O esforço de Sísifo

Alice e Lorena ficam encarando Saladino por algumas horas. Como se tentasssem imaginar o impacto que teria na dita culta civilização ocidental se a Deusa fosse celebrada como antigamente, como seria se a mulher resgatasse sua humanidade, sua sacralidade.

– Sabe de uma coisa, Dino? Você fala igualzinho a um escriba brasileiro que eu conheci. Eu o deixo escrever sobre mim só por que eu tive boas referências dele e Charles não é ciumento. Eu não tenho muito do que reclamar. Como celebridade, eu vivo sendo adorada pelo meu público. Mas abrir a relação de vocês para a comunidade… eu não sei o que pode sair daí.

– Eu gostaria de anunciar o meu noivado com Lora na próxima reunião. Eu estou em uma posição cômoda, pois a comunidade mesmo espera que eu anuncie quem seria minha primeira esposa há um bom tempo. Não que eu seja cobrado, mas eu sinto que isso faz parte de meu papel como homem santo. Eu consegui postergar qualquer anuncio graças aos conflitos que vivem acontecendo em Londres, no Reino Unido e na Europa. Na Idade Média foram os Judeus, na Era Moderna, somos nós o Bode Expiatório.

– O senhor… quer dizer… meu sultão não tem outras esposas?

– Não Lora. Eu quero que seja você. Eu quero você como minha Aisha.

– Aaaaiimmm…

– Eeei! Calma aí, pombinhos… nós ainda estamos em um local público. Falando nisso, vem a calhar que vocês sejam muçulmanos. Se tem algo que eu aprendi com Aisha é que o Profeta manteve as tradições que tinham algum sentido, renovou ou reformou o que estava errado e melhorou muito a situação da mulher. Ele só não fez mais porque ele mesmo estava preso a essas mesmas tradições e estava caminhando sobre o fino fio de navalha do conflito entre os clãs. O oriente nunca passou pelo mesmo processo de expurgação e flagelação do amor, do desejo, do sexo e do prazer que passou o ocidente. O que era normal, natural e saudável na Europa pré-cristã, virou algo proibido. Os antigos nunca tiveram problemas com as relações interetárias. Até a metade da Idade Média era bastante comum garotos e garotas casarem entre 9 e 12 anos, com pessoas bem mais velhas do que elas. Curiosamente ou não, foi com o Puritanismo que surgiu e regeu durante o reinado da Rainha Vitória que essa pulsão cristã de ver tudo que é carnal como algo pecaminoso e, portanto, que deve ser controlado, reprimido.

– Nisso você tem razão, Lis. Somente pela sabedoria que o Profeta sustentou o fato de que a natureza é quem determina a maturidade de uma pessoa, não seu tamanho, sua origem, sua etnia, sua crença ou sua idade. Ele seguiu todos os costumes da época. Ele passou pelo período de afastamento, de purificação, de preparação, para então anunciar no tempo certo seu noivado e só quando Aisha estava madura o suficiente é que ambos consumaram seu casamento. No ocidente, apesar dos estudos, ainda se presume que é estupro, sem considerar a possibilidade de que aquele relacionamento possa existir entre duas pessoas com plena consciência e capacidade de consentimento. Mas nós somos acusados de sermos a favor da pedofilia, uma neurose e paranoia que surgiu no ocidente, por não ser capaz de lidar com sua libido e pulsão. Nós somos chamados de incultos e selvagens, mas o maior índice de violência física e sexual contra a mulher está nos países ocidentais cristãos. Nós somos acusados de oprimir a mulher, mas a mulher é muito mais oprimida nos países ocidentais cristãos, com tanto sexismo, machismo e fetichismo. O que pode ser mais opressor do que essa pressão da sociedade que impõe na mulher esse papel de que ela deve ser um mero objeto sexual para usufruto do macho dominante?

– Amém a isso, irmão. A mulher deve ter o direito e a liberdade de andar como ela quiser, se vestir como ela quiser, ser como ela quiser ser. Está na cara o que Lora quer. Está na cara o que você quer. Então vamos lá e colocar as cartas na mesa. Se não aceitarem, vamos todos fugir juntos. Vocês podem ficar exilados lá em minha casa.

– Sei… para você ficar nos assistindo ou então tirar uma lasquinha do meu Dino…

– Ai credo, Lora… desse jeito meu genro vai pensar o que de mim?

– Eu? Lis, você é uma mulher intrigante. Você é uma existência que desafia todos os padrões, então nenhum padrão de comportamento, gênero, orientação, identidade, preferência ou regime sexual se aplica a você.

