Um coelho no buraco errado

– Nós estávamos em nosso acampamento, em algum lugar a nordeste de Nínive e nosso plano de batalha era uma incursão e Mossul. Nosso comboio foi duramente atacado e acabamos nos dividindo. Eu acabei sozinho em Tel Keppe, me esgueirando por entre ruínas, enquanto tiros e bombas vinham de todo lado. Eu devo ter entrado no que sobrou de uma mesquita, ou algo assim, quando o chão abriu-se debaixo de meus pés. Eu caí naquele buraco escuro e devo ter desmaiado com a queda.

– Seu comboio foi atacado pouco depois de sair de Bardarash. Uma equipe de inteligência está investigando se houve algum vazamento interno ou se foi trabalho da polícia secreta do Estado Islâmico. O senhor consegue estabelecer quanto tempo o senhor permaneceu desacordado até recuperar a consciência.

– Aí que está, senhor. Tempo e espaço são uma ilusão. Meu corpo, o corpo do senhor, esta mesa, esta cadeira, esta sala de inquérito…. tudo isso que nós vemos, são ilusões, que nós cremos como sendo a realidade, por causa de sua aparência concreta.

– Isso eu terei que suprimir desse áudio. Deixe seus delírios esotéricos para outro momento, soldado. Prossiga com seu relato.

– Eu acordei em meio a escombros, o ambiente estava levemente na penumbra, quebrada por um pequeno facho de luz que vinha da superfície. Eu tinha minhas pernas fraturadas, senhor, várias escoriações, várias perfurações e eu respirava com dificuldade. Eu cuspi muito sangue ali, senhor. Felizmente meu treinamento tornou possível minha sobrevivência, eu entrei com o procedimento médico de emergência e isso foi suficiente para diminuir a dor e poder me levantar. Eu dei inicio ao procedimento de evasão do buraco, explorando o ambiente. Assim que meus olhos se acostumaram com a penumbra e com auxílio da lanterna fosforescente, eu pude ver que estava em algum tipo de edifício antigo, senhor, muito antigo, a considerar pela decoração e gravuras nas paredes. Eu perambulei até ouvir um nítido barulho de água corrente e comecei a me deslocar em ritmo de marcha em direção ao som. Então eu me deparei com uma espécie de antessala, um pórtico inteiramente coberto por cerâmica azul e dois archotes que ardiam nas laterais.

– Eu devo anotar que o senhor estava delirando, soldado?

– Senhor, eu tirei uma foto. Posso prosseguir?

– Sim… deixe a foto comigo… ficará no arquivo ultra-secreto.

– O pórtico abriu suas imensas portas e delas surgiu uma criatura com cabeça de leão. Aquilo olhou com desprezo para mim e disse: “Quem ousa invadir o santuário da Deusa do Firmamento?”. Eu não sabia quem ou o que era aquilo, mas procedi com a identificação básica que nós somos orientados a fornecer. A criatura também identificou-se: “Eu sou Aeon, o Espírito do Tempo desse mundo. Eu conheço tua gente e prevejo o vosso destino. Tua vinda aqui deve ter um significado. Siga-me, que eu irei perguntar ao Senhor do Mundo”.

– Eu devo imaginar que se relato e sua revelação seguirão estes delírios esotéricos, soldado?

– Senhor, eu tirei uma foto.

– Isso está ficando irritantemente repetitivo. Prossiga.

– Mais adiante, eu percebi que aquele pórtico dava entrada a algum templo extremamente antigo. Ainda tinha escombros, mas estava impressionantemente limpo e arrumado. Então a criatura me apresentou a outra criatura com cabeça de bode. Aquilo olhou com curiosidade para mim e disse: “Você não está mais em Kansas, Ryan”. Aquilo soltou uma gargalhada estrondosa. “Você parece confuso e surpreso. Você não me conhece. Seus ancestrais me conheciam, mas você foi educado e ensinado a adorar um falso deus. Venha, Ela o está esperando”.

– O senhor era aguardado, soldado?

– Sim, senhor. Na igreja falavam muito sobre as coisas acontecerem pela vontade de Deus. O que não dizem é que Deus é mulher.

– Cuidado, soldado, não blasfeme…

– Senhor, eu estou falando a verdade em meu relato.

– [suspiro] Como quiser, garoto. Prossiga.

