Ninho de cobras

Hyuei Ashinaga estava visivelmente irritado e contrariado em sua carruagem real, enquanto sua irmã, Hibei Yoshikazu, acenava vividamente para as pessoas que se espremiam atrás das barreiras de isolamento, seguradas heroicamente por policiais. Ashinaga detestava tudo isso, essa pompa, essa cerimônia, essa gente dissimulada e hipócrita.

– Vamos lá, Shin! Acene! Não custa nada ser gentil com o populacho.

– Pois eu preferia ser um deles. Eu preferia viver nessa alegria contagiante da gente simples e inculta. Eu gostaria de ser feliz com pouco, como eles.

– Eu não sabia que meu irmãozinho era masoquista…

– Pare com isso, Yoshi!

– Ahhh… não era isso o que você dizia hoje de manhã…

– Yoshi… papai quer que eu escolha e anuncie hoje quem será a minha futura esposa. Você tem ideia do que pode acontecer conosco se souberem de nós?

– Puxa vida… é mesmo… o que os nobres e aristocracia dirão… diante de tantas nobres e distintas famílias onde o incesto e o adultério são coisas comuns…

– Você está distorcendo os fatos. Não é porque essas coisas aconteciam que isso é certo. Esses incidentes acontecem sem o conhecimento da corte e quando vêm à tona, os envolvidos são degradados e a família perde títulos e propriedades. Sem nos esquecer dos conflitos e guerras que sempre seguem quando bastardos surgem para reclamar o trono.

– Humpf. Sem graça. Assim você me ofende. Eu conheço mil e uma maneiras para que nosso… afeto fraternal… não resulte em um incidente.

– Você está esquecendo apenas de um elemento: papai. Será que eu tenho que listar os nomes das pessoas que incorreram na besteira de serem flagradas em atividades extraconjugais?

– Não precisa… eu perdi o meu melhor vestido quando papai, em pessoa, cortou a cabeça de tia Enanede.

– Não pense que nós estamos isentos. Tente aparentar ser uma dama distinta e de boa família. O palácio tem cortesãs demais.

– Humpf. Aposto que encontraremos muitas nessa festa.

– Então você concorda comigo que estaríamos melhor se fossemos dois meros camponeses…

– E abrir mão de tudo isso? Eu aceito o fardo, com orgulho.

Os populares gritavam e acenavam, freneticamente, enquanto os policiais empurravam e batiam nos que insistiam em romper a barreira. Alguns metros adiante, o Paço Municipal estava ricamente decorado e ladeado por centenas de carruagens, cada qual com uma bandeirola que identificava de qual família pertenciam. Yoshikazu ficava agitada e batia palmas diante de tantas pessoas ilustres, mas para Ashinaga as roupas eram a única diferença entre aquele público e o outro. O prefeito estava com o rosto todo distorcido com o sorriso que enfeitava sua expressão, muito embora seja reconhecidamente um partidário da República. Yoshikazu faz a sua melhor expressão de paisagem e sai na frente, enquanto Ashinaga tenta não pensar que esse prefeito poderia facilmente mata-lo em outras circunstâncias.

– Senhorita Hibei, senhor Hyuei, eu estou honrado em recebe-los em nossa humilde casa.

– Pois deve mesmo. E por favor, não nos misture com a corte baixa.

– Evidente, senhorita Hibei. Eu separei a melhor mesa para suas honradas famílias.

Ashinaga se aguentava como podia, enquanto sua irmã e ele eram conduzidos polidamente por mordomos com luvas de pelica. O Paço Municipal estava igualmente decorado por dentro com as cores e brasões da família do xogum. A corte baixa se apinhava nas mesas próximas das janelas enquanto a nata da nata tinha amplos e largos espaços próximos da pista de dança e do palanque reservado ao xogum e sua comitiva. O sistema é bastante simples, quanto mais próximo do xogum, mais importante e influente é a família. Ashinaga senta na mesa mais próxima e sua irmã tem que se contentar em sentar em outra mesa ao lado. Eles são irmãos, sem dúvida, mas de mães diferentes e Ashinaga teve o destino de sua mãe ser a esposa numero um.

Mal sentou-se e Yoshikazu foi cercada por diversas nobres damas para as mesmas conversas entediantes e fúteis. Ashinaga até se considera com sorte, pois os homens no máximo acenam, cumprimentam, oferecem uma bebida ou um cigarro e se vão como vieram. Aqui e acolá existem muxoxos e conversas animadas, mas os convidados aparentemente estão agitados e conturbados com um casal peculiar. Ashinaga conhece muitas das damas da alta corte, mas ele não reconhece aquela dama. Ela é, evidente, de nascimento comum, mas seu porte, seus modos e sua postura sugerem algo oposto. Ela certamente se destaca por sua singular beleza e aura, dentre tantas damas cuja estirpe é tão sólida quanto a maquiagem que usam. Ashinaga chega a se divertir ao observar algumas dessas “nobres” damas atiçarem o fogo dos olhos com ódio, mas desistindo de qualquer ato impensado diante do enorme monólito que é o homem que a acompanha. Entediado, Ashinaga incrementa o borburinho se dirigindo para conversar com a dama misteriosa.