– Hmmmm… genrinho querido… não fique me seduzindo na frente de sua mulher…

– Humpf! Pois que você fique com seu Charles. Eu vou drenar tanto o meu Dino que ele não vai sequer conseguir olhar para você.

– Eh… Lora… não que eu esteja reclamando… mas se você continuar a se esfregar assim em mim, eu perco o juízo.

– Muito bem, meus amores, foco! Primeiro nós vamos até a comunidade e anunciar que vocês estão ralando o côco. Depois, independentemente de como a comunidade vai reagir, nós voltamos para o apartamento e vocês vão para os lençóis lutarem um pouco.

Alice seguia na frente, toda empolgada e orgulhosa. Lorena e Saladino poderiam, enfim, dar início a uma mudança no sistema social. Lorena a seguia, sem tirar os olhos dela, ao memso tempo que a mantinha a uma distância segura de Saladino que era praticamente puxado aos trancos e barrancos. Pareciam um trio de aventureiros ao entrarem no espaço da comunidade. Sem muita cerimonia ou pompa, Alice toma o lugar do palanque e profere seu discurso para a comunidade.

– Senhoras e senhores! Jovens e moças! Meninos e meninas! Vocês todos me conhecem. Eu sou Alice, do programa “Alice Pergunta”. Eu quero agradecer a todos por me receberem nessa amável comunidade, onde eu estou passando minhas férias. Mas minhas férias estão acabando e eu terei que voltar ao estúdio e ao meu trabalho. Eu irei levar todos vocês em minhas lembranças. Mas antes de eu ir embora, eu gostaria de anunciar, orgulhosa, que Lorena e Saladino estão noivos. Com uma ajuda minha e a benção de Aisha, eu peço que todos aplaudam e celebrem essa união abençoada por Deus!

Alice faz uma postura de vitória, apontando ambos os dedos indicadores para o teto, enquanto o microfone zumbe com uma estática. Um silêncio por alguns minutos. Um começa a bater palma, depois outro e mais outro. Vivas, hurras, assovios, elogios. Lorena e Saladino acenavam, tanto aliviados quanto surpresos. Alguns homens faziam sinal de positivo e algumas mulheres choravam. Em uma avaliação superficial e geral, a comunidade aceitou e aprovou o casal.

No meio dessa algazarra, Alice olha entristecida para Lorena. Saladino é arrastado pela multidão que o carrega em júbilo. Lorena se aproxima de Alice para ver o que aconteceu.

– O que foi, “vovó”? Por que está triste? Não era isso que você queria?

– Hah! Você, “netinha”, não tem jeito. Devia estar aproveitando seu dia, mas não, fica preocupada com essa sua velha. Meu amor, não é o que eu quero o que é importante agora, mas o que vocês querem. Vocês passarão por dificuldades e desafios, mas vocês conseguiram o mais difícil, o resto é fichinha. O problema… [snif] meu amor… [snif] é que vocês não precisam mais de mim. [snif] Eu vou ter que voltar ao estúdio, aos meus programas… [snif] eu vou ter que voltar á minha vidinha fútil e frívola de celebridade… hehehe. Uma vida de luxo e suntuosidade, mas solitária… [snif] Bah! Não dê ouvidos a uma velha coroca! [snif] Vai, gatona! Vai ser feliz! Se esse fosse um conto de fadas, agora apareceria o letreiro “E Viveram Felizes Para Sempre”.

– Você… vai embora? Ah, nãonãonãonão… eu não aceito! Não! Eu não posso ser feliz sem você comigo, Alice! Eueueueu… para ser sincera… eu não acho que consiga dar conta sozinha do Dino! Hei! Você também é responsável! Olha só! Venha morar conosco! Vamos ser o triângulo amoroso mais bizarro da face da terra! Que tal? Boa ideia hem?

– Hahaha! Só você mesma, Lorena… sim, eu estou satisfeita. Você desabrochou. Você conseguiu o que eu não consegui. Olha… eu estou me segurando para não desabar em choro… poxa… eu seria demitida se o diretor do programa me visse assim! Mas fazer o que né? Contos de fadas só existem em livros. Finais felizes só existem nas mentes sonhadoras.

– Nãonãonãonãonão… eu não aceito isso! OhmeuDeus… me perdoe, Deus, mas eu não quero isso. Tire tudo de mim, mas deixe Alice comigo, por favor!

– Heh… você vai me fazer chorar… [snif] seu pedido é lindo, meu anjo, mas aí sou eu quem não pode aceitar. Hei, animo… Dino vai te ocupar tanto que você nem vai ter tempo para pensar nessa sua velha coroca. Você vai ver. Você nem vai mais se lembrar de mim.

