O demônio e a princesa

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas isso não é dito por uma imagem. Eu vi diversas vezes essa arte onde um demônio ampara uma gueixa. Ele está crivado por flechas e o quimono dela está empapado de sangue. O que você, leitor, pensaria se visse essa cena diante de você? Várias perguntas devem surgir em sua cabeça, eu suponho.

Quem é ela? Por que ela está ao lado de um demônio [que os japoneses chamam de oni]? Por que ela não está com medo? Por que o demônio está ali, como que cuidando dela? Quem os atacou? Seria isto um amor proibido?

Uma coisa eu tenho certeza. A maldade vive dentro do ser humano. Não está em um monstro, nem em Satan, mas dentro de nós. Os descrentes blasfemam contra o divino perguntando por que há tanta fome, mas é o ser humano quem prefere estocar comida e ganhar dinheiro a alimentar sua própria gente. Somos nós quem transforma o arado em lança. Somos nós quem escolhe as bandeiras debaixo da qual nós justificamos nossa maldade.

Com essa arte, eu tenho dois personagens para fazer um conto. Eu vou precisar de dois nomes. Obake Youma pode ser o demônio. Ningyo Yurei pode ser a gueixa, que aqui será uma princesa. Eu não quero imitar ou parafrasear William Shakespeare, mas a arte lembra bastante Romeu e Julieta. Amor trágico. Amor dramático. Mas onde o amor está não há sofrimento, dizem os poetas.

Obake Youma vive nas montanhas de Kanagawa desde antes dos humanos ali chegarem. Ele pertence a uma categoria de seres que praticamente nasceram junto com o planeta que habitamos. Criaturas humanoides, mas com aparência de minerais, vegetais e animais. Que viviam harmonicamente com os seres incorpóreos que construíam este mundo. Todos os seres vivos viviam em perpétua paz, sossego e tranquilidade.

Então vieram os Kami, os Deuses, que ali assentaram seus lares e deles vieram seus descendentes, os humanos. Obake era criança, mas muitas das tribos nativas se puseram em guerra contra os Kami e seus filhos, porque sentiam que havia algo de errado na alma dessas criaturas nascidas neste mundo, mas tendo origem das terras além do sol. Como resultado dessa guerra, surgiram as ilhas que hoje perfazem o arquipélago japonês. Os Deuses reconciliaram-se entre si e formou-se um tratado entre as criaturas míticas e o ser humano, onde o solo foi dividido e traçado.

O ser humano cresceu e se multiplicou nas terras reservadas para as cidades. Apesar de terem o suficiente para seu sustento, o ser humano sempre quis mais, pois seu coração é vazio. Inevitavelmente, os primeiros reis com seus exércitos começaram a invadir e tirar das criaturas míticas seus lares. A tribo dos Oni não aceitou isso e declarou guerra aos humanos e Obake tornou-se um orgulhoso soldado, lutando contra o verdadeiro inimigo e origem de toda maldade: o ser humano.

Os Deuses da terra e os Deuses do sol não se envolveram nessa guerra, mas entristeceram-se ao ver seus filhos se matando. Do lado das criaturas místicas, havia colaboração e fraternidade, cada reino mágico respeitava e reconhecia a soberania um do outro. Mas do lado humano havia discórdia e ganância, os reinos viviam em disputas cruéis um contra o outro.

Obake era adulto quando nasceu Ningyo Yurei, a terceira filha de uma descendência de sete da dinastia Hyuei. Yurei vivia com sua mãe, em um dos muitos palácios da dinastia, mas entre os nobres e aristocratas sua família era considerada desonrada, pois pertencia a uma das muitas linhagens bastardas. Seu pai era o xogum, mas antes dela tinha seu legítimo herdeiro, Hyuei Ashinaga e sua irmã, Hibei Yoshikazu, filhos legítimos de esposas legítimas. Junkio Yurei, sua mãe, era apenas uma das cortesãs do xogum.

O destino de Ningyo era o de ser cortesã, de algum nobre ou aristocrata, mas nem ela nem sua mãe aceitaram isso. Sua família era rica e influente o suficiente por ser de uma longa linhagem de cortesãs conhecidas por diversas famílias da corte real. Lenta, mas firmemente, sua família construiu uma considerada reputação diplomática, sempre eram chamados para resolver as pendências entre os reinos. Assim Ningyo tornou-se uma princesa e isso é bom se esclarecer: o príncipe ou a princesa nem sempre é filho ou filha do rei, mas a pessoa “principal” de uma cidade, que por arte e política tem em mãos os destinos dos reinos.

Isso nem sempre foi fácil e agradável, especialmente pela condição desonrada de sua linhagem. Muitos senhores ficaram com raiva, inveja e rancor. A família Yurei sabia que muitos conspiravam pela sua ruína, senão por sua completa extinção. Tudo que precisavam era de uma oportunidade e de um motivo. O anuncio de que Hyuei Ashinaga , o herdeiro legítimo, pretendia em breve escolher e anunciar seu noivado com alguma jovem mulher de linhagem e virtude, despertou um alarme entre os conspiradores. De forma alguma o herdeiro legítimo poderia encontrar com Ningyo, pois seria um encontro fatal, Hyuei Ashinaga certamente acabaria enfeitiçado pela beleza de Ningyo. Seus territórios, seus privilégios, seus exércitos, seus títulos de nobreza valeriam menos do que um punhado de grama se isso acontecesse.

