Cai o segundo véu

– Muito cuidado com o que diz, soldado. Muito do que você diz pode ser considerado um indicio de traição. Nossos superiores ficarão incomodados com vários trechos de suas declarações.

– Então nos temos um problema, senhor, pois eu estou simplesmente relatando a verdade. Alem do que, esta é a tônica da mensagem que está contida nos vídeos compartilhados milhares de vezes.

– Eu estou ciente disso. Talvez seja este o motivo pelo qual o Comando Geral me designou para este caso. A nossa nação tem orgulho de sua fundação, um país baseado em uma Constituição, formulada pelos nossos patriarcas, estabelecendo os princípios básicos da democracia moderna.

– Desculpe, senhor, mas esta é mais uma das Piedosas Fraudes que nós fomos forçados a acreditar, sustentar e reproduzir. Como podemos ter orgulho de nossa nação se ela foi fundada no genocídio dos povos aborígenes, cujos remanescentes ainda lhes negamos os direitos civis mais básicos? Como nós podemos dizer que nosso país é baseado em uma Constituição se nós mantivemos a escravidão por tantos anos? Como nós podemos dizer que vivemos em uma democracia moderna se nossa sociedade nitidamente privilegia o homem ocidental branco e cristão? E eu sequer falei de nosso sistema político e eleitoral que, evidentemente, não representa o sentido de uma democracia moderna.

– Cuidado, garoto. Eu sou um militar que vem de uma época onde esse tipo de crítica era severamente punida. Ainda existem setores do Exército que pararam na Guerra Fria. O senhor pode ser facilmente acusado de ser Comunista.

– Desculpe, senhor, mas esta é mais uma das divisões criadas pelos ricos e poderosos para nos manter submissos. Nossa espécie surgiu há um milhão e meio de anos atrás, mas a propriedade privada surgiu junto com as primeiras civilizações há apenas cem mil anos. Ou seja, por mais de um milhão de anos a nossa espécie viveu uma forma de Socialismo, de Comunismo, sem ter tido conflitos ou guerras.

– Você aprendeu isso com essa garota misteriosa? O senhor ainda não foi claro nesse aspecto. Quem era essa garota e como ela poderia saber de nosso passado longínquo?

– Eu posso continuar meu relato? O que eu testemunhei pode perturbar ainda mais o senhor e certamente irá incomodar os poderosos.

– Se isso esclarecer a identidade dessa garota e o conteúdo de suas declarações, eu creio que nós não temos outra opção senão prosseguir.

– Eu estava chocado e confuso. Eu estava diante daquela garota que era protegida por criaturas fantásticas e acabei de ver diante de mim aquele que nós, tolamente, consideramos ser o nosso Deus.

– Foi nesse momento que você deixou de ser cristão.

– O problema, senhor, é que nenhum de nós pode ser considerado cristão, visto que seguimos um fantasma inventado e nossa crença é baseada em textos forjados.

– Oquei, garoto, eu entendi essa parte. Prossiga.

– Está confuso e chocado, Ryan? Vocês, humanos, são extremamente convencidos e arrogantes, mas todo esse conhecimento de que tanto se orgulham é uma mera bolha de vidro.

– Senhorita, você diz que me conhece e que me aguardava. Eu fui conduzido até aqui por estas criaturas e acabei de ver algo inominável. Bom, eu estou em desvantagem. Como que você, uma garota, mais nova do que eu, pode me conhecer e saber de onde eu vim?

– Você acredita mesmo que estas paredes são concretas? Você acredita mesmo que o tempo e o espaço onde você está situado são reais? Você parece com um peixinho dourado que, depois de nascer e viver em um aquário, se depara com a vastidão do oceano. Isto que você considera ser a realidade, Ryan, é uma caixinha muito pequena, formada pela confluência de meros três vetores, dentre inúmeros que existem no universo e que se deslocam flutuando sobre uma quarta base, que vocês chamam de tempo. O engraçado é que vocês efetivamente acreditam que o tempo flui em uma linha reta, quando na verdade ele transcorre mais como uma espiral e sua “realidade” transita nesse rio mais feito um náufrago. Como podem querer desvendar os mistérios do universo, da vida e da existência com uma perspectiva tão restrita e limitada?

– Senhorita, não há como negar os fatos. Eu vejo, eu ouço, eu respiro, eu toco e sinto aquilo que é real. A realidade é bem evidente e concreta.

– Oh… entendo… então, se eu suprimir seus sentidos, sua “realidade” deixa de existir. O que pode acontecer então, Ryan? Desprovido se seus sentidos, você vai deixar de existir? Essas paredes vão deixar de existir? Sua falsa noção de tempo e espaço vão deixar de existir? Eu não existirei? Eu vou te conceder isso, Ryan.

