Quando a maturidade vem

Passaram-se muitos dias depois da primavera, depois da Festa de Eoster, do Dia da Iniciação. Os Red e os Black estavam muito contentes, como todas as demais famílias em Nayloria com tantos jovens começando sua vida adulta.

As primeiras folhas amareladas começam a cair das árvores indicando a chegada do outono quando Vanity desliga o despertador. Ela ainda sente seu pulso acelerado e seu corpo ainda está suado. Ao seu lado, John, seu pai, começa a roncar e ela tem que cutuca-lo para que ele mude de posição. Aos seus pés, o “pequeno” Tommy, seu irmão, ainda está ruborizado e envergonhado, apesar de estar igualmente adormecido.

– Não tem jeito… esses aí não vão acordar tão cedo… e eu tenho muita coisa a fazer.

Vanity levanta, sai da cama e toma banho. Veste seu uniforme de colégio e vai para a cozinha. Pega o bule da cafeteira, enche de água, põe pó de café no compartimento do filtro e liga a cafeteira. Enquanto a cafeteira processa, Vanity tem a preocupação de preparar a mesa para todos. Quatro xícaras e quatro pratinhos. Uma travessa com pães, bolos, presunto e queijo fatiados, um bule de leite morno.

O cheiro do café preenche o ambiente no momento exato que a porta da frente se mexe e uma voz bem conhecida antecipa a chegada da pessoa que Vanity aguardava.

– Hummm… que cheiro bom. Vanity é você que está na cozinha preparando o café?

– Sim, mamãe! Você chegou na hora certa!

– Uaaau… isso sim que é recepção de boas vindas. Eu estou morta de fome.

– Teve uma boa viagem, mamãe?

– Foi boa. Mas e você? Como você passou essas duas semanas com seu pai e irmão? Se divertiram bastante? Conte-me tudo, com todos os detalhes.

– Ah, mãe! Você acabou de vir de viagem de Nova Iorque! Nova Iorque! Você tem muito mais a contar do que eu!

– Nova Iorque vai ser sempre Nova Iorque. Ela foi, é e será sempre Nova Iorque. Mas você é minha filha e sua vida é única. Você recebeu seu Passe Sexual antes de minha viagem. Você agora é oficialmente adulta e passou duas semanas com seu pai e irmão. Você tem muito mais para contar do que eu.

O som de passos pesados e cambaleantes, descendo escada abaixo, denuncia a chegada dos dorminhocos que entram desgrenhados na cozinha.

– Oooaahooo… bom dia Vanity… bom dia Claire…

– Ah! Até que enfim os “homens da casa” resolvem aparecer!

– Eh… eu queria ficar mais um pouco na cama, mas eu senti o cheiro do café e ouvi sua voz, meu amor. Bem vinda de volta ao seu lar, querida.

– E para quem você está dizendo esses elogios todos? Para mim ou para Vanity?

– Para vocês duas. Vocês são meus amores, minhas queridas e minhas mulheres.

– Ahá! Então vocês se divertiram muito durante minha ausência!

– Divertido? Eu fui é nocauteado. Nossa filha é uma bomba sexual, querida. Mas pela expressão do Tommy, ele não curtiu muito.

– Vocês… vocês são todos pervertidos! Tarados! Como que vocês me fazem sair da universidade para… isso!

– Hei, Claire, dá um jeito no seu filho…

– Há! Agora ele é meu filho é?

– Bom… ele não puxou esse recalque do meu lado da família.

– Nem do meu!

– Graças a Deus que não! Eu não sou filho de vocês! Eu sou afilhado! No máximo primo da Vanity! Se a reitoria souber o que fizemos aqui… minha carreira está arruinada!

– Ah é… você está naquela universidade do Colégio Sacre Coeur, aquela escola de padres… como é que aquilo ainda existe, é um mistério.

– Vocês acham que o mundo inteiro é como em Yffyburg?

– Não… eu sei que existe o Squaredom…

– Graças a Deus que ainda existem lugares decentes!

