Minha (quase) vida como sugar daddy

Para fazer um pequeno intervalo antes de criar mais uma série de contos eu resolvi criticar o relacionamento sugar daddy/sugar baby.

Como assim [diria o leitor] criticar, tio Beto? Logo o senhor que fala tanto em inclusão e tolerância?

Minha ocupação como escritor não é fácil. Eu tenho uma postura diante da prostituição e da pornografia que é bastante distinta do que se costuma a ler entre pensadores [e feministas] de esquerda. Então, caro leitor, uma crítica nem sempre é para derrubar algo, mas é também para melhorar, para aperfeiçoar.

Vamos cortar o queijo. Falar de ou sobre algo em nosso mundo que não envolva dinheiro de alguma forma é ingênuo demais. As diversas religiões e crenças tem uma conduta bastante peculiar diante do comércio e da venda de produtos e serviços para um público que tem suas necessidades espirituais.

Amor e relacionamento não poderiam ser diferentes. Lembram quando eu falei de prostituição e pornografia? Pois bem, aparentemente nossa sociedade, que tanto apregoa o Livre Comércio, não se dá bem com o comércio do sexo e com os profissionais do sexo.

Eu vejo reações aparentemente similares entre a direita e a esquerda querendo acabar com a prostituição e a pornografia, o que é bastante curioso o padrão duplo de moralidade dúbia que geralmente orbita nos textos que abordam esse interessante e vibrante entretenimento social.

Mas por que [perguntaria o leitor] você escreveria justamente sobre o relacionamento sugar daddy/sugar baby?

Causou um profundo mal estar recentemente quando a página “Meu Patrocínio” publicou uma matéria apontando a atual Primeira Dama [Marcela Temer] como sendo um “exemplo” de uma sugar baby bem sucedida. Marcela não devia ficar tão envergonhada de sua condição, afinal, nós temos outras sugar babyes bem sucedidas. Luciana Gimenez, por exemplo.

Interessante e digno de notar é que uma página semelhante americana fez o mesmo com Mellania Trump, sem que ninguém protestasse. Nós somos realmente um povo carola, conservador e recalcado.

Aqui no Brasil existe o “Meu Patrocínio” e Jennifer, a responsável por essa página de relacionamentos, diz que dinheiro não precisa ser tabu, mas em outro texto dessa página há a preocupação de estabelecer uma diferença entre o relacionamento sugar daddy/baby e prostituição. Ora, se dinheiro não precisa ser tabu, essa distinção é desnecessária e eu conheci muitas prostitutas que desenvolveram relacionamentos estáveis e duradouros com seus clientes.

Em outro texto da página, definem sugar baby como um estilo de vida. Ora, um estilo de vida que para existir é sustentado por sugar daddys está mais para um comércio do que um estilo de vida. A própria página define o relacionamento como um arranjamento com benefícios mútuos e isso envolve o investimento em dinheiro [daí o nome “patrocínio”] do sugar daddy no “estilo de vida” de sua sugar baby. O mais provável é que o “estilo de vida” da sugar baby depende da “mesadinha” que ela recebe de seu sugar daddy, senão acaba. Todo o “projeto de vida”, todos os planos futuros de uma sugar baby dependem desse patrocínio, então ser uma sugar baby acaba tornando-se uma profissão.

O medo e receio de confundir esse relacionamento com prostituição é tão grande que a página alega que isso não envolve sexo, mas quando eu experimentei essa plataforma, todas as fotos das candidatas sugeriam exatamente isso, então eu não engulo essa desculpa.

A página segue no texto jogando com alguns preconceitos e generalizações inconclusivas. Como a questão da “normatividade”, algo que sequer se pode discutir nos dias atuais, com tantas formas de relacionamento, mas isso não tem coisa alguma a ver com dar presentes ou a aparente mesmice dos relacionamentos “normais”. Cada um e todos os meus relacionamentos foram únicos em minha vida e eu tenho certeza de que o leitor pensa o mesmo dos seus. Presentes, agrados e surpresas sempre foram parte de meus relacionamentos e eu espero que o leitor tenha o mesmo costume.

A página comete outra falsa generalização e discriminação quando fala da diferença de faixa etária. Faz um bom tempo que esse tipo de discriminação etária não existe mais, pessoas jovens se relacionam com pessoas velhas nos relacionamentos “normais”.

A página comete uma falha visível quando fala em traição, alegando que “muitos sugar daddys” não são casados, o que deixa escapar que certamente existem os que são e já que falamos em acabar com tabus, que tal pararmos de julgar e condenar relacionamentos extraconjugais? Nós não estamos mais no século XX, na década de 70, quando traição e adultério ainda constituíam um escândalo social. A cada dia está ficando mais “normal” casais terem e assumirem seus “cachos”.

Os proprietários da página contam, orgulhosamente, que não há vergonha alguma nem que os encontros precisem ser secretos, mas rapidamente tiraram o texto que publicaram apontando Marcela Temer como uma sugar baby. Foi unicamente por ela e pelo que ela representa que eu decidi escrever sobre o que é uma sugar baby.

Um sugar daddy procura uma sugar baby não somente por querer companhia, ele a quer mais para servir como símbolo de seu status e alto poder aquisitivo. A sugar baby torna-se uma mera boneca, uma mera vitrine, onde o sugar daddy desfila sua opulência. A sugar baby reforça e ressalta o papel que a mulher encontra em nossa sociedade machista e patriarcal enquanto mero objeto para a satisfação do macho dominante.

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2 ideias sobre “Minha (quase) vida como sugar daddy

  1. Amores burlescos

    Li recentemente que o site abriu para ter sugar moms a pedido de mulheres querendo patrocinar homens. Tem uma matéria com depoimentos na coluna tab do uol… Quanto a preocupação constante com desassociar com prostituição deve ser para não cair na lei sobre ganhar dinheiro comercializando a prostituição…

    Resposta

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