Arquivo mensal: janeiro 2017

Onde termina um caminho

Ningyo não tira os olhos de Obake e isso o deixa incomodado. Nisso o ser humano é admirável, ele se adapta a qualquer coisa, circunstância e ambiente. Na estrada que os levava a Edo, Ningyo estava intrigada com a aparência de Obake, bem mais humanizado, apesar de ainda ter dois metros de altura.

– Humano indiscreto. Por que me olha tão fixamente?

– Ué, porque você mudou de forma.

– Não há segredo algum nisso. Para nós, forma e aparência são coisas superficiais. Eu troco minha forma como sua gente troca de roupa.

– Mas está muito bom. Como você consegue imitar a forma humana?

– Eu tenho estudado e observado sua gente há um bom tempo. Foi fácil aprender seus hábitos, costumes e linguagem.

– Você consegue imitar uma mulher? Eu prefiro ter uma companhia mais feminina.

– Não. Eu não conheço o suficiente o seu tipo de animal. Eu precisaria estudar e observar para poder imitar direito.

– Ora, não deve ser difícil. Eu sou humana, eu não sou outro tipo de animal.

– Mas isso não faz sentido. Os Onis não separam os seus entre masculino e feminino. Nem fazem distinção por causa de características sexuais secundárias. Então eu terei primeiro que aprender como e porque sua gente faz esse tipo de distinção e o que isto significa em sua comunidade.

– Ora, isso é bastante evidente. O homem tem músculos, a mulher tem curvas. O homem tem força e vontade, a mulher tem sagacidade e delicadeza. O homem tem… hã… pênis e a mulher tem bumbum, peito e vagina.

– Então são diferentes. Sendo diferentes, são animais distintos. Eu não conheço seu tipo de animal.

– Puxa vida… eu nunca imaginei que eu teria que dizer isso a um oni… sim, nós somos diferentes, mas não somos distintos. Todo homem e mulher são descendentes da união entre um homem e mulher, então nós carregamos uma natureza dupla, masculina e feminina. O que acontece é que em cada pessoa, há a predominância de um grupo de genes, hormônios e fatores ambientais que nos tornam em um homem e em uma mulher.

– Então são iguais e não faz sentido algum fazer separação entre masculino e feminino, nem faz sentido dividir sua gente entre homem e mulher baseando-se apenas em características sexuais secundárias.

– Você… está tirando sarro da minha cara… não está?

– Sim, eu estou. Eu conheço bem o homem, mas não conheço a mulher. O que eu sei é que os homens tratam de forma diferente uma mulher. Quando um homem encontra dois homens, há certa distância, respeito, quase uma reverência. Quando um homem encontra duas mulheres, é como o predador avistando sua presa. Quando um homem encontra um homem acompanhado de uma mulher, esta é considerada um enfeite, um acessório, algo que é de propriedade do homem. Então para entramos em Edo sem sermos incomodados, o melhor é que eu mantenha minha forma assim.

– O que você disse é extremamente preconceituoso e machista, sabia?

– Esse é o mundo humano. Esse é o seu mundo. Por que o problema é meu?

– Humpf! Você não entende. Eu aposto que você não conseguiria ter a forma de uma mulher, mesmo depois de estudar e observar. Você teria que ser uma para entender. Ou teria que ser um homem para saber o porquê de nós sermos tão atraentes. Eu duvido que sequer saiba o que é amor. Eu duvido que você tenha um “alguém significante” em sua vida.

– Isso é… completamente irrelevante para avaliar a minha análise.

– Hei… sua expressão… você parece acanhado, envergonhado, embaraçado. Ohhh… então você tem um “alguém significante” em sua vida! Ah, conte para mim, vai?

– Você não vai parar de me incomodar nem de me perguntar se eu não falar…

– Não!

– Se isto te calar por algum tempo… eu conto. Eu… amo meu senpai. Oni sem igual. Muita inteligência, sabedoria, gentileza e bondade. Eu era ainda pequeno quando nós fomos apresentados. Eu era apenas mais um filhote entre tantos, mas senpai me notou. Eu tinha treino extra, senpai exigia sempre mais de mim, mas era uma forma que senpai tinha para dar a atenção que eu precisava.

– E ele ou ela… era bonito ou bonita?

– Isso vai dar um nó em sua cabeça… senpai é ambos, senpai é… como sua gente diz… transgênero.

– Uuooou… sim, é muito para mim. Confuso até para pensar que tipo de relacionamento vocês tem. Nós chamamos o amor entre gêneros diferentes de heterossexualidade e chamamos o amor entre gêneros iguais de homossexualidade. Seu.. sua… senpai é ambos os gêneros, então… isso é transsexualidade, eu acho.

– Vocês humanos complicam demais algo tão simples. Quando dois seres se amam, pouco importa seu gênero, seu sexo, seu estado civil, sua etnia, sua origem, sua religião… só o que importa é o amor.

– Heh… isso acabaria em confusão entre meu povo. Sabe, os relacionamentos não são apenas sobre pessoas que se amam. Entre meu povo, os relacionamentos refletem e reforçam as relações sociais de poder, prestígio e influência. O que explica muito minha atual condição e talvez o motivo pelo qual eu e meu comboio fomos atacados.

– Eu te contei sobre mim. Agora você me conta sobre você.

– Eu acho que você tem todo o direito… sabe, apesar de eu ser uma dama com ótima reputação em minha cidade, na corte real eu não sou mais do que uma mera cortesã, filha de cortesãs. Eu e minha mãe moramos em uma das muitas casas que pertencem à dinastia Hyuei, de quem somos aparentados, mas somos tratados como párias. Eu quero ir a Edo porque o herdeiro do xogum irá escolher sua futura esposa. Eu estou apostando tudo que ele irá me escolher, assim que me conhecer.

– Essa é uma aposta alta que quase lhe custou a vida. Eu ainda não entendo nem aceito como sua gente cria tantas divisões, baseadas em um suposto direito de nascimento, origem ou estirpe. Isso é incompreensível no mundo místico e impensável no meu povo. Eu conheço sua gente o suficiente para saber que seus atacantes foram meros peões. Os verdadeiros assassinos, os mandantes, devem estar agora contando vantagem entre si.

– Por isso mesmo que eu insisto em ir a Edo. Eles contam com a minha morte para seus objetivos escusos. A minha presença ali por si só irá causar muitos rumores e certamente irá provocar aqueles que conspiraram contra a minha vida. Eu lamento que eu tenha que me aproveitar de sua amizade assim, Okobe, mas eu precisarei e muito de sua proteção.

– Amizade? Eu sou seu amigo?

– Oh, sim… e bem grande… chame isso de intuição ou esperança. Assim que eu olhei em seus olhos, eu senti que eu podia confiar em você e que você me apoiaria.

– Hmmm… isso foi antes ou depois de você gritar que não era comida?

