Cai o sexto véu

– Sam… é você mesma?

– Claro que sim, meu amor.

– Eu… não entendo… eu estou confuso… você está muito masculina!

– Eu sou a mesma pessoa que você conhece e ama, John! Não comece com isso… foi isso que te afastou de mim.

– Não! Isso não está certo! Isso é impossível! Você era a garota mais linda e foi o seu pai que fez de tudo para eu ser expulso do Colégio Sacre Coeur!

– Oh, John, essa foi a mentira que você tem contado para você mesmo. Nessa época você era um garotinho pequeno, tímido e inseguro. De alguma forma, você se transformou nessa ridícula figura de militar.

– Minha cabeça está rodando… eu criei… uma falsa imagem de mim mesmo a partir de falsas lembranças?

– Infelizmente sim, querido. Mas não fique chateado, a grande maioria da humanidade está nesse estado.

– Sam… quem sou eu? Eu sou homossexual?

– Oh, meu amor… que diferença isso faz? Que importa qual é minha etnia, minha origem, o time que eu torço, a minha opinião política ou a minha religião? Quando duas pessoas se amam, não importam as diferenças, mesmo que sejam de sexo, gênero, orientação, identidade, preferência e até de idade. Pouco importa se nós somos solteiros, casados, divorciados, viúvos, não existem condições, limites ou proibições. Amor nunca diminui nem é dividido, apenas aumenta e multiplica.

– Mas… eu me percebo como homem, eu me vejo como homem e eu me sinto como homem!

– Sim, meu amor e eu te amo por isso. Você precisa desvencilhar essa noção de que seu sexo, seu gênero, sua identidade sexual e sua preferência sexual sejam interligados e decorrentes unicamente de seus cromossomos X e Y.

– Mas… não é isso que define um homem e uma mulher?

– Oh, não… esses cromossomos definem apenas seu órgão sexual. E mesmo esses cromossomos não são muito exatos, pois dão origem a pessoas que oscilam entre um amplo espectro sexual, as pessoas intersexuais. Como se isso não bastasse, ao longo do desenvolvimento, outros cromossomos e hormônios agem nas pessoas até que estas consigam ter consciência de seu gênero, identidade e preferência sexual. Uma pessoa não nasce nem homem, nem mulher, torna-se. A cultura e a sociedade tem uma enorme influência nessa formação.

– Então… você… quem é você?

– Eu sou a sua Sam, John. Eu sempre fui assim. Eu nasci assim e você me amou assim até criar esse problema. Eu sou uma pessoa transgênero. Para falar a verdade, a humanidade, em sua origem, em seu design original, era hermafrodita, então, dentro desse aspecto, a “aberração” são pessoas de gêneros distintos e definidos.

– Eu não entendo… o que é transgênero?

– Lembra quando eu te falei que algumas pessoas nascem sem ter um sexo definido, John? As pessoas intersexuais? Ninguém fala disso, mas quando pessoas como eu nascem, o hospital, a clínica, o médico, eles resolvem por conta própria nos “consertar” para que nós fiquemos dentro dos “padrões”. No meu caso, decidiram que eu era menino, mas eu sempre fui menina.

– Isso… é possível? Fizeram isso com você?

– Infelizmente sim, meu amor. Não foi uma cirurgia agradável e a minha foi gentil em comparação com outras. Tiraram pele e músculos para “completar” o que eles decidiram ser meu pênis e me entregaram para meus pais como sendo menino. Eu vivi minha infância como menino, embora demonstrassem ter preferência por coisas de menina. Você sabe, você lembra como era nessa época falar dessas coisas. Por anos meus pais ficaram arrasados achando que eu era homossexual, mas minha situação era mais complicada.

– Mas você… quando eu te conheci… no Colégio Sacre Coeur… você era a garota mais linda! Eu perdia o fôlego só de olhar para o volume que seus seios faziam no uniforme escolar!

– Antes de você me conhecer, John, aconteceu… meus quadris ficaram mais largos, eu comecei a desenvolver seios, até um dia que eu… menstruei. Meus pais piraram… acharam que eu estava doente, possuída… então decidiram me colocar naquele colégio de padres, para que “deus” me curasse. Eu achei que eu ia morrer… então eu te conheci… você me salvou de algo pior do que o Inferno Cristão.

– Eu? Mas… o que eu fiz?

