Deus Ex Machina

O fim da tarde estava anunciado pelos tons laranja do sol que acenava do horizonte para nós. Eu estava encarnado em meu avatar furry em Nayloria, um animal hibrido entre leão e serpente, sendo alegremente conduzido por estes que, por força do hábito, eu devo definir como “meus” personagens.

– Ai… eu espero que Tommy não estrague nossa festa.

– Vanity… você devia ter, ao menos, avisado seus pais…

– Que nada. Papai adora quando vocês vão para lá. E os meninos adoram a atenção que minha mãe lhes dá.

Riley, adiantada, toca a campainha. Claire Red atende a porta, com um sorriso. Atrás dela, John Red está fatiando uma pizza.

– Riley! Meninas! Meninos! Entrem… John, peça mais pizzas!

– Imediatamente, meu amor. E aí, pessoal, eu peço cerveja também?

– [coletivo] Siiiim!

– Ah! Temos gente nova… quem é esse garoto e esse senhor?

– Senhora Red, esse garoto é Osmar e esse senhor é o escriba.

– O… o escriba? Aimeudeusdocéu… eu não sabia que o senhor viria… entre, sente-se, fique à vontade.

– Sim… isso mesmo… vinte pizzas… um caixote de cerveja… escriba, quer whisky?

– Hã… não, obrigado. Desculpem por bagunçar a casa de vocês.

– Bobagem. Não é sempre que “personagens” conseguem interagir com seu “criador”.

A galera se espalha pela sala e cozinha, enquanto esperam pelas pizzas e cervejas. John parece intrigado com Osmar, que é paparicado pela Riley. Vanity não tira os olhos de mim e do caderno de anotações. Gill fica de olho na Vanity e as demais meninas tentam entreter os meninos.

– Então, pessoal… qual a razão para todos virem nos visitar hoje?

– Nós viemos hoje para fazer um trabalho escolar. Nosso professor de literatura nos pediu para fazer um resumo, resenha, análise e comentários sobre o livro “A Arte de Ser Normal”.

– Mesmo? Nossa. A avó da minha avó leu isso. Esse seu professor… gosta de literatura da época primitiva?

– Ele diz que é para alunos que moram em outras regiões e cidades nem tanto inclusivas ou evoluídas como Nayloria.

– Isso é louvável. Mas por que trouxeram o escriba?

– Ah, quem melhor do que ele para transcrever nossas conversas para o mundo que fica do outro lado do mundo virtual?

A campainha toca e John Red paga ao entregador enquanto os meninos ajudam a pegar a encomenda. Eu ajudo as meninas a montar a mesa.

– Eu estou curiosa, escriba. Como é o processo de escrever? Você inventa tudo?

– Então, senhora Red, um escriba que se preze é, antes de tudo, um bom mentiroso. Inventar é muito forte, um mentiroso não inventa, troca os nomes, os lugares, as pessoas. Ao escrever o escriba é transportado para outra dimensão. Um escriba é mais um médium do que um encantador de palavras. Eu percebo vocês e esse mundo tão reais quanto o mundo de onde eu venho. Mas eu tenho que ter cautela, pois eu sempre trago comigo o leitor e eu nunca sei como será a reação do leitor. Então eu acabo filtrando muita coisa que eu ache que vai ofender o leitor. O leitor é o espectador silencioso, mas bem que eu gostaria de ouvi-lo.

– Ah! Isso explica por que Lisa, a autora, apesar da boa vontade, parece dizer que os personagens transgêneros precisam ser “consertados”?

– Eu acho que sim, Riley.

– A parte que mais chamou a minha atenção é que parece haver certa atração entre David e Leo. Por que a autora não explorou esse aspecto?

– Eu não tenho certeza, Osmar. Talvez só a ideia de que existam pessoas transgênero seja muito difícil para ser compreendido. Faria um nó na cabeça dos leitores se Lisa fizesse David e Leo namorarem.

– Mas seus contos exploram diversos aspectos nesse sentido, não é?

– Oh, sim… o mundo de onde eu vim é, para este mundo, o que vocês chamam de época primitiva. Nós ainda vivemos no século XXI, mas com inúmeros tabus antiquados provindos de séculos anteriores.

– Ah, que sorte! Eu tenho estudado a Era Moderna da Humanidade há algum tempo. Pode nos dizer quais são esses tabus?

