Arquivo mensal: dezembro 2016

Cai o primeiro véu

– Muito bem, garoto, você estava em algum tipo de santuário que você encontrou naquele buraco onde você caiu durante sua ação naquela missão e encontrou uma garota. Depois, de forma misteriosa, você reapareceu na periferia de Mossul e começou a sua… pregação. Deve ter acontecido algo entre esses dois eventos que foi crucial para sua… transformação. Eu tenho a impressão de que eu irei me arrepender, mas a chave de tudo está nessa garota e no que ela te disse. Consegue recordar e recontar esse evento e as palavras dessa garota?

– Oh, sim, senhor. Mas… o senhor, como bom americano, é cristão? Eu temo que o que eu fale venha a te ofender, senhor.

– Garoto, coisa alguma pode me ofender. Concentre-se em relatar com exatidão seu… encontro com essa garota misteriosa. Isso é a chave de sua liberdade que pode custar sua vida.

– Então não me leve a mal, senhor, mas minha vida, a sua vida… a vida de qualquer ser vivo… está nas mãos de seres que, se me perdoe a ignorância, podem ser descritos como Deuses. Nós tendemos a definir a realidade, a existência, dentro de nossos padrões, como se nós fossemos o centro do universo e medimos o tempo e espaço conforme a nossa conveniência e percepção… oh, nós estamos tão errados!

– Isso não vem ao caso, soldado. Fale dessa garota e do que vocês conversaram.

– Mas aí que está o problema, senhor… como o senhor… como o Tribunal Militar poderá entender o que se passou se sequer compreendem o que eu declarei diante de diversas testemunhas?

– [suspiro] Prossiga,soldado…

– Eu estava diante daquela garota… completamente aturdido… como um garotinho diante da garota mais linda da escola. Ela me saudou dizendo que me aguardava. Eu, muito tolo e ignorante, a questionei. Eu lhe perguntei: “Como assim, você me aguardava? Como você sabe o meu nome? Eu venho de longe e eu receio que meu tempo esteja muito distante do teu”. Ah… ela soltou uma risada… e as paredes do templo balançaram.

– Diga-me Ryan, quantas pessoas estão presentes aqui?

– Eu, você e essas duas estranhas criaturas.

– Não fale mal de meus queridos amigos. Mas você está enganado, Ryan. Você não percebeu que estão conosco também um escriba, um leitor e o major John Wayne?

– Pausa, soldado. Como essa garota pode dizer que eu estou presente ali, se isso aconteceu mês passado?

– Senhor, não é delicado interromper a Deusa…

– [suspiro] Tudo bem, garoto, prossiga.

– Senhorita, eu tenho plena ciência de onde eu vim e quem eu sou. Eu estou momentaneamente desorientado porque eu caí em um buraco e encontrei esse local desconhecido, me deparei com criaturas fantásticas e agora me encontro diante de você, uma perfeita desconhecida. Pode me dizer quem é e o que está acontecendo?

– Tem certeza do que diz, Ryan? Engraçado como vocês, seres humanos, usam “desorientado” ou mesmo “desnorteado”. Então o Oriente é a direção certa? O norte é a direção exata? Isso é engraçado, porque você, sendo ocidental, tem aversão ao que é oriental. Mais engraçado ainda, é que você adotou um mito oriental, do Oriente Médio, dessa mesma terra que você e seu povo estão invadindo, muito embora suas raízes e origens sejam da Europa. Como pode adotar um falso deus e esquecer os Deuses de seus ancestrais? Olhe bem para suas origens e raízes, Ryan e descobrirá que mesmo Europa, a minha filha, que dá nome ao continente, nasceu nessa região. No meu ponto de vista, você nunca esteve orientado, você ignora completamente quem é e de onde veio.

– Eu sou Ryan Lennon. Eu sou um amerciano temente ao Deus Verdadeiro e acredito no Senhor Jesus. Eu sou um soldado do Terceiro Batalhão, Divisão Gavião do Deserto. Eu estou em missão para libertar Mossul. Este sou eu. Quem é você?