– Há-há-há… engraçadinho. Agora faça uma cara de homem sério, importante, rico e influente. Nós estamos próximos da entrada de Edo e tem dois guardas vigiando o portão.

– Vocês humanos são muito esquisitos se são influenciados pela aparência superficial.

– Bom, nós não temos olhos mágicos para ver a essência das pessoas…

– E eu duvido que vocês sobrevivessem se se vissem como eu os vejo…

– Qual é, Okobe? Está treinando para ser humorista?

– Alto lá! Senhor! Quem é o senhor? De onde vem? Qual é seu assunto em Edo?

– Boa tarde, oficial. Eu sou Kiokushin Nambei. Eu vim a Edo por ordem do próprio xogum, como podem ver pelos meus papéis. Eu fui incumbido para garantir que apenas damas de fino trato possam se apresentar ao herdeiro.

– Sim, senhor Nambei! Seja bem vindo a Edo! Perdoe a nossa abordagem. O governador nos pediu para ficar de olho, pois parece que salteadores tem roubado e matado viajantes pelos caminhos que conduzem a Edo. O senhor pode entrar, mas eu devo perguntar quem é a mulher que o acompanha.

– Eu não o recrimino oficial. Esse é o seu ofício. Esta mulher é minha assistente. Eu precisarei dela para examinar as candidatas. Seria indelicado e descortês eu as examinar pessoalmente.

– Co…com certeza, senhor! Perdoe por minha indiscrição! O senhor e sua assistente podem entrar.

Ningyo segurou o folego e a risada por vários metros até não aguentar mais.

– Quáááá! Você viu a expressão dele? Hilário, meu amigo, hilário! Esse oficialzinho certamente iria fazer muita questão se eu tivesse aparecido por conta própria, apesar da minha comitiva. Mas, conta para mim, Okobe, de onde você tirou esse nome? E esses papéis que são idênticos aos documentos oficiais? De onde tudo isso veio?

– Kiokushin Nambei foi o único ser humano digno que eu encontrei. Ele dizia ser samurai e que servia ao xogum. Quanto aos papéis… apenas folhas secas que eu colhi na floresta. O oficial viu o que queria ver.

– Oooo… então é verdade… os habitantes da floresta conhecem kokumajutsu…

– Nós apenas damos aos olhos dos humanos aquilo que seus desejos apreciam.

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O demônio e a princesa

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas isso não é dito por uma imagem. Eu vi diversas vezes essa arte onde um demônio ampara uma gueixa. Ele está crivado por flechas e o quimono dela está empapado de sangue. O que você, leitor, pensaria se visse essa cena diante de você? Várias perguntas devem surgir em sua cabeça, eu suponho.

Quem é ela? Por que ela está ao lado de um demônio [que os japoneses chamam de oni]? Por que ela não está com medo? Por que o demônio está ali, como que cuidando dela? Quem os atacou? Seria isto um amor proibido?

Uma coisa eu tenho certeza. A maldade vive dentro do ser humano. Não está em um monstro, nem em Satan, mas dentro de nós. Os descrentes blasfemam contra o divino perguntando por que há tanta fome, mas é o ser humano quem prefere estocar comida e ganhar dinheiro a alimentar sua própria gente. Somos nós quem transforma o arado em lança. Somos nós quem escolhe as bandeiras debaixo da qual nós justificamos nossa maldade.

Com essa arte, eu tenho dois personagens para fazer um conto. Eu vou precisar de dois nomes. Obake Youma pode ser o demônio. Ningyo Yurei pode ser a gueixa, que aqui será uma princesa. Eu não quero imitar ou parafrasear William Shakespeare, mas a arte lembra bastante Romeu e Julieta. Amor trágico. Amor dramático. Mas onde o amor está não há sofrimento, dizem os poetas.

Obake Youma vive nas montanhas de Kanagawa desde antes dos humanos ali chegarem. Ele pertence a uma categoria de seres que praticamente nasceram junto com o planeta que habitamos. Criaturas humanoides, mas com aparência de minerais, vegetais e animais. Que viviam harmonicamente com os seres incorpóreos que construíam este mundo. Todos os seres vivos viviam em perpétua paz, sossego e tranquilidade.

Então vieram os Kami, os Deuses, que ali assentaram seus lares e deles vieram seus descendentes, os humanos. Obake era criança, mas muitas das tribos nativas se puseram em guerra contra os Kami e seus filhos, porque sentiam que havia algo de errado na alma dessas criaturas nascidas neste mundo, mas tendo origem das terras além do sol. Como resultado dessa guerra, surgiram as ilhas que hoje perfazem o arquipélago japonês. Os Deuses reconciliaram-se entre si e formou-se um tratado entre as criaturas míticas e o ser humano, onde o solo foi dividido e traçado.

O ser humano cresceu e se multiplicou nas terras reservadas para as cidades. Apesar de terem o suficiente para seu sustento, o ser humano sempre quis mais, pois seu coração é vazio. Inevitavelmente, os primeiros reis com seus exércitos começaram a invadir e tirar das criaturas míticas seus lares. A tribo dos Oni não aceitou isso e declarou guerra aos humanos e Obake tornou-se um orgulhoso soldado, lutando contra o verdadeiro inimigo e origem de toda maldade: o ser humano.

Os Deuses da terra e os Deuses do sol não se envolveram nessa guerra, mas entristeceram-se ao ver seus filhos se matando. Do lado das criaturas místicas, havia colaboração e fraternidade, cada reino mágico respeitava e reconhecia a soberania um do outro. Mas do lado humano havia discórdia e ganância, os reinos viviam em disputas cruéis um contra o outro.

Obake era adulto quando nasceu Ningyo Yurei, a terceira filha de uma descendência de sete da dinastia Hyuei. Yurei vivia com sua mãe, em um dos muitos palácios da dinastia, mas entre os nobres e aristocratas sua família era considerada desonrada, pois pertencia a uma das muitas linhagens bastardas. Seu pai era o xogum, mas antes dela tinha seu legítimo herdeiro, Hyuei Ashinaga e sua irmã, Hibei Yoshikazu, filhos legítimos de esposas legítimas. Junkio Yurei, sua mãe, era apenas uma das cortesãs do xogum.

O destino de Ningyo era o de ser cortesã, de algum nobre ou aristocrata, mas nem ela nem sua mãe aceitaram isso. Sua família era rica e influente o suficiente por ser de uma longa linhagem de cortesãs conhecidas por diversas famílias da corte real. Lenta, mas firmemente, sua família construiu uma considerada reputação diplomática, sempre eram chamados para resolver as pendências entre os reinos. Assim Ningyo tornou-se uma princesa e isso é bom se esclarecer: o príncipe ou a princesa nem sempre é filho ou filha do rei, mas a pessoa “principal” de uma cidade, que por arte e política tem em mãos os destinos dos reinos.

