Por qual nome atende o amor

A praça não tem mais crianças e mães, somente jovens enamorados recitam as palavras que se eternizaram por inúmeros poetas. Alice acena, sorridente, estimulando Lorena a continuar andando. Estrelas surgem junto com o manto de Nix e a mesquita vai fechar.

Segurando firme o nó que segura seu hijab para esconder seu medo, nervosismo e timidez, Lorena segue adiante como se outra pessoa ou uma força a impelisse. O iman habita um cômodo dentro da mesquita, esta mesma sendo adaptada do que sobrou de uma fábrica.

Quem mora no subúrbio se habitua a sobreviver na periferia da sociedade, afastado e impedido de exercer sua plena cidadania. Para católicos e protestantes não é muito fácil conviver no mesmo Reino Unido, se deixarmos de fora os anglicanos. A situação é pior para crenças não cristãs e, apesar de ser uma religião com as mesmas origens do Cristianismo e do Judaísmo, o Islamismo é considerada uma “religião das minorias”.

Lorena respira fundo, sentindo um calafrio na espinha e um tremor no corpo. Ela pede pela proteção e orientação de Aisha, sente um calor aconchegante e bate na porta.

– Só um minuto! Sim, pois não? Ah! Boa noite, Lorena. O que foi? Aconteceu algo?

– N… não… nada… Pai Saladino… eu apenas… gostaria de falar com o senhor.

– Claro, sem problema. Entre, por favor. Eu acabei de fazer chá, quer um pouco? Olha, não repare a bagunça.

Lorena conhecia bem esse cômodo, Saladino recebia qualquer um em seu domicílio e as crianças aprendiam o Corão ali mesmo. Saladino tinha uma habitação simples, sem luxo, móveis simples e funcionais, um verdadeiro contraste em comparação com as casas que ela conhecia ser de propriedade dos padres.

Em uma mesa feita de madeira de demolição, um bule, xícaras de chá, mel, adoçante, açúcar mascavo, um prato com queijo e vários pães sírios. Em uma das cadeiras, uma mulher a encarava, com desdém. Lorena a conhecia. Esta era Makusha. Todas as mulheres da comunidade falavam mal dela. Ela era afamada por ser “devoradora de homens”, ela era chamada de “Viúva Negra”.

– Ah, sim! Lorena, esta é Makusha. Mas vocês devem se conhecer. Que bobagem a minha. Mas é bom que você esteja presente. Makusha está fazendo uma acusação séria e eu quero que você me ajude a resolver. Makusha não merece ter sua reputação mais manchada do que se encontra, então sua presença aqui vai evitar fofocas maldosas. Tudo bem para vocês?

– Hmpf. Por mim tudo bem. Eu sou uma mulher madura e crescida. Seria ridículo eu ter medo de uma criança. Eu até acho bom, pois ela deve saber bem do que andam me chamando por aí.

– Bom, para ser sincero, eu preferia chamar pessoalmente cada um dos envolvidos e suspeitos. Conversar, fofocar, é uma coisa. Ficar com maldade e malícia é outra coisa. Se formos por esse caminho, será o fim da comunidade. O que você pode falar sobre isso, Lorena?

– Olha, Pai, eu não conheço a senhora Makusha pessoalmente, mas eu infelizmente ouvi o que falam dela. Eu não quero ofendê-la, senhora Makusha, mas seu comportamento e hábitos são muito escandalosos para a comunidade. Eu me sinto constrangida, vendo a senhora na mesquita, usando o hijab, recitando o Corão, falando de Deus, mas tem uma regra de vida muito secular. Mesmo casada, a senhora flertava com outros homens. Não importa se eram casados, nem se eram de fora da comunidade. Desculpe a sinceridade, mas a senhora parece uma meretriz.

– Há! Vê só? Como pode isso, iman? Essas mulheres mal amadas, ciumentas, invejosas, estão me julgando e condenando!