– Libertar, Ryan? Como você pode dar algo que não possui? Como seu povo pode se dizer como a maior democracia ocidental se vive invadindo outros países e impondo o seu modelo americano aos demais povos? Você e seu povo são marionetes. Pior, servem a grupos que detêm um poder que não lhes pertence. Você me pergunta quem sou eu? Você está diante daquela que é a Rainha do Firmamento, a Mãe dos Deuses, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino e ainda pergunta quem sou eu?

– Sim, eu te ordeno que se identifique, em nome do Senhor!

– Eu conheço todos os Deuses, Ryan e não conheço nenhum Cristo, mas que seja conforme teu gosto. Adiante-se e apresente-se diante de mim este que Ryan acredita ser o Deus Verdadeiro.

– Minha Senhora… minha Rainha… eis-me aqui. Não ouça esse humano. Eu não o conheço, nem conheço ao povo dele. Não é este o meu povo. E eu não conheço Cristo algum.

– Disso eu sei, Yahveh. Mas mesmo assim é necessário tirar esse véu que encobre a visão da humanidade. Por mais desagradável e repugnante que seja sua presença diante de mim, mostre sua verdadeira face aos humanos.

– Olhe bem para mim, Ryan… é isso… o que eu sou… apenas um verme espiritual. Essa é a minha aparência, por isso que eu proibi que os Hebreus fizessem imagens de mim ou dos Deuses. Como eu poderia manter o povo de Israel como o meu povo, mantê-los me alimentando com sua crença ignorante e cega, se não os enganasse, não os fizesse esquecer os Deuses de seus ancestrais? Olhe bem para mim, Ryan! Vê algo em mim que seja divino? Eu pareço mais com uma larva de mosca. Eu sou um resto do experimento que Enki executou ao gerar os humanos a partir da engenharia genética, quando ele deu aos Annunaki seus filhos e filhas. Isso mesmo, Ryan, vocês são mais divinos do que eu mesmo. Por isso que eu tive que enganar Abraão naquele monte. Foi Abraão e sua longa linhagem quem fez de mim o Deus do povo de Israel. Foi a crença e adoração desse povo que tem me mantido entre os Deuses. Mas nada disso irá mudar o que eu sou, Ryan.

– Mas… se você é Deus… e quanto a Jesus Cristo, aquele que você enviou para nos salvar da morte e do pecado?

– Ryan, Cristo é um título, não uma pessoa. Jesus, esse personagem, é mais mítico do que homem. Quer mesmo seguir a Cristo? Então você devia ao menos saber a palavra certa: Ha Massiah, ou Messias, em termos gentílicos. O Cristo verdadeiro era Magdala, a Suma Sacertotisa, a quem ensinava os Mistérios tanto a Judeus Helenizados quanto aos Gentios. Jesus, esse personagem, é resultado da amalgama de dois ou três rabinos que estavam mais próximos de Magdala e destes vieram os primeiros Nazarenos, de Notzri, “nova raiz”, que deram origem ao que seriam as primeiras comunidades cristãs. Infelizmente algumas comunidades foram dominadas pelos Judeus Helenizados, que forjaram os nomes de seus fundadores e atribuíram a estes a autoria de seus escritos sagrados… o Conhecimento se perdeu nessa disputa pelo poder. Isso que vocês, cristãos, chamam de Evangelhos, são uma abominação perpetrada por estes lideres espirituais, que estão usurpando dos Deuses e dos Mistérios o que lhes pertencem.

– Mas diz a Bíblia… que você tinha prometido um Redentor, um Salvador, um Messias, o Cristo, que veio para nos salvar da morte e do pecado…

