Cai o primeiro véu

– Muito bem, garoto, você estava em algum tipo de santuário que você encontrou naquele buraco onde você caiu durante sua ação naquela missão e encontrou uma garota. Depois, de forma misteriosa, você reapareceu na periferia de Mossul e começou a sua… pregação. Deve ter acontecido algo entre esses dois eventos que foi crucial para sua… transformação. Eu tenho a impressão de que eu irei me arrepender, mas a chave de tudo está nessa garota e no que ela te disse. Consegue recordar e recontar esse evento e as palavras dessa garota?

– Oh, sim, senhor. Mas… o senhor, como bom americano, é cristão? Eu temo que o que eu fale venha a te ofender, senhor.

– Garoto, coisa alguma pode me ofender. Concentre-se em relatar com exatidão seu… encontro com essa garota misteriosa. Isso é a chave de sua liberdade que pode custar sua vida.

– Então não me leve a mal, senhor, mas minha vida, a sua vida… a vida de qualquer ser vivo… está nas mãos de seres que, se me perdoe a ignorância, podem ser descritos como Deuses. Nós tendemos a definir a realidade, a existência, dentro de nossos padrões, como se nós fossemos o centro do universo e medimos o tempo e espaço conforme a nossa conveniência e percepção… oh, nós estamos tão errados!

– Isso não vem ao caso, soldado. Fale dessa garota e do que vocês conversaram.

– Mas aí que está o problema, senhor… como o senhor… como o Tribunal Militar poderá entender o que se passou se sequer compreendem o que eu declarei diante de diversas testemunhas?

– [suspiro] Prossiga,soldado…

– Eu estava diante daquela garota… completamente aturdido… como um garotinho diante da garota mais linda da escola. Ela me saudou dizendo que me aguardava. Eu, muito tolo e ignorante, a questionei. Eu lhe perguntei: “Como assim, você me aguardava? Como você sabe o meu nome? Eu venho de longe e eu receio que meu tempo esteja muito distante do teu”. Ah… ela soltou uma risada… e as paredes do templo balançaram.

– Diga-me Ryan, quantas pessoas estão presentes aqui?

– Eu, você e essas duas estranhas criaturas.

– Não fale mal de meus queridos amigos. Mas você está enganado, Ryan. Você não percebeu que estão conosco também um escriba, um leitor e o major John Wayne?

– Pausa, soldado. Como essa garota pode dizer que eu estou presente ali, se isso aconteceu mês passado?

– Senhor, não é delicado interromper a Deusa…

– [suspiro] Tudo bem, garoto, prossiga.

– Senhorita, eu tenho plena ciência de onde eu vim e quem eu sou. Eu estou momentaneamente desorientado porque eu caí em um buraco e encontrei esse local desconhecido, me deparei com criaturas fantásticas e agora me encontro diante de você, uma perfeita desconhecida. Pode me dizer quem é e o que está acontecendo?

– Tem certeza do que diz, Ryan? Engraçado como vocês, seres humanos, usam “desorientado” ou mesmo “desnorteado”. Então o Oriente é a direção certa? O norte é a direção exata? Isso é engraçado, porque você, sendo ocidental, tem aversão ao que é oriental. Mais engraçado ainda, é que você adotou um mito oriental, do Oriente Médio, dessa mesma terra que você e seu povo estão invadindo, muito embora suas raízes e origens sejam da Europa. Como pode adotar um falso deus e esquecer os Deuses de seus ancestrais? Olhe bem para suas origens e raízes, Ryan e descobrirá que mesmo Europa, a minha filha, que dá nome ao continente, nasceu nessa região. No meu ponto de vista, você nunca esteve orientado, você ignora completamente quem é e de onde veio.

– Eu sou Ryan Lennon. Eu sou um amerciano temente ao Deus Verdadeiro e acredito no Senhor Jesus. Eu sou um soldado do Terceiro Batalhão, Divisão Gavião do Deserto. Eu estou em missão para libertar Mossul. Este sou eu. Quem é você?

– Libertar, Ryan? Como você pode dar algo que não possui? Como seu povo pode se dizer como a maior democracia ocidental se vive invadindo outros países e impondo o seu modelo americano aos demais povos? Você e seu povo são marionetes. Pior, servem a grupos que detêm um poder que não lhes pertence. Você me pergunta quem sou eu? Você está diante daquela que é a Rainha do Firmamento, a Mãe dos Deuses, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino e ainda pergunta quem sou eu?