– Tenha calma, Makusha. Só Deus pode te julgar. Lorena apenas está relatando o que sabe. Minha preocupação é com a comunidade, então precisamos esclarecer tudo isso. Eu te conheço pelo menos há um ano, Makusha e devo dizer que seu comportamento me intriga.

– Iman! Até você! Vai querer dar uma lição de moral, de conduta?

– Em absoluto. Você é adulta, maior de idade e consciente de seus atos. Você só tem que se explicar, se justificar, dar satisfação a Deus. Eu estou dizendo que eu fico intrigado, não que te condeno ou desaprovo seu modo de viver. Para mim é indiferente, com quem e com quantos você se relaciona. Eu quero que você só me diga é se há amor ou dinheiro envolvido. Se há amor, pouco importa o nome, será amor. Mas sé é por dinheiro, você está fazendo pouco de si mesma, pouco do seu amor e do amor que recebe desses homens. Acredite, eu sei aonde este caminho acabará.

– Hah! Até parece aqueles padres da igreja que eu abjurei! Vai falar que eu vou para o Inferno?

– Makusha, eu não posso falar em nome de outros sacerdotes, de outras religiões e templos, mas eu te garanto que quem te disse isso não conhece Deus. Nós todos somos filhos e filhas de Deus. Nosso corpo, nossa natureza, nossa essência, nossas necessidades, são todas bênçãos de Deus. Como Deus nos daria algo para depois nos condenar por algo que Ele mesmo criou e nos deu? Eu sei e eu estou ciente de que são muitos o que falam em nome de Deus e, através do medo, enriquecem vendendo indulgências, perdões e penitências. Mas saiba disso, Makusha… e você também, Lorena… nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer, são igualmente sagrados e divinos quanto o Corão. Deus nos concedeu o dom do amor e do sexo. Errado seria nos privar disso em nome de uma dúbia moral e de valores questionáveis.

– Mas o senhor… o senhor disse… e se meu amor envolver dinheiro? Não é amor do mesmo jeito?

– [suspiro] Makusha, minha mãe era uma prostituta. Eu nunca conheci um pai. Eu tinha tudo para ser um delinquente. Minha mãe viveu por muitos anos nessa ilusão de que amor e dinheiro combinavam. Mas dinheiro sufoca o amor, não há lugar para o amor onde há dinheiro. Não há amor onde o dinheiro está presente. Quando o dinheiro acaba, não há coisa alguma em que se escorar. O amor nunca acaba, nunca definha, nunca te abandona, não pode ser dividido ou diminuído, apenas aumenta e multiplica. Você quer ser amada ou quer ser usada como uma mera mercadoria que pode ser descartada?

– V…você… você não sabe coisa alguma! Como pode falar em amor? Padres, pastores, imans… vocês são todos iguais. Nunca sentiram amor, nunca experimentaram o sabor de uma carne no ato sexual… dane-se você… dane-se sua comunidade!

Makusha sai em disparada, deixando atrás de si um vendaval. Lorena está quase desmaiada de vergonha. Ninguém teria tamanha ousadia de dirigir um “você” para Saladino. Nem seria capaz de ser tão rude daquela forma. Lorena não sabia direito o que sentia. Compaixão? De quem? De Makusha ou de Saladino? Doía o coração de Lorena vendo a expressão cabisbaixa e decepcionada que Saladino expressava.

– Eu acho que nós não veremos mais a senhora Makusha… [suspiro] eu devo estar perdendo o jeito. Deus me confiou essa comunidade, mas eu estou faltando com a minha obrigação.

– N… não! Nunca! Jamais! Nunca mais diga isso! O senhor… o senhor… o senhor é quem nos mantém unidos, o senhor é quem dá sentido à nossa comunidade… o senhor… [snif] o senhor… [snif] o senhor é amado por todos nós!

