Onde termina um caminho

Ningyo não tira os olhos de Obake e isso o deixa incomodado. Nisso o ser humano é admirável, ele se adapta a qualquer coisa, circunstância e ambiente. Na estrada que os levava a Edo, Ningyo estava intrigada com a aparência de Obake, bem mais humanizado, apesar de ainda ter dois metros de altura.

– Humano indiscreto. Por que me olha tão fixamente?

– Ué, porque você mudou de forma.

– Não há segredo algum nisso. Para nós, forma e aparência são coisas superficiais. Eu troco minha forma como sua gente troca de roupa.

– Mas está muito bom. Como você consegue imitar a forma humana?

– Eu tenho estudado e observado sua gente há um bom tempo. Foi fácil aprender seus hábitos, costumes e linguagem.

– Você consegue imitar uma mulher? Eu prefiro ter uma companhia mais feminina.

– Não. Eu não conheço o suficiente o seu tipo de animal. Eu precisaria estudar e observar para poder imitar direito.

– Ora, não deve ser difícil. Eu sou humana, eu não sou outro tipo de animal.

– Mas isso não faz sentido. Os Onis não separam os seus entre masculino e feminino. Nem fazem distinção por causa de características sexuais secundárias. Então eu terei primeiro que aprender como e porque sua gente faz esse tipo de distinção e o que isto significa em sua comunidade.

– Ora, isso é bastante evidente. O homem tem músculos, a mulher tem curvas. O homem tem força e vontade, a mulher tem sagacidade e delicadeza. O homem tem… hã… pênis e a mulher tem bumbum, peito e vagina.

– Então são diferentes. Sendo diferentes, são animais distintos. Eu não conheço seu tipo de animal.

– Puxa vida… eu nunca imaginei que eu teria que dizer isso a um oni… sim, nós somos diferentes, mas não somos distintos. Todo homem e mulher são descendentes da união entre um homem e mulher, então nós carregamos uma natureza dupla, masculina e feminina. O que acontece é que em cada pessoa, há a predominância de um grupo de genes, hormônios e fatores ambientais que nos tornam em um homem e em uma mulher.

– Então são iguais e não faz sentido algum fazer separação entre masculino e feminino, nem faz sentido dividir sua gente entre homem e mulher baseando-se apenas em características sexuais secundárias.

– Você… está tirando sarro da minha cara… não está?

– Sim, eu estou. Eu conheço bem o homem, mas não conheço a mulher. O que eu sei é que os homens tratam de forma diferente uma mulher. Quando um homem encontra dois homens, há certa distância, respeito, quase uma reverência. Quando um homem encontra duas mulheres, é como o predador avistando sua presa. Quando um homem encontra um homem acompanhado de uma mulher, esta é considerada um enfeite, um acessório, algo que é de propriedade do homem. Então para entramos em Edo sem sermos incomodados, o melhor é que eu mantenha minha forma assim.

– O que você disse é extremamente preconceituoso e machista, sabia?

– Esse é o mundo humano. Esse é o seu mundo. Por que o problema é meu?

– Humpf! Você não entende. Eu aposto que você não conseguiria ter a forma de uma mulher, mesmo depois de estudar e observar. Você teria que ser uma para entender. Ou teria que ser um homem para saber o porquê de nós sermos tão atraentes. Eu duvido que sequer saiba o que é amor. Eu duvido que você tenha um “alguém significante” em sua vida.

– Isso é… completamente irrelevante para avaliar a minha análise.

– Hei… sua expressão… você parece acanhado, envergonhado, embaraçado. Ohhh… então você tem um “alguém significante” em sua vida! Ah, conte para mim, vai?

– Você não vai parar de me incomodar nem de me perguntar se eu não falar…

– Não!

– Se isto te calar por algum tempo… eu conto. Eu… amo meu senpai. Oni sem igual. Muita inteligência, sabedoria, gentileza e bondade. Eu era ainda pequeno quando nós fomos apresentados. Eu era apenas mais um filhote entre tantos, mas senpai me notou. Eu tinha treino extra, senpai exigia sempre mais de mim, mas era uma forma que senpai tinha para dar a atenção que eu precisava.

– E ele ou ela… era bonito ou bonita?

– Isso vai dar um nó em sua cabeça… senpai é ambos, senpai é… como sua gente diz… transgênero.

– Uuooou… sim, é muito para mim. Confuso até para pensar que tipo de relacionamento vocês tem. Nós chamamos o amor entre gêneros diferentes de heterossexualidade e chamamos o amor entre gêneros iguais de homossexualidade. Seu.. sua… senpai é ambos os gêneros, então… isso é transsexualidade, eu acho.

