Arquivo mensal: fevereiro 2017

Corpo não pertencente

[Série Política Esquizotrans]

Esquizotrans (nem pertence a um corpo com órgãos demais).

por Fabi Borges e Hilan Bensunsan.

Original: Esquizotrans.

Ela era feita de um corpo pós-edipiano e amava sua mãe desde que com ela foi expulsa de três igrejas. Eu era o Ente, a tia de alguém, e ela ficou descontrolada quando viu minha camisola roçando nos seus quadris. Ela apertava as mãos em seus cabelos escutando o Nirvana rimar sua libido com um mosquito e de vez em quando lamentava ter arrancado seu pênis algumas vezes de forma tão incisiva, para nunca mais… Logo perguntaria ao psiquiatra quantas vezes poderia mudar de sexo em sua vida. Suas tragédias não passavam de cardápios de fim de noite em restaurantes de pousadas sem pretensões na costa do Ceará. Mas eram tragédias de apertar as mãos no cabelo. Ela arrancara o seu primeiro pinto com um quebrador de nozes quando a rola estava dura de ver um judeuzinho sardento abaixar a cabeça para deixar o irmão mais velho satisfeito – ela, a rola, ficara tão dura que ele não sabia mais o que fazer e foi incisivo. Demoraram seis anos para ele decidir-se a botar a bucetona ali onde havia os frangalhos do caralho. Ficou de buceta uns anos, foi tempo de dar para um afinador de pianos e de tentar ser tentáculo de nabo, de pepino, de cenoura – quando a maré enchia ela colocava o seu vibrador holandês e apertava o botão “come in 20 seconds”. Era inundada por aquela porra fabricada, com cheiro de camisinha de morango. Elaine Rolnik dizia que para a maior parte dos brasileiros um pau devia cheirar a morango. Disse ao médico que queria uma pica de novo e ele lhe fez a pica – aos moldes de um homem que há muitos anos contracenou em um filme com a Cicciolina. Comeu três irmãs judias do judeuzinho sardento, todas sardentas e com seios que pareciam, cada um, com o mundo todo; mas não comeu o judeuzinho. Arrancou fora o pênis desta vez com uma dentada da mais nova das Rosenberg que nunca entendeu porque ele punha seu corpo à disposição da solidariedade com todas as pessoas da cidade.

Ela sim era mais incisiva que o quebra-nozes. Esculpiu uma vagina aconchegante entre as pernas e se pôs a ser parte de um grupo de mulheres pela liberação imediata de toda tecnologia. Acabou levada pelo Ente com uma barba que crescia para perto do mar para escrever sobre os tempos em que atravessava a rua com tornozeleiras para mostrar aos médicos que as pessoas tem o direito de ficar na genitália que conseguem ocupar.

Guarda o teu pauzinho para a próxima menina especial que tu encontrar na praia.

Ela não queria aquele rapaz, não na praia, não quando ela estava concentrada no que escrevia. Não precisava mostrar a um homúnculo dentro de si que era capaz de levar a cabo a sedução que derramaram sobre seu corpo na beira do mar. Precisava mostrar a um homúnculo dentro de si apenas que era capaz de atrair a sedução – que alguém quisesse se arriscar por ela. Ser desejada – aquilo era um tonificante para os seus músculos, era um liquidificador para o seu sangue. Sentia-se retomada de promessas, de algo que não necessariamente tivesse que ser cumprido, mas que a injetasse numa dose de esperança, sem condição de fracasso, enfim era crédula demais para acreditar em fracassos cheios de pureza. O que sempre considerou em suas trocas insistentes de sexo, tira e bota peito, tira e bota pau no cú, na boca e no próprio pau, que às vezes é boceta.

Os problemas que tinha realmente eram com amigos, que tinham sempre que estarem sendo investidos da novidade de sua sexualidade mórbida para alguns, inconfessavelmente sexy para outros, como para o seu colega do terceiro colegial. Com ele sempre conseguiu chorar, era de uma ternura, de uma vulnerabilidade falsa, porque cética como era, não podia acreditar nem em suas próprias lágrimas, mesmo assim o coitado do amigo lhe servia de ombro, de lenço , de um consolo bem distante do que costumava levar na bolsa.

Ficou estranhado com a última operação. Virara homem de novo, para não desejar nem homens nem mulheres, mas neófitos. Queria tudo que aprendia e se surprendia, mas que não tinha juízo ainda pra julgar o intempestivo… Se dava à escrita sem cair no pecado mortal da pedofilia. Gostava de resistir um pouco aos pecados mortais, não é que desejava eles por serem pecados nem por serem mortais – desejava o que desejava: aquele pau da menininha que nunca fora chupado; ela, tão pequena, tão urbana, tão convencida de que uma menininha não tinha pinto. Foi o Ente que lhe contou, em confidencia bebendo gim com vermute na beira das águas belas, que ela, a menina do bikini azul – ela, que parecia com a crente em deus que quase alucinara os dois pregando contra os santos da umbanda enquanto roçava a perna sobre seus joelhos em um bugue alugado com espaço para menos de três – era sabida desde recém-nascida. A menina do bikini azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação – deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o bikini azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Eles alcançaram ela enfiando os pés em um banco de areia e a paciência de esperar ela boiar até eles, e ela chegou devagar sem saber que se sorrisse por mais um minuto ou dois terminaria com as mãos dos dois por todo o seu corpo. A menina do bikini azul não resistiu nem ao Ente, nem a ela, de pau quase novo, que tocou suas coxas e, olhando em torno, deixou sua boca ser beijada. Ela não era beijada na boca por qualquer um, apenas dois homens, que terminaram morando com ela por quatro anos cada, enfiaram a língua no seu céu da boca. Agora, a menina do bikini azul, lábios grossos colados nos dele, e ele com as mãos na sua bunda e bastou alguns segundos para sentir o pinto por dentro do bikini azul, grosso como imaginara a médica, ela, e a médica, gostava. Em dez minutos eles estavam em um quarto com vista para a areia e a menina sem o bikini azul, os peitos cada um na mão de um e a buceta mordida pelo Ente; o membro despercebido, ela iniciou a menina que nem sabia que tinha um pinto e gozou na boca dela uma porra de virgem, uma porra com gosto de bikini azul – muita porra.

O psiquiatra foi encorajador e incisivo como as pessoas que vestem branco aprendem a ser: não havia limites na alma humana para modificações nas configurações das peles entre as pernas. Não precisaria se lamentar, apenas passar pelo ligeiro incômodo de sentar e esperar de pernas abertas que lhe mudem o permanente. E depois, ele sugeriu com aqueles ares de quem não se incomoda em supervalorizar sua especialidade: a alma humana pode até prescindir destas intervenções micro-cirúrgicas. Basta mudar os gestos. Mas não se convencera, sempre quis ter um pau para cada coisa ao invés de ter pau pra toda obra. E nunca gostara de pensar em escova progressiva. Mesmo assim correu para o cirurgião: a menina do bikini azul, como? É que ela e o Ente levaram a garota para um festival de cinema transviado, potente, potente, ficou amiga da Juliana que vestia seios e que sussurrava no ouvido de todas as outras que queria muito poder ir a um terceiro banheiro.

No fim da noite, depois de sambar ao som de forró, merengue e reggae, Ju se desabafou na rua mesmo, no canto da calçada, de pé. Melhor assim. Já a menina do bikini azul queria saber tudo – o pequeno mundo dos homens sempre foi mundo distante; a distante terra dos meninos que tentam passar a mão na bunda das meninas gostosas e agora ela acordava todos os dias com pau chupado. Sua mãe há anos não olhava o terreno todo acidentado entre suas pernas e as outras meninas eram discretas e ela mesma aprendeu desde que cresceram pelos por toda a região que era melhor virar de costas e exibir a parte de trás do seu corpo, suas nádegas crescidas e arredondadas – ela sabia que ali era sua melhor coleção de formas e as meninas não olhavam do outro lado daquilo tudo. Sua mãe lhe falava, contou sobre menstruação e lhe ensinou a contar os dias, a olhar a lua, a não manchar as roupas e ela aprendeu e acostumou – cólicas moderadas no dia antes do sangue, o lugar certo para o equipamento de estancar o fluxo, e os dias: sempre vinte e oito dias precisos. Ela andava sempre com as primas, um pouco mais jovens que ela e que queriam aprender a ficar mulher com ela; tinha a prima Marjorie, seios pequenos, ancas modestas e lhe impunha seu ciclo sempre que passava uns dias dormindo na sua casa – Marjorie perturbava, uma fêmea de cheiro forte. Ali, no festival de cinema transviado, com Ju, com os dois que descobriram um falo nela ela se deu conta de que tinha sangue macho dentro dela. Uma madrugada de lua cheia ela olhou para o alto, sua mão direita foi rapidamente para aquilo que havia entre as suas pernas e uma angústia. Ouviu falar tanto de operações, colocar e tirar coisas daquilo que sempre foi do jeito que ela se acostumara a ser; ela nunca gostou de médico, tinha autoconfiança toda rígida com sua saúde, talvez adolescente e, no entanto, ela nunca gripava, quase nunca se machucava e dormia bem – comia agrião, espinafre, horas chupando frutas.

