentia no coração não foi nada comparada com a dor do desencarne, a Deusa tinha outros planos para minha existência e o único propósito do meu ser é servir aos Deuses, mesmo que isso seja dolorido, confuso e ingrato.

Quando eu dei por mim novamente, eu me encontrei em outro evento, em outro tempo, em outra dimensão. Algo que eu fui aprendendo e descobrindo aos poucos é que nós renascemos diversas vezes e a alma sempre leva algum tempo até se acostumar com outro corpo e ter consciência de si mesma. Então por prática, eu primeiro reconheço as condições do corpo em que eu me encontro e percebo que sua condição física é desfavorável, idade estimada de vinte anos. Segundo: reconhecer o local onde esta encarnação está ocorrendo. O corpo hospedeiro está preso a uma pesada canga que fecha meus pulsos e pescoço, meus pés estão acorrentados em pesadas correntes, fixadas em um chão de madeira. O ambiente circundante confirma que meu hospedeiro está em uma prisão que, por ser inteiramente feita de madeira, indica o fato de que eu estou prisioneiro em um navio. O problema no despertar é que geralmente se ignora completamente o histórico anterior de seu hospedeiro e, pelo cenário ao meu redor, eu imagino que “eu” devo ter feito algo muito grave e o prognóstico é que meu hospedeiro deve estar em risco de vida.

O terceiro passo não é muito agradável para ser visto, pois é quando a alma toma conta do corpo e o inflama com a energia do espírito que é meu verdadeiro eu. O corpo frágil, magro e fraco toma a forma que a alma, o espírito lhe concede. A pesada canga se parte em pedaços assim que eu retomo minha musculatura e envergadura. Eu parto as correntes que prende meus pés com meus dentes. Essa é a parte fácil. Este deve ser um navio militar de onde o país proprietário deve enviar seus presos ou para o desgredo, ou para a execução. Eu devo medir corretamente minha força para não estourar o navio e deixar ao menos sobreviventes para que eu chegue a algum porto. Três por cento devem ser o suficiente.

– Alerta! Alerta! Prisioneiro está tentando escapar! Alerta!

Dois soldados na porta caem primeiro. Eu não reconheço os uniformes, mas parece pertencer ao período da monarquia, algo entre 1500 ou 1600. Sinos trovejam e não demora muito para que o corredor apertado fique cheio de mais soldados. Eu conto vinte, até o momento. As armas confirmam que eu estou em algum momento no período medieval tardio, quando começou a colonização do “Novo Mundo”. Pobres coitados, não tem chance, com armaduras pesadas e espadas que mais servem como machado. Minha mão atravessa a carapaça de aço e a malha de ferro como se fossem feitas de papel.

– Alerta! Prisioneiro armado e perigoso! Tragam os trabucos!

Eu reconheço os trabucos, rifles primitivos, um pedaço de madeira fixado porcamente em um canil de ferro batido, municiado com um pelote de chumbo que é projetado por pólvora, mal feita e mal colocada em uma câmera feita também de ferro batido, pólvora que é disparada por um cordame de algodão ou um disparador. Não é nem um pouco eficiente para uma guerra entre humanos, muito menos para me combater.

– Cessar fogo! Chamem o capitão! Vamos nos render!

Os tripulantes do navio são espertos, sua capitulação custou apenas a vida de trinta deles. Do meio dos soldados apareceu o capitão.

– Gentil senhor, por que ataca meus homens?

– No meu ponto de vista, eu estava me defendendo.

– Oh, que tragédia. Por um mal entendido, trinta vidas foram ceifadas. Meu bom homem, eu estou confuso e aturdido. O senhor é evidente um fidalgo, não deveria sequer estar à bordo deste navio funesto. Nossas instalações são para prisioneiros condenados por El Rei de Espanha e Portugal do Reino de Ibéria.

– Qual o destino final desta nau?

