Ouvindo a voz interna

Alice cutucou Lorena enquanto fazia caretas insinuando que ela devia aproveitar o evento e tentar acertar as coisas. Lorena rolou os olhos e Alice deu uma desculpa qualquer, como a de estar bêbada e foi embora para o apartamento onde elas estavam coabitando. Saladino estava irrequieto e Lorena nervosa. Eu não tenho nenhum violonista por perto, então eu vou ter que improvisar.

– Então… Lorena… eu passei o dia hoje incomodado e inquieto. Eu te peço desculpas por não ter te atendido direito. Eu acho que você tinha ido para me dizer algo, mas a presença da Makusha bagunçou tudo. Depois que ela saiu as coisas ficaram… esquisitas e você foi embora. Eu disse algo errado? Eu a ofendi?

Lorena respira fundo, apesar de sua pulsação parecer um cavalo arisco e seu rosto parecer uma fornalha. Alice disse que era só conversar. Começando de coisas frugais, amenas, como se ele fosse uma pessoa qualquer. Comprimindo os dedos em cima da mesa, Lorena desandou a falar.

– Pois é… que coisa né? Eu é que te peço desculpas por ter ido tão tarde e fui eu quem atrapalhou sua conversa com Makusha. Que Deus tenha piedade dela. Eu… estava pensando… bom, eu negligenciei minhas obrigações por dois dias, sabe? Hoje e ontem eu acordei ao meio dia. Eu não fiz minhas orações matinais e cheguei atrasada na reunião com a comunidade. Eu tinha ido para pedir desculpas por isso e me explicar.

– Ah… foi isso? Que alívio. Você não é muito de vir falar comigo, Lorena, então eu achei que tinha sido algo grave ou urgente. Olha, não se preocupe com isso. Todos na comunidade sabiam que você tinha trabalhado até de madrugada, então nós marcamos a reunião para mais tarde. Quanto à suas orações, Lorena, lembre-se que isto não é uma obrigação, mas algo que você faz voluntariamente por adoração a Deus. Deus não quer que você faça as coisas de forma automática, mecanicamente. Não é comparecendo na mesquita, não é lendo o Corão, não é seguindo a sharia, que você se torna uma muçulmana. Acima de mim, da comunidade, do próprio Corão, você tem que obedecer a Deus apenas. Não é o governo, não é sequer o Profeta. E quem pode saber o que Deus quer de você é você mesma, buscando ter uma comunhão com Ele. Se você lembrou-se de Deus e orou pedindo por sua proteção e orientação, em qualquer momento, aquele pensamento é mais agradável a Deus do que o fingimento que muitos fazem nos templos.

– Puxa… que alívio… mesmo assim, obrigada, Pai Saladino. Eu senti que tinha que pedir desculpas porque a comunidade e o senhor são muito importantes para mim.

– E você é importante e querida por todos nós, Lorena. Nós sabemos ou pelo menos temos a impressão de saber que sua infância não foi muito fácil.

– Hah! Minha infância… foi suave comparada com tantas histórias que eu ouço. Minha infância foi privilegiada se levarmos em conta Makusha ou a do senhor mesmo…

– Essa é uma verdade… sabe, Lorena, todos nós, em algum ponto, por nossas perspectivas, tivemos tempos ruins. O que diferencia a nossa história da dos demais é que nós a vivenciamos, nós a sentimos e tendemos a perceber, interpretar esses eventos como se fossem algo pessoal, até mesmo um castigo, uma maldição. Isso somente agrava e piora a experiência que tivemos, acarretando mágoa e rancor. Nossa infância passou, esses dias pereceram, mas nós ainda os mantemos inutilmente vivos em nossa memória. Isso é algo que eu demorei a aprender, Lorena, mas eu espero que você entenda e consiga este despertar. Saiba que as coisas acontecem como devem acontecer, não é pessoal. Estes momentos e estas pessoas pelas quais nós passamos e conhecemos estão igualmente sujeitas aos impactos dessa vida, estão tão desorientadas quanto nós. A escolha é sua, Lorena, você vive o agora, o presente, ou o passado? Você é você, não as coisas que faz ou diz. Você é autora de quem você é, não o seu passado ou estes momentos difíceis.

– Nossa, Pai… difícil é entender o que o senhor está falando. Eu sou eu, quem faz eu sou eu… mas o que eu faço ou digo não são eu. Mas aquilo que eu faço ou digo não é exatamente o que as pessoas veem e interpretam como sendo parte da minha personalidade? Digo, tipo… está na cara que eu sou tímida, né? Mágoas são ações feitas por outras pessoas, então como eu posso evitar pensar que alguém pode me machucar de novo? Afinal, porque alguém machucaria outra pessoa senão deliberadamente? Por que esta vida está tão sujeita a dores e sofrimentos, senão por obra de algo ou alguém?