Isso nem sempre foi fácil e agradável, especialmente pela condição desonrada de sua linhagem. Muitos senhores ficaram com raiva, inveja e rancor. A família Yurei sabia que muitos conspiravam pela sua ruína, senão por sua completa extinção. Tudo que precisavam era de uma oportunidade e de um motivo. O anuncio de que Hyuei Ashinaga , o herdeiro legítimo, pretendia em breve escolher e anunciar seu noivado com alguma jovem mulher de linhagem e virtude, despertou um alarme entre os conspiradores. De forma alguma o herdeiro legítimo poderia encontrar com Ningyo, pois seria um encontro fatal, Hyuei Ashinaga certamente acabaria enfeitiçado pela beleza de Ningyo. Seus territórios, seus privilégios, seus exércitos, seus títulos de nobreza valeriam menos do que um punhado de grama se isso acontecesse.

Os três patriarcas das famílias mais próximas ao xogum reuniram-se secretamente e, com muito dinheiro em jogo, puderam facilmente contratar mercenários, ninjas, ronins ou bandidos para “remover” esse pequeno transtorno de suas vidas. Com habilidade, indicaram ao xogum que a capital Edo [futura Tóquio] era o melhor lugar para tal evento e, por meios escusos, garantiram para que o convite chegasse às mãos de Ningyo.

Junkio, sua mãe, teve a preocupação de colocar na escolta de sua filha uma patrulha, mas feita de alguns soldados veteranos e camponeses. Camponeses largariam as lanças na primeira refrega e veteranos poderiam mudar facilmente de lado. Ningyo apenas riu da preocupação de sua mãe e confiou na proteção que ela teria do amuleto que carregava, um amuleto tido e considerado obra e manufatura divina. Homens podem falhar e vacilar, não os Deuses.

Quando seu comboio e escolta começaram a ser cercados por mascarados, Ningyo apenas espremia o amuleto nas mãos e repetia o mantra que o sacerdote lhe ensinou. Foi um massacre, humanos mataram humanos sem hesitar, sem qualquer peso na consciência. Ningyo ficou a encomendar sua alma, quando algo mudou. Os mascarados pareciam estar assustados com algo. Ela chegou a ver o teto de sua charrete ser arrancado por um mascarado e viu o brilho da ponta da lança e então um vulto. Gritos e som de sangue e tripas derramando. Seja o que fosse, ela era a próxima.

Obake não gostava de humanos. Os humanos eram barulhentos, grosseiros, folgados. Ele sempre conheceu e viu o humano como algo frio, cruel e insensível, sempre vestido com armadura e empunhando alguma arma. Ele nem ligou para os outros humanos que agonizavam diante do ataque feito por outros humanos. Ele estava interessado em ver o que tinha naquela “caixa”. Devia ser algo valioso para ser tão cobiçado. Obake olhou para dentro do que sobrou da “caixa” e viu algo completamente diferente e inusitado. Tinha o olhar assustado, mas não parecia ser agressivo ou ameaçador. Obake nunca tinha visto um humano vestido daquele jeito, nem com tal aparência.

Ningyo tremia inteira. Ela tinha ouvido muitas lendas sobre os habitantes das florestas, mas achava que eram apenas estórias de gente velha querendo assustar as crianças. Mas ali estava diante dela, algo grande como um urso, com chifres feito touro, garras feito tigre e presas como de um javali. Aquilo tinha ceifado sem nenhum esforço a vida dos vinte mascarados, mas não a atacava, apenas a olhava. Sem saber ao certo o que devia fazer ou falar, Ningyo balançou o amuleto diante de si, como se quisesse afastar ou exorcizar a criatura.

– Shen wanyshi.

– Eh… você fala?

– Oh… você fala. Humano inteligente. O que ou quem é você?

– Eu sou… Ningyo Yurei. Eu sou uma dama nobre da cidade de Kanagawa e eu estava indo para Edo, quando eu e meus homens fomos atacados. E você? O que ou quem é você?

– Eu sou Obake Youma, orgulhoso guerreiro da tribo dos Oni. Vocês invadiram os meus domínios. Embora eu esteja acostumado a ver sua gente se matar, eu nunca vi um animal como você.

– A… animal? Eu sou humano, viu, humano! Animal é você, seu… monstro!

– Humano diferente, mas igual. Acha que animal é insulto. Eu sou um monstro? Não fui eu quem quase lhe matou, Yurei.

– A….ah… é verdade. Perdoe-me. Eu devo te agradecer… Obake… obrigada por salvar a minha vida.

– Hum… não agradeça… eu ainda não decidi se você é inimigo ou não. Além do que, eu estou com fome. Diga, Yurei, você é comida? Você é alguma riqueza? Por que sua gente quis te matar?

– Aaa…aaaah? Não, não, não! Eu não sou comida! Você não pode me comer! Nem me vender ou trocar, como se eu fosse dinheiro! Eu sou gente, ser humano!

– Hahahaha! Humano engraçado! Eu vejo vocês prenderem e venderem sua própria gente, eu vejo vocês caçando e comendo animais. Por que gente é diferente? Você parece bem macia e suculenta. Eu vou te devorar!

Ningyo quis gritar, lutar, fugir, mas estava petrificada. Ela viu Obake se aproximar, suas mãos grossas e musculosas a pegavam como se ela fosse feita de papel e suas presas estavam cada vez mais próximas.

– Hei, humano… onde conseguiu este engenho dos Deuses?

– E…engenho… dos Deuses?

– Sim, esse objeto que você segura entre as mãos, pendurado nesse cordão. Como e onde conseguiu?

– E… e… eu ganhei de minha mãe, que ganhou da mãe dela e assim sucessivamente, por muitos séculos.

– Hum. Isso não faz sentido. Um engenho dos Deuses somente pode ser obtido pelos ferreiros místicos, ou por aqueles que têm sangue ancestral. Você vai me levar para sua família. Eu saberei se ganharam ou roubaram de seus legítimos donos.

– Eeehh… vamos combinar? Você me leva para Edo, que era meu destino e depois eu te levo para os domínios de minha família.

– Você é um humano insensato. Vai para Edo, sabendo que seus assassinos estarão lá.

– Bom, meu grande amigo, eu irei confiar que você irá me proteger de meus inimigos, senão você nunca saberá como eu tenho um engenho dos Deuses.

– Tem noção do que está me pedindo, humano?

– Bom… eu acho que uma criatura imensa, forte e inteligente como você saberá como concluir o destino que me aguarda.

Hollywood e os reacionários

Por inúmeros motivos, eu posso ser considerado de esquerda, mas em muitos quesitos eu seria considerado “herege”.

