O pássaro do alvorecer

Lorena ainda está sonolenta quando um pássaro azul resolve cantarolar na sua janela. Não é algo normal, mas alguns pássaros conseguem sobreviver aos subúrbios londrinos. Lorena joga uma meia velha, espantando o pássaro azul.

– Nossa, um pássaro azul do alvorecer! Não é todo dia que se vê um.

Lorena nota um vulto ao seu lado, uma figura feminina, vestindo apenas uma camiseta e segurando uma xícara. Ela fica inteiramente ruborizada, envolve-se por inteiro em um cobertor e pega um guarda-chuva para servir de escudo e arma.

– Que… que… quem é você? O que faz aqui? Como você entrou?

– Ai meus Deuses… você é sempre lesada assim quando acorda? Esqueceu foi? Nós nos conhecemos no primeiro dia da Exposição Lewis Carrol, no Museu de Londres. Eu sou Alice Liddell, a musa inspiradora do senhor Carrol. Você meio que concordou em que eu passasse alguns dias morando com você.

– A… ah… senhorita Liddell… perdoe-me…

– Só Alice, por favor. Quer café, Lorena? Eu tomei a liberdade de preparar duas xícaras com esse pó de café colombiano. Não é engraçado como nós somos esquisitos? Nós reclamamos que estamos sendo “invadidos” por estrangeiros, mas não temos problema algum em consumir produtos importados.

– O… obrigada… Alice… ah! Que horas são?

– Hmmmm… o relógio na estação de trem marca meio-dia.

– A… ah! Eu estou atrasada! Muito atrasada!

– Mas que pressa é essa, Lorena? Você não está de folga? O museu só retomará suas atividades na próxima semana.

– Quem me dera o museu fosse meu único compromisso. Eu estou atrasada com minhas orações matinais. Eu estou atrasada para o culto na mesquita. Eu estou atrasada em meus serviços com a comunidade. Eu estou atrasada com meu Pai Saladino.

– Puxa, você é bem dedicada! Na minha época, nós apenas falávamos dos Protestantes, como se fossem outra raça. Eu e meus irmãos ficávamos olhando as pessoas nas ruas, tentando adivinhar, quem seria católico, quem seria protestante. Ah, quantas bobagens nós fazíamos! Mas eis-me aqui, diante de uma britânica muçulmana!

– Alice, me perdoe, mas eu estou super atrasada. Eu não vou poder apreciar seu café. Desculpe me vestir e sair correndo, mas eu tenho que ir.

– Ah, isso é que não. Eu vou com você. Eu tenho que saber de sua vida, se eu vou expor a minha vida para você.

– Mas Alice… não tem problema? Você, uma celebridade… em uma mesquita?

– Bom, sempre tem os haters… apareceram vários depois de minha entrevista com Aisha, mas eu simplesmente os ignoro. Eu só tenho que colocar um lenço na cabeça… bastante conveniente não é mesmo?

– Hã… sim… conveniente. Mas a comunidade não te conhece. Então deixe que eu te apresente.

– Tudo bem, “patroa”, você é quem manda.

Lorena se veste de forma pudica, reservada, roupas discretas que combinam com o clima londrino. Ela não consegue achar um hijab limpo, mas Alice se adianta e envolve sua cabeça em uma echarpe francesa. Muito colorida, mas serve como hijab. Lorena segue pelas ruas a passos largos, sendo seguida de perto por Alice. Nas quadras que antecedem ao bairro muçulmano, Lorena avista algumas amigas suas.

– Umala! Shantia! Desculpem o atraso! A comunidade começou a reunião?

– Lorena! Que bom! Nós estávamos começando a ficar preocupadas com você! Estão todos esperando por você… quem é essa mulher?

– Pessoal, essa é Alice…

– Quêêêê? Você? A Alice do programa “Alice Pergunta”?

– Sou eu mesma. Muito prazer em conhecê-las.