– Essa é a pergunta que vale um milhão, Lorena, que as religiões tentam solucionar. Nós, homens santos, estamos tão intrigados quanto as pessoas comuns. A despeito de existirem tantos caminhos e sistemas, a humanidade ainda está longe de ser humana, ainda há muita maldade e isto está dentro de nós, não em um Diabo. Nisso consiste o Livre-Arbítrio, Lorena. A quem nós ouvimos? A essa sombra que habita em nós, aos nossos apetites, ou nós ouvimos a Deus? Quando optamos pela vida material, secular, nossa dor parece diminuir, nós experimentamos satisfação e prazer, mas é algo efêmero. Quando optamos por sermos nós os donos de nosso corpo, quando nós dominamos os nossos apetites, nós vivemos com algumas restrições, mas conservamos e prolongamos nossa saúde e nossa vida. Essa é a diferença entre viver o ego ou o eu, seu verdadeiro eu, Lorena. Governos e religiões fazem regras porque a humanidade ainda não consegue se autorreger, nós sempre haveremos de achar uma justificativa para nossos atos porque sabemos que o que fazemos é errado. E isso acontece com todos, até com homens santos, nós, que devíamos dar o exemplo, somos os que mais tropeçam.

– Então… nós estamos existindo nesse mundo, sem ter certeza do porquê, mas ao invés de tentarmos nos ajudar a resolver esse dilema, nós preferimos perturbar e atrapalhar uns aos outros… como que Deus ainda pode nos querer?

– Hoje você está fazendo perguntas difíceis, Lorena… eu acho que não existe Teologia suficiente nem estudiosos o suficiente para responder essa questão. O que eu posso dizer é aquilo que eu sinto e acredito. Nós todos somos filhos e filhas de Deus. Ele nos deu essa vida e esse mundo. Ele nos deu algo sublime, sagrado, maravilhoso e divino que é a alma. Mas a alma, sem o corpo, não tem como operar nesse mundo. O corpo, sem alma, torna-se um objeto inanimado. Deus quis que ambos existissem em harmonia, um ajudando o outro, para algo maior, para concluir o propósito que é o existir. O desafio da alma é o de sacralizar o corpo. O fardo do corpo é o de servir a alma. Eu acho que isso sintetiza todas as religiões do mundo. Nosso sucesso ou fracasso depende de qual voz nós ouvimos, ou a voz do mundo, da sociedade, que prega que você só alcança a felicidade trabalhando e consumindo coisas, ou a voz de nossa alma, a nossa voz interior, que nos indica que nós fomos feitos para coisas muito melhores e maiores.

– Mas mesmo assim… ainda não há uma fórmula, solução ou direção certa para onde nós devíamos ir… nós vamos errar… nós vamos falhar… isso é melancólico e depressivo.

– Bom, Lorena, pense assim… mesmo os grandes pensadores tiveram que errar muitas vezes até acertarem. Eu ouso dizer que me tornei um homem santo graças aos meus erros. Por isso que é importante você conseguir ter paz consigo mesma e com o seu passado. Ninguém pode te julgar, senão Deus e isto inclui você mesma. Pare de se julgar e de se condenar. Ninguém merece ser lembrado se te causou alguma mágoa, nada que tenha te causado sofrimento merece ser revivido constantemente.

– Hah… minha cabeça está dando um nó, mas eu acho que eu posso tentar fazer isso. Ser eu mesma. Viver o presente. Obedecer a Deus. Ufa, são poucas coisas, mas não será uma mudança fácil e simples de fazer.

– Nunca é, Lorena. Mas acredite em mim, vale a pena essa luta. Quem vence no final é você mesma.

– Oh, puxa, eu sinto como se um saco de cimento tivesse saído de minha costas. Agora se o senhor me der licença, eu tenho uma inquilina para cuidar. Mas antes de eu ir, eu tenho um “recado” da garota que o senhor disse ter interesse. Ela me mandou dizer que, se só se deve viver o presente, então que a declaração que o senhor fez foi esquecida também… então, se o senhor realmente sente algo por ela, o senhor deve dizer a ela todos os dias.

Lorena saiu da mesa, com um leve sorriso de vitória, mas sentiu estar sendo segurada. Gentilmente, Saladino a rodeou para sua direção, sussurrou palavras feitas de favos de mel em seu ouvido e então a beijou. Lorena fingiu resistência, mas não demorou em corresponder ao beijo, agarrando firmemente em seus braços o homem que ela tinha escolhido. Alice vai ter que dormir sozinha esta noite.

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