Diversos blogues, páginas e colunas de gente que tem uma visão politica nitidamente de direita [conservadora e reacionária] se deram ao “trabalho” de analisar e criticar o discurso de Meryl Streep no Globo de Ouro contra Donad Trump.

Donald Trump tem sido uma figura que tem suscitado comentários e críticas até da Mídia e de outras vozes da direita [certamente incomodados diante do monstro que criaram], isso Freud explica. Mas por que esses colunistas, articulistas e testas de ferro do Fascismo ficaram tão incomodados com o discurso de uma atriz de Hollywood, se há algum tempo atrás comemoraram, de uma forma quase orgásmica, quando Kevin Spacey disse que “a opinião de um ator sobre política não importa merda nenhuma”?

A opinião de um ator passa a ser importante quando este reproduz ou reforça o sistema, como vimos quando esses mesmos indivíduos espalharam o discurso de Ary Fontoura feito no Domingão do Faustão, durante o vergonhoso linchamento midiático da presidente legitimamente eleita que ajudou a consolidar a conspiração/golpe que engendrou esse governo usurpador.

Eu peguei e analisei algumas destas postagens.

“Pouco precisa ser dito sobre a confusão brutal entre “imigrantes” (a América foi feita por eles) e “imigrantes ilegais“, que Meryl Streep trata como se fossem uma única categoria, o que gera algumas pequenas confusões sinápticas”. [Senso Incomum]

Hmmm… interessante como é feita a distinção entre imigrantes. Até onde sabemos, os primeiros colonos que vieram fugidos da Inglaterra para a América NÃO eram imigrantes legais… então Donald Trump vai devolver a América aos nativos, seus legítimos donos?

“Se ela está preocupa com deficientes, por que se calou diante da agressão praticada por quatro esquerdistas que torturaram um deficiente mental em Chicago na semana passada?” [Ceticismo Político]

Apenas por curiosidade… por que atentam ao detalhe da agressão ao jovem deficiente físico e não que ele era policial? Por que a agressão de repente é de “esquerda”, só porque, supostamente, os agressores foram identificados como “eleitores de Hillary”? Por que não focaram que os agressores eram negros? Será que é porque a violência policial nos EUA é igual à violência policial brasileira, uma violência voltada apenas para pessoas de etnia negra?

“Para Morgan, essa declaração é ridícula, pois menciona simplesmente as pessoas mais ricas e privilegiadas da sociedade americana: os artistas de cinema”.

“…um site conservador produziu evidências em vídeo de várias outras instâncias onde ele fez exatamente o mesmo gesto se referindo a pessoas sem qualquer deficiência enquanto as atacava”.

“Para destacar apenas um exemplo da hipocrisia chocante de Streep, o que aconteceu com os Oscars de 2003 quando ela pulou de um salto e deu ao violador romano Roman Polanski uma ovação de pé depois que ele foi anunciado como vencedor do Melhor Diretor do Pianista?”. [Ceticismo Político]

Os americanos tem uma expressão interessante: cherry pick. Utilizado quando um interlocutor “pinça” aquilo que é interessante [ou importante] para embasar seu discurso, mas descarta aquilo que é desfavorável.

Meryl Streep não está se referindo aos artistas, mas aos imigrantes. Um pouquinho de interpretação de texto vem a calhar.

Meryl Streep é uma funcionária de um estúdio de cinema de Hollywood, não é ela quem decide ou quem faz os filmes. Esperar que ela critique Hollywood é como esperar que Donald Trump critique Wall Street.

Donald Trump não precisava fazer esses tiques e mimetismos. Donald Trump é igualzinho ao garoto valentão. Se vocês acham normal e aceitável ele fazer troça de qualquer um, independente de ter deficiência ou não, vocês tem problemas sérios de empatia e humanidade.

Meryl Streep não é juíza e antes de condenarem Roman Polasky, que tal lembrar que Donald Trump em pessoa disse que “faria” Ivanka Trump se ela não fosse filha dele?

“Ela apenas se esqueceu que o MMA também foi levado aos EUA por imigrantes. Rorion Gracie, a pessoa que começou tudo, era um imigrante também”. [O Reacionário]

Nops. Os confrontos de artes marciais mistas apareceram nos EUA bem antes dos Gracies.

E o Dana White apenas confirmou: esporte. Há uma diferença entre esporte e arte. Arte não é apenas treino e técnica. Falar que MMA é arte é o mesmo que dizer que o Coliseu era uma pinacoteca.

O que incomoda mesmo os reacionários é que Meryl Streep é mulher e é vista como “uma deles”, ou parte da mesma elite que eles defendem. O que os reacionários não entendem é que não é preciso ser pobre para ter empatia e humanidade. As pessoas que tem uma posição política dita de esquerda não precisam fazer voto de pobreza, eles não são franciscanos.

Então a impressão que fica é que a gritaria e crítica dos reacionários contra a Meryl Streep é apenas mais do mesmo: distorção e omissão dos fatos, tendenciosismo, desonestidade intelectual.

O sexo como profissão

Vez por outra eu recebo comentários toscos, ridículos, infantis e sem noção de militantes feministas me atacando desmioladamente quando o tema é prostituição, pornografia, liberdade sexual feminina e ganhar dinheiro com sexo. Entre as alegações dessas extremistas, temos que a prostituição e a pornografia são – na visão delas – um “estupro generalizado e institucionalizado das mulheres”. Eu já escrevi muitos posts tratando sobre esse assunto, inclusive escrevi uma série só falando sobre a legalidade da pornografia. Em todos esses posts, eu sempre enfatizei a pornografia e a prostituição em si, mas nunca coloquei em discussão as razões para tantas feministas radicais atacarem insistentemente essas modalidades de entretenimento adulto. Portanto, este post aqui vai ser justamente para que eu apresente uma resposta para a origem desse comportamento anti-sexo de tantas supostas feministas.

Sim, existem feministas que são anti-sexo. Elas são contra qualquer manifestação sexual feminina fora do casamento e que não esteja dentro dos “padrões”. E se esse sexo envolver dinheiro, pior ainda. Eu não vou aqui debater sobre os argumentos estapafúrdios usados por essas feministas sem noção, até porque eles são uma cópia descarada do que os fundamentalistas religiosos usam por aí há séculos. O que eu quero abordar, como já disse anteriormente, são as causas desse comportamento radical e irracional. A principal razão – como muitos já deduzem facilmente por aí e que muitos machistas usam para provocá-las – é o fato de que muitas delas são “mal comidas”. Eu iria até mais longe, eu diria que a vida sexual dessas mulheres é horrível e elas devem ter trabalhos horríveis onde ganham um salário horrível. Ora, a razão principal para odiarem tanto a prostituição e a pornografia é porque tanto em uma como em outra é possível que uma mulher fique muito rica em pouco tempo apenas fazendo sexo sem tabus. Ou seja: atrizes pornôs ficam milionárias rapidamente apenas transando e seduzindo homens – o contrário perfeito dessas militantes anti-sexo que são frígidas e ganham mal. Não há como esconder a inveja que sentem de ver uma atriz como a Sasha Grey, por exemplo, que transou loucamente em sua curta carreira e ganhou tanto dinheiro que se aposentou aos 25 anos. Sasha Grey fez apenas sexo e ganhou o suficiente para nunca mais precisar trabalhar na vida aos 25 anos! Como que querem tratar uma atriz pornô como coitadinha? Só podem estar de brincadeira.

