Deslizes de Vênus

Alice acordou com o barulho da passagem de um caminhão de bombeiro e ambulância e se deparou com um gato bem conhecido dela na janela.

– Cheshire! O que você está fazendo aqui?

– Eu estou aqui? Eu não estou aqui? Eu estou vivo? Eu estou morto?

– Pare com esses enigmas. Nunca foram engraçados. E nós dois passamos dessa época.

– Oh, bem… isso é verdade. O mundo moderno está superlotado de gatos famosos. Como está indo com o seu… “projeto”?

– Considerando que eu a deixei conversando com o “terceiro interessado” e ela não voltou, eu acho que teremos boas noticias em breve.

– Meus bigodes e orelhas dizem que ela está chegando…

Lorena abre a porta com todo cuidado, lentamente, andando na ponta dos pés, tentando entrar no apartamento sem ser notada quando toma um susto com um grito vindo de dentro do quarto.

– Uaahhuuuu! Garota! Entre, sente, conte-nos tudo!

Alice estava com os olhos brilhando, sorrindo satisfeita. Lorena estava com as roupas todas amassadas, cabelo desgrenhado e um enorme sorriso de satisfação que ia de orelha a orelha. Lorena suspira, ela havia sido flagrada, mas ficou cismada com o estranho gato ao lado de Alice, vestindo um legítimo traje londrino.

– Hei, cadê o meu café?

– Oh, pois não, patroa. Cheshire, faça um café para a madame…

– Eu não sou Berlioz e vocês não são o Mestre…

– Hum… será que Shrodinger está por perto? Eu vou mandar um zapzap para ele…

– Oquei… oquei… entendi. Café para duas damas.

– Então, amiga, conte-me tudinho.

– Oh, puxa… bom, depois que você “nos largou”, nós conversamos um pouco e aí eu pirei, sei lá, eu dei uma indireta e fui saindo de fininho, quando ele me puxou para ele me falou coisas em meu ouvido que me deixaram arrepiada e me beijou…

– Uaaahuuuu! É isso aí, garota! E por sua cara, a coisa não parou só em um beijo.

– Ah, não… eu nem sei como eu consegui… eu meio que tentei fazer doce, resistindo ao beijo e tal, mas minha mente tinha ido pro beleléu faz tempo. Nós meio que… achamos um canto e… aimeuDeus… eu ainda posso sentir suas mãos e lábios passeando pelo meu corpo.

– Isso é bom, é muito bom, igualzinho à minha primeira vez… e aí?

– Você ainda não me contou da sua primeira vez…

– Ai que coisa, Lorena… depois eu conto… deixa de cena, hoje é o seu dia!

– Ah… bom… foi tudo muito natural… quando eu dei por mim, nós estávamos semi-despidos. AimeuDeus… eu fico empolada só de lembrar as coisas que fizemos…

– Huhuhuhu… pela sua cara deve ter rolado muita safadeza. Foram até o fim?

– Ai amiga… Dino me pegou de jeito…

– Dino?

– Meu Pai Saladino…

– Hmmmm… apelidinhos íntimos hem? Alcançaram esse nível tão rápido? Mas conta, doeu, foi bom?

– Ai que pergunta Alice… eu estava uma pilha, Dino tinha tudo o que eu imaginava que ele tinha e algo mais… eu só queria sentir aquele homem inteiro dentro de mim. Não foi bom. Foi maravilhoso. Eu devo ter tido cinco orgasmos múltiplos.

– Uhuuu! É isso aí, gatona! Na maioria das vezes é assim. Mesmo para as mais tímidas e recalcadas. Quando começa a experimentar o fruto, não quer parar mais. Tudo é tão normal, natural e espontâneo que fica até difícil de lembrar-se de colocar a camisinha…

– Ca… camisinha?

– Ai não… não brinca… a coisa foi tão boa assim?

– Eh… eu estava sem fôlego, com as pernas tremendo e meu corpo parecia uma gelatina. Eu só sei que eu senti algo quente espirrando dentro de mim. Eu achei que tinha chegado ao Paraíso. Dino desfaleceu ao meu lado e eu vi um líquido branco e pegajoso escorrendo de dentro de minhas tripas…

– Uuuooouuu! Garota! Radical! Não, sério, tome esse comprimido. Você não pode engravidar. Acredite, isso é problema sério. E vamos torcer para não surgir uma DST.

– Pois nós nunca tivemos problemas com isso… damas, o café está servido.

– Shut up, Cheshire! Ninguém quer saber de suas transas com Garfield.

– O… o que eu fiz… o que nós fizemos… foi errado?

– Errado? Nãonãonão! Perigoso, errado não. Sabe isso é algo que não se diz por aí, mas nós, mulheres, somos um vaso e um vaso deve ser preenchido, se é que me entende. Uma das melhores coisas nesse mundo é sentir o seu homem se derramando inteiro dentro de você. Você deve ter sentido essa sensação de plenitude, de realização, não foi?

