Eu não preciso ser consertada

Como sempre, Vanity entra na sala liderando a galera. Eu até entendo os meninos, eles babam pela Vanity e fazem tudo o que ela manda, achando que ela vai dar alguma chance para eles. O que até pode acontecer, agora que a Vanity recebeu seu Passe Sexual, ela é bem capaz de transar com os três, ao mesmo tempo.

As meninas deixam que ela seja a rainha da galera só porque ela foi, da nossa turma, a primeira a receber o Passe Sexual depois de ter ido ao Dia da Iniciação, na Festa de Eoster. A classe inteira só falou disso antes das férias escolares de inverno. Os meninos se doíam porque não teriam tal oportunidade nesse ano e as meninas ficavam roxas de inveja. Os boatos só antecipavam aquilo que nós só podemos imaginar de como teria sido o Dia da Iniciação para Vanity. Evidente que ela deve ter sentido um prazer sádico em contar até os detalhes para toda a classe. Exibida. Convencida. Vanity é um nome que lhe cai bem.

Eu me sento na minha carteira, a do meio, entre a turma nerd e a turma do fundão. Ao redor de Vanity forma-se um círculo de carteiras, cheia de meninos, como se ela fosse a Abelha Rainha de uma colmeia. Vanity escolhe poucas privilegiadas para seu “círculo interno” e evidente que Gill, Minnie e Daisy são suas aias, suas lacaias mais devotadas. Elas agem como um ministério dessa pequena rainha, mas quando a coisa fica feia, sou eu quem que tem que resolver. Isso faz de mim ou uma cavaleira ou uma amazona.

O professor novo entra junto com um aluno novo. O pessoal fica em pé, faz reverência, todos voltam a sentar. O diretor deve ser um otaku viciado em anime.

– Bom dia pessoal. Eu sou Nestor Ornellas, seu novo professor de literatura e este comigo é Osmar Magritte, seu novo colega. Por favor, cuidem bem dele. Ache uma carteira e sente-se, Osmar.

O garoto chama a atenção de todos. A minha também. Não é para menos. Osmar tem algo que agrada a todos, meninos e meninas. Alto, loiro, olhos verdes e gênero incerto. Vanity parece peculiarmente interessada no garoto novo e eu tremo só de imaginar o que vai naquela mente. Suas servas dedicadas estão babando feito garotas diante de uma celebridade. Os meninos trocam olhares de ameaças, antecipando cenas de ciúmes e brigas.

– Oi! Esta carteira está ocupada? Posso me sentar ao seu lado?

– Hã… claro… fique à vontade.

De tantos lugares vagos, o garoto novo resolve sentar justo ao meu lado. Minha pulsação acelera, eu sinto meu rosto enrubescer enquanto minha mente mergulha no doce aroma do perfume que seus cabelos exalam. Eu mal ouço o professor anunciar que fará uma chamada, para que todos possam se apresentar e conhecer mutuamente. Eu desperto do transe quando chegou a vez da Vanity.

– Vanity Red, a seu dispor, senhor Ornellas. Eu estou curiosa… foi o senhor que nos solicitou a leitura do livro “A Arte de Ser Normal”?

– Foi sim, senhorita Red.

– Tem algum motivo para o senhor fazer tal solicitação?

Ai que ódio. Vanity faz uma pergunta tão idiota assim, justo ela, que se orgulha tanto de sua inteligência? O que o senhor Ornellas vai pensar de nós? E ela fica me olhando de soslaio. Ódio.

– Senhorita Red, eu vim com o propósito de promover o Colégio Le Petit Prince. Apesar de Nayloria ser uma cidade tão inclusiva, ainda existem cidades que isso ainda é uma questão controversa e polêmica. Aqui mesmo nós temos alunos e alunas que vieram de outros lugares e nós temos alunos e alunas que vão se sentir identificados com a trama do livro. Então eu pretendo, com a leitura, resumo, resenha e discussão dessa obra, fornecer esse espaço e oportunidade para dissiparmos o preconceito contra as pessoas transgênero.

