Fique ao meu lado

A fome e o calor superaram a tristeza e as meninas resolveram sair para tomar sorvete. Lorena observava Alice, cutucando o fim do pote de sorvete que há tempos tinha acabado.

– Tudo bem aí?

– Sim… tudo bem. Eu estou chateada comigo mesma por ter desabado na sua frente. Caramba, que tipo de orientadora eu sou? Como eu posso te ajudar se eu não consegui superar os meus traumas?

– Bom… isso acontece… até com os melhores… eu vi Pai Saladino passar por momentos assim. Engraçado, quando você acha que não tem mais jeito, que você chegou ao fundo do poço, sempre aparece alguém ou algo para te ajudar. Você acredita nisso?

– Minha querida, minha existência desafia os padrões aceitos. Eu entrevistei Aisha, como isso pode ser explicado racionalmente? Então como disse um escritor inglês, há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.

– Eu fico imaginando… deve ter um motivo… eu não acredito que seja mera coincidência. Quais são as chances de eu ser escolhida para apresentar para a televisão sobre a vida de Carrol? Quais são as chances de eu ter conhecido você, a musa do senhor Carrol? Eu fico imaginando que nós conhecemos pessoas e passamos por situações que nós precisamos… como se tivéssemos um destino.

– Esse sorvete acabou… para muita gente, as coisas acontecem por acaso. Não foi o acaso que acabou com o sorvete… hehehe. Eu conheci gente crente e descrente e ambas tem algo em comum que é o de ter algum tipo de espiritualidade. Isso não é algo que eu posso falar livremente por aí, principalmente ao público, mas eu cheguei à conclusão de que eu estou dentro deste corpo. Isto que eu sou, que faz de mim ser eu mesma, não está neste corpo, não pertence nem é próprio deste corpo. Chame do que quiser, mas nós somos seres espirituais que estão habitando um corpo carnal. Vamos tomar cerveja?

– Eh? Que mudança de assunto… eu posso te acompanhar, mas eu vou tomar um suco.

– Tudo bem, desde que venha em garrafa. Eu vou precisar de garrafas para explicar o existir.

– Alice… você está começando a me assustar…

– Só um pouquinho… hehehe… você precisa entender algo, antes de eu te fazer uma revelação. Existe um motivo para nós estarmos juntas. E isso tem muito a ver com Charles e seu Pai.

– Oooqueeeiii… eu estou assustada.

Mesmo assustada, Lorena acompanhou Alice até uma lanchonete. Ao menos Alice tinha recuperado seu bom humor e alegria esfuziante. Não dava para não rir quando Alice fazia uma cara séria e compenetrada. O atendente abriu as garrafas e serviu o conteúdo nos copos. Quando o atendente as deixou para atender outras mesas, Alice fez a sua explanação.

– Muito bem… [gulpgulp] Lorena, a garrafa e o líquido são o mesmo “ser”, correspondem a uma mesma “existência”… oquei?

– O… oquei…

– Certo… [gulpgulp] quando eu acabo com a cerveja, o que sobra?

– A… garrafa?

– Isso! Correto! Agora vem a pergunta difícil. Estamos falando do mesmo “ser”, da mesma “existência”?

– Hã… não?

– Dingdingding! Parece bastante simples e óbvio que o líquido e a garrafa são “seres” que por um tempo compartilharam a mesma “existência”. Quando eu [burp] jogar a garrafa fora, o que vai acontecer com ela?

– Bom… ela vai para a fábrica para ser lavada e reaproveitada para ser preenchida com mais cerveja…

– Uahu! Certo de novo! Milhares de garrafas são lavadas e reaproveitadas, milhares de litros de cerveja são envasados, mas ninguém parece se incomodar, a cerveja continua sendo produzida, indefinidamente, por que a natureza, a fonte, é infinita…

– Eu ainda não sei ao certo aonde você quer chegar, Alice, mas agora que você separou a garrafa da cerveja, eu não acho que a cerveja possa ser reutilizada.