Era um bando de três no festival de cinema e, às vezes, na praia, o coração deles batia muito rápido. Classificaram as pessoas em dois tipos, as que amavam e as que nasceram para desejar. Logo confundiram as duas equipes e quanto mais confundiam mais rápido batiam os três corações. Passaram alguns dias assim grudados: ela, estreando seu pau novo, o Ente, preocupado, e a menina que comprara um outro bikini na praia do Futuro, também azul, mas ainda mais celestial.

Eu prefiro não

Autor@s: Fabiane Borges e Hilan Bensusan.

E nem gostava de brincar de boneca – se bem que apalpava elas, esfregava elas na genitália, queria comer elas todas, enfiar alguma coisa gigante em algum buraco escondido delas e fazer elas darem gemidinhos.

Nem gostava de brincar de metralhadoras, apenas apalpava cada uma delas entre as pernas querendo que aquela força metálica, aquela solidez firme, aquela capacidade de ser mau elemento estivesse enfiada na sua boca ou em algum buraco escondido entre suas pernas – algum buraco que nunca soube para que serve.

Com oito meses foi acometido de uma fimose pelo caralho e algum profissional de branco o descaralhou em oitenta por cento. Mãe e pai, vendo a abjeção solta entre as pernas de David, saíram catando profissionais de branco.

Primeiro veio um homenzarrão aberrante com os cabelos delgados e ofereceu, como quem oferece chocolates a uma criança, uma vagina completa; e ofereceu com sua parca psicologia, por exemplo,dos pré-adolescentes – algum manual mal lido nos tempos de escola deve ter sido tudo o que o John Money deixou penetrado pela sua cabeça acerca dos rostos com espinhas. Ele ofereceu de bandeja e na lata uma vagina completa:

– Você vai poder ser mãe com esta vaginona, vai poder ser uma mulher de verdade, sem receios, ter uma família e um homem pra chamar de seu…

– Eu prefiro não.

Money chamou mesmo o irmão gêmeo de Brenda ou de David e pediu que ele ficasse em uma posição de quem estava comendo uma buceta imaginada entre as pernas do irmãozinho. A irmãzinha e seu parceiro que deveria enfiar a tal trosoba ficaram tremendo, assustados, tremendo, sem respiração. Calamidade pelos poros da cabeça. Money chamou uma legião de beduínos sexuais para mostrar a importância de ser mulher com toda sanha, toda biologia. David, embaixo de Brenda, pensava: é só pelo que eu tenho entre as pernas que sou digno de amor? Sou um perdedor.

– Eu prefiro não.

Brenda disse que não punha xoxota – mas assim, no meio entre o que entra e no que entra não dá pra ficar; os pais trataram de encontrar um jeito de eliminar aquela genitália sem órgãos. Levaram Brenda a outro hospital, outro avental, outra teoria geral acerca da cabeça, do púbis, da casinha e do carrinho: Milton Diamond disse que punha pau em Brenda e ela poderia brincar com suas escopetas de plástico sem destoar. Meto pinto na menina, Diamond disse, e ela fica como veio ao mundo antes de ser fodida pelo primeiro médico. Um pau pra Brenda, ele anunciou, e David, com os olhos espremidos:

– Eu prefiro não.

É o que é natural para David, veio loquaz um doutor, Colapinto: com o pinto nela, ela volta às suas origens, a como a Mãezona Natureza, colossuda, cheia de planos, a fez. Colapinto dizia que foi cruel, cruel tentar meter uma cabeça de menininha na Brenda só porque ela não tinha mais o membro – membro se constrói, ele fazia, cabeça ninguém constrói. Uma vez que David nasceu David, não adianta tentar vesti-lo com cuequinhas rosas, uma menininha não se constrói. Puseram um falo na Brenda:

– Eu prefiro não.

Nos errantes da vida, estas calamidades se aceleram com uma trouxa branca para a morte com um torturador escondido embaixo dela. Chegou quem você esperava – agora é só se recompor. Ajeita o cuecão, enfia a calcinha no rego; faz de conta que você não é abjeto, é naturalmente homem, mulher ou calango. Não fique plácida, ajude a revisar todas as notas comparadas do DSM-5 como se fôssemos feitos de órgãos em bom funcionamento.

– Não.

Breviário de Pornografia Esquisotrans, pg. 97 – 99.

Política Esquizotrans – Pós Pornô

[Série Política Esquizotrans]

Autora: Fabiane Borges.

Original: Esquizotrans.

[Pós Pornô] É um movimento sexual/social que combate, convoca e comove ao mesmo tempo. Como tudo que existe tem mundo, não seria diferente com o pósporno, tem mundo. Seus circuitos, seus sinais, seus entraves, e há muitos entraves, desde perseguição na internet até prisão, problemas com justiça. Mas o movimento se movimenta, motivado por vibradores, experiências exóticas, tóxicas, as vezes bem comuns, românticas. É que o movimento tolhe, mas também liberta. O pósporno libera espaço nos corpos e nos modos de desejar. É como uma confraria, uma pequena horda missionária destinada à experimentação e a narrativa, mas com potente carga virótica. O pósporno tem muitos antídotos às políticas dos desejos sexuais instituídas. Suas fórmulas vêm da invenção constante. É um movimento pragmático. Vai do ecosexo ao tecnosexo, facilitando a locomoção do olhar. Pra onde teus olhos te levam? É nessa estrutura que o pósporno mexe, ajuda teus olhos a desprogramar teu programa sexual coorporativo.

Pósporno é um dos nomes que identifica este movimento sexual/social que tenta criar alternativas para o padrão de pornografia vigente. Mas isso não é um consenso, tem muitos outros modos de reconhecê-lo, e pode também ser pensado como um movimento ontológico de manifestação da sexualidade. Não há consenso nem identidade fixa no movimento. As feministas mais radicais acreditam que o pósporno é um movimento essencialmente feminista, já que são as mulheres as que mais militam na área. Segundo elas, os homens estão mais bem servidos com a cultura sexual vigente, mas as mulheres ainda são tidas como corpos que servem à anatomia masculina, nem que seja ao olhar do macho, como no caso dos filmes lésbicos da indústria pornográfica, que mostram o tesão das lésbicas correspondendo ao padrão de desejo masculino. O manifesto contra-sexual de Beatriz Preciadoenfatiza bem essa questão, atribuindo à palavra “sexual” o sinônimo de heterosexualidade patriarcal, e inscrevendo a necessidade de um rompimento signico nesse desejo “sexual” da cultura machista sustentada por homens e mulheres, o que explica o nome: Manifesto Contra-sexual!.

Pósporno então se refere a um movimento de intervenção e tensionamento nos valores da cultura pornográfica. “Se não gostas da pornografia que existe, faz pornografia tu mesmo. Reinventa”. Mais ou menos nesses termos que Annie Sprinkletomou a dianteira dos seus trabalhos como atriz porno e começou dirigir e produzir filmes alternativos dentro do circuito, não sozinha, mas com várias pessoas que pensavam a mesma coisa, que o tesão feminino não estava representado nos filmes pornográficos, nem uma série de outras variedades. Ela é considerada a mãe da pós-pornografia, a criadora do conceito e ainda a musa de toda essa nova geração. Com seu estilo divertido e carinhoso, ganhou o coração das transfeministas, pornoterroristas e pós-pornográficas. Seus filmes misturam sensualidade com consciência política, como o filme “A Female-To-Male Transexual Love Story” (1989), onde apresenta de forma até didática sua relação com uma transexual recém operada, dando dados da sua operação, mostrando seu sofrimento, seus desejos, os laudos médicos e seu prazer. Também é respeitada por ter levado a diante a conversa entre pornografia e arte contemporânea, promovendo nos mais diversos lugares do mundo polêmicas exibições em centros de arte, universidades e galerias, que ampliam a noção de corpo, prazer e sexo. Hoje em dia ela esta com a proposta de ecosexo (tesão pelo planeta, pelo cosmos, ecologia sexual) que tambem é uma grande inspiração para todo movimento pósporno.

A transformação da sexualidade em uma criação artística faz parte das práticas do movimento pósporno, assim como a intensificação da relação corpo/máquina, tecnologia/cotidiano, privacidade e espaço público. Se um dos vetores do movimento é essencialmente político, pode-se dizer que outro vetor é essencialmente experimental. Reivindicar o corpo como experiência e não como propriedade. Nesse contexto entram em cena os mais diferentes tipos de alianças: práticas sadomasoquistas, bodymodification, desprogramação de gênero, tráfico de hormônios, produção audiovisual constante, publicação de livros e revistas, fanzines, shows performáticos, saraus de música e poesia, mostras de cinema. O pósporno é um movimento insurgente, uma utopia como diz Beatriz Preciado. Uma utopia barulhenta, que cresce na medida que cresce o acesso a produção e difusão de midias nesses últimos 30 anos. Mesmo que nos anos 60-70 já tivessem produções feministas e engajadas na liberação dos padrões masculinos de atuação nos filmes pornográficos, é com as redes de internet e com acesso a câmeras de vídeo e computadores para edição, que o movimento cresce, por possibilitar a manifestação da diversidade sexual.

