Essa tal timidez

O sinal do intervalo tocou. Graças a Deus! Eu estava morta de fome. Como sempre, Vanity e Riley ficam se encarando, enquanto o pessoal fica na expectativa se vai ter briga. Eu espero que não, porque sou eu quem sempre as separa. Minha barriga ganha a discussão, eu vou ao pátio do colégio para comer.

No meu guia de sobrevivência eu anoto tudo o que pode fazer com que eu me preserve de encrencas. Quando eu cheguei ao Colégio Le Petit Prince eu tinha várias páginas anotadas desde que eu aprendi a escrever no primário. Então eu conheci Vanity e a galera, bagunçando todas as dicas.

Até que esse pessoal é deboas. Eu quase não lembro do ginásio em Squaredom. Sabe como é. Garota acanhada, tímida, com pouca autoestima e roupas estranhas. Ah, você sabe. Provavelmente você zoou com uma ou foi zoado por ser assim. Eu queria ser forte como a Riley ou decidida como a Vanity. Mas eu sou eu, Gill.

Meu cantinho favorito fica na sombra de uma árvore que luta arduamente contra o muro que teima em abraça-la. Bem longe do campinho e dos meninos, bem longe da cantina e das meninas fofoqueiras. Eu abro meu bentô e fico com água na boca com o cheiro que chega ao meu nariz. Mamãe caprichou. Daqui a pouco chegam a Minnie e a Daisy querendo um pedaço. Ainda bem que mamãe sempre põe um pouco mais.

Os meninos param de jogar bola quando Vanity aparece no pátio. Assovios, gracejos, piadinhas e palavras de duplo sentido. Eu fico com vergonha, mas não Vanity. Eu não vejo Riley ao lado dela, nem Minnie ou Daisy. Ah! Lá está Riley, mostrando o colégio para o garoto novo. Bonito. Eu sinto minhas bochechas queimando só de pensar nisso.

Outras risadas tiram o pensamento de minha cabeça. O professor novo está conversando com Minnie e Daisy. Elas estariam paquerando ele? Isso me faz lembrar de minha prima, Kokonoe. Ela deu tanto em cima do professor dela que os dois acabaram tendo um caso. Se fosse em Nayloria, falariam alguma coisa por alguns dias e mais nada. Mas foi em Tenzen, uma cidade cheia de tradições e proibições. O professor foi preso e Kokonoe foi para um reformatório.

As meninas deixam o senhor Ornellas em paz. Lembraram que tem que ficar puxando o saco da Vanity. Eu até hoje não sei por que elas me aceitaram na galera. Riley está definitivamente dando em cima do garoto novo. Eu me dou conta que meus pés estão indo na direção do professor novo. Eu estou louca?

– Hã… senhor Ornellas?

– Sim, senhorita Kurage?

– Desculpe minha indelicadeza e me perdoe se eu estiver te ofendendo… mas é verdade?

– O que é verdade, senhorita Kurage?

– Que o senhor teve um caso com a duquesa de Varennes.

– Ora, que coisa. Eu não sabia que isso tinha chegado até aqui. Senhorita Kurage, eu tenho a honra e o privilégio de amar a criatura mais divina nesse mundo. Por capricho da Fortuna e do Destino, tal sublime existência corresponde ao meu amor. Por que a pergunta?

– Olha… eu não tenho coisa alguma com isso… eu apenas… fico pensando… não houve problema no relacionamento de vocês?

– Problemas? Entre nós? Eu duvido. Eu passei alguns dias na prisão de Desmoyne, mas por questões políticas.

– Então… o senhor não foi preso por causa da diferença etária entre vocês?

– Hmmm. Essa é uma boa pergunta. Eu não sei responder, Kurage, pois não há consenso quanto ao que é considerado qual é a idade de consentimento ideal.

– Bom… se o senhor me permite… eu gostaria de sugerir… uma vez que estamos abordando as questões de gênero… talvez haja algum livro… que possa abordar relações interetárias e a discriminação etária.

– Essa é uma boa ideia, Kurage. Talvez, se o pessoal ficar animado, nós também possamos discutir questões sobre os diversos tipos de relacionamentos. Eu vou ver se a diretoria aprova. Eu te agradeço pela ideia. Agora eu acho melhor a senhorita atender a senhorita Red que acena vigorosamente nessa direção.

– Ah… é… pois é… a Vanity se acha a rainha do colégio. Obrigada por me ouvir, senhor Ornellas.

– Não há de que, senhorita Kurage. Eu estou à sua disposição. Sempre que quiser, venha conversar comigo.