– Ah, então está explicado. Mas se o pessoal quer mesmo entender isso, nós podemos perguntar direto para a Riley…

– Nitty!

– Ah, qual é, O’Ley? Não é segredo. Todo mundo sabe.

– E daí? Não é para ficar falando por aí!

– Está tudo bem, senhorita…?

– Hã… Marlow. Riley Marlow.

– Senhorita Marlow, leu o livro?

– Sim, senhor Ornellas.

– Diga para nós o que achou da obra.

– Olha… para algo editado no século XXI, até que é bom. David e Leo quase parecem reais. Quase. Mas a autora dá a entender que os personagens precisam passar por um tratamento para “adequar” o externo com o interno. Até parece que precisam ser “consertados”. Eu não preciso ser consertada. Eu nasci assim e eu fui sempre assim. Eu sempre vou ser como eu sou.

Um silêncio perturbador toma conta da sala e eu me vejo no centro das atenções. Eu começo a suar frio quando sinto um puxão na manga da camisa.

– É verdade, senhorita Marlow? Você nasceu assim? Não passou por cirurgia? Nenhuminha?

– Hã… sim, senhor Magritte. Tudo aqui é “original de fábrica”.

– Iupi! Isso me deixa muito feliz! Eu encontrei alguém igual a mim!

Do nada, Osmar levanta e me abraça, enquanto dá pulinhos, como uma menininha deslumbrada. Meu corpo pesadão meio que acompanha ou tenta acompanhar, enquanto eu sinto que minha cabeça vai explodir, meu corpo está em ebulição e meu rosto deve estar cor de berinjela. Eu fico excitada e isso é um pouco constrangedor. Meus seios ficam eriçados e meu pênis arma a barraca enquanto sinto minha vagina fazer água.

– Viu só, O’ley? Se não fosse por mim, você nunca teria arrumado um namorado ou namorada.

– Ca… calaboca, Nitty!

O professor aplaude junto com o resto da classe, mas depois pede para que todos se acalmem e se sentem. Eu ainda fico incomodada. Uma coisa é a galera saber de mim. Eu não sei se consigo gerenciar a atenção de toda a classe. Tipo, sei lá. Eu estava conformada em estar ciente de que desconfiavam de mim. Agora eles sabem e tem certeza. Apesar de eu ser a mais alta e forte, de repente me sinto pequena e fraca.

– Senhorita Marlow?

– Hã… sim, senhor Magritte?

– Pode me chamar de Osmar. Olha, eu sei que dá medo, eu sei que você está insegura. Mas eu estou do seu lado. Vamos enfrentar tudo e todos juntos, oquei?

Eu sinto meu coração derreter inteiro só de olhar para aqueles belos olhos verdes.

– Hã… oquei… mas então… pode me chamar de O’Ley… como meus amigos me chamam.

– Jura, O’Ley? Oba! Eu tenho uma nova amiga! Best Friends Forever!

Por alguns segundos parece que o mundo inteiro tinha desaparecido e só tinha eu e Osmar. Seus cabelos pareciam ser um campo de trigo, balançando ao vento. Sua mão era macia como a de minha mãe e minha irmã, mas firme como o do meu pai e irmão. Eu meio que me peguei contando as sardas que ele tem no rosto.

– E então, O’Ley? Podemos oficialmente declarar que você agora está comprometida?

– Ni… Nitty!

– Está tudo bem, O’Ley. Ela está é com ciúmes. Bleeeh! Nitty, bittchy, snittchy. Você se acha grande coisa, mas eu gosto é da O’Ley, não de você, viu?

Vanity e suas lacaias riem sem parar. Eu dou uma risada amarelada. Osmar começa a rir dele mesmo. A classe toda ri. Assim acaba mais uma pegadinha da Vanity. Para o alívio do senhor Ornellas. A aula segue e eu deixo de ser o centro das atenções. Eu só não sei o que fazer com o Osmar pendurado em mim. Se bem que eu gosto. Talvez seja isso que esteja me perturbando. Eu só sei que o intervalo promete.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s