Exposição em Londres

A BBC teve a ideia de fazer uma exposição em pleno Museu de Londres para comemorar os clássicos da literatura inglesa, um tema ou um autor por semana. Conforme a atração oferecia ao seu público um pouco sobre a época, os costumes e a sociedade de cada autor, não houve muito interesse do público até que anunciaram o início da exposição em homenagem à Lewis Carrol. Os ingressos esgotaram uma semana antes do museu abrir suas portas e não faltaram cambistas vendendo ingressos fajutos a preços altíssimos.

O público britânico, tão gentil, tão educado, tão refinado, estava prestes a virar um público latino-americano, para o horror das autoridades. Para evitar o pior, a BBC resolveu transmitir a exposição ao vivo em horários alternados para todos os cidadãos do Reino Unido. A curadora do museu, preocupada com a imagem do Museu de Londres e com a sua carreira, achou por bem insistir com os produtores da BBC que sua guia oficial é quem devia apresentar a exposição para os telespectadores.

– Lorena, você é estudiosa de Literatura Inglesa e especializada na vida e obra de Lewis Carrol. Eu quero que você seja tanto a guia dessa exposição como a apresentadora desse programa que a BBC vai transmitir.

– Puxa vida, diretora… eu fico lisonjeada… mas por incrível que pareça, eu não gosto de me expor a um público tão grande. A senhora sabe… eu venho de uma família que tem laços com o senhor Carrol, as pessoas nunca o entenderam e podem fazer perguntas embaraçosas.

– Ânimo, mulher! Nós estamos no século XXI! Nem mesmo nós, britânicos, temos mais aquele prurido e vergonha das coisas, como tínhamos na Era Vitoriana.

– Mas… diretora…

– Sem desculpas. Ou faz, ou rua.

Lorena abaixa os olhos, aperta as mãos e comprime os lábios. Ela precisa do emprego, especialmente agora, que a Europa tem reacendido o Fascismo da década de 30, do século XX. Depois que o Reino Unido se “divorciou” da União Europeia, Lorena tem que andar com um calhamaço de documentos em mãos, para provar que ela é cidadã britânica, pelo menos pelo lado de seu bisavô. Mas nem sempre é tão fácil assim, diversas vezes ela era parada por policiais na rua, simplesmente por parecer estrangeira ou simplesmente por ser muçulmana. Lorena tinha orgulho de suas origens, multiétnicas, cosmopolitas, ela era, literalmente, uma filha da Globalização, mas isso só funciona com coisas, não com pessoas.

– T…tudo bem… eu faço. Mas eu quero intervalos regulares para as minhas orações diárias.

– Boa menina! Ela é toda de vocês, equipe de programação.

As equipes de cabeleireiros, maquiadores, estilistas e técnicos invadem o pequeno espaço dos funcionários do museu para preparar Lorena. Uma coisa é apresentar uma exposição para algumas dezenas de pessoas, outra coisa é fazer a mesma apresentação para milhares de pessoas. As emissoras de televisão criaram, ao mesmo tempo em que cresciam, sua própria linguagem e estética. Lorena teria que ficar mais “adequada” para o “gosto do público”.

– Ai que horror, menina! Você tem uma pele tão… cor de cáqui! Isso é quase o mesmo que ser parda… você vem de onde mesmo, querida?

– Eu sou de Cheshire… a mesma região de onde nasceu o senhor Carrol…

– Ah! Desculpe querida, mas… você tem uma aparência tão…

– Estrangeira? Sim, eu sou extravagante, única, original. Você se acha muito britânica, não é? Por acaso conhece seus antepassados, seus ancestrais?

– Ai credo… mal começou a aparecer na televisão e está dando piti… querida, eu não dou a mínima nem de onde vem a comida… mas isso é televisão… o “público” pode estranhar sua aparência, só isso.

– Desculpe se eu não sou loira, burra e um mero objeto sexual…

– Ah! Agora, quem está sendo preconceituosa? Bom, querida, eu vou passar só uma base levinha, assim você fica com uma pele mais puxada para o café com leite.

– Hei, agora não é hora de ficar de DR. Eu ainda tenho que fazer o cabelo dela.

– E eu tenho que medir ela para tentar achar um vestido que emoldure tudo.

Como se estivesse em um pesadelo, Lorena assiste impotente ao que estes monstros fazem com ela, transformando-a em outra pessoa, outra coisa que não era ela mais. Lorena fecha os olhos e pede a Deus que isso acabe rapidamente, que ela não sinta dor ou sofrimento. A assistente de direção de programação lhe dá alguns tapinhas no ombro, como que para despertá-la.

– Acorda, Bela Adormecida, que aqui não tem Príncipe Encantado, mas tem Espelho Mágico.