– Sim, eu te ordeno que se identifique, em nome do Senhor!

– Eu conheço todos os Deuses, Ryan e não conheço nenhum Cristo, mas que seja conforme teu gosto. Adiante-se e apresente-se diante de mim este que Ryan acredita ser o Deus Verdadeiro.

– Minha Senhora… minha Rainha… eis-me aqui. Não ouça esse humano. Eu não o conheço, nem conheço ao povo dele. Não é este o meu povo. E eu não conheço Cristo algum.

– Disso eu sei, Yahveh. Mas mesmo assim é necessário tirar esse véu que encobre a visão da humanidade. Por mais desagradável e repugnante que seja sua presença diante de mim, mostre sua verdadeira face aos humanos.

– Olhe bem para mim, Ryan… é isso… o que eu sou… apenas um verme espiritual. Essa é a minha aparência, por isso que eu proibi que os Hebreus fizessem imagens de mim ou dos Deuses. Como eu poderia manter o povo de Israel como o meu povo, mantê-los me alimentando com sua crença ignorante e cega, se não os enganasse, não os fizesse esquecer os Deuses de seus ancestrais? Olhe bem para mim, Ryan! Vê algo em mim que seja divino? Eu pareço mais com uma larva de mosca. Eu sou um resto do experimento que Enki executou ao gerar os humanos a partir da engenharia genética, quando ele deu aos Annunaki seus filhos e filhas. Isso mesmo, Ryan, vocês são mais divinos do que eu mesmo. Por isso que eu tive que enganar Abraão naquele monte. Foi Abraão e sua longa linhagem quem fez de mim o Deus do povo de Israel. Foi a crença e adoração desse povo que tem me mantido entre os Deuses. Mas nada disso irá mudar o que eu sou, Ryan.

– Mas… se você é Deus… e quanto a Jesus Cristo, aquele que você enviou para nos salvar da morte e do pecado?

– Ryan, Cristo é um título, não uma pessoa. Jesus, esse personagem, é mais mítico do que homem. Quer mesmo seguir a Cristo? Então você devia ao menos saber a palavra certa: Ha Massiah, ou Messias, em termos gentílicos. O Cristo verdadeiro era Magdala, a Suma Sacertotisa, a quem ensinava os Mistérios tanto a Judeus Helenizados quanto aos Gentios. Jesus, esse personagem, é resultado da amalgama de dois ou três rabinos que estavam mais próximos de Magdala e destes vieram os primeiros Nazarenos, de Notzri, “nova raiz”, que deram origem ao que seriam as primeiras comunidades cristãs. Infelizmente algumas comunidades foram dominadas pelos Judeus Helenizados, que forjaram os nomes de seus fundadores e atribuíram a estes a autoria de seus escritos sagrados… o Conhecimento se perdeu nessa disputa pelo poder. Isso que vocês, cristãos, chamam de Evangelhos, são uma abominação perpetrada por estes lideres espirituais, que estão usurpando dos Deuses e dos Mistérios o que lhes pertencem.

– Mas diz a Bíblia… que você tinha prometido um Redentor, um Salvador, um Messias, o Cristo, que veio para nos salvar da morte e do pecado…

– Por favor não me envergonhe diante de minha Senhora e Rainha, Ryan… sua preciosa Bíblia é uma blasfêmia. Aquilo que você chama de Velho Testamento procede da Torah, um texto sagrado Judeu que, tal como os Evangelhos, foi forjado por sacerdotes. Ainda que fossem minhas palavras, ali mesmo existem diversas pistas da farsa. Ali não diz que eu sou o Senhor do Povo de Israel? Então por que você, americano, me adora? Ali não diz que eu sou o criador de tudo? Eu criei o Bem e o Mal, eu criei Satan… e mesmo assim teu povo me adora? Como podem entoar cânticos a mim, se fui eu quem colocou a Árvore do Conhecimento no Éden e assim mesmo proibi aqueles que supostamente eram minhas criações de comer desse fruto? Como podem achar que eu posso lhes dar salvação e redenção da morte e do pecado, se tais coisas tua gente adquiriu depois da Queda que eu mesmo tornei possível de acontecer? Ali diz que eu enviaria um Emissário… Ha Massiah é mais anjo do que Deus e mesmo assim este viria apenas para o Povo de Israel, para restaurar o MEU reino! O que os Profetas falam é da restauração do Povo de Israel, do Reino de Israel, não de toda a humanidade! Você entende isso, Ryan? Você, seu povo, seu país… simplesmente ficariam todos de fora do “Novo Mundo”! E que Cristo fracassado é esse que não evitou a morte de tanta gente, por guerras feitas em nome dele? Cristãos mataram outros cristãos ou qualquer outro que professasse outras crenças… a promessa da cruz é vazia!