O encantamento do movimento tem a ver com o encanto que temos pela liberdade. Não se trata só de cada um assumir seu próprio desejo, mas de inventar outros desejos, recriá-los, produzir outros valores sobre eles. Deslocar os signos “sexuais” para novas variações, tensioná-los, liberá-los de suas armadilhas. Reiventar o desejo e o prazer. Reinventar o corpo. Talvez seja essa a utopia do pósporno, o corpo livre! O que lhe faz estar próximo a todas as outras lutas por liberdade. Ao mesmo tempo, para poder manifestar-se enquanto algo significativo dentro da sociedade, precisa fazer aliancas com outras culturas de corpo já existentes, incluindo aí arquitetura. Sim, arquitetura, que é uma das poderosas máquinas de construção do imaginário sexual. Vamos para cama! Essa simples conjunção de palavras denota a monstruosa redução do sexo a uma arquitetura compartimentada e privada, que associa o desejo erótico diretamente a noite, ao quarto, por consequência à propriedade. São muitos os entrelaçamentos políticos e sociais que um movimento sexual como o pósporno abarca, o que demonstra a impossibilidade de reduzi-lo somente a pornografia. Ele é uma engrenagem expandida de análise e produção de cultura e natureza, engrenagem que permite os mais variados tipos de acesso, inclusive o acesso a outras demandas eroticas para alem do humano, do antropocentrismo, ou ainda, do antroposexocentrismo, que é a nocao de que prazer, desejo e relacao só é produzida entre humanos, ideia essa que cria imenso gap entre humanos e maquinas por exemplo, ou outras naturezas.

A literatura pósporno tem um estilo autobiográfico e autoficcional. Tem a noção de que o íntimo é político. Tudo que é íntimo interessa porque é exatamente aí que o poder crava seus tentáculos, sendo aí tambem que ele é gerado, onde ele se cria. A escrita Pósporno cruza histórias pessoais com discussões políticas, e essa metodologia se repete como estilo literário, como estética de movimento. Livros como “Postporno era eso” de Maria Llopis, “Devenir Perra” de Itziar Ziga, “Teoria King Kong” de Virginie Despentes, “Testo yonqui” de Beatriz Preciado, esta última considerada uma inspiração teórica do movimento, vão nesse sentido, de trazer a autobiografia e ainda a autoficção como uma militância política. É uma revolução micropolítica, absolutamente estética que tem por objetivo mudar a visão sobre a história do corpo. O estilo literário do movimento pósporno tensiona esse espaço íntimo com uma honestidade angustiante, já que não aponta a grande saída, mas fica remexendo os micropontos, dissecando-os, produzindo pensamento sobre a cena mais cotidiana e tida como dada, como as fantasias sexuais de penetração ou cenas que provocam a masturbação, o sentimento de culpa por se ter tendências dominadoras ou submissas no sexo, adicção a hormônios sexuais, relação afetiva com o dildo, ou ainda prostituição, estupro, rape/revenge (vingança de estupro), etc. O desejo sexual é o ninho da religião. É nessa espacialidade íntima que a neurose, a culpa, o sofrimento são germinados. O pósporno tenta arejar esses espaços para que sejam fortalecidos com outra ética, com menos sofrimento aos gêneros não padronizados. Se para os homens heterossexuais que correspondem ao padrão estético, intelectual e econômico construído pela indústria da uniformidade, já não é fácil ter sua vida sexual feliz e plena, o que dizer sobre os que não correspondem a esse padrão, os fricks em geral? Os esquisitos, os sem perna, os alejados, os velhos? O desejo é extremamente político, assim como o amor. É nesse ponto que o Pósporno se diferencia da pornografia oficial, porque parte de um princípio ético diferente, que não é o consumo dos corpos, nem a busca do gozo a qualquer custo, mas a construção de novas possibilidades de amor e desejo. Se engana quem pensa que por esta razão a produção experimental e audiovisual do pósporno é delicada e harmoniosa, como é possível verificar em seus livros, filmes e performances, a sexualidade pode ser manifesta de forma até mais violenta do que na indústria pornográfica ou mais radical, com a diferença que muda completamente a perspectiva do olhar, o movimento da câmera é feminista. O movimento é feito de um feminismo pungente, agerrido, prático, tem como função combater a percepção sobre a sexualidade, seus papéis, suas narrativas obesas, determinadas por um vício insuficiente. A insuficiência alimenta a máquina pornográfica, de forma prevista a faz mover-se, mas não satisfaz todos os lados.

Quando se vai entrando no mundo da pornografia, vão aparecendo uma enorme variedade de produções. Muitos desses fetiches não são tão fáceis de encontrar na pornografia mais normal, por não terem público suficiente e serem consideradas menos aceitáveis ou menos excitáveis. O pósporno atua dentro dessas práticas, o que denota o vínculo estreito do pósporno com a pornografia. Estou falando de praticas sexuais como fisting (inserir as mãos na vagina ou no reto), feeting (inserir os pés na vagina ou no reto), BDSM (Bondage – ataduras, dominação, sadismo e masoquismo), public desgrace (humilhação sexual em público), wiredpussy (corpos e órgãos sexuais conectados a cabos de eletricidade), fucking machines (sexo entre humano e máquinas), waterbondage (imobilizar com afogamento), sexo entre velhos, sexo com plantas, com cadáveres de animais, etc. É comum que o pósporno atue em um segmento que dentro da pornografia é considerado extremo. O que os diferencia então?

O pósporno é muito mais precário. Evidentemente que a indústria pornográfica também esta sendo transformada pela revolução tecnológica, e também tem uma história inicial de precariedade, mas o pósporno surge da precariedade, não só da pobreza econômica, da dificuldade de acesso aos meios de produção ou dos investimentos financeiros externos, mas também o conteúdo com o qual trabalha é precário, o corpo martirizado, o contrário do macho dominante, as fêmeas gordas, os machos de falo anomalos, as lésbicas, as libidos escusas, os corpos considerados inferiores, os desejos considerados pobres, as fissuras perdidas. Essa é a precariedade que o pósporno quer dar visibilidade, trazer luz, não como desejo exótico, mas desejo mesmo. O pósporno tem que forjar diariamente os espaços para suas experiências e manifestações, espaços públicos, praças, teatros, ocupações, festas, raves, casa das pessoas, galpões, centros abandonados, etc. São nesses espaços que os corpos/desejos ganham visibilidade, e constroem alternativas a vida sexual dominante.

Diana J. Torres faz um elogio a Belladonna em seu livro Pornoterrorismo, dizendo que ao contrário de seus grupos de pósporno, que se encontram a margem das grandes produções de cultura e valores, e que não modificam o desejo da grande massa, ela, Belladonna, consegue atuar dentro do mercado da pornografia, invocando novos desejos desde ali onde a crítica e o vício são mais prementes. Ela diz “(…) penetraciones anales a biohombres, povazos lesbicos autenticos, desgenitalizacion, mulheres empoderadas com dildos descomunales… Por favor, Belladonna ‘es como un mesias, esta abriendo camino a lo que vendra, ye lo hace desde la matriz, no desde los margenes como hacemos nosotrxs”. Já sobre o Posporno em Barcelona, Diana fala que “é um milagre, uma coincidencia maravilhosa, como o círculo dadaísta em paris”.

Seguindo o raciocinio de Diana, a gente percebe que primeiro, ela pensa o movimento pósporno como um movimento de margem (precário) que não consegue transformar o desejo humano em grande escala (ainda); segundo, que é um movimento de vanguarda como o dadaísmo, que se organiza em torno de uma estética em comum e por sistematicas desconstrução do sistema. Controversas a parte, o que chama atenção nessa idéia de precariedade e vanguarda é a radicalidade revolucionária de um circuito erótico e violento, que não se preocupa somente em ser aceito como modelo estético, mas se quer amplificador de praticas muitas vezes imperceptíveis ou pior, ordinariamente sabotadas e reprimidas.

Certamente a ontologia do desejo pósporno está sendo inventada, não esta estacada em algum lugar no antes do humano. Assim como o dadaísmo não é considerado um movimento que importa somente ao circuito artístico, a precariedade vanguardista do pósporno também não se limita a um ativismo sexual espanhol, ele está aí pra enfrentar a cultura inteira, a natureza inteira. Se engana quem cansou do termo vanguarda. Geralmente são os que mais se fodem, para tentar cravar uma idéia/comportamento no mundo, e ainda existem, aos cantaros, sobrevivem de network, conceito, escandalo, certa violencia, exotismo…

Pra terminar, o pósporno foi considerado nesse texto um movimento sexual/social movido por feminismo e precariedade, uma utopia de liberdade, um movimento de vanguarda estético e experimental. Mas isso e só um ponto de vista de quem recém está chegando no assunto, tem coisas muito mais interessantes pra pensar sobre isso, uma delas por exemplo é retirar do centro da questao sexual o humano. Há mais coisas entre as sexualidades do que o antropocentrismo admite, mas isso é outro texto.