Outra razão para haver tanta militância anti-sexo é que muitas dessas feministas são cristãs conservadoras. Só isso já diz tudo. Onde que o cristianismo vai apoiar o sexo fora do casamento? E a última razão é que algumas dessas militantes possivelmente devem ter sofrido abusos sexuais e acham que todo sexo heterossexual é estupro. Claro que tem as doidas que são contra futebol, cerveja, videogames, prostituição e pornografia porque o público majoritário disso tudo é masculino – então elas militam contra essas coisas para provocar, irritar e até se vingar dos homens (reduzindo o assim o entretenimento privilégio deles).
A dica que eu dou para essas debiloides fundamentalistas é que elas procurem transar mais para tentar esquecer um pouco da vida sexual de mulheres que ficam ricas só com sexo. Eu até entendo que a pornografia mainstream e a prostituição priorizam o prazer masculino, mas uma coisas é você propor mudanças, outra coisas é querer o fim disso tudo só porque você não gosta.

E antes que alguma pessoa argumente que há exploração das mulheres pela indústria pornográfica e pela prostituição, alegando isso ou aquilo, eu concordo que há sim exploração – mas acontece que a exploração abusiva do trabalhador no mundo é muito mais generalizada. Há exploração em todos os lugares onde exista o capitalismo. E isso vai desde a mão de obra semiescrava das fábricas chinesas indo até os rockstars que são explorados pelas gravadoras e empresários mal intencionados. Mas militar apenas contra a pornografia, o bdsm e a prostituição mostra somente que o sexo em si é algo que incomoda particularmente essas militantes. Elas não reclamam de trabalho escravo nas lavouras, do trabalho infantil ou das péssimas condições de trabalho em certas indústrias. Só querem reclamar de mulheres adultas que transam por escolha própria em troca de dinheiro. E vão me desculpar, mas essa militância anti-sexo é uma anedota vinda de gente que ao invés de estar transando e sendo feliz, fica querendo controlar os corpos e as decisões das outras mulheres.

Original do “Ideias Embalsamadas“, autoria do Wellington Fernando.
Eu gostaria muito que minhas leitoras [feministas ou não] opinassem.

Deus Ex Machina

O fim da tarde estava anunciado pelos tons laranja do sol que acenava do horizonte para nós. Eu estava encarnado em meu avatar furry em Nayloria, um animal hibrido entre leão e serpente, sendo alegremente conduzido por estes que, por força do hábito, eu devo definir como “meus” personagens.

– Ai… eu espero que Tommy não estrague nossa festa.

– Vanity… você devia ter, ao menos, avisado seus pais…

– Que nada. Papai adora quando vocês vão para lá. E os meninos adoram a atenção que minha mãe lhes dá.

Riley, adiantada, toca a campainha. Claire Red atende a porta, com um sorriso. Atrás dela, John Red está fatiando uma pizza.

– Riley! Meninas! Meninos! Entrem… John, peça mais pizzas!

– Imediatamente, meu amor. E aí, pessoal, eu peço cerveja também?

– [coletivo] Siiiim!

– Ah! Temos gente nova… quem é esse garoto e esse senhor?

– Senhora Red, esse garoto é Osmar e esse senhor é o escriba.

– O… o escriba? Aimeudeusdocéu… eu não sabia que o senhor viria… entre, sente-se, fique à vontade.

– Sim… isso mesmo… vinte pizzas… um caixote de cerveja… escriba, quer whisky?

– Hã… não, obrigado. Desculpem por bagunçar a casa de vocês.

– Bobagem. Não é sempre que “personagens” conseguem interagir com seu “criador”.

A galera se espalha pela sala e cozinha, enquanto esperam pelas pizzas e cervejas. John parece intrigado com Osmar, que é paparicado pela Riley. Vanity não tira os olhos de mim e do caderno de anotações. Gill fica de olho na Vanity e as demais meninas tentam entreter os meninos.

– Então, pessoal… qual a razão para todos virem nos visitar hoje?

– Nós viemos hoje para fazer um trabalho escolar. Nosso professor de literatura nos pediu para fazer um resumo, resenha, análise e comentários sobre o livro “A Arte de Ser Normal”.

– Mesmo? Nossa. A avó da minha avó leu isso. Esse seu professor… gosta de literatura da época primitiva?

– Ele diz que é para alunos que moram em outras regiões e cidades nem tanto inclusivas ou evoluídas como Nayloria.

– Isso é louvável. Mas por que trouxeram o escriba?

– Ah, quem melhor do que ele para transcrever nossas conversas para o mundo que fica do outro lado do mundo virtual?

A campainha toca e John Red paga ao entregador enquanto os meninos ajudam a pegar a encomenda. Eu ajudo as meninas a montar a mesa.

– Eu estou curiosa, escriba. Como é o processo de escrever? Você inventa tudo?

– Então, senhora Red, um escriba que se preze é, antes de tudo, um bom mentiroso. Inventar é muito forte, um mentiroso não inventa, troca os nomes, os lugares, as pessoas. Ao escrever o escriba é transportado para outra dimensão. Um escriba é mais um médium do que um encantador de palavras. Eu percebo vocês e esse mundo tão reais quanto o mundo de onde eu venho. Mas eu tenho que ter cautela, pois eu sempre trago comigo o leitor e eu nunca sei como será a reação do leitor. Então eu acabo filtrando muita coisa que eu ache que vai ofender o leitor. O leitor é o espectador silencioso, mas bem que eu gostaria de ouvi-lo.

– Ah! Isso explica por que Lisa, a autora, apesar da boa vontade, parece dizer que os personagens transgêneros precisam ser “consertados”?

– Eu acho que sim, Riley.

– A parte que mais chamou a minha atenção é que parece haver certa atração entre David e Leo. Por que a autora não explorou esse aspecto?

– Eu não tenho certeza, Osmar. Talvez só a ideia de que existam pessoas transgênero seja muito difícil para ser compreendido. Faria um nó na cabeça dos leitores se Lisa fizesse David e Leo namorarem.

– Mas seus contos exploram diversos aspectos nesse sentido, não é?

– Oh, sim… o mundo de onde eu vim é, para este mundo, o que vocês chamam de época primitiva. Nós ainda vivemos no século XXI, mas com inúmeros tabus antiquados provindos de séculos anteriores.