– Mas… e quanto ao pecado?

– Ryan, você está me constrangendo… acha mesmo que aquilo que um ser humano faz ou diz em sua curta vida pode ofender aos Deuses? Não, Ryan, não é possível. Sua gente tem dentro de si essa noção natural do que é certo e errado. Isso faz parte da natureza que é parte de sua essência, natureza e essência que é parte do DNA divino que vocês receberam. Sua natureza divina vive em conflito com sua natureza animal e disso advém atos e palavras que são consideradas falhas, erros, que suas consciências mesmos determinam e disso vocês mesmos convencionaram formulas e procedimentos, rituais, cerimônias, para purificar suas vidas desses atos e palavras. A falha, o erro, é pessoal; a redenção, a salvação, é pessoal e individual, algo a ser feito em vida, na presente vida, não deveria ser uma ameaça ou castigo para o outro mundo.

– Conte para o Ryan como toda essa obsessão com o pecado começou…

– Sim, minha Senhora… eu sou o autor disso… para minha vergonha e opróbrio. Eu tinha inveja e ciúme dos Deuses. Eu tinha vergonha e rejeição a mim mesmo. Eu achava que merecia mais, que podia ser igual ou semelhante aos Deuses. Eu tinha pouca autoestima e tinha uma imagem errada a meu respeito. Eu perambulei por Gaia em busca de algo que pudesse me equiparar aos Deuses e então eu encontrei Abraão naquele monte e usando da pouca força que tinha, eu fiz aquela sarça arder com um fogo fátuo. Abraão primeiro me tomou como um gênio local, um espírito protetor, que poderia servir como espírito patrono de sua família e assim iniciamos o nosso… comércio. Eu fiquei em pânico quando a família de Abraão tornou-se mais numerosa e tinha também os aparentados que começaram a me adorar como Deus deles. Eram um povo simples, humilde, ignorante, que vivia do pastoreio e de poucas colheitas… um povo que tinha uma preocupação zelosa com seus erros e falhas, pois acreditavam que sua vida, todo o sofrimento e dor que tinham, era resultante de uma maldição divina, provocada por algum ato de algum ancestral mítico. O Mito da Queda está presente em diversas culturas e povos, mas fui eu o único que se aproveitou disso para que aquele povo me tornasse Deus. Para minha própria glória, eu reneguei meus irmãos e irmãs… eu proibi aquele povo de adorar seus Deuses e os forcei a me aceitarem como o Deus deles, o Único Verdadeiro… então eu lhes dei de presente o conceito de pecado… eu criei o pecado…

– Mas Jesus… Cristo… ele não veio para nos redimir do pecado e nos dar a vida eterna?

– Caralho! Você está me escutando, humano? Cristo era mulher e morreu como todo humano morre! Tudo que é carnal, material, eventualmente há de voltar para sua origem! A alma sempre foi eterna! Como Cristo, ou eu mesmo, posso dar algo que não me pertence, nem é necessário? Como Cristo, ou eu mesmo, posso redimir de algo que só existe nas suas cabeças? Não há pecado, cacete! Apenas a sua compulsão, o seu medo, faz com que ainda exista o pecado e a necessidade de salvação, de redenção!

– Yahveh, sua explanação foi esclarecedora, mas não precisava usar termos chulos. Você está dispensado. Volte para o limbo, que é seu lugar.

– Sim… minha Senhora… desculpe meu linguajar, mas esses humanos… de vez em quando precisam ser sacudidos… eu volto para o lugar que me cabe, mas eu me disponho aos seus serviços, Soberana…

– No momento certo, Yahveh, no momento certo. Fique satisfeito por ter ajudado a remover o primeiro véu. Agora suma.

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