Lorena abre os olhos vagarosamente, com receio do que estava para ver, mas depois arregala os olhos. Sim, estava magnífico. Nada vulgar e apelativo, como ela achava que seria. Seu rosto tem uma maquiagem leve e sua pele a faz lembrar-se de sua avó. Seu cabelo nunca esteve tão maravilhoso assim, nem mesmo em sua festa de formatura. O vestido dela era muito parecido com um que ela vivia paquerando na vitrine da loja. De alguma forma, a equipe de produção manteve e ressaltou sua beleza única e especial.

– Gostou, não é mesmo? Olha, a televisão não é esse monstro que dizem ser. Infelizmente empresas e agencias de propaganda ainda nos fazem de meros objetos sexuais, assim como existem programas e filmes que perpetuam o machismo e o sexismo, mas isso felizmente está acabando. Essas coisas são antiquadas e obsoletas. Ânimo, irmã, o Feminismo venceu.

Lorena sorriu e se deu um soquinho na cabeça, como se fosse uma menina que acabara de ser pega fazendo traquinagens. Afinal, nós vemos com bastante facilidade o preconceito nos outros porque não enxergamos o nosso próprio. Ela percebeu o quanto estava sendo teimosa e intolerante, exigindo que respeitassem sua origem, enquanto ela mesma não tinha, até então, notado que a assistente de direção de produção exibia, orgulhosamente, seus traços asiáticos. O Neoliberalismo que regra a política econômica mundial arrastou a humanidade para um consumismo desenfreado e fútil, promoveu a Globalização, incentivou o Multiculturalismo e agora isso está engolindo seu Criador.

– Obrigada, pessoal… obrigada, senhora…

– Senhorita Leclerck. Eu sou franco-asiática. Aliás, se eu fosse dizer as inúmeras misturas que temos aqui, nós ficaríamos a tarde toda. Sim, nós somos todos mestiços. Desde o Neolítico. Então mantenha esse orgulho que você tem de suas raízes e origens. Sinta apenas pena de quem nutre alguma ilusão de pertencer a alguma estirpe.

– Poxa gente… obrigada mesmo… eu sei que eu fui chata…

– Iiiihhh… não chora não que deu um trabalhão para te deixar mais gata do que você é. Vai lá, irmã e arrasa.

Os técnicos se posicionam ao mesmo tempo em que os porteiros preparam para abrir as portas do museu aos primeiros visitantes. A assistente de direção de produção indica com os dedos dez minutos. Lorena respira fundo, pega seu smartphone e liga para seu iman.

– Salam Maleicum. Bom dia, Lorena.

– Maleicum salam. Bom dia, Iman Saladino.

– Aconteceu algo, meu anjo? Você parece estar nervosa, ansiosa. Tem algo de errado em sua apresentação que vai ser transmitida em breve?

– Oh, meu Pai Saladino! O senhor sabe de tudo! Deus deve ter te revelado!

– Ah, minha pequena Lorena, Deus está contigo também. Eu estaria sendo muito prepotente e arrogante se eu me colocasse em uma posição privilegiada diante de Deus. Eu soube pela comunidade, Lorena. Nós estamos todos torcendo por você. Que Deus te abençoe.

– Obrigada, meu Pai Saladino. Eu só espero não criar escândalo na comunidade por aparecer, pelas roupas que eu estarei vestindo…

– Acalme seu coração, Lorena. Somente Deus pode julgar. Ele te julgará pelo que está em seu coração, não por aquilo que você veste ou faz. Fique em paz e deixe que Deus faça de você um instrumento.

A assistente de direção de programação agita três dedos. Lorena segura o choro e consegue acalmar seu nervosismo. A comunidade está do lado dela. O santo homem está do seu lado. No tempo que lhe resta, Lorena entoa mentalmente uma prece para Aisha, a Mãe dos Crentes, para que ela tenha tanta força e coragem como ela. Enquanto a contagem regressiva passa no teleprompter, Lorena sente um caloroso abraço a envolvendo. Uma voz macia, feminina e vibrante sussurra em seu ouvido.

– Você me chamou, irmã, eu vim. Nada tema. Nós estamos contigo.

Eu busco as palavras, mas elas me escapam. Como descrever essa sensação, de pertencimento, de aceitação, de acolhimento? Poucas coisas nesse mundo podem ser tão boas assim, essa sensação de ser querido e amado. Sem isso, nós seríamos muito pobres, solitários, infelizes e melancólicos.

– Sejam bem-vindos todos à exposição da vida e da obra do escritor Lewis Carrol, o nome de pena de Charles Lutwidge Dodgson. Eu sou Lorena Latifa e eu serei sua guia. Esta é uma transmissão da BBC, patrocinada pelo Ministério da Cultura.

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