– Tsc, tsc, Lorena… você me decepciona. Garçom! Mais uma! A cerveja agora compartilha sua existência comigo [tsss], mas sua essência, sua “existência”, não ficará misturada com os demais elementos que coabitam dentro de mim [glubglub]. E mesmo que eu beba mais cerveja, eventualmente eu não poderei reter eternamente ela dentro de mim. Eventualmente eu terei que expelir essa cerveja ao fazer xixi, que vai toalete abaixo, escorre pelos tubos de esgoto e será separada dos demais resíduos. Para onde [burp] a cerveja vai, depois de passar por tudo isso?

– Eu… perdi o trem… eu não sei…

– Oquei… eu vou resumir e simplificar para você… e eu não estou bêbada. A cerveja volta a ser água, cevada e lúpulo. Tudo que vem da natureza volta para a natureza. Garçom! Mais uma! Isso que faz de nós sermos nós também tem uma “natureza”, uma fonte [tsss]. Nós eventualmente voltamos para o ponto inicial onde todas as almas são produzidas, indefinidamente, por toda a eternidade [glubglub].

– Eu acho que eu entendi… embora seu rosto avermelhado aponte que você está começando a ficar bêbada. Mas o que tudo isso tem a ver com Charles, meu Pai e nós duas?

– Oquei… [arroto] não tem como falar disso de forma delicada, então lá vai. Lorena, eu sou sua tatata… quantos tás eu disse? Ah, que se dane. Você é minha descendente. Foi por isso que Aisha me pediu para vir te ver. Podemos pedir uma porção de frango à passarinho? Ou sua crença é contra também?

– Haha. Não, não tem proibição. Existem apenas recomendações. Mas vendo você, eu prefiro me abster de beber cerveja.

– Há! Você acha que eu estou bêbada! Você ainda não me viu bêbada… aliás, nem eu me vi bêbada. Sabe, Lorena, eu sou privada contra a minha vontade. Vida de celebridade não é fácil. Então seja legal comigo e me deixe beber só hoje.

– Oquei, “vovó”, mas só mais uma. Foi divertida e educativa a sua… explicação. Agora eu sei por que nos damos tão bem. Nós somos tão diferentes, vivemos mundos e épocas tão diferentes, mas a despeito disso eu sinto que nós temos uma conexão especial.

– Pode apostar que sim, “netinha”… mais do que você pode imaginar. Sabe o Charles? O senhor Carrol? O amor e homem da minha vida? Ele, ou melhor dizendo, seu espírito, está ocupando o corpo deste que você chama de Pai Saladino.

Lorena engasga com o suco que espirra por cima do frango à passarinho. Seria mais uma brincadeira de Alice? O que aquilo tudo realmente significava?

– Ai que horror, Lorena… eu não preciso de uma ducha de suco.

– D… desculpe, “vovó”, mas se eu entendi bem, eu sou como uma… continuação sua e Pai Saladino é uma continuação do senhor Carrol?

– E o Óscar vai para… Lorena! Então, minha amiga, quando eu te digo que eu sei pelo que você está passando é porque eu passei pelo mesmo. Eu sei também o dilema pelo que seu Pai está passando. Aisha me deu uma oportunidade de ouro. Nós estamos no século XXI, p****! Eu… melhor dizendo… você… tem a chance de fazer algo para isso mudar. Mas para isso, nós teremos que trabalhar em superar suas dificuldades.

– Tudo bem… “vovó”… eu acho que eu não tenho muita escolha, não é mesmo? Eu não sei se entendi tudo, mas… isso me anima. A morte não é o fim. A morte é um estado, um evento, uma circunstância. Eu só te peço uma coisa, Alice. Quando eu tiver que ir, você pode ficar ao meu lado?

Lorena olha para Alice com aqueles olhos de filhotinho carente, provocando sangramento nasal em Alice. Elas se abraçam enquanto o atendente abre mais uma garrafa de cerveja. Parece um fim de tarde perfeito. Mas eu posso melhorar. Eu vou inserir mais um personagem.

– Ah! Vocês estão aí! Que bom que eu as encontrei. Meninas, se não for pedir demais, eu gostaria de conversar com Lorena.

– [meninas] Pai Saladino?!

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