Esquizo vs Trans

[Série Política Esquizotrans]

Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento

por: Fabiane Borges, Hilan Bensusan.
Le Monde Diplomatique,10 de abril de 2008.

Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos -, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.

— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?

— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.

— O que havia?

— Tudo.

Judith Butler, em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.

— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).

— Ah?

Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória

Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?

Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.

— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans-formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.

A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.

Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:

O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.

Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.

A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.

A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

[Autora?] Catarina Sá.

Erogênese Esquizotrans

[Série Política Esquizotrans]

Discurso de Hilan Bensusan.

Original: Esquizotrans.

Errático. Erótico. Errático. Erótico. Errático. Erótico. Errância. Errado. Errata. Eros. Erros. Eris. Errante. Errôneo. Errorista. Essas palavras tem uma conexão com o desejo. E com a diversidade ambulante dele. A diversidade perambulante. O desejo que insiste, subsiste, resiste, mas também se camufla, se despedaça, se contagia, se contamina. Ninguém aprende a ser gay – ou muche, ou hijra, ou pottai, ou transgênero, ou nguiu´ – mas ninguém nasce sabendo. Talvez haja quem consiga dar um saculejo de ombros para todas as ofertas de identidade nos cardápios locais ou globais – mas o saculejo encontra a toda hora o baculejo: a interpelação. Althusser entendia que era a interpelação que dava nome aos bois – identidade aos corpos. O sujeito é interpelado e se volta para quem lhe interpela – aquele expediente da polícia, e das ruas que nos chamam sapatão ou viado. É ali que se passa a trama da interpelação – e da errância. Como proceder? Diz Diana Torres, a pornoterrorista:

– O pior que podes fazer a teu inimigo é não necessitar-lhe para nada.

– Não me chamo lesbiana, nem sequer me considero mulher, quem quiser me interpelar me interpele, eu não viro a cara.

O terrorismo é a arte do imprevisto. O errorismo é a arte do não-catalogado. Do que está fora do programa. Fora da casinha. O desejo ama esconder-se. A porno-errorista pensou que era sado-masoquista, que era goiabinha, que era travesti, quis ser baranga, boiola, Barbie e babadeira. Tava errada: era errante. O pior que podes fazer aos que te classificam é não necessitá-las para nada. O erro é pornô. Aquelas que tentam, tentam e são tentadas. Uma vida de tentação. Tentativa atrás de tentação. A porno-errorista também é terrorista, toca o terror do erro: e se eu não for hetero, quotidiano, fútil e tributável? E se eu não for o contrário de tudo isso, o contrário de qualquer coisa? A erótica do terror. O slogan do blog de Diana Torres: por el derecho a ponerme cachonda com que me dé la gana. Há baculejo na etiqueta, há baculejo na classificação – vira a cara, completa a interpelação! – mas não há baculejo no desejo. Ele erra por aí.

Os desejos podem ser regulares – ao meio-dia sempre tenho a fissura de lamber folhas amarelas – porém não seguem ordens nem da natureza. E não têm regras. O nosso reconhecimento dele – quando nós os interpelamos e eles viram a cara – é que satisfaz regras. É que a polícia delega a cada sujeito os porretes, algemas e sirenes para sujeitar seus desejos. Ao invés de sujeito aos desejos os sujeitos ficam sujeitos dos desejos. Mas o desejo escapa. Errância. Erogênese. Leminski: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Erogênese. O desejo escapa.

Ele erra. O desejo persegue o erro. O movimento errorista internacional abençoa os que preferem errar a se afeiçoar ao seu quadrado. O movimento errorista internacional conclama a que se persiga o erro. Eros atende. É que Eros é dilapidação. Diz recentemente Heráclito em seus fragmentos recém-cavados:

207. Eros é eris, eris é quebradeira. Eris não é só combate, é
disponibilidade – a compulsão a tornar partes de si disponíveis.
Disponíveis: a força centrífuga que impele a fragmentação das partes
que estão coladas; uma força que pode ter a mesma intensidade e
aceleração que a força centrípeta de coesão. A força de fragmentação
tem a direção oposta e raramente tem a mesma velocidade. Muitas vezes
não vemos a ação do ímpeto de fragmentar porque procuramos
ingredientes no mundo. Os ingredientes são peças que não se fragmentam
e que apenas compõem. O mundo não é feito de ingredientes – é jogo de
armar que nunca está armado e nunca está em pedaços. [Tudo se]
desintegra, desinfla, solta ares.

208. Eris é a força de desindividualização: colocar-se a disposição. A
danação dos ingredientes. Os modernos, tão encantados com a idéia de
autoridade integral, preferem olhar para as partes conscientes que são
as que submetem outras e procura retê-las submissas. Dizem: meu corpo
está a minha disposição. Os corpos sempre estão à disposição, mas as
disposições não tem dono.

Eros e Eris estão do mesmo lado porque ambas são forças centrífugas. Estão a serviço da deposição por meio de disposições amotinadas. Disposições que não são guiadas pelo controle remoto dos sistemas nervosos centrais – eles apenas as interpelam. Contra as disposições centrífugas, os sujeitos centrípetas – aqueles que trazem toda a sua vida erótica (e seus delírios, suas ganâncias, suas trincheiras) para um centro de gravidade. E os sujeitos centrípetas, inspetores dos desejos dispersivos, são por sua vez produtos do dispositivo de terror anal que Beatriz Preciado diagnostica no seu epílogo à tradução espanhola d´O Desejo Homossexual de Hocquenghem: “Cierra el ano y serás proprietário, tendrás mujer, hijos, objetos, tendrás pátria. A partir de ahora serás amo de tu identidad” E ela conclui que assim nasceram os homens heterossexuais no fim do século XIX: são corpos castrados de cu. Ainda que se apresentem como chefes e vencedores são, na realidade, corpos feridos, maltratados. A engenharia dos quadrados para os desejos é uma engenharia de corpos. Os corpos interpelados apresentam órgãos – que servem para isso e não para aquilo, para excrementar e não para incrementar. Mas o desejo escapa. Diana Torres conta que conhece homens que renunciaram ao maravilhoso prazer de cagar em troca da habitual prática do fisting que é bem melhor que sentar-se à privada com um jornal. Carregam uma bolsa acoplada à perna que está conectada a uma sonda que atravessa o intestino grosso e por onde sai a merda que vai se depositando em na bolsa. Assim eles desincumbem o cu da tarefa de despachar a merda e deixam-no livre de ser um órgão do excremento. Incrementam o corpo, corrigem-no. Conquistam um território para o erótico no centro nervoso do sujeito, erodem o órgão e o deixam à disposição das disposições de Eros. Os desejos às vezes se parecem com urgências, com convulsões que mudam as superfícies. Mudam as etiquetas das superfícies. E chegam a mudar a sirene da polícia que interpela. Como os movimentos tectônicos, os desejos adquirem suas formas nos estados das coisas. É o cenário de etiquetas de identidade que oferece as estrias que o desejo alisa. É no alfabeto das diversidades sexuais reconhecidas (para a interpelação) – duas, ou seis (LGBT), ou onze (LGBTTTIQA) ou outras dez (LGBTKQJH – LGBTKotisQJoginsHijras) – que tem lugar as muitas formas de erogênese.

Etiquetas de identidade fazem parte das nossas paisagens: pessoas descabidas encontram conforto e proteção em se alojar em alguma delas, como um escudo contra aquelas outras que se apresentam como compulsórias. Julia Serano gosta de citar Audre Lorde: se eu não me definir por mim mesma, diz Lorde, eu vou ser empacotada dentro das fantasias que outras pessoas aprontam para mim e devorada viva. Discursos sobre identidade – versões, subversões, aversões, diversões, invenções – são intervenções sobre a política da verdade (e da mentira). De acordo com a política do baculejo, há um critério em algum manual (talvez a mais recente versão do DSM) para distinguir, por exemplo, uma travesti de uma transexual. Interpelação. Assim, uma transexual MTF como Serano, uma trans-mulher – que já atravessou o Rubicão da transição – pode ser considerada como tal apenas se for reconhecida por um critério de reconhecimento, o suposto saber de alguma scientia sexualis.

