Cai o quarto véu

– Amor? Garota, isso está completamente ultrapassado. Eu ouvi isso quando eu era garoto, lá na década de sessenta, no século vinte. A senhorita devia ver a expressão no rosto de meus pais quando eu disse a eles que eu iria seguir a carreira militar. Vocês são todos hipócritas. Falam em um mundo igual para todos, em amor, mas discriminam e não toleram certas ideias.

– Então tudo é sobre você? Você é o centro do mundo e o universo roda em volta do seu umbigo? Oh, John, você construiu uma bolha de segurança em torno de você mesmo e reage a qualquer coisa que te tire de sua zona de conforto.

– Hei, garota, não tente descontar sua raiva em mim. Eu apenas pertenço ao grupo dominante, nós conquistamos esse espaço. Eu não tenho culpa se você está no grupo mais fraco.

– Senhor, eu não recomendo provoca-la…

– Está tudo bem, Ryan. Eu não sou inconstante e insegura como Yahveh. John, você não pertence ao grupo dominante. Você é o cachorrinho deles. E seus donos estão perdendo o controle que acham possuir. Todos os reinos e impérios surgem e sucumbem. Porque estão baseados em força, medo, ignorância, submissão e opressão. Poder não é possuir, mas conceder.

– Há! E quanto a essas criaturas ajoelhadas diante de você, garota? Eu não sei o que são, mas devem ser seus servos submissos.

– Hmmm. Um argumento interessante, John. Diga, Aeon, você é meu escravo?

– Senhora… eu FUI um escravo. Eu servi Mithra enquanto ele perfilava como Deus diante de Gregos e Romanos. Eu vi quando César declarou-se divino e Mithra o aceitou como seu similar. Eu vi quando eles tornaram o Cristianismo a única religião no Império Romano. Eu vi quando a Igreja de Roma suplantou violentamente sua própria gente impondo um monstro com pedaços do Deus de Israel, do Deus Persa, de Mithra e de César divinizado. Nisso consistiu o Deus Cristão. Por dezenove séculos do mundo humano cometeram-se diversas atrocidades usando este falso deus como desculpa. Isso maculou a minha pessoa, pois eu sou o Espírito do Tempo e o Senhor das Eras. Então eu fui “dispensado”, descartado, pelos falsos senhores desse mundo. O homem criou o seu próprio tempo. Eu me tornei uma mera alegoria esquisita do conhecimento oculto. Eu me tornei uma mera efeméride comemorada uma vez ao ano, na virada do ano. Eu não era mais escravo, mas não era livre, nem tinha um propósito. Quando o homem começou a quebrar a redoma que ele construiu a si mesmo, ele começou a procurar por coisas mais consistentes além dele mesmo. O homem tem procurado saber mais sobre suas origens, suas raízes e o Caminho do Bosque Sagrado reapareceu. Nessa ocasião eu conheci o verdadeiro Deus desse mundo e foi ele que me trouxe até Vós. Eu me ajoelho porque eu Vos reconheço, minha Senhora, não porque Vos sou submisso ou seja Vosso escravo.

– Hei, você, de máscara de leão… por que não me diz seu nome verdadeiro ou mostra sua verdadeira face? Qual é, cara, seja homem! Mostre para essa garota quem manda! Ajoelhado desse jeito, você parece mais um mariquinha!

– Grrrr…

– Senhor… isso é assédio moral típico de garoto de quinze anos.

– Deixe, Ryan. Seu amigo é divertido. Ele sequer percebe como está expondo seus medos e inseguranças. O machão dominante tem que espancar, bater, humilhar e desprezar tudo aquilo que desafia sua falsa ideia de identidade. Percebe que você acaba de confirmar aquilo que eu disse, John?

– Há! Aposto que agora vai despejar aquela baboseira feminista! Blablabla, privilégio do homem branco heterossexual… blablabla… sexismo, patriarcado, machismo e mais blablabla.

