Cai o quinto véu

– Isso… não é possível… como eu poderia estar vendo essa garota se eu estou prostrado?

– Oh, John… você estava indo tão bem… vai ficar nessa negação agora?

– Senhor, nós não estamos mais no mundo de Maya. Essa referência entre observador, observação e observado são parte da mesma ilusão.

– Do que está falando, soldado? Está caçoando de minha situação?

– Oh, pobrezinho… John, sua resistência diante da Verdade é que o está deixando confuso. Nem todo o conhecimento que a sua gente produziu conseguiria explicar ou definir o evento que você mesmo está testemunhando.

– Ah… eu devo estar delirando. Eu devo ter sido infectado com algum vírus ou bactéria que está induzindo essas alucinações. Você deve ter me contaminado, soldado.

– Senhor, o senhor escuta o que diz?

– Oh… isso é interessante, Ryan. Diga, John, como você pode distinguir o que é realidade da ilusão se sua percepção está sendo distorcida pela ação de algum patogênico?

– Pela própria sensação evidente! Aquilo que existe é palpável, quantificável, mesurável. Uma ilusão não pode ser apreendida pelos sentidos despertos, esmaecem feito sonhos.

– John, considerou alguma vez que isto que você considera “palpável” faz parte da ilusão? Você não está “tocando” o objeto, você está sentindo a reação em escala molecular, a repulsão entre os átomos que fazem o objeto e os átomos que fazem sua mão. Você não está “vendo” o objeto, mas uma pequena fração de luz refletida pela superfície do objeto, uma imagem, se preferir. Não se pode contar algo que não existe enquanto unidade autônoma. Mesmo o “peso” é resultado da interação gravitacional entre o objeto e o plano em que você está situado. E a gravidade não é concreta, John, mas uma energia, uma força, uma das muitas que existem no universo e que são usadas para “construir” a realidade.

– Isso é um absurdo esotérico embrulhado com pseudociência.

– Sua resistência está se tornando tediosa, John. Como eu posso demonstrar como é feita a sua “realidade”? Ah, sim, algo que vocês gostam muito – cinema.

– Garota maluca! O que cinema tem a ver com a realidade?

– Senhor, deixe-a explicar… eu quero ouvir.

– Obrigada, Ryan. Por um equipamento, vocês capturam a imagem encenada que, então, é transmitida para uma superfície. Na tela do cinema, a imagem que vocês veem é bidimensional, mas aquilo que foi filmado era tridimensional na origem. Apesar de ser uma imagem bidimensional, vocês sentem “entrar” no filme e aquilo que vocês veem é tão real quanto a sua “realidade”. Na prática, essa “realidade” do cinema é construída a partir da luz que é filtrada pelo equipamento. Vocês ainda não chegaram neste nível de desenvolvimento tecnológico, mas eventualmente conseguirão construir a realidade tridimensional a partir da luz filtrada por um equipamento. Isso é basicamente o que eu e meus irmãos e irmãs fazemos, nós “criamos” a realidade a partir da luz, da nossa manifestação.

– Isso… é impossível!

– Hmmm… foi o que vocês acharam quando começaram a aparecer as impressoras em três dimensões e a tecnologia avançou tanto que vocês estão “imprimindo” tecidos orgânicos. Quando vocês conseguirem sair de suas inibições e melhorarem a tecnologia de células tronco e clonagem, vocês poderão “criar” seres humanos inteiros, como nós mesmos fizemos, milhões de anos atrás.

– Somente Deus pode criar vida!

– Oho… então você finalmente admite que está diante de uma entidade suprema?

– Nunca! Jamais! Eu acredito apenas em Deus Pai e em Cristo!

– E cá estamos nós de volta à estaca zero… vocês são tão estúpidos assim?

– Eu te peço, Deus Aeon… tenha pena e misericórdia do major! Eu também fiquei confuso, aturdido, contrariado e resistente diante da Verdade! O major precisa apenas de mais tempo.

– Ahá! Tempo! Existindo o tempo, existe o espaço, existe o mundo e a realidade!