Uma intervenção sobre as verdades é fazer com que certos enunciados sejam tomados como verdadeiros e outros como falsos – afetar o regime de verdade. A política das verdades gira em torno da maneira como descrevemos e interpretamos o mundo e as pessoas (e como as etiquetamos, se precisamos fazê-lo). Quando um intérprete se depara com as cercanias dos erros – por exemplo, uma palavra que está empregada de uma maneira diferente da que considera habitual ou um corpo que diz ter um gênero diferente daquele que parece – há muitos caminhos. Podemos perseguir o erro. Podemos habitar nele, e operar o avesso da correção. E podemos perseguir a verdade e tentar detectar em que partícula está o erro. Ele pode ser atribuído ao intérprete ou ao interpretado. Julia Serano, comentando sobre o discurso acerca de quando transexuais passam, diz que quando uma pessoa diz a uma cis-mulher em uma circunstância social: “boa noite, meu senhor”, não dizemos que a cis-mulher não passou ou que sua femininidade está em questão, mas que a pessoa fez um cumprimento equivocado – errado, e muitas vezes inadequado ou descuidado ou sarcástico ou cínico ou sardônico ou queria dizer outra coisa. Muitos caminhos. Onde está o erro é o território da política da verdade: afetar o regime de verdade que articula as convicções. Uma intervenção política pode atuar estabelecendo a verdade de que quando os gêneros são confundidos, o erro está do lado de quem interpreta. Julia Serano defende que a identidade das trans-mulheres pare de ser regida pelas normas cis-sexuais: “o cerne da questão é que palavras como passar são verbos ativos.

Assim, quando dizemos que uma pessoa transexual está passando, isso dá a falsa impressão de que elas são participantes ativas desse cenário. [… ] Eu diria que o reverso é verdadeiro, o público é o participante ativo primário, se é ele público que tenta classificar as pessoas em machos e fêmeas. […E] este papel ativo […] é tornado invisível pelo conceito de passar”. (p. 177, tradução minha). Não se trata de um embuste do baculejo – de alguém que disfarça. Se trata de errâncias com o feminino. De autoginefilia – para usar o controverso termo de Ray Blanchard e Michael Bailey. A autoginefilia que está a um triz da heterginefilia celebrada e padronizada já que a filia, e a ginefilia, são errantes. Mas ninguém erra sozinho.

Julia Serano é uma entusiasta das várias formas de efeminismo (as melhores são as mais feministas). As trans-mulheres adotam o feminino, erram nele e o feminino não é uma condenação para elas. O feminino tem o poder de ser o anátema da ordem (cis-hetero-)patriarcal; ela diz: as coisas de garotas são o equivalente de gênero da criptonita. Serano quer colocar o feminino de volta no feminismo, e as trans-mulheres – femininas por adoção, por compulsão e não por conformidade – são centrais nessa empreitada. Mas trata-se de uma empreitada que tem que ser articulada de um ponto de vista que não seja cis-sexual: ela quer trans-mulheres na conspiração feminista. A misoginia – na forma de heteroginefobia ou de heteroginefilia – é frequentemente a resposta para o caráter rebelde da femininidade na ordem estabelecida: ela aparece na forma de trans-fobia, na forma de uma repulsa aos cross-dressers e aos pequenos signos femininos no comportamento dos homens. E a autoginefilia efeminista tem muitas caras. Uma babel feminina – Babella: bichas, hijras, muches, travestis, jogins, cross-dressers e cismulheres. O efeminismo pode insinuar uma confederação, uma Internationale das muitas errâncias femininas. O errático, erótico, também aparece aqui: ninguém sabe. Toda scientia sexualis é cheia de terrae incognitae já que quanto mais se sabe, mais se erra. Frua, flutua, não permita que a experiência se conclua. É uma espiral de prazeres que surge dos saberes – e uma espiral de sublevações que surge dos poderes. Um alfabeto, dois alfabetos, muitas sopas de letrinhas nessa babella – LGBTTTMHIQJ… E no meio das letras tem um vão que inventa outros desejos e outros desejos. Erráticos, erótico.

O efeminismo tem um flerte com a diferença sexual. Babado forte. As diferenças são erogênicas. Eis um velho estandarte esquizotrans (já de antes do Breviário): que se deixem ir pelo ralo as identidades, mas que se agarrem as diferenças. A diferença sexual (e a fricção que sai das letrinhas nos alfabetos quando elas roçam) produz espirais de desejos novos. E mais, sublevação pode vir de toda parte – binarismo não é conformismo e nem antibinarismo é já transgressão. A diferença sexual é o começo do caminho – dar-lhe um saculejo de ombros não significa garantir que o caminho vai seguir pelas melhores veredas. Parodiando Irigaray, o desejo patriarcal que bate a estaca do sempre o mesmo, onde o desejo se repete a si mesmo em uníssono: hommesexuel est homosexuel. O desejo dissidente é altersexual, ele não se replica, ele passa por mutação, ele pare um desejo errado, errático, errante. Mas a diferença sexual é feita de borrões, de nódoas, de turbulências – não é a diferença dos corpos fixos (e supostamente abençoados pelo destino da anatomia). Pesa contra qualquer fala em diferença sexual o fantasma de Janice Raymond e sua transfobia desvairada supostamente feminista. Ela dizia: quem adentra o corpo das organizações de (cis) mulheres é um violador… Porém há mais coisas entre o heteropatriarcado e a diferença sexual do que pensa o chauvinismo. Há erogênese. É do roçar dos diferentes que saem os desejos. Esquizotrans é deste roçado. Não se trata de masculinos e femininos fixos, se trata de compor, de trata de um mosaico. É a arte do mosaico – errática, errante – que é nutrida pela diferença sexual. Compor e errar, compor e deixar ao léu. Usar megalofones estriônicos para cada peculiaridade erótica. Não fantasiar os corpos de uniformes. Vestir a roupa errada – o hábito errado faz o monge errado. E faz ele errar, estar errante. A roupa errada do monge é a farda de Eros.

Por uma pornografia livre

[Série Política Esquizotrans]

Contra a mercantilização dos desejos e o patriarcado falocêntrico, queremos fazer uma pornografia com o odor de Walt Whitman. Oceano-sexual, via-láctea sexual, brisa-sexual, esperando-por-você-sexual. Uma pornografia livre como uma grafia do corpo livre, ou uma geografia da alma livre.

por: Fabiane Borges, Hilan Bensusan.
Le Monde Diplomatique, 13 de maio de 2008.

O lixo. Dejetos, excessos, defeitos, exceções com os quais não sabemos o que fazer. Enchemos as ruas, as valas, os depósitos de lixo. O lixo é o que sobra – o que não tem cabimento nas nossas formas de vida. Sustentabilidade pode ser medida assim: quanto fica de fora! Uma maneira de distribuir que embala com plástico, uma maneira de produzir que dá a luz à mais do que consegue escoar. Uma maneira de consumir que se baseia em exibir sempre o novo inelutavelmente deixa sobras de fora. O lixo é o que não conseguimos assimilar nas nossas maneiras de produzir, distribuir e consumir. O lixo é o que sobra de um processo – como uma máquina com vazamento, como uma economia que funciona produzindo excessos, excedentes, externalidades.

Quando falamos em reciclar, podemos estar falando somente em incluir o que fica sobrando na velha engrenagem. Podemos apenas tentar que sobre menos. Mas ver produção no lixo, no que está fora da engrenagem, é encontrar subtexto no meio das manivelas de um sistema de exclusão: reciclar é criar embriões de outras maneiras de distribuir, produzir, consumir. O que é reciclado fere a engrenagem gotejante – mesmo que a goteira vire depois praça de alimentação dos shopping malls, por assimilação, justaposição, fagocitagem, apropriação do mercado de consumo. Sem esquecer que o mercado é suficientemente autofágico e cria seus próprios modos de auto-transformação. Se alimenta do desejo e da produção de desejo, há muito tempo. Nesse caso somos a inteligentzia operante abrindo campo de produção de mais capital e salvando a natureza. Ambos ao mesmo tempo. O tal do paradoxo.

As manivelas sexuais do patriarcado falocêntrico e heteronormativo também têm seus dejetos: os corpos descartados, os desejos abjetos. O sistema de distribuição, produção e consumo dos desejos também funciona deixando de lado os corpos que não prestam, os órgãos que não funcionam para a norma heterossexual, os defeitos, o que está fora do padrão. No sistema de erotização em que vivemos, o que não cabe fica largado às formigas da abjeção – orgânica ou inorgânica. Aprendemos como se faz sexo com a pornografia, aprendemos como desejar com as novelas e romances e aprendemos quem desejar como aprendemos a utilizar a lata de lixo: é preciso separar a comida do lixo, a mamãe da puta, o papai da traveca, a namorada da sapata, a perna da modelo do pescoço da vovó. O que fica debaixo do tapete é gordo nesse nosso estado erótico, o desperdício de corpos para o erotismo – os braços e ancas e ombros e tornozelos que ninguém quer ver. É o esquisito, o que fica de fora do alcance dos desejos. A esquizerda despudorada que somos quer fazer a reciclagem: tirar energia erótica dos corpos que ficam de fora da heterocompulsão para ventilar o que há putrefato e estagnado na sala de estar das sexualidades pornô-industrializadas. E para isso, que tiremos a L’origine du monde, de Courbet, das paredes reclusas de todos os lacanianos e penduremos Sleeping Beauty, de Freud – talvez o quadro mais caro de um pintor vivo hoje. (Para que não digam que esta coluna não apresenta números informamos: Lacan comprou o Courbet em 1955 por 1.5 milhões de francos; o de Freud está estimado em 17 milhões de libras.)

