Parlare, parlatore

Suavemente o sol segue em direção do oeste, a neblina londrina misturada com a poluição reflete o lusco-fusco, uma fábrica soa seu sinal ao longe, misturado com o som dos navios que estão atracando no cais. Lorena aprecia a comida servida na comunidade, observando com olhos cheios de amor as crianças correndo enquanto suas mães tentam recolhê-las.

– Você tem uma comunidade e tanto, Lorena.

– Sim… eu tive muita sorte em achá-los…

Uma lágrima percorre o rosto de Lorena e Alice percebe que ali existe uma ferida, uma mágoa. Aconchegando Lorena em seus braços, Alice tenta animá-la.

– Ora, vamos… por que essa tristeza? Seja o que tenha acontecido contigo, é passado, passou. Guardar mágoa ou rancor só vai evitar fechar essa ferida. Olhe em sua volta! Você é uma privilegiada, sabia? Você tem gente que gosta de você. Está na sua cara que você os ama. Isso é mais do que muita gente tem.

– Eu sei disso… snif… eu sempre penso neles quando eu fico triste. Eu peço a Deus que me ajude a perdoar, a esquecer, a superar. Mas as memórias voltam e a dor também, quando alguém me trata mal.

– Oooqueeeii… eu não sou de falar isso com qualquer uma… mas você é especial, Lorena, então eu vou te contar um segredo… eu sofri muito em minha infância, quando eu ainda era humana. Mas eu enfrentaria tudo de novo, porque valeu a pena, pois eu fiquei junto com o senhor Carrol.

– Snif… pode me contar mais sobre sua infância? Como você conheceu o senhor Carrol?

– Tudo bem… se isso te animar. Eu vou contar minhas memórias. Isso você não vai encontrar em nenhum livro. Eu nasci bem no reinado da Rainha Vitória, a Revolução Industrial estava avançando rapidamente e o Reino Unido havia sido promulgado pelo Parlamento Britânico através do Ato de União em 1800. Nós, britânicos, podíamos orgulhosamente afirmar que o sol não se punha nas Terras da Rainha. Eu nasci em Oxford, filha de Henry e Lorina Hanna Liddell, uma dentre nove filhos. Meu pai era professor e reitor da Westminster e da Christ Church. Foi ele quem contratou seu amigo de colégio, Charles Dogdson e praticamente foi ele quem nos apresentou. Nós nos tornamos amigos no primeiro dia. Charles amava matemática, ele era filho e neto de sacerdotes cristãos anglicanos. Ele também amava tecnologia e foi um estardalhaço quando ele chegou para nos visitar com uma câmera fotográfica. Na época, apenas pessoas ricas ou influentes tinham essa maquininha. Meu pai e Charles gastaram todas as chapas, foram várias fotos, mas foram as que eu tirei que chamou a atenção. Não que eu fui forçada, foi tudo uma enorme brincadeira. Lorina gostava de fadas, assim como toda criança gosta de contos de fadas. Nós pedimos para Charles nos fotografar como fadas. Foi um momento de descontração em família, mas… de algum jeito souberam das fotos e aí começaram a falar coisas horríveis de Charles.

– Eu vi suas fotos… elas são bem… sugestivas.

– Sugestivas para as mentes pervertidas. O engraçado é que são as pessoas que não admitem ver nelas mesmas suas pulsões e libidos, então tendem a expurgar acusando outra pessoa por aquilo que gostariam de fazer. Uma foto, uma imagem, um desenho, é nada mais do que isso. Um corpo exposto, um corpo nu, deveria ser visto como algo normal, natural, sagrado e divino.

– Mas isso… é demais… as pessoas vão sempre ver o corpo nu como pornografia.

– Bah! Eu vivi na Era Vitoriana, então eu sei muito bem o que a “cultura ocidental civilizada” pensa sobre o corpo, o desejo e o prazer. Eu vivi esse movimento romântico, na arte, na literatura e na sociedade. Idealizaram romanticamente a criança e o adolescente como seres angelicais, puros, inocentes, ingênuo e assexuados. Eu era uma senhora quando Freud colocou nosso pensamento puritano de cabeça para baixo. Mas ainda precisou mais cinquenta anos para que Alex Kinsey provasse aquilo que é óbvio: todo ser vivo nasce com uma sexualidade. Mas a dita “civilização ocidental culta” prefere continuar a existir cheia de recalques. O mais engraçado é que essa mesma sociedade tolera não apenas a pornografia, mas também a prostituição, nós somos bombardeados diariamente com publicidade recheada de sexismo e fetichismo, então porque ainda mantemos esses mesmos pruridos? Nós devíamos olhar de frente e tentar entender nossa libido e nossas pulsões.