Os três patriarcas das famílias mais próximas ao xogum reuniram-se secretamente e, com muito dinheiro em jogo, puderam facilmente contratar mercenários, ninjas, ronins ou bandidos para “remover” esse pequeno transtorno de suas vidas. Com habilidade, indicaram ao xogum que a capital Edo [futura Tóquio] era o melhor lugar para tal evento e, por meios escusos, garantiram para que o convite chegasse às mãos de Ningyo.

Junkio, sua mãe, teve a preocupação de colocar na escolta de sua filha uma patrulha, mas feita de alguns soldados veteranos e camponeses. Camponeses largariam as lanças na primeira refrega e veteranos poderiam mudar facilmente de lado. Ningyo apenas riu da preocupação de sua mãe e confiou na proteção que ela teria do amuleto que carregava, um amuleto tido e considerado obra e manufatura divina. Homens podem falhar e vacilar, não os Deuses.

Quando seu comboio e escolta começaram a ser cercados por mascarados, Ningyo apenas espremia o amuleto nas mãos e repetia o mantra que o sacerdote lhe ensinou. Foi um massacre, humanos mataram humanos sem hesitar, sem qualquer peso na consciência. Ningyo ficou a encomendar sua alma, quando algo mudou. Os mascarados pareciam estar assustados com algo. Ela chegou a ver o teto de sua charrete ser arrancado por um mascarado e viu o brilho da ponta da lança e então um vulto. Gritos e som de sangue e tripas derramando. Seja o que fosse, ela era a próxima.

Obake não gostava de humanos. Os humanos eram barulhentos, grosseiros, folgados. Ele sempre conheceu e viu o humano como algo frio, cruel e insensível, sempre vestido com armadura e empunhando alguma arma. Ele nem ligou para os outros humanos que agonizavam diante do ataque feito por outros humanos. Ele estava interessado em ver o que tinha naquela “caixa”. Devia ser algo valioso para ser tão cobiçado. Obake olhou para dentro do que sobrou da “caixa” e viu algo completamente diferente e inusitado. Tinha o olhar assustado, mas não parecia ser agressivo ou ameaçador. Obake nunca tinha visto um humano vestido daquele jeito, nem com tal aparência.

Ningyo tremia inteira. Ela tinha ouvido muitas lendas sobre os habitantes das florestas, mas achava que eram apenas estórias de gente velha querendo assustar as crianças. Mas ali estava diante dela, algo grande como um urso, com chifres feito touro, garras feito tigre e presas como de um javali. Aquilo tinha ceifado sem nenhum esforço a vida dos vinte mascarados, mas não a atacava, apenas a olhava. Sem saber ao certo o que devia fazer ou falar, Ningyo balançou o amuleto diante de si, como se quisesse afastar ou exorcizar a criatura.

– Shen wanyshi.

– Eh… você fala?

– Oh… você fala. Humano inteligente. O que ou quem é você?

– Eu sou… Ningyo Yurei. Eu sou uma dama nobre da cidade de Kanagawa e eu estava indo para Edo, quando eu e meus homens fomos atacados. E você? O que ou quem é você?

– Eu sou Obake Youma, orgulhoso guerreiro da tribo dos Oni. Vocês invadiram os meus domínios. Embora eu esteja acostumado a ver sua gente se matar, eu nunca vi um animal como você.

– A… animal? Eu sou humano, viu, humano! Animal é você, seu… monstro!

– Humano diferente, mas igual. Acha que animal é insulto. Eu sou um monstro? Não fui eu quem quase lhe matou, Yurei.

– A….ah… é verdade. Perdoe-me. Eu devo te agradecer… Obake… obrigada por salvar a minha vida.

– Hum… não agradeça… eu ainda não decidi se você é inimigo ou não. Além do que, eu estou com fome. Diga, Yurei, você é comida? Você é alguma riqueza? Por que sua gente quis te matar?

– Aaa…aaaah? Não, não, não! Eu não sou comida! Você não pode me comer! Nem me vender ou trocar, como se eu fosse dinheiro! Eu sou gente, ser humano!

– Hahahaha! Humano engraçado! Eu vejo vocês prenderem e venderem sua própria gente, eu vejo vocês caçando e comendo animais. Por que gente é diferente? Você parece bem macia e suculenta. Eu vou te devorar!

Ningyo quis gritar, lutar, fugir, mas estava petrificada. Ela viu Obake se aproximar, suas mãos grossas e musculosas a pegavam como se ela fosse feita de papel e suas presas estavam cada vez mais próximas.

– Hei, humano… onde conseguiu este engenho dos Deuses?

– E…engenho… dos Deuses?

– Sim, esse objeto que você segura entre as mãos, pendurado nesse cordão. Como e onde conseguiu?

– E… e… eu ganhei de minha mãe, que ganhou da mãe dela e assim sucessivamente, por muitos séculos.

– Hum. Isso não faz sentido. Um engenho dos Deuses somente pode ser obtido pelos ferreiros místicos, ou por aqueles que têm sangue ancestral. Você vai me levar para sua família. Eu saberei se ganharam ou roubaram de seus legítimos donos.

– Eeehh… vamos combinar? Você me leva para Edo, que era meu destino e depois eu te levo para os domínios de minha família.

– Você é um humano insensato. Vai para Edo, sabendo que seus assassinos estarão lá.

– Bom, meu grande amigo, eu irei confiar que você irá me proteger de meus inimigos, senão você nunca saberá como eu tenho um engenho dos Deuses.

– Tem noção do que está me pedindo, humano?

– Bom… eu acho que uma criatura imensa, forte e inteligente como você saberá como concluir o destino que me aguarda.

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