– Ai, amiga… parece que eu estava inteira imersa em um enorme oceano de águas mornas e rosáceas…

– Sua amiga mergulhou de cabeça no Mar de Vênus…

– Sim e isso é muito bom. Mas você precisa se precaver, gata. Você pode pegar meus contraceptivos, se precisar. Vocês dois precisam ir ao médico para examinar se tem alguma DST. Regularmente.

– Sim, senhora… mas e você, Alice? Como foi sua primeira vez?

– Bom, eu e Charles tivemos que nos separar depois daquele passeio. Eu tive que mudar de cidade depois que o livro foi publicado e apareceram aquelas fotos. As pessoas falavam e falam coisas horríveis do senhor Carrol. Eu fiquei com um bico do tamanho da Torre de Londres e fiquei sem sequer ver meu Charles por muito tempo. E meu corpo só ficava mais desenvolvido, a coceirinha só aumentava. Não demorou muito para os meninos começarem a me notar, mas nenhum me interessava e eu estava tão chateada que até pensei em me tornar freira, para a alegria de minha avó.

– O que quase aconteceu se não fosse por mim…

– Cheshire… calado, oquei? Eu estava no ginásio quando Charles lançou seu segundo livro, um sucesso enorme, comigo como protagonista. Eu achei que fosse me desmanchar de tanto chorar, pois eu vi que ele ainda pensava em mim, que eu ainda era… eu ainda sou sua favorita. Curiosamente, não se falou mais das fotos, não se fez comentários insinuosos sobre a relação de Charles com sua musa. Então o segundo livro foi distribuído e vendido sem problemas. A editora fez questão de que Charles fosse nas cidades, na ocasião que chegavam as primeiras edições nas livrarias. Então veio aquele dia feliz, quando Charles veio até a cidade onde eu estava para uma tarde de autógrafos. Hoje eu acho que eu fui louca, mas para mim, naquele momento, era uma questão crucial. Eu tinha que ver Charles, eu tinha que ter certeza de que ele se lembrava de mim, eu tinha que ter certeza de que ele ainda sentia o mesmo por mim.

– Puxa vida… parece comigo…

– Sim… por isso que eu te disse que sei e entendo você, Lorena. Enfim, a livraria estava lotada de gente, tinha uma fila imensa, mas eu fiquei na minha, eu me misturei ao público. Na minha cabecinha, se ele me amasse isso é o que menos importava. As pessoas olhavam para mim como se reconhecessem e não deu outra. Com toda pompa, eu fui carregada pelas pessoas até a frente e colocada lado a lado de Charles. Eu sentia meu corpo inteiro pipocando, só de olhar para Charles eu estava inteira molhadinha e fiquei ainda mais afim quando ele sorriu e me reconheceu. Foram horas de martírio… autografando os livros, apertando mãos… eu fazendo cara de desentendida quando faziam perguntas indiscretas… resumindo, eu fiquei como você até de madrugada, tendo que aturar os retardatários e meu humor tinha murchado.

– Puxa… você devia estar arrasada.

– Bom, eu achei que tinha acabado o clima. Mas então aconteceu algo mágico. O pessoal da livraria e da editora estavam ocupados e distraídos, contando a feira, arrumando os livros, quando Charles me puxou gentilmente para o canto e sussurrou coisas em meu ouvido que me ligaram na hora.

– “Lembra da carta que eu te dei? Eu escrevi exatamente o que sentia e sinto por você. Você é a minha primeira mulher”. Eu sei. Eu estava lá.

– Cheshire! Eu vou te castrar! Bom, é isso, amiga… nós quase arrancamos as roupas, eu senti meu corpo explorado por mil mãos e lábios. Eu estava quase sem consciência, mas eu sentia tudo e eu enredava Charles, eu envolvia seus ombros com meus braços e seus quadris com minhas pernas, trazendo ele para mais perto, para mais dentro de mim. Eu senti essa mesma sensação maravilhosa que você sentiu… o negócio dele contraindo, espirrando e preenchendo meu ventre com seu suco do amor…

– E sem camisinha também, diga-se de passagem… miau!

– Bem feito! Na próxima vez eu arranco suas orelhas! Enfim, eu queria que aquele instante durasse eternamente. Sentir o homem que eu amo se derretendo todo dentro de mim… não que não tenha sido divertido brincar com meninas também, se é que você me entende.

– Eu… acho que entendo. Mas o momento acaba…

– Sim… e nós tivemos que voltar para nossas casas, como se coisa alguma tivesse acontecido. Até então, eu nem tinha pensado em gravidez, DST. Eu e Charles nos vimos muitas vezes, até mesmo depois que eu me casei. O coitado nunca soube que eu casei grávida de outro homem.

– Nossa… mas você, hem, Alice? Isso foi muito arriscado e perigoso para aquela época.

– Hoje ainda é arriscado e perigoso. E eu nem estou falando em gravidez e DST. A sociedade ainda não está preparada, mas aos poucos, está acontecendo uma transição.

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