– Senhor… ela apenas piscou os olhos… e eu me vi no meio de lugar algum. Apenas uma imensidão de um vazio branco. Eu ainda sentia minha respiração, minha pulsação… ou ao menos isso que assim nós chamamos… eu ainda sentia eu mesmo, meu corpo, mas… não tinha dor, sofrimento, peso, fome, sede… eu não sei como descrever esse estado, senhor, mas eu creio que nós estávamos em um estado de existência pleno. O senhor pode não entender ou perceber isso no momento, mas este cenário, o senhor, estavam… melhor dizendo… o senhor está aqui também, na borda da bolha que separa o mundo humano do mundo divino.

– Como assim, soldado? Está querendo me convencer que eu estou com o senhor nesse exato momento compartilhando essa sua experiência extrassensorial?

– Senhor, eu não tenho nem preciso convencer-te de coisa alguma, eu apenas estou relatando um fato. No momento adequado, o senhor compreenderá.

– [suspiro] Soldado, essas declarações não fazem o menor sentido e eu terei que declarar que são fruto de seus delírios causados por estresse. Por favor, seja mais claro e assertivo. O senhor ainda não identificou a garota misteriosa. Aparentemente ela foi capaz de induzir o senhor em um estado hipnótico, mas isso não a identifica nem esclarece o conteúdo de suas declarações.

– Bom, senhor, goste ou não, queira ou não, o senhor está bem aqui ao meu lado, nesse exato momento, nesse mesmo local, com as criaturas e a garota. Ela está sorrindo bastante… ela deve estar se divertindo.

– O seu amigo está adormecido, Ryan. Não tente despertá-lo. Você é um de meus escolhidos, não ele.

– Senhorita… que truque é esse? Eu consigo ver e perceber outras pessoas além de mim, eu consigo ver e perceber outros tempos e locais… o que significa tudo isso?

– Isso, Ryan, é a realidade divina. O seu mundo, a sua realidade, somente são possíveis porque são manifestações, emanações, de nossa existência.

– Então… o mundo em que eu estou vivendo… é uma prisão, um castigo?

– Oh, não querido. O mundo se configura conforme o vosso desejo. Isso que vocês, humanos, chamam de realidade, é a imagem construída por vossas consciências. Foi o vosso desejo de existir carnalmente que assim foi feito. Foi o vosso desejo de encarnar em um ambiente propício que assim foi feito. Foram vocês que se fecharam em sua bolha de existência e voltaram suas costas a nós, Deuses. Vocês se colocaram no centro do universo e agora só olham a tudo de seus umbigos. Vocês teimam em não consumar o propósito de suas existências. Os meus irmãos e irmãs riem muito e desistiram de vocês, mas eu não, pois vocês são meus filhos e filhas muito queridos.

– Senhorita… pelo que diz e se expressa, eu devo considerar que você é uma forma de existência superior? No entanto, eu não te reconheço nem sei como pode dizer ser minha mãe. Ora, se você me aguardava, então eu te peço que esclareça esse enigma. Toda a história de meu povo é uma ilusão? Toda a minha história é uma invenção? Todos os momentos de minha vida são sonhos meus? Eu não nasci do ventre de minha mãe, não frequentei uma escola, não cresci, não entrei para a carreira militar? Eu não viajei por distancias até outro local e não cai nesse templo esquecido pelos homens?

– Meu querido, eu te conheço desde o ventre de sua mãe e até antes. A forma como você me vê é um reflexo do seu desejo mais profundo. Eu sou a Deusa do Amor, então aquilo ou aquele que for o seu desejo, eu te concederei, pois esta é a minha benção e eu a darei incondicionalmente. Vocês, humanos, ofendem a mim, a meus irmãos e irmãs, ao blasfemarem, querendo nos julgar pela dor e sofrimento que experimentam em vida. Tudo que vive tem dor e sofrimento e isto é uma condição natural da existência carnal. Vocês são os únicos chorões. A vida não tem que ser justa e viver não tem moral alguma. As coisas vão continuar a ser como tem que ser, independentemente de suas patéticas e limitadas considerações sobre o Bem e o Mal. Essas percepções são invenções humanas, é inconcebível reduzir aquilo que é divino para padrões humanos. A dor, o sofrimento, apenas persistem e tomam um aspecto pessoal porque este é o vosso desejo. O medo, a ignorância, o ódio, a insegurança, a frustração… só existem enquanto estes forem os vossos desejos. A pobreza, a fome, a guerra… todas estas coisas tornam-se reais pelos vossos desejos. Vós sois responsáveis. Desejem outra coisa e eu vos concederei.

– Pausa, soldado. Se eu entendi bem, nós somos os demiurgos desse mundo? Nós somos os responsáveis pela existência desse mundo tal qual nós o concebemos? Isso torna a nós todos similares aos Deuses!

– Esta é uma das verdades, senhor. Todos nós, a despeito de nossas diferenças naturais, possuímos a mesma essência, a mesma origem, a mesma possibilidade. Todas essas coisas que consideramos importantes como família, pátria, nação, governo… somos nós que definimos e decidimos qual forma tais coisas terão. E isso, senhor, é o que os poderosos não querem que saibamos, este é o motivo pelo qual minhas declarações incomodam tanto.

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