– Desculpe, Alice, mas as pessoas não estão preparadas para isso…

– Isso é só uma questão de tempo. Muitas coisas consideradas “normais” e “tradicionais” foram abandonadas. Falam tanto em “família tradicional” ou de “casamento tradicional”, como se a história da Europa não fosse comum, até a Era Moderna, diversas formas de relacionamento e até de casamentos entre pessoas com diferença etária. Reis, imperadores, rainhas, imperatrizes, até padres, bispos e papas tiveram diversos tipos de relacionamentos, inclusive incesto!

– Ai, Alice… você pode até estar certa, falando da História, coisa e tal… mas sei lá… eu ainda acho errado.

– Ah! Eu achei vocês! Desculpem-me, beldades, mas o pessoal costuma me segurar, mesmo depois de acabar a reunião. Sempre tem alguém com algum problema que aparentemente precisa de minha intervenção. Então, Alice, o que achou de nossa comunidade?

– Boa noite, “Pai Saladino”. Eu achei sua comunidade ótima. Eles te procuram porque sabem que o senhor é confiável. Eu só espero que eu não crie ciúmes, pelo senhor vir nos dar atenção.

– Não tem problema. Afinal, eu tenho que relaxar também. Gostaram do ragu? Eu achei um pouco picante demais.

– Ah! Então isso se chama ragu? Eu achei delicioso.

– Eu fico feliz em ouvir isso. Venha sempre que quiser, Alice. Ah, sim, mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho, Lorena.

– A… ah? Aaah…. o… obrigada, Pai Saladino.

– Obrigado pela atenção de vocês, meninas. A beleza de vocês são um bálsamo para mim. Boa noite.

Saladino sai da praça onde a comunidade faz a refeição comunitária, os homens recolhem as mesas, as mulheres recolhem as louças, mas Lorena está cabisbaixa, contrida, envergonhada, com o rosto parecendo uma rosa.

– Hmmmm… você hem, Lorena? Com esse jeito de mulher recatada… deixa transparecer muito facilmente que você sente atração pelo seu “Pai”…

– A… aah… ah? Ah! Nãonãonãonão! Nada disso! Não é nada disso que você pensa! Eu? Jamais! Sem chance! Nem pensar!

– Oquei, oquei, calma, respire fundo. Sabe isso que você sente por Saladino? Foi o que eu senti por Charles, pelo senhor Carrol. Então eu sei pelo que você está passando. Eu senti essa mesma pressão, esse mesmo medo. Eu compreendi mais ainda depois que eu falei com Aisha. Eu espero que você aceite e entenda isso, Lorena. Por mais que você negue e fuja, você é um botão de flor, crescendo, amadurecendo, pronto para desabrochar. Pense bem, Lorena… que tipo de futuro você quer para sua vida adulta. Quer ser mais uma adolescente que vai entrar na vida adulta com qualquer um, ou quer que seja com alguém especial, com alguém que você goste?

– Isso… isso é… indecente! Eu? Eu sou jovem demais! E o Pai Saladino… ele está… ele é…

– Velho? Inatingível? Agora me diga de novo, como é ser discriminada por causa de sua idade. Ele é mais humano do que muito padre que eu conheci. Vamos, garota! Acredite em você mesma! Ou você acha que ele veio conversar conosco por minha causa? Bom, até pode ser, afinal, eu sou linda. Mas você é linda. O que te impede é apenas essa timidez. Vamos, não é difícil. Não pense em coisa alguma. Converse com ele, como você conversa com qualquer um.

– Isso… é inapropriado… por acaso você falou com o senhor Carrol? Por acaso aconteceu algo mais entre vocês do que uma amizade?

– Ah… isso você só vai saber se você falar com Saladino. Eu vou contar tudinho. Até as partes mais censuradas. Mas só depois que você falar com Saladino. Acredite em mim, eu saberei se vocês conversaram. Eu te garanto isso: se você guardar esse sentimento, você vai se arrepender pelo resto de sua vida.

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