– Nossa! O prazer é nosso! A comunidade vai enlouquecer assim que souber de sua visita. Nós todos ficamos muito gratas com a sua entrevista com Aisha.

– Eu fico muito feliz que tenham gostado.

– Gostado? Nós ficamos mais fãns ainda! Ai, quem diria! Eu falando com Alice! Que conheceu e conversou com Aisha!

– Geeente, desculpe interromper, mas a comunidade nos espera, certo?

– Ai… a Lorena… sempre acaba com a nossa alegria…

– Mas eu estou aos cuidados dela, então sejam gentis com ela, oquei? Além do que nós podemos nos divertir juntas nessa reunião.

– Sim! Sim! Nós vamos te apresentar ao Iman Saladino!

– Apresentar quem, meninas?

– Ah! Oh! Santo homem! Perdoe-nos por fofocarmos…

– Nossa comida não seria tão boa se não fofocassem, meninas. Mas diga-me, quem vocês querem me apresentar?

– Ahem… a preferência é minha… eu estou na responsabilidade, lembram? Pai Saladino, eu gostaria de te apresentar Alice.

– Oh! A apresentadora do programa “Alice Pergunta”? Nós estamos muito honrados e lisonjeados com sua visita.

– Pai Saladino? Até o senhor a conhece?

– Mas é claro, Lorena. Eu não seria um bom líder espiritual se não me mantivesse atualizado. Essa concepção de que sacerdócio é coisa de gente fechada e intransigente é completamente errada. E parabéns, Alice, por essa bela echarpe. Francesa, certo?

Alice balança a cabeça e conversa com Saladino como se fossem amigos de infância. As amigas de Lorena pegam carona nesse ambiente e retomam a fofocar. Todos entram na mesquita, lotada, onde homens e mulheres aguardam a chegada de Lorena e o início do culto.

– Nossa, quanta gente! Nem no tempo em que eu frequentava a igreja eu tinha visto tanta gente assim!

– Hoje o pessoal veio para nossa reunião mensal antes da lua cheia. Nós conversamos, discutimos e resolvemos problemas que a comunidade tenha. Depois o Pai Saladino conduz o culto, recitando o Corão.

– Hah… eu me sinto velho cada vez que você me chama de pai. Fique à vontade, Alice. Não deixe que minha pequena Lorena faça você ter ideias erradas sobre nós.

– Não tem problema, “Pai Saladino”. A Lorena tem esse jeito que a faz parecer mais velha do que o senhor, mas é uma boa pessoa.

– Agh. Velho. Eu me sinto extremamente velho. Mas não há coisa alguma que eu possa fazer. Eu me sinto honrado se a senhorita me considerar como seu “pai”. Se as beldades me permitem, eu tenho que iniciar a reunião.

Saladino se posiciona no palanque do auditório, acena e pede, como se sussurrasse, pela atenção de todos, que prontamente é atendido. Saladino tem ao seu lado duas pessoas que anotam tudo e ajudam a organizar a reunião. Saladino toma seu lugar no auditório e começa a reunião dando boas vindas para Alice e elogiando Lorena pelo trabalho feito no dia anterior. Muitos aplausos e elogios vindos da comunidade. Organizadamente, as pessoas vão tomando seus lugares na reunião e vão deliberando, propondo, opinando. Problemas surgem assim como soluções. Tudo é discutido e resolvido em comunidade.

– Mais algum assunto? Mais alguma pendência? Nesse caso, permitam-me encerrar essa reunião com uma oração a Deus, recitando o Corão.

Lorena sente seu rosto quente quando ela vê Saladino dirigir um sorriso em sua direção. Alice está peculiarmente silenciosa e sorridente, enquanto Saladino recita o Corão. Lorena está surpresa, mas sente que Alice está sentindo o mesmo que ela. Essa presença marcante e gloriosa de algo ou alguém maior e mais amplo do que todo o universo.

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