– Ah, que sorte! Eu tenho estudado a Era Moderna da Humanidade há algum tempo. Pode nos dizer quais são esses tabus?

– São muitos… houve um período que era tabu pessoas de etnias diferentes se relacionarem. Em alguns casos, as diferenças de origem, de religião, de opinião política, constituíam em proibições. Relações entre pessoas do mesmo gênero ainda são socialmente condenadas. O mundo de onde eu vim ainda está resistindo ao fato de que existem pessoas intersexuais, de que existem pessoas transgênero. Ainda persiste o padrão binomial de gênero e o relacionamento monogâmico. Ainda vigora o conceito de que a família é unicamente a constituída pela união heterossexual. Eu vivo em uma sociedade hipócrita, com um padrão duplo de moralidade… ao mesmo tempo que condena, estimula e permite a existência da prostituição e da pornografia, em formas amenizadas e permitidas, o sexismo e o fetichismo, vívidos nos meios de comunicação de massa.

– Deve ser bastante confuso… sua gente é constantemente bombardeada por essas mensagens ao mesmo tempo que são controlados, oprimidos e reprimidos sexualmente pela moralidade ambígua dessa sociedade.

– Muito confuso. Meninos são estimulados a serem cafajestes e meninas são estimuladas a serem donzelas. O sinônimo de sucesso é ter diversas conquistas, em termos materiais e amorosos, ao mesmo tempo em que apregoam como ideal o amor romântico monogâmico. Falar que o jovem tem sexualidade e tem capacidade de consentimento é uma heresia muito perigosa, a despeito da moda e da propaganda constantemente promoverem o erotismo infanto-juvenil.

– Nossa cultura que empodera todos os indivíduos, sem distinções, para que sejam capazes de se expressarem, é impensável em seu mundo?

– Infelizmente sim. Quase não existe educação sexual. Ainda é escasso a orientação sexual. Toda uma geração de “adultos”, cheios de problemas, recalques, frustrações e traumas estão tendo que conviver e aceitar toda uma nova geração de “jovens” que estão vivenciando, na prática, as ideias da “Revolução Sexual” que meus avós defendiam.

– Senhor escriba… é verdade que o senhor é favorável que se acabe com a discriminação etária e que a sociedade aceite as relações interetárias?

– Sim, senhorita Kurage. Nós passamos muitos anos lutando pelos direitos civis aos negros, aos hispânicos, às mulheres… está na hora de nós lutarmos pelos direitos civis das crianças e dos adolescentes. Mas o tabu mais difícil de superar consiste nessa ideia absurda de que a criança e o adolescente é uma criatura inocente, ingênua e assexuada. Daí que todo e qualquer relacionamento interetário será sempre visto pela sociedade, indiferentemente da capacidade e do consentimento das partes, como sendo abuso sexual, senão estupro.

– Isso não faz sentido… não é verdade que toda civilização nasceu ou de um incesto ou de um estupro?

– Não existiria a humanidade sem adultério. Mas a humanidade tem rejeitado seu corpo, seu desejo, seu prazer, sua natureza, sua sexualidade, em nome de uma religião inventada de um deus estrangeiro.

– Nossa… isso parece até… Squaredom… ou com Tommy.

– Pois então, Vanity… até no Mundo Furry, na utopia de Nayloria e Yffyburg, existem indivíduos como o Tommy. Imagine no meu mundo.

– Então… Osmar não poderia namorar com Riley… Vanity não poderia se divertir com sua própria família e eu não poderia sequer pensar em me aproximar do senhor Ornellas…

– Não… senão o senhor Ornellas seria preso. Eu não poderia estar entre vocês…

– Que ridículo. Eu sou suficientemente amadurecida, consciente e capaz de decidir. Quem decide isso é a natureza, não uma estúpida convenção social.

– No meu mundo, Vanity, eu sequer poderia ter qualquer tipo de relacionamento com sua mãe… mesmo que ela quisesse…

– Hmmm… nesse caso, por que você não se muda para Nayloria, escriba? Os meninos são legais, mas eu gostaria de ter mais um homem em nosso clube da amizade.

– He…hei! senhora Red! Pare de se insinuar assim!

– Ânimo, escriba. Aqui nós levamos a sério que sexo se aprende em família. Você é bem vindo em nossa família. Você tem o dever de ensinar a todos. Olha, eu não vou conseguir dar conta das meninas, eu vou precisar de ajuda.

– Por favor, senhor escriba, aceite! Eu quero ser uma boa amante do senhor Ornellas!

Eu não resisto aos pedidos. Esta é a forma de acabar com o conto, apelar para o Deus Ex Machina. [editado para evitar censura]

Personagens secundários

Minnie e Daisy saem no portão do colégio enquanto os demais alunos vão saindo, indo para suas casas, por ônibus, por carona ou no carro de parentes.

– Cadê o pessoal?

– Sei lá. Ah, os meninos estão chegando.

Três garotos saúdam as meninas, mas sem as olhar, pois procuram avidamente por sua rainha. Seria enfadonho ao leitor citar falas de três personagens que estão abaixo dos personagens secundários.

– Poxa… que demora… falando nisso, cadê a Gill?

– Ela ficou de ir convidar o garoto novo para fazer parte da nossa galera.

– Peraí… o garoto novo não estava com a Riley?

– Sim, estava… a Gill vai achar os dois em algum canto… e vai chegar aqui vermelha como um tomate.

– Alguém me chamou?

– Oi, Gill, amiga! Você não morre tão cedo.

– Está atrasada! Onde está o garoto novo?

– Vem vindo bem atrás… ué… estava comigo há pouco… e Riley também…

O som de duas vozes em altercações furiosas aproxima-se do grupo. Gill corre, pois Riley e Vanity parecem que vão se pegar para valer, enquanto Osmar faz de tudo para tentar acalmar os ânimos.

– Poxa, gente, de novo? Por causa dessa briga de vocês, nossa reunião está atrasada.

– Eu que o diga! Eu até ralhei com a Gill, de tão acostumada que eu fiquei com os atrasos dela…

– Pois que vocês saibam esperar! Eu sou a presidente dessa galera. E eu tenho que lembrar constantemente para a vice-presidente quem manda aqui!

– Hahaha! Você e que exército, tampinha?

– Qualquer um é tampinha para você, gigantona!

– Não, só para anões insignificantes!

– Gente, vamos parar? Aposto que vocês nem se lembram por que estão brigando!

[Vanity e Riley]- Osmar!

– E…eeeu?

– Essa… ogra estava dando uns catos no MEU Osmar!

– Hahaha! Osmar não é seu! Um garoto fino e requintado como ele não pode ficar com uma elfa ridícula.

– Essa “elfa ridícula” vai acabar com a tua raça, ogra!

– Vemvemvemvem!