– Vocês humanos complicam demais algo tão simples. Quando dois seres se amam, pouco importa seu gênero, seu sexo, seu estado civil, sua etnia, sua origem, sua religião… só o que importa é o amor.

– Heh… isso acabaria em confusão entre meu povo. Sabe, os relacionamentos não são apenas sobre pessoas que se amam. Entre meu povo, os relacionamentos refletem e reforçam as relações sociais de poder, prestígio e influência. O que explica muito minha atual condição e talvez o motivo pelo qual eu e meu comboio fomos atacados.

– Eu te contei sobre mim. Agora você me conta sobre você.

– Eu acho que você tem todo o direito… sabe, apesar de eu ser uma dama com ótima reputação em minha cidade, na corte real eu não sou mais do que uma mera cortesã, filha de cortesãs. Eu e minha mãe moramos em uma das muitas casas que pertencem à dinastia Hyuei, de quem somos aparentados, mas somos tratados como párias. Eu quero ir a Edo porque o herdeiro do xogum irá escolher sua futura esposa. Eu estou apostando tudo que ele irá me escolher, assim que me conhecer.

– Essa é uma aposta alta que quase lhe custou a vida. Eu ainda não entendo nem aceito como sua gente cria tantas divisões, baseadas em um suposto direito de nascimento, origem ou estirpe. Isso é incompreensível no mundo místico e impensável no meu povo. Eu conheço sua gente o suficiente para saber que seus atacantes foram meros peões. Os verdadeiros assassinos, os mandantes, devem estar agora contando vantagem entre si.

– Por isso mesmo que eu insisto em ir a Edo. Eles contam com a minha morte para seus objetivos escusos. A minha presença ali por si só irá causar muitos rumores e certamente irá provocar aqueles que conspiraram contra a minha vida. Eu lamento que eu tenha que me aproveitar de sua amizade assim, Okobe, mas eu precisarei e muito de sua proteção.

– Amizade? Eu sou seu amigo?

– Oh, sim… e bem grande… chame isso de intuição ou esperança. Assim que eu olhei em seus olhos, eu senti que eu podia confiar em você e que você me apoiaria.

– Hmmm… isso foi antes ou depois de você gritar que não era comida?

– Há-há-há… engraçadinho. Agora faça uma cara de homem sério, importante, rico e influente. Nós estamos próximos da entrada de Edo e tem dois guardas vigiando o portão.

– Vocês humanos são muito esquisitos se são influenciados pela aparência superficial.

– Bom, nós não temos olhos mágicos para ver a essência das pessoas…

– E eu duvido que vocês sobrevivessem se se vissem como eu os vejo…

– Qual é, Okobe? Está treinando para ser humorista?

– Alto lá! Senhor! Quem é o senhor? De onde vem? Qual é seu assunto em Edo?

– Boa tarde, oficial. Eu sou Kiokushin Nambei. Eu vim a Edo por ordem do próprio xogum, como podem ver pelos meus papéis. Eu fui incumbido para garantir que apenas damas de fino trato possam se apresentar ao herdeiro.

– Sim, senhor Nambei! Seja bem vindo a Edo! Perdoe a nossa abordagem. O governador nos pediu para ficar de olho, pois parece que salteadores tem roubado e matado viajantes pelos caminhos que conduzem a Edo. O senhor pode entrar, mas eu devo perguntar quem é a mulher que o acompanha.

– Eu não o recrimino oficial. Esse é o seu ofício. Esta mulher é minha assistente. Eu precisarei dela para examinar as candidatas. Seria indelicado e descortês eu as examinar pessoalmente.

– Co…com certeza, senhor! Perdoe por minha indiscrição! O senhor e sua assistente podem entrar.

Ningyo segurou o folego e a risada por vários metros até não aguentar mais.

– Quáááá! Você viu a expressão dele? Hilário, meu amigo, hilário! Esse oficialzinho certamente iria fazer muita questão se eu tivesse aparecido por conta própria, apesar da minha comitiva. Mas, conta para mim, Okobe, de onde você tirou esse nome? E esses papéis que são idênticos aos documentos oficiais? De onde tudo isso veio?

– Kiokushin Nambei foi o único ser humano digno que eu encontrei. Ele dizia ser samurai e que servia ao xogum. Quanto aos papéis… apenas folhas secas que eu colhi na floresta. O oficial viu o que queria ver.

– Oooo… então é verdade… os habitantes da floresta conhecem kokumajutsu…

– Nós apenas damos aos olhos dos humanos aquilo que seus desejos apreciam.

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