– Decente… curioso como esses lugares cheios de gente que adora ditar regras de moral são os que mais aparecem no noticiário por fazerem exatamente aquilo que tanto condenam…

Vanity rola os olhos e sabe que a conversa vai longe. Ela deixa a louça na pia, dá um beijo e abraço na mãe e sai batida. Seu pai tenta protestar por não ter recebido um beijo e um abraço, mas sua voz é abafada com a porta fechada. Vanity tem uma escala planejada que segue fidedignamente, para sorte dela, pois o ônibus do colégio passa no horário preciso e não espera por aluno algum.

Sentada no mesmo lugar de sempre, só então ela olha para a paisagem e repara que o domo atmosférico está com um tom mais lilás. Dizem que antes do domo os raios solares eram filtrados por uma atmosfera natural. Provavelmente mais uma lenda antiga. A pulseirafone vibra com uma mensagem para ela. Um comunicado da diretoria do colégio. Os alunos deveriam ler, resumir, comentar e fazer a resenha do livro “A Arte de Ser Normal”, de Lisa Williamson. Mais velharia do século XXI. Mas os professores adoram.

Até que o livro é agradável e a autora consegue escrever sobre a realidade das pessoas transgênero, algo louvável e difícil, considerando a época em que a obra foi editada. Vanity não consegue acreditar que uma coisa tão normal foi, nessa época antiga, tão controversa e polêmica. Se for mais uma lenda ou se aconteceu de verdade atiçava sua curiosidade. Talvez ela conseguisse encontrar algo no Google ou no Wikipédia. Em ultimo caso, visitaria um museu ou uma biblioteca. Ou falaria com seus avós, para ver se lembravam de alguma coisa do tempo dos avós deles.

A pulseirafone vibra novamente, dessa vez com uma ligação de Riley.

– Oi Nitty.

– Oi O’ley.

– Aviso geral. Nós vamos ter um professor e um aluno novo.

– E precisa fazer essa cara?

– Bom… dizem que o professor veio de algum lugar ao sudoeste de Britânia e o aluno de algum lugar ao sudoeste de Sidônia. Selvagens. Bárbaros. Eu não quero virar refeição.

– Hmmm… se esse aluno e professor forem gatinhos, eu não me importo se eles quiserem “me comer”…

– Ai, Nitty! Só você mesma!

– Depois a gente conversa com a galera. Eu estou chegando no colégio. Kisses, kisses.

Riley é uma pessoa transgênero legal. Será que el@ ficou alarmad@ desse jeito só porque o colégio pediu para ler o livro? Vanity tenta lembrar o que há mais ao sudoeste de Britânia, mas dá um branco. Geografia nunca foi seu forte. Tommy contou a ela quando ele fez uma expedição em Sidônia. Dizem que ali ainda existem sinais e resquícios do século XXI. Impossível, repete Vanity para si mesma. Registros dessa época primitiva somente existem em documentários de museus.

O ônibus do colégio estaciona a lado dos demais ônibus e Vanity desce, seguindo a fila de alunos, em direção da entrada, onde sua galera a espera, ansiosa. Riley está na frente, como sempre, de cara fechada. Gill, Minnie, Daisy… e os meninos.

– Se eu soubesse que teria essa recepção real, eu teria me vestido mais adequadamente…

– Hahaha, Nitty. Muito engraçadinha. Eu quero ver se você vai rir quando esses selvagens te atacarem.

– Ih, Riley… suas emoções estão descontroladas… sério, gente, nós vamos ficar com essa paranoia?

– Nitty… nem todo mundo é forte como O’ley ou esperta como você…

– Então O’ley protege você, Gill e qualquer duvida é só me perguntar.

O sinal soa estridente, convocando os alunos para entrarem em suas salas. Vanity passa os dedos pelos lábios, como se fechasse um zíper imaginário. Riley fecha mais ainda a cara, mas Vanity é mesmo meio que uma rainha dessa galera. Ela vai na frente e consegue disfarçar bem o nervosismo que ela sente. Coisa de criança, ela repete para si mesma. Eu agora sou adulta, assim ela se convence.

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