– Pare com isso as duas! Ou eu não falo mais com nenhuma das duas!

– Isso mesmo! Além do que, pelas regras da galera, quem brigar perde seu lugar, o que faz de mim a presidente e eu ordeno que parem imediatamente!

– Epa… peraê… desde quando a Gill é a terceira no comando?

– Ahem… EU sou a secretária e tesoureira. O que vocês fazem?

– Bom… hã… nós… hã…

– Nós mantemos os meninos controlados!

– Controle não é exatamente o que vocês fazem com os meninos.

– Tudo bem, tudo bem. Eu estou calma. Eu proponho a primeira pauta.

– Hei, eu assumi a presidência!

– Tudo bem, Gill. Como vice-presidente eu quero começar nossa reunião. Depois nós votamos para presidente.

– Ahem… como eu estava falando… eu proponho votarmos pela admissão de Osmar como nosso novo membro. Todos a favor digam eu!

– [coletivo] Eu!

– Isso conclui e encerra a questão. Seja bem-vindo, Osmar. Segunda questão. Todo novo membro precisa de um responsável, um veterano. Eu me candidato.

– Eu também me candidato.

– Antevendo uma enorme discussão, eu também sou candidata.

– Gill?

– Eu ainda sou a terceira em comando…

– Puxa vida, nem parece a Gill tímida que conhecemos!

– Eu não tenho culpa se vocês confundem educação e elegância com timidez.

– Que seja, vamos votar.

Na folha de um caderno, Gill anota os nomes das candidatas e os membros da galera dão suas escolhas. Ficam todas empatadas. O voto de desempate cabe ao Osmar.

– Osmaaar… vote em mim que eu vou fazer coisas muito gostosas com você…

– Hei! Impugnação! A candidata está tentando induzir o eleitor!

– Correto, Riley, mas é você quem está bolinando o Osmar. Eu teria que impugnar sua candidatura, mas isso não seria certo, pois eu estaria tirando vantagem. Osmar, você tem que escolher.

– Hã… senhorita Vanity, eu gosto da senhorita, mas você não faz o meu tipo…

– Yessss!

– Como é que é?

– Senhorita Riley… eu gostei muito do tempo que passamos juntos, mas o que eu sinto por você não pode estragar essa galera…

– Hã? Como é?

– Haha! Tomando o gosto do próprio veneno, Riley?

Os meninos fazem uma expressão esquisita, tentando entender como alguém pode não querer coisa alguma com Vanity e como a mesma pessoa pode querer algo com a Riley. Mas ficam esquisitos mesmo quando começam a pensar neles sendo os “veteranos” do Osmar. Mesmo que no fundo eles gostem da ideia, eles precisam manter essa fachada de masculinidade que construíram com tanto cuidado. Minnie e Daisy dão um passo adiante, oferecidas como sempre, mas Osmar as dispensa também, com uma mão nos quadris e outra acenando negativamente com o dedo.

– Nops. Vocês precisariam evoluir muito. Eu quero uma pessoa que me entenda e respeite. Gill, eu quero que você seja minha senpai.

– Hããã? Quêêêê? Eeeeuuuu?

– Oui, s’vous plait.

– Humpf. Tanto faz.

– Osmar esperto… você sabia que a Gill é minha melhor amiga e, com isso, vai passar mais tempo comigo, certo?

– Não, senhorita Riley. Eu escolhi a senhorita Gill por que ela e eu temos algo em comum. Eu espero que nós dois possamos trabalhar juntos com nossas limitações e desafios. Ela, assim como eu, tem uma paixonite pelo professor novo.

– [coletivo] Quêêêê? [desmaio coletivo]

– Ah, que coisa mais chata. Personagens secundários e outros coadjuvantes servem apenas como complemento de cenário. Senhor escriba, mate-os logo.

– Hei, eu estou incógnito nesse episódio! E eu não sou Georges Martin!

– Mas… quem deixou esse escriba entrar aqui?

– Ele está querendo enganar o leitor, enchendo linguiça com textos inúteis.

– Eu jamais afirmei coisa alguma…

– Não! Mas nos usa para expor suas ideias ao público!

– Ainda não são afirmações… eu deixo para o leitor decidir.

– Ai, gente, vamos parar com essa metalinguagem que eu estou sentindo dor de cabeça?

– Sim, vamos deixar o escriba entre nós. Que ele ofereça um espelho onde o leitor possa encarar suas próprias pulsações e libidos que nem ao padre ele confessa.

Essa tal timidez

O sinal do intervalo tocou. Graças a Deus! Eu estava morta de fome. Como sempre, Vanity e Riley ficam se encarando, enquanto o pessoal fica na expectativa se vai ter briga. Eu espero que não, porque sou eu quem sempre as separa. Minha barriga ganha a discussão, eu vou ao pátio do colégio para comer.

No meu guia de sobrevivência eu anoto tudo o que pode fazer com que eu me preserve de encrencas. Quando eu cheguei ao Colégio Le Petit Prince eu tinha várias páginas anotadas desde que eu aprendi a escrever no primário. Então eu conheci Vanity e a galera, bagunçando todas as dicas.

Até que esse pessoal é deboas. Eu quase não lembro do ginásio em Squaredom. Sabe como é. Garota acanhada, tímida, com pouca autoestima e roupas estranhas. Ah, você sabe. Provavelmente você zoou com uma ou foi zoado por ser assim. Eu queria ser forte como a Riley ou decidida como a Vanity. Mas eu sou eu, Gill.

Meu cantinho favorito fica na sombra de uma árvore que luta arduamente contra o muro que teima em abraça-la. Bem longe do campinho e dos meninos, bem longe da cantina e das meninas fofoqueiras. Eu abro meu bentô e fico com água na boca com o cheiro que chega ao meu nariz. Mamãe caprichou. Daqui a pouco chegam a Minnie e a Daisy querendo um pedaço. Ainda bem que mamãe sempre põe um pouco mais.

Os meninos param de jogar bola quando Vanity aparece no pátio. Assovios, gracejos, piadinhas e palavras de duplo sentido. Eu fico com vergonha, mas não Vanity. Eu não vejo Riley ao lado dela, nem Minnie ou Daisy. Ah! Lá está Riley, mostrando o colégio para o garoto novo. Bonito. Eu sinto minhas bochechas queimando só de pensar nisso.

Outras risadas tiram o pensamento de minha cabeça. O professor novo está conversando com Minnie e Daisy. Elas estariam paquerando ele? Isso me faz lembrar de minha prima, Kokonoe. Ela deu tanto em cima do professor dela que os dois acabaram tendo um caso. Se fosse em Nayloria, falariam alguma coisa por alguns dias e mais nada. Mas foi em Tenzen, uma cidade cheia de tradições e proibições. O professor foi preso e Kokonoe foi para um reformatório.