– São muitos… houve um período que era tabu pessoas de etnias diferentes se relacionarem. Em alguns casos, as diferenças de origem, de religião, de opinião política, constituíam em proibições. Relações entre pessoas do mesmo gênero ainda são socialmente condenadas. O mundo de onde eu vim ainda está resistindo ao fato de que existem pessoas intersexuais, de que existem pessoas transgênero. Ainda persiste o padrão binomial de gênero e o relacionamento monogâmico. Ainda vigora o conceito de que a família é unicamente a constituída pela união heterossexual. Eu vivo em uma sociedade hipócrita, com um padrão duplo de moralidade… ao mesmo tempo que condena, estimula e permite a existência da prostituição e da pornografia, em formas amenizadas e permitidas, o sexismo e o fetichismo, vívidos nos meios de comunicação de massa.

– Deve ser bastante confuso… sua gente é constantemente bombardeada por essas mensagens ao mesmo tempo que são controlados, oprimidos e reprimidos sexualmente pela moralidade ambígua dessa sociedade.

– Muito confuso. Meninos são estimulados a serem cafajestes e meninas são estimuladas a serem donzelas. O sinônimo de sucesso é ter diversas conquistas, em termos materiais e amorosos, ao mesmo tempo em que apregoam como ideal o amor romântico monogâmico. Falar que o jovem tem sexualidade e tem capacidade de consentimento é uma heresia muito perigosa, a despeito da moda e da propaganda constantemente promoverem o erotismo infanto-juvenil.

– Nossa cultura que empodera todos os indivíduos, sem distinções, para que sejam capazes de se expressarem, é impensável em seu mundo?

– Infelizmente sim. Quase não existe educação sexual. Ainda é escasso a orientação sexual. Toda uma geração de “adultos”, cheios de problemas, recalques, frustrações e traumas estão tendo que conviver e aceitar toda uma nova geração de “jovens” que estão vivenciando, na prática, as ideias da “Revolução Sexual” que meus avós defendiam.

– Senhor escriba… é verdade que o senhor é favorável que se acabe com a discriminação etária e que a sociedade aceite as relações interetárias?

– Sim, senhorita Kurage. Nós passamos muitos anos lutando pelos direitos civis aos negros, aos hispânicos, às mulheres… está na hora de nós lutarmos pelos direitos civis das crianças e dos adolescentes. Mas o tabu mais difícil de superar consiste nessa ideia absurda de que a criança e o adolescente é uma criatura inocente, ingênua e assexuada. Daí que todo e qualquer relacionamento interetário será sempre visto pela sociedade, indiferentemente da capacidade e do consentimento das partes, como sendo abuso sexual, senão estupro.

– Isso não faz sentido… não é verdade que toda civilização nasceu ou de um incesto ou de um estupro?

– Não existiria a humanidade sem adultério. Mas a humanidade tem rejeitado seu corpo, seu desejo, seu prazer, sua natureza, sua sexualidade, em nome de uma religião inventada de um deus estrangeiro.

– Nossa… isso parece até… Squaredom… ou com Tommy.

– Pois então, Vanity… até no Mundo Furry, na utopia de Nayloria e Yffyburg, existem indivíduos como o Tommy. Imagine no meu mundo.

– Então… Osmar não poderia namorar com Riley… Vanity não poderia se divertir com sua própria família e eu não poderia sequer pensar em me aproximar do senhor Ornellas…

– Não… senão o senhor Ornellas seria preso. Eu não poderia estar entre vocês…

– Que ridículo. Eu sou suficientemente amadurecida, consciente e capaz de decidir. Quem decide isso é a natureza, não uma estúpida convenção social.

– No meu mundo, Vanity, eu sequer poderia ter qualquer tipo de relacionamento com sua mãe… mesmo que ela quisesse…

– Hmmm… nesse caso, por que você não se muda para Nayloria, escriba? Os meninos são legais, mas eu gostaria de ter mais um homem em nosso clube da amizade.

– He…hei! senhora Red! Pare de se insinuar assim!

– Ânimo, escriba. Aqui nós levamos a sério que sexo se aprende em família. Você é bem vindo em nossa família. Você tem o dever de ensinar a todos. Olha, eu não vou conseguir dar conta das meninas, eu vou precisar de ajuda.

– Por favor, senhor escriba, aceite! Eu quero ser uma boa amante do senhor Ornellas!

Eu não resisto aos pedidos. Esta é a forma de acabar com o conto, apelar para o Deus Ex Machina. [editado para evitar censura]

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