Modelo da indústria do sexo: empoderar o espectador até a ejaculação, mas reduzi-lo a um receptor universal de estímulos ejaculantes, como um ânus gigante privado de toda decisão sexual.

É preciso uma outra pornografia. E outra, e mais outra e mais outra. Uma pornografia que impregne as outras. Contaminar os pares heterossexuais de desejos abjetos, criar uma democracia de desejos. Permitir que os desejos floresçam, ao invés de cerceá-los. A pornografia tradicional cria gargalos de desejos – como os mercados criam gargalos de distribuição. Os desejos ficam sufocados por outros, os apropriados. E os apropriados nem sempre são satisfeitos. É preciso pensarmos em desejos não proprietários, abertos e livres. Se não fizermos isso, somos coniventes com as sobras da produção massiva de desejo erótico: as gordas idosas senhoras de um lado e os aleijados do outro, os jovens franzinos de um lado e as jovenzinhas de um só olho de outro. Todos esperando o Reynaldo Gianechini. Ou seja, produção de escassez.

Em seu último livro, “Testo Yonqui” (Texto Junkie – junkie de testosterona), Beatriz Preciado diz que a hegemonia dos filmes pornográficos, com seu circuito global de excitação-capital-frustração-excitação-capital reduz a subjetividade dos atores ao “puro sexo”, trazendo à tona as performances de órgãos humanos extra-cinematográficos (pênis, ânus, vagina), gerando lucro a partir de uma contradição que é modelo para toda a indústria cultural de entretenimento. Significa empoderar o espectador bio-homem até sua ejaculação, mas ao mesmo tempo reduzi-lo a um receptor universal de estímulos ejaculantes, como um ânus gigante privado de toda decisão sexual. Ou seja, em última instância a função da indústria pornográfica subjetivante capitalística seria tragar sua própria porra, e nesse sentido os assíduos consumidores seriam parte desse circuito reduntante.

Para libertar a sexualidade do controle bio-político, ela diz que não basta reconhecer legalmente a indústria do sexo e da pornografia, nem tampouco retirar essa questão da esfera pública por regulação do estado ou de algum outro tipo de governança, muito menos ainda lutar para que a sexualidade volte a uma esfera privada (impossível), aqui fracassariam todas as empresas liberais, emancipacionistas e abolicionistas. A alternativa seria principalmente relacionada a invenção de novas formas públicas, compartilhadas, coletivas, e copyleft de sexualidades que superem o marco da indústria pornográfica espetacular e consumista.

Fazemos parte de um movimento globlal de crítica e abertura da história da representação da sexualidade. Talvez um momento único na história, que permite que as diferentes sexualidades se expressem.

Gabriela Leite, da Daspu, fala sempre da associação da dessubjetivação da sexualidade, pela industria pornográfica, com a violência e preconceito contra as prostitutas. Uma espécie de industria da violência que enxerga na prostituta somente órgãos-para-a-ejaculação. Por isso, chama as prostitutas não de profissionais do sexo, mas de profissionais das fantasias sexuais portadoras de direitos sexuais — inclusive de produzir lucro e sustentabilidade.

Gabriela Leite e Beatriz Preciado suspeitam que os teóricos do pós-fordismo são muito precisos e têm uma abordagem que condiz com as atuais escalas tendenciais do mundo do trabalho. Mas conseguem pensar somente até a cintura, retirando do foco da discussão o baixo ventre, mesmo que seja notório que vivamos em um estado entre a industria da pornografia e a cooperação universal masturbatória (internet) e não somente de produção e consumo de cérebros.

Não somos contra a pornografia. Somos contra os sistemas de opressão e controle.

Fazemos parte de um movimento globlal de crítica e abertura da história da representação da sexualidade. Talvez um momento único na história, que permite que as diferentes sexualidades se expressem rompendo com o código do platonismo espermatozóidico que encontra nessas diferentes práticas sexuais anomalias, perversões e passividade. O questionamento desses códigos narrativos, políticos e estéticos da pornografia industrial é de extrema importância para o confronto com a sociedade de bio-controle.

Queríamos fazer uma pornografia com o odor de Walt Whitman. Antler escreveu um poema que denuncia Whitman: ele era oceano-sexual, via láctea-sexual, brisa-sexual, esperando-por-você-sexual. Nada de pansexualismo: só uma penca de partes do mundo que excitam. Uma pornografia livre como uma grafia do corpo livre, como uma geografia da alma livre.

Separar de forma estanque erotismo e pornografia é considerar o desejo do corpo algo sujo e doentio — enquanto residiria no intelecto, ou no espírito, um desejo mais puro.

Inundar a pornografia de erotismo, sem colocá-las como antagônicas. Eliminar o erotismo da pornografia é negar ao humano suas potências de afeto e de desejo, é exercer a vontade de poder e de fascismo sobre o corpo do outro. É cair na representação da psicopatologia psiquiátrica, que vai nomear como perversão toda a forma de erotismo estranha ao heterossexualismo compulsório (leia-se aqui a produção de uma subjetividade voltada para um ideal de família e de sexualidade, cujos castigos, caso frustrado o ideal, são a culpa, a vergonha e a solidão), como por exemplo as milhares de mulheres que, por darem vazão a um desejo “desajustado”, morreram e ainda morrem na imcompreensão e miséria. Separar tão peremptoriamente pornografia de erotismo é sucumbir aos padrões (da lei, da guerra, do consumo e do lixo), suas necessidades de manutenção, território e poder. É negar o pacto de um encontro sado-maso por exemplo, que por mais que exerça esse poder entre escravo e senhor, assume o prazer como um jogo em que ambas partes jogam. É confundir uma prostituta com alguém-para-o-consumo, desprovida de qualquer desejo. É considerar que desejo de corpo é uma coisa suja e doentia, enquanto em algum outro lado como no intelecto ou no espírito reside um desejo mais puro.

Contaminar os desejos padrões com novos itinerários. É de desejo que falamos, e de direitos sexuais. O erotismo é gesto de corpo, é a repetição e desvencilhamento do gesto do corpo reproduzido pelo filme pornográfico. É preciso outras pornografias, sentir desejo pela ruga, pela fuga, pelo que não se inscreve como corpo-de-consumo. Pelo que escapa do formato do objeto, do abjeto, do dejeto. Permitir que as singularidades sexuais levantem, sacudam a poeira. Incentivar esses múltiplos desejos não como anomalias ou desejos por aberrações, mas por um direito fundamental ao erotismo.

Os corpos expostos de Abu Ghraib nas pinturas de Botero são mais poderosos que todas as denúncias da imprensa. É que os corpos mobilizam. E mobilizar é erotizar. Política é erótica – ou é apenas uma lista de obrigações.

Precisamos de mais imagens, de mais imagens, de mais noise: no último QueerFest, 15 e 16 de março, vimos Filthy do queerfiction de Porto Alegre – pornografia pós-distorção, como um neotonalismo que inclui uns compassos de serialismo total: duas meninas e um ursinho de pelúcia – o ursinho, despedaçado. Que apareçam as conas destruidoras de ursos, as picas dançando Pousseur – nem sempre com gemidos, pois é necessário não esquecer os ávidos, dolentes e singelos segredinhos.

Puta Ontológica

[Série Política Esquizotrans]

Havia de ter algum lugar onde se justificasse a existência desse ser para o sexo. Encontro Madalena em todo seu apedrejamento e seu perdão, encontro Pomba Gira em suas sete versões, suas sete saias e seus sete maridos, encontro Afrodite com sua belicosidade e sua sedução.

por: Hilan Bensusan , Fabiane Borges
Le Monde Diplomatique, 9 de janeiro de 2009.

Ela disse: “Eu sou puta, tu é só uma ameaça, um arremedo”.

“Tu quer reivindicar o nome puta só pra ti porque não admites outras nuances que fogem da tua experiência”, eu disse.

As vezes eu acho que ela sabe que sou melhor puta que ela, por isso me faz sofrer mais do que as outras, porque quer que eu tenha noção de companheirismo, sentimento de classe. Me acha individualista e extravagante. Uma puta inconsciente de toda humilhação histórica das mulheres e mais ainda das prostitutas.

“Eu vejo tudo isso, tu me subestima”, eu disse, “só que não sou autopiedosa, não tenho pena de ninguém, e associação pra mim funciona por sincronia e não pelo velho esquema de organização de classe. Sou puta cult. Eu quase parei de me chamar de puta pela tua histeria, tu quase me convenceu que não tenho talento, mas vou te dizer a verdade, tenho muito talento e nenhum princípio”.

