O diário do soldado Ryan – acareação

Em algum lugar do Pentágono, o major John Wayne marca seu passo de forma enérgica e vigorosa. O Comando Geral o havia designado para cuidar de um caso difícil no Tribunal Militar. No subterrâneo do Pentágono, o major adentra pelos corredores, como um semideus. O major entra na Sala de Inquérito onde seu investigado o aguarda, visivelmente prejudicado e machucado.

– Cristo! O senhor foi torturado? Chamem o responsável. Isso é inaceitável. Este ainda é um soldado americano.

– Oh, não, senhor. O pessoal me tratou bem. O senhor devia ter visto quando eu cheguei, depois de ser dispensado de meu pelotão.

– Oh, é mesmo? Entendo. Muito bem… soldado Ryan… dispensado com honras pelo capitão Gibson, do Terceiro Pelotão de Infantaria. O relatório clinico fala em múltiplas fraturas, perfurações e queimaduras. Ah! O senhor acabou de voltar da Operação Falcão, que atuava no Iraque! Garoto, você conheceu um inferno e tanto. Eu estive na Coréia e Vietnam, então eu tenho uma ideia. O senhor honrou seu uniforme e sua pátria, soldado Ryan.

– Obrigado, senhor, mas… mesmo assim… aqui eu estou na Corte Marcial.

– Isso é necessário, soldado, pelas declarações que o senhor fez. O senhor confirma isso?

– Sim, senhor.

– O senhor ainda concorda ou pensa da mesma forma?

– Sim, senhor.

– Isso não é bom, soldado… vídeos estão sendo compartilhados pelas redes sociais e estão com milhares de visualizações no Youtube. O senhor tem ideia do impacto que isso pode ter?

– Eu ainda não tenho ideia da dimensão, senhor, mas se a mensagem está sendo ouvida, então minha missão foi bem sucedida.

– Missão? O senhor está em um tipo de missão secreta? O senhor pertence a alguma divisão especial do Exército?

– Oh, não, não senhor. Eu sou apenas um soldado. Eu decidi aceitar essa missão depois da revelação que eu tive.

– Revelação? Garoto, você pertence a algum desses grupos malucos de religiosos?

– Oh, não, não senhor. Eu sou… melhor dizendo… eu era um bom cristão, como todo bom americano.

– Cuidado com suas palavras, soldado. Esta é uma nação temente a Deus. O que você quer dizer com “eu era um bom cristão”? Não é mais?

– Desculpe-me major, mas eu não sou mais.

– Mas ainda é um americano que ama sua pátria?

– Oh, sim senhor!

– Isso é bom. Nós temos bons soldados que não são cristãos. Mas são bons americanos, a despeito de sua origem estrangeira. Sua declaração teve um cunho religioso ou político?

– Com devido respeito, senhor, mas não tem como separar religião e política, afinal, nós somos uma nação temente a Deus.

– Isso não é bom. Veja bem, eu ainda nem entrei no mérito das suas declarações, mas tendo em vista de seu serviço e das tensões que envolvem as relações de nosso país com o Iraque, essa é uma preocupação compreensível. O senhor não fez ou não pretende fazer um manifesto, defendendo ou propagando o Islamismo?

– Não, não senhor. Para falar a verdade, o Islamismo incorre no mesmo erro que o Cristianismo, senhor.

– Cuidado com om que diz, garoto. Nossa corporação é tolerante, mas não aceita blasfêmia. Isso tem algo a ver com o seu diário?

– Sim, senhor. Como recomendação do Comando Geral, todos os soldados portam consigo cadernos para anotarem suas operações diárias e disso fazemos relatórios, senhor.

– Então o senhor confirma a existência destes diários?

– Sim, senhor.

– O senhor confirma que é o autor e confirma a autenticidade dos registros?

– Hã… sim, senhor. Como soldado, faz parte de meu dever relatar apenas a verdade.

– Isso é louvável soldado [suspiro] por isso que eu fui designado para o seu caso. O senhor estabeleceu um paradoxo difícil de resolver. Se o senhor for condenado por suas declarações, isso colocaria em risco os demais diários, que poderiam ser igualmente questionados, senão a deliberação do próprio Comando Geral.

– Eu lamento por estar te causando tanto transtorno, senhor.

– Hm? Ah, isso não é nada, garoto. Eu servi de mediador entre americanos, tailandeses, vietnamitas e cambojanos. Eu creio que nós podemos ter alguma chance, se analisarmos juntos seus diários. Nós temos que detectar os pontos de controvérsia e tentar fazer com que o Comando Geral aceite que o senhor foi mal interpretado.

– Perdão, senhor, mas isso não é o mesmo que insinuar que o Comando Geral está sujeito a enganos?

– Eu pensava o mesmo na Etiópia e acredite, desde nossa evasão do Vietnam que o Comando Geral está mais propício a aceitar que não é onipotente. Eu começo a leitura e o senhor pode complementar com comentários e detalhes.

– Como quiser, senhor.

– Do seu diário: 13 de abril. Aqui você começa seu diário apontando o dia que o recebeu… inusitado… aponta seu nome, sua matrícula, o nome de seu capitão, o seu posto, a sua lotação e o seu posto de combate. Esses dados podem ser considerados um risco, pois o senhor poderia ser capturado e essas informações nas mãos do inimigo… o Comando Geral pode considerar isso uma traição.

– Desculpe, senhor, mas todos os demais soldados do meu pelotão fizeram o mesmo. Eu acredito que o capitão Gibson fez o mesmo no dele.

– Hm. Nós podemos usar isso. Se isso foi levantado, dificilmente seguirá, senão eu poderei solicitar os diários das altas patentes, o que, evidente, será negado e o assunto será resolvido. O senhor anota fidedignamente suas rotinas de exercícios físicos, táticos e operacionais. O senhor realmente levou a sério sua obrigação!

– Sim, senhor. Obrigado, senhor.

– Os juízes do Tribunal Militar vão ter que engolir isso junto com os dados, como algo comum e usual de todo o Exército. Não há indício de dolo. Não há coordenadas. Não há numero de efetivos ou armamento. Não há indicação de táticas ou estratégias. Essas paginas parecem mais com conversa normal de caserna.

– Hã… obrigado?

– Não agradeça. Eu vejo páginas e mais páginas disso. Tedioso e repetitivo. Como a vida militar. Então você insere no dia 17 de junho a sua missão em campo. Essa foi sua primeira missão, soldado?

– Sim, senhor.

– As declarações que o senhor fez tem algo a ver com essa missão?

– Tem tudo a ver, senhor. Foi durante essa missão que eu tive a revelação.

– Muito bem, soldado. Eu vou ligar esse gravador. Eu quero que você fale, com calma e pausadamente, tudo o que o senhor se recorda dessa missão que o fez fazer tais declarações. Eu pretendo alegar estresse pós traumático. O senhor terá dito a verdade, mas o que vai contar ao Comando Geral é que o senhor está sofrendo um trauma de guerra.

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