– Você me reconheceu e me tratou como eu devia. Foi graças a você que eu comecei a perceber quem eu era, quem eu sou. Não foi um processo simples nem fácil, meus pais ainda resistiam e os “responsáveis” simplesmente se negavam a dar explicações. Muitas vezes eu pensei em desistir, muitas vezes eu tropecei, eu errei… mas eu ganhava coragem e forças com o seu amor. Mas você me abandonou… por que John, por que?

– Eu… eu não sei… eu acho…. um dia eu te vi trocando de roupa… oh, Deus, achei ter visto o Paraíso quando eu vi seus seios nus. Eu… eu vi… algo… aquilo… entre suas pernas… eu devo ter pirado, como seus pais.

– Seu bobo! Idiota! Cretino! Você me amava, me ama, ou não?

– Ai! Sam! Eu era um garoto! Nós vivíamos em um tempo complicado!

– Seu babaca! Que amor é esse? A despeito de todas as suas falhas, eu não estou aqui, pleiteando por você, diante da Deusa? Você me ama, encare o mundo!

– Ai! Sam! Oquei, desculpe por ser um babaca! Desculpe por não estar ao seu lado! Justo, eu, que tenho tanto orgulho de ser tão másculo, falhei com você. Homem que é homem, tem que ser honrado e corajoso. Eu sou homem com orgulho e devo apoiar quem eu amo.

– Então… você me ama… mesmo?

– Sim, Samantha Bremmen, eu te amo.

– Apesar de eu ser uma… “dama de paus”?

– Minha querida, eu te amo com tudo o que você tem.

– Uhu! Eu sabia! Eu te disse, não foi, minha Senhora? Ele me ama!

– Sim, meu anjo, eu ouvi. Eu sabia disso, mas sempre é bom ouvir os meus filhos e filhas admitirem isso. E você, Ryan? Que tal falar o que sente para a Agnes?

– Agnes… essa lembrança que guardo de você… foi real?

– Sim, Ryan. Tão real quanto esse momento que nos reencontramos.

– Puxa vida… mas por que Agnes? Eu era apenas um jovem caipira e você era quatro anos mais velha do que eu. Todos os homens da cidade ficavam atrás de você.

– Que pergunta, Ryan… por que não? Eu te achava e te acho lindo. Eu queria ter a minha primeira vez e eu sabia que você também queria. Nós praticamente crescemos e amadurecemos juntos. Nós éramos praticamente parentes. Eu não queria desabrochar nas mãos de qualquer estranho. Eu queria alguém especial, alguém único. Você é meu alguém especial, Ryan.

– Puxa vida… eu não tinha ideia… todos achavam que você era mais experiente.

– Bom, eu vivi em um lugar onde o sexo era algo bastante comum e rotineiro, então para mim era algo normal, natural e saudável. Mas uma coisa é ver e conhecer a técnica. Fazer na prática era outra. Nossa… como eu estava nervosa.

– E eu então? Eu achei que estava delirando quando você me levou para o celeiro, me jogou no monte de feno, abriu os botões de seu vestido e tirou minhas calças.

– Nossa… eu fiz assim mesmo? Com toda essa tranquilidade?

– A minha reação foi tranquila também… nós estávamos tão sintonizados e a fim um do outro, que tudo transcorreu com naturalidade.

– Isso faz sentido… eu nunca tinha visto seu negocio duro daquele jeito…

– E a sua estava bastante molhada…

– Ah, não me faça lembrar… que eu estou ficando com calor…

– Não fiquem inibidos, meus queridos. Deixe que a chama de vocês se consumam no amor.

– Hã… como eu posso te chamar?

– Que nome você quer me dar, John?

– Mãe… nós estamos felizes que nos abençoe com o amor, mas… e a humanidade? E o coitado do escriba e do leitor?

– Meu filho querido, eu estou onde sempre estive. Eu nunca irei mudar nem me alterar. Eu concedo incondicionalmente minha benção a todos que me buscam. Por ora, o medo, a ignorância, o ódio, a agressividade e a violência imperam. Esta é a forma como a humanidade dá ao amor. Tudo o que me interessa é a vossa felicidade. Quando todo esse desejo acabar, eu ainda estarei aqui. Quando a humanidade esgotar-se a si mesma, tendo alcançado o êxtase ou a extinção, eu ainda estarei aqui. Das cinzas, eu farei suas sementes germinarem, quantas vezes forem necessárias, até que cumpram com o propósito de suas existências. Eu tenho toda a eternidade. Inevitavelmente, vós ireis retornar a mim e verão minha face. Nesse momento, irão viver conforme a Verdade, onde o Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

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