As meninas deixam o senhor Ornellas em paz. Lembraram que tem que ficar puxando o saco da Vanity. Eu até hoje não sei por que elas me aceitaram na galera. Riley está definitivamente dando em cima do garoto novo. Eu me dou conta que meus pés estão indo na direção do professor novo. Eu estou louca?

– Hã… senhor Ornellas?

– Sim, senhorita Kurage?

– Desculpe minha indelicadeza e me perdoe se eu estiver te ofendendo… mas é verdade?

– O que é verdade, senhorita Kurage?

– Que o senhor teve um caso com a duquesa de Varennes.

– Ora, que coisa. Eu não sabia que isso tinha chegado até aqui. Senhorita Kurage, eu tenho a honra e o privilégio de amar a criatura mais divina nesse mundo. Por capricho da Fortuna e do Destino, tal sublime existência corresponde ao meu amor. Por que a pergunta?

– Olha… eu não tenho coisa alguma com isso… eu apenas… fico pensando… não houve problema no relacionamento de vocês?

– Problemas? Entre nós? Eu duvido. Eu passei alguns dias na prisão de Desmoyne, mas por questões políticas.

– Então… o senhor não foi preso por causa da diferença etária entre vocês?

– Hmmm. Essa é uma boa pergunta. Eu não sei responder, Kurage, pois não há consenso quanto ao que é considerado qual é a idade de consentimento ideal.

– Bom… se o senhor me permite… eu gostaria de sugerir… uma vez que estamos abordando as questões de gênero… talvez haja algum livro… que possa abordar relações interetárias e a discriminação etária.

– Essa é uma boa ideia, Kurage. Talvez, se o pessoal ficar animado, nós também possamos discutir questões sobre os diversos tipos de relacionamentos. Eu vou ver se a diretoria aprova. Eu te agradeço pela ideia. Agora eu acho melhor a senhorita atender a senhorita Red que acena vigorosamente nessa direção.

– Ah… é… pois é… a Vanity se acha a rainha do colégio. Obrigada por me ouvir, senhor Ornellas.

– Não há de que, senhorita Kurage. Eu estou à sua disposição. Sempre que quiser, venha conversar comigo.

Eu não sei por que fico flexionando como se eu ainda estivesse no Bairro Japonês. Faz tempo que aprendi que dizer “obrigada” é suficiente. Vanity acena feito louca me chamando. Eu vou cambaleando, minhas pernas bambeiam e meus braços tremem. Eu mal consigo me reconhecer. Eu consegui conversar com o professor. Eu! Euzinha! Eu falei com um homem! Será que ele me achou esquisita? Só uma olhadinha rápida por cima do ombro. Oh, Deus. Ele reparou. E ele sorriu. O que é que eu estou fazendo? O que é que eu estou pensando?

– Hei, Gill? Terra para Gill… terra para Gill… acorde, garota.

– Desculpe, Vanity. Oi pessoal. Qual o motivo dessa reunião?

– Bom, talvez eu convoque outra reunião para falarmos sobre como você está dando em cima de nosso professor…

– Hã… eu? Ah, não, nada disso…

– Sei… mas agora nós temos que pensar no que vamos fazer com Osmar e Riley.

– Como assim?

– Nós vamos trazer o Osmar para a galera ou não? Eu é que não vou deixar a Riley saborear sozinha esse sonho.

– Hã… gente… nós estamos falando de uma pessoa, não de um boneco ou um brinquedo.

– Ai, credo, Gill. Nós sabemos disso. Eu só acho que trazer o Osmar para a nossa galera seria legal.

– Eu voto sim!

– Eu também!

– Então a moção está aprovada. Gill, cuide de fazer o convite oficialmente.

– Hã… eu? Por que eu?

– Por que se for eu ou a Minnie ou a Daisy, a Riley vai espancar até virar carne moída. Mas você não. Você tem… imunidade.

– Bom, é verdade que Riley foi a minha primeira amiga desde… sempre… mas eu não prometo coisa alguma. Se ela perguntar algo, eu vou responder com sinceridade.

– Por isso mesmo que você é a garota ideal. Vai lá. Não deve ser difícil achar a Riley.

Vanity me vira gentilmente na direção da cantina e dá um tapinha no meu traseiro. Ela deve ser a única pessoa que toca meu corpo. Eu fico levemente ruborizada, mas eu meio que me acostumei a receber esse tipo de tratamento vindo da Vanity. Eu finjo estar brava, fungo, mas vou. Depois de tanto tempo no colégio, eu achei uma forma de passar desapercebida, quase invisível, para os demais alunos. Eu sou como um sorvete de baunilha no meio de um monte de sorvetes deliciosos.

Se eu fosse a Riley, aonde eu iria, aonde eu estaria… sobretudo se eu estivesse junto com um garoto que eu estou a fim? Não é segredo algum. Todos os alunos sabem os pontos de paquera. Que também são frequentados pelos professores. Eu sinto uma vertigem, pois me imagino ali com o professor Ornellas. Alguém me segura. É a Riley.

– Hei, garota, calma aí. Você está bem? O que você veio fazer aqui? Sozinha?

– O’ley… você está com o Osmar?

– Sim… quer dizer… não… talvez… sei lá… porque quer saber?

Riley consegue ser bastante ameaçadora quando quer. Vanity estava certa. Outra teria sido esmagada. Mas comigo ela é gentil. Alunos maldosos chegaram a falar que nós estávamos namorando. No fundo eu gostei da sugestão. Mas Riley tinha que manter sua fama de garota durona.

– O’ley… o negócio é o seguinte… a galera está convidando oficialmente para o Osmar fazer parte.

Eu falo com firmeza e decisão. Riley fica espantada ao ponto de esbugalhar os olhos e alinhar o corpo. Atrás dela, no canto, Osmar parece muito feliz, o uniforme todo amassado e o cabelo desgrenhado. Se Riley usasse batom, Osmar estaria coberto de marcas de beijos.

– Eu achei sensacional. Eu vou poder ficar mais tempo com você, O’ley. E eu vou ter mais amigos e amigas.

– Bom… então… eu acho que tudo bem.

– Nesse caso, senhor Osmar, o senhor está oficialmente confirmado como novo membro de nossa galera. Nós nos reunimos pontualmente todos os dias na frente do colégio, no fim das aulas. Esteja lá e não se atrase.

– Iupi! Eu tenho novos amigos e amigas! Obrigado, senhorita Gill!

Eu sinto Riley bufando de raiva, mas não há muito o que eu posso fazer. Osmar me abraça e me dá um carinho que eu não estou muito acostumada a receber. Meu corpo inteiro parece um vulcão. O que me deixa confusa, pois ele é ambos os gêneros. Isso faz de mim heterossexual ou homossexual? Comigo no abraço carinhoso de Osmar, isso não faz o menor sentido nem tem importância.