– Nós vamos para Southerly, uma larga porção de território situado a sudoeste, além do oceano, onde o Reino da Ibéria tem colônias.

Neste mundo, Espanha e Portugal fazem parte do mesmo Reino, que está em competição com os demais reinos europeus, nos quais Westeros está incluído. Pelo capricho da Deusa, eu reencarnei dentro do universo da obra de George Martin.

– Eu posso contar com a colaboração dos senhores para que eu chegue até o porto mais próximo?

– Eu faço questão que o senhor desfrute de nossa hospedagem em minha cabine pessoal. Nós podemos desembarcar o senhor no porto de santos, antes de nossa parada na Guanabara.

Eu desembarquei junto com alguns degredados em um cais até que bem construído, mas menor do que o porto principal na enseada da Guanabara e mesmo este porto era o segundo depois da Baía de Todos os Santos. O porto tinha muita gente e muitos fardos de mercadorias e os donos de estaleiros sempre precisavam de braços extras, onde muitos degredados encerram sua sina. Eu segui até o armazém central, onde comerciantes e aradores discutem o preço das mercadorias, em meio a cidadãos comuns, nobres e aborígenes aculturados. Ali eu encontrei com tropeiros que se diziam bandeirantes que iriam até a Vila do Piratininga, no Condado de Vera Cruz.

– Então, fidalgo, acha que consegue nos acompanhar serra acima? São quatro dias de caminhada em mata fechada, com muitos bichos e aborígenes nem um pouco amistosos.

– Senhor Borba, se o senhor me permite a pouca modéstia, os senhores subirão com mais sossego comigo neste comboio.

– Com a breca! Eu estou espantado. Raro é o fidalgo que mostra tamanha coragem e disposição. Vasques! Ceda um de nossos gibões de couro ao fidalgo. O senhor tem um facão ou espada?

– Creia-me, senhor Borba, esta bengala em minhas mãos é mais mortal do que uma espada ou facão.

– Ora, pois, vamos! As carroças estão cheias e os habitantes da Vila do Piratininga carecem receber suas mercadorias.

Eu pude ver nesta encarnação a beleza natural da Mata Atlântica, quando esta ainda dominava o cenário. Os animais e homens selvagens não causaram problemas, mas tivemos o desprazer de encontrar com colonos franceses, vindo da Guanabara, em busca de expandir seus domínios. Os bandeirantes emudeceram pelo resto da jornada, depois que eu demonstrei minha técnica fatal com a bengala.

– Eh, isto é algo que eu jamais vi e olha que eu estive em guerras, fidalgo. Onde aprendeu essa feitiçaria?

– Aqui e ali, senhor Borba. Mas eu te confesso um segredo. Esta bengala é feita de aço reforçado.

– Ainda assim é espantoso. Tal arte será muito cobiçada pelos barões que vivem na Vila do Piratininga.

– Eu posso contar com o senhor para apresentar-me a tais barões?

– Creia-me, senhor, quando chegarmos sua reputação irá lhe preceder.

Efetivamente, assim que chegamos nas bordas da vila, nós fomos recebidos pelos jesuítas que entoavam algo como se fosse um exorcismo diante de minha chegada. Muitos curiosos olhavam de soslaio, os homens debaixo de seus chapéus de palha e as mulheres atrás de seus leques, desviavam o olhar. De trás da população surgiu um homem abastado que tratou de desfazer tal pobre encenação.

– Mas por Deus! Não é assim que se recebe um fidalgo. O que nossos patrícios vão pensar de nós? Nós não somos incultos, meu caro senhor.

– Saudações, fidalgo Brás Esteves Leme. Que o bom Deus o guarde e o abençoe. Poupou-nos de constrangimento diante desses padrecos. Eu quero lhe apresentar outro fidalgo. Este é Nestor Ornellas.

No universo de George Martin eu tenho o mesmo nome de meu pseudônimo, ou personagem, de minhas aventuras com a duquesa de Varenne.

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