– Oh, John… consegue perceber sua reação? Sempre que algo ameaça seu mundinho pequeno, você se retrai e responde com mais violência. Onde está o macho dominante? Toda essa sua agressividade, ódio, vem de seu medo, de sua insegurança, de sua ignorância. O único lugar onde suas ideias são aceitas é dentro desse seu Nirvana particular. Não são suas ideias que não são aceitas nem toleradas. Suas concepções sequer podem ser consideradas opiniões, mas sim preconceitos. Suas ideias são tão estapafúrdias e tão cheias de incoerências que não se sustentariam em um debate. Não são suas ideias que não são aceitas ou toleradas, é você que não aceita ser contestado, questionado, criticado. Suas ideias são como um feudo onde você se fecha cada vez mais dentro delas.

– Hei, eu não sou inseguro, nem temo quem quer que seja. Eu não estou aqui, bem diante da senhorita? Eu não me curvo, nem me ajoelho diante de você. Eu estou bem consciente e seguro de quem eu sou. Eu não caio nessa bobagem de psicologia inversa.

– Senhor… para um militar o senhor está usando um termo que o senhor sequer conhece.

– Hahaha! Ryan, seu amigo é realmente engraçado. Quando algo serve para sustentar suas idiossincrasias, ele as usa, mas convenientemente ignora o resto do conhecimento evocado. O mesmo acontece com as demais formas de perceber o mundo em sua volta. Vamos, John, não deve ser tão ruim sair de dentro dessa sua caixinha. Eu estou te oferecendo uma perspectiva imensa sobre o seu mundo, sua vida e sua realidade. Será que o senhor machão tem coragem de desafiar e vencer seus limites?

– Limites? Senhorita, eu estive na Etiópia, Coréia e Vietnam. Eu lutei pela liberdade e democracia nesses países. Eu enfrentei um tanque com uma pistola automática.

– John, tudo isso que você fez demonstra como você é sexualmente inseguro consigo mesmo. Para quem falou em psicologia, devia saber da simbologia que a psicanálise traça entre armas e o pênis. A arma serve como uma extensão e até mesmo como uma compensação do falo. A insatisfação sexual é emulada pela agressividade e violência. Isso deve ser bem… frustrante… para um macho dominante, não é?

– Mais bobagens, conversinha mole, sofismas. Se você não fosse uma simples garotinha eu te mostrava que eu sou muito homem.

– Oohhh… escutou essa piada, querido? Ele se diz homem.

– Sim, meu amor. E eu estou bastante decepcionado com esse filho meu. John, eu sou o Sagrado Masculino. Não tem como você ser mais homem do que eu. E mesmo assim, como todo ser vivente, eu tenho em mim um lado feminino.

– Hei, cabeça de bode, não venha com essa conversinha fiada de Ideologia de Gênero. Homem é homem, mulher é mulher.

– Senhor… isso também é uma ideologia de gênero.

– Hahaha! Boa! John, Ryan está anos luz à sua frente!

– Soldado, respeito! Eu sou seu superior!

– Senhor, eu o respeito, mas o senhor não é meu superior. O senhor ocupa uma posição que lhe concede algum poder, mas o senhor não possui o poder.

– Ouch! Essa doeu até em mim!

– Obrigado, meu Senhor e Deus Verdadeiro.

– Soldado, conhece este homem com máscara de bode? E que bobagem você está dizendo? O poder é de quem o conquista.

– Oh, John… força e poder são coisas completamente opostas. E nenhum tem coisa alguma com possuir. O teu governo mantem-se no poder pelo uso da força exatamente porque não o possui. Você está em uma ocupação que, por estar na mesma empresa de Ryan, pela estrutura dela, te concede algum poder sobre o Ryan que, pela ocupação que ele está, o coloca na obrigação de te obedecer. Isso não é poder, é submissão. Poder é quando alguém lhe segue ou lhe presta reverência incondicionalmente. Meus queridos dobram os joelhos diante de mim porque eles reconhecem em mim o poder. Eles o fazem por vontade própria, voluntariamente.

– Uma enorme bravata. Eu ainda estou de pé diante de você.

– Está mesmo, John? Ryan, seu amigo parece confuso. Como ele está diante de mim?

– Prostrado, Senhora. Com ambos os joelhos no chão e com olhos marejados de vergonha e humildade.

– Hã? Eu estou… chorando? Como se eu estivesse pagando penitência? Que bruxaria é essa?

– Oho! Será que seu amigo percebeu algo?

– Eu duvido, Senhora. Ele é do tipo que, se vem da Igreja, é um ato de Deus, mas se vem de outro lugar, é bruxaria, coisa do Diabo.

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