Eu não sei por que fico flexionando como se eu ainda estivesse no Bairro Japonês. Faz tempo que aprendi que dizer “obrigada” é suficiente. Vanity acena feito louca me chamando. Eu vou cambaleando, minhas pernas bambeiam e meus braços tremem. Eu mal consigo me reconhecer. Eu consegui conversar com o professor. Eu! Euzinha! Eu falei com um homem! Será que ele me achou esquisita? Só uma olhadinha rápida por cima do ombro. Oh, Deus. Ele reparou. E ele sorriu. O que é que eu estou fazendo? O que é que eu estou pensando?

– Hei, Gill? Terra para Gill… terra para Gill… acorde, garota.

– Desculpe, Vanity. Oi pessoal. Qual o motivo dessa reunião?

– Bom, talvez eu convoque outra reunião para falarmos sobre como você está dando em cima de nosso professor…

– Hã… eu? Ah, não, nada disso…

– Sei… mas agora nós temos que pensar no que vamos fazer com Osmar e Riley.

– Como assim?

– Nós vamos trazer o Osmar para a galera ou não? Eu é que não vou deixar a Riley saborear sozinha esse sonho.

– Hã… gente… nós estamos falando de uma pessoa, não de um boneco ou um brinquedo.

– Ai, credo, Gill. Nós sabemos disso. Eu só acho que trazer o Osmar para a nossa galera seria legal.

– Eu voto sim!

– Eu também!

– Então a moção está aprovada. Gill, cuide de fazer o convite oficialmente.

– Hã… eu? Por que eu?

– Por que se for eu ou a Minnie ou a Daisy, a Riley vai espancar até virar carne moída. Mas você não. Você tem… imunidade.

– Bom, é verdade que Riley foi a minha primeira amiga desde… sempre… mas eu não prometo coisa alguma. Se ela perguntar algo, eu vou responder com sinceridade.

– Por isso mesmo que você é a garota ideal. Vai lá. Não deve ser difícil achar a Riley.

Vanity me vira gentilmente na direção da cantina e dá um tapinha no meu traseiro. Ela deve ser a única pessoa que toca meu corpo. Eu fico levemente ruborizada, mas eu meio que me acostumei a receber esse tipo de tratamento vindo da Vanity. Eu finjo estar brava, fungo, mas vou. Depois de tanto tempo no colégio, eu achei uma forma de passar desapercebida, quase invisível, para os demais alunos. Eu sou como um sorvete de baunilha no meio de um monte de sorvetes deliciosos.

Se eu fosse a Riley, aonde eu iria, aonde eu estaria… sobretudo se eu estivesse junto com um garoto que eu estou a fim? Não é segredo algum. Todos os alunos sabem os pontos de paquera. Que também são frequentados pelos professores. Eu sinto uma vertigem, pois me imagino ali com o professor Ornellas. Alguém me segura. É a Riley.

– Hei, garota, calma aí. Você está bem? O que você veio fazer aqui? Sozinha?

– O’ley… você está com o Osmar?

– Sim… quer dizer… não… talvez… sei lá… porque quer saber?

Riley consegue ser bastante ameaçadora quando quer. Vanity estava certa. Outra teria sido esmagada. Mas comigo ela é gentil. Alunos maldosos chegaram a falar que nós estávamos namorando. No fundo eu gostei da sugestão. Mas Riley tinha que manter sua fama de garota durona.

– O’ley… o negócio é o seguinte… a galera está convidando oficialmente para o Osmar fazer parte.

Eu falo com firmeza e decisão. Riley fica espantada ao ponto de esbugalhar os olhos e alinhar o corpo. Atrás dela, no canto, Osmar parece muito feliz, o uniforme todo amassado e o cabelo desgrenhado. Se Riley usasse batom, Osmar estaria coberto de marcas de beijos.

– Eu achei sensacional. Eu vou poder ficar mais tempo com você, O’ley. E eu vou ter mais amigos e amigas.

– Bom… então… eu acho que tudo bem.

– Nesse caso, senhor Osmar, o senhor está oficialmente confirmado como novo membro de nossa galera. Nós nos reunimos pontualmente todos os dias na frente do colégio, no fim das aulas. Esteja lá e não se atrase.

– Iupi! Eu tenho novos amigos e amigas! Obrigado, senhorita Gill!

Eu sinto Riley bufando de raiva, mas não há muito o que eu posso fazer. Osmar me abraça e me dá um carinho que eu não estou muito acostumada a receber. Meu corpo inteiro parece um vulcão. O que me deixa confusa, pois ele é ambos os gêneros. Isso faz de mim heterossexual ou homossexual? Comigo no abraço carinhoso de Osmar, isso não faz o menor sentido nem tem importância.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s