Às vezes, bêbada, contavas-me histórias de solidão que me fizeram sofrer muito por ti. Abortos em banheiros de botecos vagabundos, cheios de homens gritando teu nome na porta de fora, rindo de ti, muitos sabendo que podia ser um deles o culpado. Isso era uma piada, acusavam-se entre si, é tu, é tu, enquanto tua barriga doía e tu não morria. Outra vez fostes encontrada quase morta na rua, bexiga arrebentada, hérnia, coluna, gastrite, úlcera, todos teus órgãos rebelaram-se contra tua forma de vida, só outra puta mesmo para te salvar, te levar pra casa, te alimentar, cuidar de ti como talvez tu nunca tenha cuidado de ninguém. Tu têm muitas histórias doídas, por isso te sentes heroína. Por isso pensas que és superior, por isso te negas aprender o que quer que seja. Tu é convencida, o sofrimento te fez vaidosa, tu te acha especial, uma sobrevivente como poucas.

Tu me humilhou naquele dia na frente de todas as outras putas, me dizendo que meu desejo de ser puta não passava de covardia diante do mundo. Que eu tinha outras oportunidades, mas não suportava dificuldades. Que todo esse movimento de quadris que eu tinha desenvolvido e acreditado que era talento não passava de uma fuga do mundo que estava preparado para mim: o mundo das negociações, dos discursos, das articulações políticas e financeiras, do colocar a cara a tapa para ver se eu era competente em outras áreas. Talvez seja uma mistura disso tudo e tu estejas certa. Foi por ser sexualmente livre, mas totalmente sem confiança que desenvolvi um ritmo sexual que enlouqueceu tantos homens, com os quais nunca tive filhos, quase nunca precisei cobrar nada para receber tudo o que eu queria e nunca fiquei mais tempo do que o necessário. Talvez seja porque sou cética, porque não acredito no amor ou melhor, porque acredito tanto no amor que sou capaz de amar tantos quantos eu tiver paciência.

Tu nunca entendeu a ontologia das putas. O desejo ontológico que foge da apreensão de classe, de exploração e mais valia.

Algo de talento e carisma de puta existe em mim, e fico tentando entender que imaginário é esse que se colou na minha nuca para eu achar que não quero saída. Seria uma vontade de ser subalterna, tratada como descartável? Para mim não existe outro caminho mais sedutor que eu poderia recorrer. A vontade de ser puta, de ser sustentada pelo prazer que eu possa ter e dar, dar, dar, de ser livre e nunca ter nenhum cafetão sempre foi alvo da tua inveja. Tu que passastes por tantos caminhos parecidos com os meus, no final te trouxeram desonra. Violência. Tu nunca entendeu a ontologia das putas. O desejo ontológico que foge da apreensão de classe, de exploração e mais valia. Tu nunca foi a fundo nos teus desejos escusos. Tua vontade de ser puta se reduzia a um paradoxo até simples que te excitava, que ficava entre tua formação cristã e tua rebelião contra essa formação. Carregava o signo do que para ti tinha de mais pecaminoso: a prostituição. Tu te utilizavas da prostituição para lutar contra tua culpa cristã que nunca te abandonou. Tu criou um círculo vicioso em torno de ti mesma e cada vez te afundou mais. Já eu, nunca precisei trabalhar com contradição nenhuma, porque não fui criada no pecado, não tive formação de culpa e sempre galopei solta pelos campos onde me exibia desde pequena aos peões, aos pescadores e aos touros bravos.

Tu teve um pai austero, eu não tive pai. Tu teve uma mãe religiosa, eu tive uma mãe louca. Tu teve irmãos mais velhos eu tive só eu e o mundo. Tu tenta me alimentar com tua sabedoria, mas na verdade queres me submeter a doses de culpa e vergonha às avessas para me sentir mais próxima da minha turma. Mas tua turma é a culpa e eu não quero culpa eu quero tu. Tu é a única que podes me entender. Me reconhecestes no bar desde o primeiro dia que me vistes, mesmo que eu estivesse disfarçada de óculos de grau, livro nas mãos, cigarrilha vermelha e pagando minha própria bebida. Tu mandou o garçom me entregar um uísque vagabundo com um bilhetinho dizendo: senta aqui. Como tu adivinhou que eu aceitaria? Tu uma velha feia com um batom vermelho que fugia dos teus lábios e escorriam pelas beiradinhas enrugadas da tua boca. Tu quase me deu pena, mas quando vi teus dedos amarelados de cigarro, os teus dentes escurecidos, te amei. Invejei cada um dos teus traços. Te fiz minha mestra. Te respeitei profundamente para que me ensinasses tudo o que eu não sabia. Te tornastes minha sorte, meu salto, minha mais profunda alegria. Me contavas dos gestos de sedução, cada um deles. Eras pedagógica.

Desenvolvestes um roteiro de olhares, de toques, de beijos, de maneiras de utilizar a língua. Pesquisastes a fundo os pontos de prazer do corpo. Os contos a serem contados no ouvido, os ruídos importantes para o coito. Eras a mestra mais deliciosa. Te enchi de presentes, de perfumes, de roupas de bom gosto, cortei teu cabelo eu mesma e te deixei fashion. Me contavas dos poderes de cada dedo, das cores das unhas e das cancões de ninar.

Nesse tempo, estávamos como apaixonadas, andávamos de mãos dadas no entardecer, atirávamos pedrinhas no mar, tu que colecionava pedras eu só as catava pra ti. A segunda fase foi mais densa. Contavas da violência. Dos tempos difíceis nas ruas das cidades grandes da América Latina. Das drogas pesadas que usavas, das bebedeiras sem fim, dos homens quaisquer que catavas nas ruas desesperada, daquele cafetão que te fodeu a vida, que te roubou, que te deu essa cicatriz na cara que eu gosto tanto, mas que te lembram épocas sofridas. Me contavas o quanto fostes valente ao baleá-lo no joelho, de o ter aleijado e de nunca mais ter voltado à Colômbia. Da paranóia que entrastes por achar que estavas sendo perseguida, que ele mandaria medir o teu caixão, dos dias insones depois de tantas caronas em caminhões, de carroças, do estupro feito por um índio que era da tua mesma longínqua etnia e que te fez entender que minoria não era só afeto e união como costumavas pensar. Das fugas por entre as ilhanas da Amazônia, da beleza de um boto com quem fizestes amor em Novo Airão. Do boto que te fez carinho, que te levou para nadar pelo Rio Negro, que te ensinou a acreditar de novo em mito, e em toda sorte de lenda, que te ativou a fantasia que te devolveu o brilho da pupila. O boto que dizes ser o peixe que ama as putas, ele próprio puta.

Naveguei nas tuas lágrimas vertidas pelo único filho que tivestes, que segundo tu mesma é filho do boto cinza, que deixastes escapar das mãos na inexplicável tempestade que vivestes em um rio cor de láudano. Dos cerca de 50 homens por dia que atendestes no garimpo, que te encheram de ouro, mas que por submergir a sua cultura, gastastes tudo quando chegastes à cidade. Depois teus contos do Porto de Manaus, dos estrangeiros que te pagaram bem, dos que te recuperaram a conta bancária, que te levaram por viagens pelo Atlântico, Mediterrâneo e Pacífico em barcos brancos e limpos. Alguns dos quais ainda te recordas às gargalhadas. Tua mala era cheia de pedras nesse tempo, já que não tiravas fotos. Tocas até hoje as pedras para lembrares que tens história.

Tu me dizias: puta não têm essência. Isso me frustrava. De algum modo grudei em ti para que me mostrasses a natureza da prostituição.

Hoje és uma cafetina consagrada, as putas do mundo te respeitam e querem ser que nem tu, eu quero ser que nem tu e vou ser, porque colei tuas manias no colar de pedras que escondi num lugar de guardar segredos, pedras que roubei de ti. Com esse colar imagino governar a casa especial que abristes que abriga tantas putas de tantas diversidades de cores e línguas. Te irritas comigo porque nunca quis ser uma das tuas putas. Não aceitei teu convite porque sou empresária do meu próprio corpo e não suporto chefes. Tu só podes ser minha mestre por minha escolha, mas a qualquer sinal de submissão às tuas ordens, te desobedeceria por pura impaciência de ser mandada. O melhor de ti está no copo, quando me falas taquílala, da coleção de toques que ensinas para tuas putas, das mulheres incríveis que tivestes como freguesas com as quais aprendestes a fazer amor lésbico com quem quer que seja. Tu me dizias: puta não têm essência. Isso me frustrava. De algum modo grudei em ti para que me mostrasses a natureza da prostituição. Havia de ter algum lugar onde se justificasse a existência desse ser para o sexo. Encontro Madalena em todo seu apedrejamento e seu perdão, encontro Pomba Gira em suas sete versões, suas sete saias e seus sete maridos, encontro Afrodite com sua belicosidade e sua sedução, mas daí não conseguia pensar a relação disso tudo com o capital. A barganha, a moeda de trocas.