– Senhor, não me envergonhe… foi uma mera figura de expressão. O senhor ainda não está desperto, então “tempo” é algo que ainda faz sentido em seu contexto. O senhor precisa… como posso dizer melhor… se adaptar ao que seus sentidos estão percebendo… isso parece melhor… afinal, o senhor “define” aquilo que é “realidade” pelas percepções apreendidas de seus sentidos.

– O que você diz não tem sentido algum, soldado! Se não vamos nos fiar naquilo que percebemos, qual a referência?

– Senhor, quando falamos em “realidade”, nós damos a esta o valor de “verdade”. Ora, senhor, nós estamos diante da Verdade, então vem desta aquilo que podemos considerar ser a realidade e não o oposto.

– Hmmm… essa foi muito boa, Ryan.

– Obrigado, Senhora.

– Ahá! Mas a garotinha ali disse que nós fazemos essa realidade! Então tudo isso que eu estou vendo e experimentando, bem como tudo o que ouço, são fruto do meu desejo! Desejo não é realidade!

– Esse humano ouve mesmo o que fala?

– Eu sinto vergonha de ser Pai dele.

– Está tudo bem, meus queridos. Ele até que falou certo, embora não tenha atentado ao que disse. John, o seu desejo, o poder que te faz capaz de construir sua realidade vem de mim. Então o desejo é a realidade. Eu te concedo incondicionalmente seja qual for o teu desejo.

– Senhor… por curiosidade… como a descreveria?

– Como eu a vejo? Qual a relevância?

– Isso parece bastante óbvio, senhor. Ela é a Verdade, mas a forma como nós olhamos para ela irá variar, como a luz que fraciona ao passar por um prisma.

– Oooh… essa foi MUITO boa, Ryan.

– Isso é uma bobagem relativista…

– Mesmo assim eu gostaria que a descrevesse, senhor.

– Bom… um metro e sessenta… cabelos alaranjados… olhos verdes… que estranho… ela veste uma roupa do Colégio Sacre Coeur… ela se parece muito com Samantha… uma garota que eu conheci no ginasial.

– Ohooo… então o senhor durão machão conhece o amor! Provavelmente ele mesmo se causou uma desilusão amorosa e fabricou para ele essa falsa imagem que mantém a respeito dele mesmo.

– Senhor, por mais difícil que seja, esta Samantha que o senhor conhece é um reflexo Dela. Aos meus olhos, ela tem uma pele cor de açúcar mascavo. Ela é Agnes, a minha ama de leite.

– Isso não faz o menor sentido, soldado! Como ela pode ser pessoas completamente diferentes?

– Oh, meus queridos, eu fico feliz que vocês gostem do que estão vendo. Eu sou a mesma, John, mas vocês são diferentes, então seus desejos são diferentes, portanto, vocês me verão conforme uma de minhas manifestações, eu terei a forma da garota que vocês amam.

– Isso continua a não fazer sentido. Eu conheci Samantha no ginásio há vários anos atrás. Eu estudei no mesmo colégio que ela, no Sacre Coeur, um colégio de padres. Foi ali… que minha vida mudou…

– Oh, John… eu sei como você sofre. Mas você não tem que alimentar esse sofrimento. Toda essa mágoa e rancor que te aprisionam só permanecem porque você os cultiva.

– Isso… isso não importa mais! Passou! Eu superei isso!

– Então porque ainda se agarra a esse passado, John? Por que se agarra a essas memórias? Por que mantem esses sentimentos que te são tão prejudiciais?

– Porque… foi imperdoável… meus colegas… ela…. Samantha… eu a perdi…

– John, você não a perdeu porque ela nunca foi tua posse. Ela está onde sempre esteve. Você está onde sempre esteve. O Agora é Eterno. Vocês se encontraram e se encontrarão muitas vezes nessa espiral da existência. Basta que você vire o seu rosto e diga a ela o que sente. Ela te aguarda ao seu lado.

– John? Você me ouve John?

– Sam?

– Oh, sim, meu querido! Desperte e viva pela eternidade ao meu lado!

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