– As criaturas me escoltara para a parte mais interna daquele templo, até chegar no que eu acho ser a câmara central. Aquele local estava ricamente decorado e no centro de tudo tinha um dossel que cercava uma enorme cama, onde aparentemente alguém dormia. O dossel era ricamente gravado com relevos e estava envolto com dezenas de véus de cor púrpura. As criatura apontavam para adiante, mas elas ficavam em silêncio, olhos baixos e ajoelhados. Eu me aproximei e pude ver melhor quem ou o quê estava na cama. Parecia uma garota. Eu diria que ela parecia ter 16 anos. Mas… oh… o senhor me desculpe se isso o ofender, mas aquele corpo… era… melhor dizendo… é perfeito! Olhando para ela, podia-se ver que era uma mulher completamente formada, madura e fértil.

– Eu terei que ressaltar a palavra “parecia”. Senão o tribunal o condena de imediato por achar uma criança sexualmente atraente.

– Desculpe, senhor… mas… 16 anos não é uma criança.

– Argh. Eu vou ter que editar isso. Jamais diga isso novamente, garoto. Nós ainda vivemos em um tempo de ignorância. Prossiga.

– Ela espreguiçou vagarosamente, levantou de seus lençóis, colocou-se na borda da cama e virou-se na minha direção. Então… ela abriu os olhos… oh, senhor! Foi como se eu tivesse olhado para o coração de uma estrela!

– Como assim, garoto? Não se pode olhar para o coração de uma estrela! Seria como olhar para o sol.

– Exatamente! Eu olhei para o sol! Aquele olhar emanava poder em estado bruto! O local foi inteiro tomado por luz pura! Tudo mesmo! Não havia uma sombra sequer! Era como se tudo tivesse sido coberto por uma fina camada de ouro!

– Foi nesse momento que o senhor teve a revelação?

– Ah, não, não senhor. Eu apenas constatei um fato. Eu creio que o senhor, como bom americano e cristão, deve ter tido uma experiência com o Espírito Santo alguma vez… na igreja, em seu batizado nas águas, em algum culto…

– Eu entendi a ideia, soldado. Foi isso que o senhor experimentou?

– Oh, não, não senhor… quando eu era cristão e senti tais coisas… depois daquilo… esta experiência supera em muito qualquer das minhas experiências anteriores. Antes era apenas a minha cabeça… mas o que vinha dela… era… melhor dizendo… é poder absoluto.

– Eu imagino que o senhor tenha uma foto disso também…

– Entre meus itens confiscados, o senhor irá encontrar um gravador. Inexplicavelmente meu aparelho gravou minha conversa com essa garota, sem estar ligado e minha camera gravou um vídeo, sem que estivesse ligada ou na posição correta…

– Eu terei que enviar estes aparelhos aos arquivos ultra-secretos. Prossiga.

– O brilho naquele olhar foi arrefecendo, como se ela estivessse controlando e filtrando uma quantidade enorme de poder. Só então eu pude ver seus olhos, de um violeta profundo. Quando ela sorriu, meu corpo inteiro parecia arder, como se eu fosse um garotinho diante da garota mais linda do colégio. Ela saiu de sua cama e eu pude ver seu corpo… por inteiro… escassamente coberto por um fino tecido de seda. Minhas calças estavam para arrebentar, senhor.

– O senhor teve uma ereção. Compreensível, diante de tal miragem. O senhor deve ter uma foto.

– Sim, mas infelizmente só será vista por quem ela quiser que veja…

– Mesmo assim eu enviarei ao arquivo ultra-secreto. Prossiga.

– Então ela falou… oh, senhor… eu fui um privilegiado por ouvir tal voz… uma voz doce, melodiosa, suave. Ela disse: “Bem vindo, meu querido e muito amado. Eu o estava aguardando ansiosamente. Eu te escolhi, Ryan, dentre todos os humanos nesse mundo, para ser o portador de minha mensagem. A humanidade sofreu tempo demais debaixo da opressão do Usurpador. Está na hora. Eu irei retomar aquilo que é meu por direito”.

– Nesse momento o senhor teve a revelação.

– Sim. Inexplicavelmente eu reapareci na periferia de Mossul, na superfície, diante de um de nossos postos de controle e foi ali que eu comecei a transmitir a mensagem que eu recebi. Diversas pessoas, civis e militares, gravaram minhas palavras e agora estes vídeos estão sendo compartilhados milhares de vezes. Mas eu não retiro uma palavra sequer. Ali que disse a verdade, nada mais do que a verdade.

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