Tu me confundia, me confundes. Tu costumavas me chamar de careta quando te perguntava como funcionava teu argumento pró-prostituição diante do movimento anti-capitalista, dizias: prostituta existe em qualquer sistema, comunista, capitalista e qualquer outro. Fizeste eu entender que as putas estão entre as coisas, os sistemas, os poderes. As putas não tem nacionalidade e tão pouco gostam de guerra, elas estão entre as coisas, entre os bares, entre os partidos políticos, entre as guerras. Não porque as putas não tem senso de política, mas porque não vêem sentido de demarcar de forma truculenta nem os corpos nem os territórios. Por isso a violência, o estupro e a violação a uma puta é sempre demonstração gratuita de um ódio a liberdade, porque se tens acesso ao corpo não precisas tomá-lo à força por pura idiossincrasia territorialista, é um dos outros terríveis paradoxos – território, posse, invasão, destruição, morte na cruza com o corpo.

A violação a uma puta é sempre menos inteligível apesar de se equivaler no horror a qualquer ser violado. A puta opera num entre a vontade de propriedade e poder e a vontade de nomadismo e liberdade, ela sustenta o paradoxo na sua prática diária sem defender nenhuma ideologia. É o ente do entre, doente de civilização, mas de modo nenhum sua doença. A entrada na prostituição é uma aclimatização e não uma escolha. Uma escola e não má educação.

Diante dessas descobertas sobre ti, sobre mim e todas as outras, me encheste a cara com tua baforada e me repetiste: careta! Como tu é careta!!! De novo em busca da essência e todas essas qualificações que grudam em mim. Tira essas idéias de cima de mim, parece discurso abolicionista ao contrário. Tirar a idéia de decadência, de doença da civilização, da sensação de morte que carrega a puta é tirar seu echarpe, seu óculos escuro, seu charme. Não há nada de problemático no flerte da puta com a imundície e devassidão, tu dizias. O que está errado é esse amor ao plástico e às plásticas, na cara ou no museu. É o horror à vida sem ideal, o medo de perder o grande sentido da riqueza, da idéia e da limpeza. Uma coisa tá atrelada à outra. Ninguém nasceu pra ser puta, nem bancária, nem empresária. Todas essas escolhas são alinhavos, aconchavos, suturas, repetições dentro de um contexto maior que não se restringe econômico mas está cheio dele. Não se restringe às territorializações, mas está cheia delas, não se reduz a sobrevivência da mulher ou do michê, mas tá cheio disso também. Não vais encontrar essências, vais encontrar linhas de contato, algumas que fazem gozar. Sim, eu entendia, mas faltava dados.

Chegamos a conclusão que ser puta é um clima, um jogo de palavras, uma necessidade, um estado passível de ser acionado, atualizado, upload, devir, uma radicalidade.

A ontologia que eu falava era sem cabimento, você não captou minha busca pela ontologia da puta, eu disse, e me coloca essas ataduras todas para me atazanar a vida, sua puta! Porque tu é puta? Como tu é puta? Para que? Eu perguntei a ela, já frustrada com minha própria insistência e com a sensação de ineficiência por não conseguir garantir um lugar para mim na mitologia, na ancestralidade. Gueixas, me ajudem! Quem as fez gueixas? Foram os homens sedentos de mulheres fáceis e sem moral? Foram vocês que se mostraram sedentas? Há uma dose de enlouquecimento nessas aclimatizações, eu dizia a essa puta velha na minha frente que achava minhas histórias ingênuas e de pouca relevância.

Perto das suas experiências, todas minhas dúvidas e experiências eram por demais infantis, burguesas e até saudáveis. A aclimatização primeiro eu dizia, seguida de profunda imersão, depois as conseqüências, as marcas, e por vezes completo afogamento, quando perdes a vez da saída, ou quando te faltam senhas para a fuga. Mas é sempre o outro que te diz o que tu significa, seja com gestos, palavras, acolhimentos ou rejeições.

Em última instância, puta é só palavra eu dizia. Ela dizia, puta é palavra abusada de sentido, que escarifica o corpo, mas também é reconhecimento. Sim, porque quando te tornas puta, estás num rio lotado de putas, e nem todas têm tempo para essa elaboração toda. Eu sei, eu disse, às vezes me sinto mal por não ser suficientemente prostituída, e fico com essa imagem de puta mito. É como se eu não tivesse mundo. Mas aí tocas num ponto muito interessante, dissestes: a puta é alguém que cola no mundo alheio, é uma parasita, uma sanguessuga, uma chupa cabra, ela se alimenta da diversidade de mundos, estar antenada no corpo do outro para viver suas fantasias, é trabalho árduo, trabalho de feiticeira, tem que estar atenta ao desejo alheio com o fim de sustentar essa fantasia, e tem mais, de garantir liberdade para o cliente para não construir um ambiente de repressão, se fazes isso muitas vezes por dia, isso se torna muito fácil, essa leitura do corpo.

Então trata-se sempre de aclimatização, eu repeti, ela disse sim, e de muita paciência. Chegamos a conclusão que ser puta é um clima, um jogo de palavras, uma necessidade, um estado passível de ser acionado, atualizado, upload, devir, uma radicalidade. Esse clima, no entanto, é sempre cercado de preconceito, o olhar sobre a puta é o que mantém esse isolamento ideológico tantas vezes atrelado a violência.

Sorris quando falas que por mais arriscado que seja trabalhar nas ruas, existe uma relação que se estabelece com o espaço urbano, com os bares, hotéis, polícia, traficantes, turistas que é riquíssimo, cheio de relações e vizinhanças, enquanto dentro de uma casa de prostituição evidencia-se mais fortemente as hierarquias, os horários, as funções são mais prescritas. Liberdade ou segurança? Uma certa loucura da puta na rua. Eu tenho medo das drogas, dissestes. Depois de quatro vezes no pronto socorro com princípio de overdose por excesso de cocaína, fiquei ressabiada. Muita droga, muita bebida, muita inconsciência, muita destruição. Sonho com uma prostituição mais limpa agora, apesar de ter certeza que isso é um desserviço para a base experimental do ser humano que se dedica as práticas do sexo profissional. Ahahah, eu gargalhei, tu realmente acredita que prostituta é uma profissional? Ela disse que sim porque tudo que existia dizia respeito a especialização, e se as putas não exigissem esse direito, alguém o reivindicaria, como as travestis prostitutas.

Daí tocamos num assunto caro para ela, as marcas que trazia nos braços e nas costas em função das brigas por território urbano entre elas putas e as travestis em quase todas as grandes cidades que morou. Aquelas travecas unem-se e nos expulsam aos pontapés das ruas que tradicionalmente sempre foram nossas. Essas brigas já colocaram muita gente no hospital, ela disse. Mas eu sou faca na bota, eu remexo minha bolsa que sempre carrega uma pedra aguda, sabes bem, comigo não tem dessa de repressão gratuita. Se bem que uma das minhas melhores amigas é travesti, e eu já ensinei muitas dessas bixonas a mexerem bem o rabo, do jeitinho que eu gosto, porque afinal peito junto com pau é uma conjunção cósmica, para isso sim tu vai achar bastante mitologia, peitos são sagrados! E terminou o assunto por aí mesmo.

Sempre há saída, seja pelo riso, seja pelo esquecimento. Dissestes.

Eu disse: afinal se puta não tem ontologia, pelo menos deve ter alguma ética. Ética pra mim, dissestes é meter o braço no cú do marido das outras, mas se se meterem com macho meu, bolsa-de-pedra na cabeça. Dei um sorriso assustado e falei, mas que ética é essa? Não existe nenhuma concessão à coerência? Coerência é papo de político fia, é conversa dos defensores do trabalho, família e propriedade, com a gente não tem nada dessas coisas não. Defender coerência é defender o indefensável. Essa busca de ética sua é de novo busca de essência, puta não tem essência, já te disse. Mas existe uma coisa que não é bem prostituição e nem tão pouco coerência com o desejo sexual. É um entregar-se aleatório para qualquer figura que se encontra na noite, na boate, um vício de trepar e como isso é insustentável, exige gastos com bebidas e drogas, acaba-se de algum modo cobrando-se para isso, nem que seja o direito à consumação. Essa é uma das entradas possíveis, dissestes, têm muitas outras. Muitas. De qualquer jeito não é possível separar essas entradas em categorias de classes sociais ou culturais.

O lance é muito mais sujo e bastante óbvio. Quando a mulher reclama que foi tratada como prostituta, o que ela quer dizer? Suponho que quer dizer que se sentiu usada e que homem trata puta desse jeito. Mas pelo menos elas tem alguém a incorrer, alguma explicação, alguma comparação, algum subsídio subjetivo e cultural que dê conta do sentimento; mas o que falar da puta que se sente assim? Ela vai dizer que o homem tratou ela como puta, ou seja, como ela mesma? E isso por acaso lhe daria algum tipo de conforto? Sempre há saída, seja pelo riso, seja pelo esquecimento. Dissestes.