Os últimos não serão os primeiros

Foram três transmissões ao vivo pela BBC e mesmo assim, aquela Exposição Lewis Carrol teve um recorde de público, digno de ser registrado no Guiness. O Museu de Londres conseguiu fechar suas portas apenas à meia-noite, mas mesmo assim ainda tinham visitantes perambulando pelos corredores até às duas da manhã e Lorena os caçava para, gentilmente, solicitar que voltassem outro dia.

– Boa noite! Voltem na próxima semana! Nós abriremos às nove da manhã, pontualmente!

– Ah, esses últimos sempre dão trabalho.

Lorena volta-se e se depara com uma garota, aproximadamente da mesma idade que a dela, cabelos entre o dourado e o cobre, com olhos de um azul profundo.

– Lamento informar, senhorita, mas o museu fechou suas portas. Eu devo pedir que volte para sua casa e retorne na semana que vem.

– Isso será um problema, porque a minha casa é aqui…

Lorena olhou desconcertada para a garota desconhecida. Suas roupas são bem comuns, mas não é um uniforme de um funcionário do museu, ou da empresa de vigilância. Seria alguém da produção da BBC que se perdeu da equipe?

– Você não está me reconhecendo, certo?

– Não… senhorita…

– Alice. Alice Liddell. Você deve ter me visto milhares de vezes no programa “Alice Pergunta”.

Lorena sente as pernas tremendo. Ela estaria vendo um fantasma? Ou estaria delirando de cansaço, depois de tantas horas falando de seu assunto e estudo favorito? Um beliscão a faz voltar a si.

– Sentiu? Então eu não sou fantasma. Bom, tecnicamente eu sequer sou humana, mas eu sou bem viva e encarnada como você.

– A… A… Alice?

– Sim, Alice Liddell, do programa “Alice Pergunta”. Você deve ter me visto pelo menos uma vez, certo? Ou você é uma dessas ratas de biblioteca?

– Senhorita Liddell, eu a conheço mais pelo meu estudo sobre o senhor Carrol. Eu acho que eu vi seu programa, mas não atinei o nome com a pessoa.

– Apenas Alice. E não se preocupe. A maioria não atina o nome à pessoa. Meu programa é um sucesso por que eu tenho essa aparência juvenil e inocente.

– Mas… Alice… como? Isso é impossível! Você morreu em 1934 e nós estamos em 2016!

– Como isso é possível? Você, que trabalha em um museu, me pergunta como uma existência permanece além de seu tempo de existência? Basta você abrir um livro… Lorena, certo? Abra um livro e leia. Você entrará em um universo onde você é capaz de ver, ouvir, falar e conhecer o próprio rei Leônidas. Que é uma gracinha, diga-se de passagem e Gerard Butler fez jus ao seu espectro, mas tem hora que cansa de ouvi-lo falar da mesma coisa. A tal da Batalha da Termópilas.

– Mas uma coisa é desenhar uma imagem na mente ou ver um ator interpretando um personagem… mas você… é bem real! Isso… é impossível!

– Ah… o que eu posso falar…. eu vivi por muitos anos na mente das pessoas e ganhava vida sempre que abriam os livros com as minhas estórias. Eu acho que foi na ocasião do centenário do livro “Alice no País das Maravilhas” que um estúdio americano decidiu fazer um filme de animação sobre mim. O estúdio fez tanto sucesso que abriram diversos parques pelo mundo. Dizem até que eu fui o resultado de uma missa negra em um templo satânico escondido nos subterrâneos de um desses parques. Eu não sei muito bem como e porque eu encarnei, mas quando eu dei por mim eu estava em Hollywood.

– Mas… você vive aqui em Londres e seu programa é transmitido para o mundo inteiro de uma emissora em Liverpool…

– Ah, sim… eu decidi voltar para minhas origens. Eu tive que sair da terra dos casacas azuis. Minha vida como personagem daquele estúdio de animação estava indo bem até que um russo… um tal de Vladmir Nabokov… lançou um livro chamado “Lolita”. Foi na década de 50 ou sessenta? Não importa. O problema é que causou um furor, principalmente depois que o autor afirmou que tinha escrito seu livro inspirado em mim!

– Bom… é isso o que críticos e especialistas em literatura dizem. Eu até li esse livro como parte de meus estudos. Invariavelmente, o público acaba me fazendo a mesma pergunta…

– “Ele tinha ou não algum relacionamento amoroso com Alice?” sim, eu sei. Eu passei boa parte de minha adolescência e maturidade tentando esclarecer e desfazer esse mal-entendido, isso é, quando eu ainda era viva em um corpo humano.

– Então… qual era a natureza do relacionamento de vocês?

– Pelos Deuses! Até você quer saber! Até quando o ser humano vai ficar preso a esses falsos conceitos e limites etários? Nós estamos mesmo no século XXI?

– Por favor, senhorita Liddelll… eu não cheguei a conclusão alguma e os registros não são muito esclarecedores… eu tenho… digamos assim… um interesse pessoal em resolver essa questão.

– Hmmmm… agora que eu me dei conta que nós aparentamos ter a mesma idade… seja sincera, Lorena… quantos anos você tem?

– Eu? Hã… dezessete…

– Eu estou eternizada nessa aparência de uma garota de quatorze anos, embora eu tenha, tecnicamente falando, cento e sessenta e quatro anos. Consegue imaginar como é ter que viver sendo desprezada e desmerecida, unicamente por que a sociedade me vê como uma adolescente, incapaz, incompetente, imatura?

– Hã… sim… na verdade eu tenho sim.

– E você acha que se descobrir algo sobre a minha vida e relacionamento com o senhor Carrol irá facilitar as coisas em sua vida? Boa sorte com isso, irmã. Eu vivi muitos anos e pude ver como a humanidade é lenta para certos assuntos.

– Mesmo que eu vire pó… mesmo que demore milênios… eu tenho que saber. Da mesma forma como você viveu sua vida atormentada por essas dúvidas, eu tenho vivido assim, porque as pessoas só me perguntam se é verdade que o Profeta casou-se com Aisha quando ela tinha nove anos!

– Ah! Isso explica o porque que Aisha me pediu para vir te ver…

– A… Aisha? Você conheceu e falou com Aisha?

– Mas é claro! Eu a entrevistei no meu programa mais recente, você deveria assistir.

– Eeueueueueueueu… eu gostaria de ver e falar com Aisha….

– Você e milhões de muçulmanos… mas vamos ver… se você for boazinha e cuidar bem de mim… quem sabe?

– E…eeeh? Eu? Cuidar de você? Como assim?

– Ordem de cima… querem acabar de uma vez com todas com essa neurose e paranoia. O ser humano não foi gerado pelos Deuses para ter medo, vergonha ou nojo de seu corpo, de sua natureza, de sua sexualidade. Eu irei morar com você até acabar essa Exposição Lewis Carrol e eu espero que nós possamos resolver esse assunto de uma vez por todas.

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