– Boa tarde, senhorita, senhor. Eu sou Hyuei Ashinaga, conde de Musashi e barão de Toshima. Eu tenho o prazer de estar falando com quem?

– Boa tarde, senhor Hyuei. Eu sou Ningyo Yurei, a princesa de Kanagawa. Este é o meu tio, protetor e tutor, Obake Youma.

– Eu estou honrado com suas presenças. Por favor, aceitem a minha companhia e fiquem comigo em minha mesa.

Aquilo balançou todos os presentes. Não apenas o herdeiro do trono falou diretamente primeiro com a senhorita e não com o senhor, como pede a etiqueta, mas também os convidou para sentar na mesma mesa que ele, algo impensável, pois era evidente que aquele casal estava abaixo do nível da corte baixa. Mas Ashinaga sentiu prazer mesmo quando viu a expressão de sua irmã, quando ela o viu sentar com dois plebeus. O herdeiro estalou os dedos e os serviçais puseram-se a servir ao trio com a melhor comida e bebida. Como se isso não fosse escandaloso o suficiente, o herdeiro parecia conversar com os estranhos como se fossem velhos conhecidos. Ah, sim, isso estava sendo divertido. Ashinaga adorava pegar qualquer circunstância para jogar na cara dos nobres o quanto eram insignificantes.

– Perdoe minha curiosidade, senhor Youma, mas o senhor é muito grande e forte. O senhor é o general do exército de Kanagawa?

– Eu certamente sou um guerreiro, senhor Hyuei.

– Eu gostaria de ter um guerreiro como o senhor ao meu serviço, senhor Youma. Senhorita Yurei, poderia me emprestar ou alugar seu tio?

– Isso está fora de cogitação, senhor Hyuei. Eu estou correndo muitos riscos por vir aqui. Se não fosse por meu tio, eu teria sido morta ao ser atacada por mascarados, na estrada vinda para Edo.

– Mas… que horror! Isso é inaceitável. Nós não estamos mais na época sem lei e sem justiça. Eu lhes dou a minha palavra que isso será investigado e os responsáveis pagarão.

– O senhor é muito gentil, senhor Hyuei. O senhor será um bom xogum, quando o senhor ascender ao trono.

Os burburinhos e a comoção cessaram apenas quando foi anunciada a chegada do xogum. Todos se prostraram prontamente enquanto o xogum entrava no Paço Municipal ladeado por sua comitiva e sua esposa. Assim que ela e seus assessores sentaram, o xogum levantou e iniciou o evento com um discurso curto.

– Senhoras e senhores! Eu tenho uma grande satisfação de estar em vosso meio. Com os auspícios dos Deuses e a ajuda de meu bom servo, o prefeito de Edo, meu filho, que aqui está, irá conhecer e nomear dentre as damas aqui presentes aquela que será sua futura esposa.

Muitos aplausos e em seguida os presentes pareciam ter entrado em um tipo de transe, pois cessaram de fofocar sobre o estranho casal e o herdeiro. A única que ainda conservava uma expressão de desagrado era Yoshikazu e foi com isso que Ashinaga contava para dar um basta em sua miséria. Ele teve uma ideia brilhante e certamente contava com a sinceridade, honestidade e simplicidade de seu pai para dar o golpe final.

– Meu senhor, eu peço permissão para me aproximar.

– Ora, mas o que é isso? Desde quando meu filho tem que me pedir permissão para se aproximar desse velho pai? Venha, Shin, sente-se comigo e sua mãe.

– Eu te agradeço por tamanha gentileza, senhor, mas eu gostaria que viessem comigo meus novos amigos.

– Oh? Novos amigos? Ora, nós temos muito espaço. Venham, sentem-se todos.

– Obrigado, meu senhor. Eu tenho a satisfação de te apresentar a senhorita Yurei e o senhor Youma.

– Ah! Senhorita Yurei! Eu conheço sua família. Sua família é respeitada pelos inúmeros serviços prestados a nós. Eu não conheço a família do senhor Youma, mas quem se importa? Eu tenho pena de quem se opusesse. Homem! Eu nunca vi alguém grande e forte assim!

– Eu agradeço, senhor xogum. O senhor não conhece minha família, mas houve uma época, há muito tempo atrás, que seus ancestrais conheceram os meus avós. Eu percebo que o senhor é diferente, então eu espero que nossas famílias possam trabalhar juntas para o bem comum.

– Oho… isso deve ter sido há muitos anos atrás. Do tempo que nem existia Edo. O tempo das lendas e dos heróis. Ah, que seja! O senhor é evidente um homem digno e honrado. Eu farei tudo que estiver ao meu alcance para que nossas famílias possam ser uma grande família.

– Por falar nisso, pai, eu tenho algo que pode ajudar e acelerar esse acerto.

– Oh… o jovem mestre teve uma ideia… fale, meu filho, o que você tem em mente.

– O senhor Youma é tio da senhorita Yurei. Seria um acerto e tanto, para ambas as famílias, que eu me case com a senhorita Yurei.

Obake piscou os olhos um par de vezes. Ningyo engasgou com o sakê. Yoshikazu cravou a madeira da mesa com o garfo. Algumas damas desmaiaram e alguns homens quase protestaram. Mas a risada do xogum soou mais alto do que tudo no salão. Estava acertado.

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