Saladino fica espantado ao ver Lorena tão próximo dele, segurando-o com vigor em seus braços, sacudindo-o levemente, com os olhos cheios de lágrimas. Lorena tinha aquele jeito recatado, reservado, contrido, como ele cresceu acostumado em meio às freiras, quando viveu sua infância em um internato católico. Ele sabia, de alguma forma, que Lorena gostava dele, mas não conseguia, por algum motivo, expressar o que sentia, até então. Saladino tenta adivinhar se Alice não estaria por detrás dessa transmutação, ou se foi a entrevista com Aisha, ou se foi por causa do estresse causado pelo trabalho que Lorena estava transbordando seus sentimentos.

– Heh… pelo visto, eu sou amado mesmo. Como sua amiga Alice disse, a comunidade me procura porque confia em mim… confia porque me ama. Eu também os amo a todos, mas tem uma pessoa que eu gostaria muito que fosse capaz de dizer o que sente por mim. Sabe… não sei bem como falar isso… mas eu também gosto dela, mas receio tomar a inciativa. Sabe como é… ela é tão jovem, brilhante, inteligente, esforçada e eu sou tão… velho…

– Ah… [snif] meu Pai Saladino… eu sou apenas uma criança, nada sei sobre essas coisas. Mas eu acho que, seja quem for essa mulher, ela é a mais bem aventurada entre nós. Deixe-me cuidar disso… se o senhor me permite… eu mando um recado sutil para esta mulher sobre seus sentimentos por ela e ela certamente virá correndo para lhe oferecer o mesmo sentimento. Quem seria essa sortuda?

– Hahaha! Isso é engraçado, Lorena… pois ela está bem na minha frente.

– A… ah? Aaah? E… eu? Nãonãonãonãonão…. sem chance! Impossível! Eu? Uma criança? De jeito nenhum!

– Está retrucando seu Pai, Lorena? Acabou de dizer que a mulher corresponderia ao meu sentimento, mas você nega expressar o que sente? Por que você não ? Você fala de si mesma como uma criança, mas reclama constantemente quando te tratam como criança. Deu uma boa olhada em si mesma, Lorena? Há tempos que você deixou de ser uma criança e agora é uma mulher. Como você pode exigir que as pessoas te tratem como adulta se você mesma não se aceita como uma?

Lorena deixa sua mãos caírem ao lado, sem forças, largando o ombro de Saladino, seu rosto inteiro está em ebulição e veríamos fumacinha saírem de seus ouvidos, se isso fosse um filme. Ela está furiosa com ela mesma. Como ela pode responder desse jeito com seu Pai? Como ela pode tocar e agarrar em seu ombro? Por que ela sente seu corpo quente e derretendo como se fosse manteiga no fogo, diante do olhar sereno de seu Pai?

– N… não… eu não ousaria… eu não poderia… o senhor é meu Pai… ohmeuDeus… eu retruquei para o senhor… eu segurei o senhor com força e o sacudi… o que aconteceu comigo?

– Eu gostaria muito de saber, Lorena. Eu sei que é difícil, eu sei que você está com medo. Eu também senti tudo isso e eu sei que só você tem forças para desafiar e superar isso. Tudo o que eu posso fazer é te oferecer meu apoio, minha ajuda e minha amizade. Quando você estiver pronta, eu estarei aqui para ouvir tudo o que seu coração tem a dizer. Não importa o quão terrível e dolorido tenha sido essa experiência, saiba que eu estou ao seu lado, sempre.

Saladino coloca seu braço ao longo dos ombros de Lorena, como sempre estava acostumado a fazer quando alguém está desconsolado, perdido, inseguro. Lorena estava tremendo, mas era possível sentir sua força e seu calor. Aquela flor tinha sido machucada, tinha se curado fisicamente, mas ainda carregava uma cicatriz espiritual. Saladino intui que o trauma foi forte e recorda quando conheceu Lorena, aos cinco anos e como, aos poucos, ela começou a conviver com a comunidade e ali ela se reconstruiu, se reinventou, cresceu e amadureceu. Ela só vai precisar de um tempo para perceber e aceitar que o que conta é o hoje, o passado pertence ao cemitério.

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