Lágrimas caem no chão, vindas de Lorena e vindo de onde estava Alice, cujo corpo esmaeceu em pleno ar. Pobre Lorena. Todo ser vivo está sujeito a sentir dor e sofrimento. Saladino percebe que Lorena está com problema, mas não consegue se desvencilhar de tantas mãos que o ergue em júbilo. Isto resume esta opera que nós encenamos. Alegria e tristeza, vitória e derrota. Neste palco que é o mundo, a plateia é desconhecida, mas seguimos com nossos papéis.

Alice pisca os olhos três vezes e esfrega os olhos. Ela estava de volta em seu jardim, em algum lugar de Hampstead. A tarde está agradável, uma leve brisa agita as folhas que caem no outono londrino.

– Cinco minutos.

Alice olha para o lado e vê John Cotton, o Coelho Branco que sempre a acompanhou, seu animal totem, seu espírito guardião. Ele nunca conseguiu superar sua obsessão pelo tempo ou por viver sempre correndo, sempre apressado.

– Cinco minutos do que, John?

– Esqueceu, Alice? Você insistiu e eu te dei uma fruta da mente. Você deve ter tido uma viagem e tanto.

– Eu… fiquei chapada? Tudo aquilo… Lorena, Saladino… todos os cinco dias… foi tudo um sonho, uma ilusão?

– Eu não sou Cheshire. Eu detesto enigmas. Eu não tenho tempo para isso. Mas tem um sábio que diz que a vida é um sonho. Bom, se você gostou da viagem e agora está consciente, eu tenho que ir embora.

– Heh… você e Cheshire são parecidos nisso. Vão e vem quando querem. E eu acabo ficando sozinha.

– Ih, vai começar a bater a depressão. Olha, tome bastante água e descanse. Eu tenho que voltar ao trabalho.

Alice levanta do espreguiçador e perambula por sua mansão, repleta de serviçais, mas ela se sente terrivelmente solitária. Ela se joga em uma imensa cama, absurdamente macia e vazia, pede um chá e tenta enganar a tristeza lendo os roteiros dos próximos programas e vendo os programas concorrentes. Em um dos muitos monitores, uma emissora transmite propagandas e, no meio de tanto ruído, anunciam a Exposição Lewis Carrol no Museu de Londres. Alice desliga tudo e aumenta o som.

– O Museu de Londres, depois do enorme sucesso, irá prolongar a Exposição Lewis Carrol. A BBC confirmou que irá continuar a transmitir em três horários essa exposição, através de um programa que tem sido apresentado por uma funcionária especialista e estudiosa no autor.

As imagens e sons são saboreados como se fossem um prato suculento. A câmera enquadra por alguns instantes, ao fundo, quase desfocado, o rosto da funcionária. Sim, era ela, Lorena. Alice solta um grito de imensa alegria quando uma pessoa entra em seu quarto.

– O que foi querida? Ah! Estão falando de mim de novo? Será que vão falar de você também? Bom… nós estamos no século XXI, não é? Será que as pessoas vão aceitar e entender o nosso amor?

– Cha… Charles?

– Nossa, meu amor… até parece que você viu um fantasma… se bem que você é um fantasma. Hei… eu tive uma ideia louca… que tal assustar todo mundo, indo nessa exposição?

Alice se joga nos braços de Charles e o agarra firmemente, fortemente, enquanto seus olhos vertiam copiosas lágrimas.

– Oh, Char, Char… eu senti tanto sua falta, eu tenho tanta saudades de você…

– Perdoe-me por isso, Lis. Eu prometo que nunca mais a deixarei. Nesse mundo novo nós podemos ficar juntos e nos amarmos.

– Sim… nós podemos… eu quero te apresentar uma amiga muito especial. Mas antes, você vai ter que me tirar o atraso…

– Nesse caso, é melhor dispensar os serviçais e avisar ao estúdio que você ainda está em férias. Assim nós teremos o sossego e a privacidade para fazermos tudo que quisermos.

– Heh… sentindo você assim, junto de mim… eu devo estar sendo recompensada. Pode Sísifo, ao contrário de estar condenado, ser recompensado?

– Vendo que seu corpo manteve toda a beleza que eu conheci, eu me sinto recompensado.

– Ahhh… Chaaar… esse toque… suas mãos… seus beijos… hmmmm…

Gentil audiência, não olhe mais, pois este é um ato sagrado, reservado aos amantes. Deixemos os lençóis e travesseiros como testemunhas. Este palco fecha suas cortinas e este escriba cessa sua pena, sob os auspícios das Musas.

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