– Por favor não me envergonhe diante de minha Senhora e Rainha, Ryan… sua preciosa Bíblia é uma blasfêmia. Aquilo que você chama de Velho Testamento procede da Torah, um texto sagrado Judeu que, tal como os Evangelhos, foi forjado por sacerdotes. Ainda que fossem minhas palavras, ali mesmo existem diversas pistas da farsa. Ali não diz que eu sou o Senhor do Povo de Israel? Então por que você, americano, me adora? Ali não diz que eu sou o criador de tudo? Eu criei o Bem e o Mal, eu criei Satan… e mesmo assim teu povo me adora? Como podem entoar cânticos a mim, se fui eu quem colocou a Árvore do Conhecimento no Éden e assim mesmo proibi aqueles que supostamente eram minhas criações de comer desse fruto? Como podem achar que eu posso lhes dar salvação e redenção da morte e do pecado, se tais coisas tua gente adquiriu depois da Queda que eu mesmo tornei possível de acontecer? Ali diz que eu enviaria um Emissário… Ha Massiah é mais anjo do que Deus e mesmo assim este viria apenas para o Povo de Israel, para restaurar o MEU reino! O que os Profetas falam é da restauração do Povo de Israel, do Reino de Israel, não de toda a humanidade! Você entende isso, Ryan? Você, seu povo, seu país… simplesmente ficariam todos de fora do “Novo Mundo”! E que Cristo fracassado é esse que não evitou a morte de tanta gente, por guerras feitas em nome dele? Cristãos mataram outros cristãos ou qualquer outro que professasse outras crenças… a promessa da cruz é vazia!

– Mas… e quanto ao pecado?

– Ryan, você está me constrangendo… acha mesmo que aquilo que um ser humano faz ou diz em sua curta vida pode ofender aos Deuses? Não, Ryan, não é possível. Sua gente tem dentro de si essa noção natural do que é certo e errado. Isso faz parte da natureza que é parte de sua essência, natureza e essência que é parte do DNA divino que vocês receberam. Sua natureza divina vive em conflito com sua natureza animal e disso advém atos e palavras que são consideradas falhas, erros, que suas consciências mesmos determinam e disso vocês mesmos convencionaram formulas e procedimentos, rituais, cerimônias, para purificar suas vidas desses atos e palavras. A falha, o erro, é pessoal; a redenção, a salvação, é pessoal e individual, algo a ser feito em vida, na presente vida, não deveria ser uma ameaça ou castigo para o outro mundo.

– Conte para o Ryan como toda essa obsessão com o pecado começou…

– Sim, minha Senhora… eu sou o autor disso… para minha vergonha e opróbrio. Eu tinha inveja e ciúme dos Deuses. Eu tinha vergonha e rejeição a mim mesmo. Eu achava que merecia mais, que podia ser igual ou semelhante aos Deuses. Eu tinha pouca autoestima e tinha uma imagem errada a meu respeito. Eu perambulei por Gaia em busca de algo que pudesse me equiparar aos Deuses e então eu encontrei Abraão naquele monte e usando da pouca força que tinha, eu fiz aquela sarça arder com um fogo fátuo. Abraão primeiro me tomou como um gênio local, um espírito protetor, que poderia servir como espírito patrono de sua família e assim iniciamos o nosso… comércio. Eu fiquei em pânico quando a família de Abraão tornou-se mais numerosa e tinha também os aparentados que começaram a me adorar como Deus deles. Eram um povo simples, humilde, ignorante, que vivia do pastoreio e de poucas colheitas… um povo que tinha uma preocupação zelosa com seus erros e falhas, pois acreditavam que sua vida, todo o sofrimento e dor que tinham, era resultante de uma maldição divina, provocada por algum ato de algum ancestral mítico. O Mito da Queda está presente em diversas culturas e povos, mas fui eu o único que se aproveitou disso para que aquele povo me tornasse Deus. Para minha própria glória, eu reneguei meus irmãos e irmãs… eu proibi aquele povo de adorar seus Deuses e os forcei a me aceitarem como o Deus deles, o Único Verdadeiro… então eu lhes dei de presente o conceito de pecado… eu criei o pecado…

– Mas Jesus… Cristo… ele não veio para nos redimir do pecado e nos dar a vida eterna?

– Caralho! Você está me escutando, humano? Cristo era mulher e morreu como todo humano morre! Tudo que é carnal, material, eventualmente há de voltar para sua origem! A alma sempre foi eterna! Como Cristo, ou eu mesmo, posso dar algo que não me pertence, nem é necessário? Como Cristo, ou eu mesmo, posso redimir de algo que só existe nas suas cabeças? Não há pecado, cacete! Apenas a sua compulsão, o seu medo, faz com que ainda exista o pecado e a necessidade de salvação, de redenção!

– Yahveh, sua explanação foi esclarecedora, mas não precisava usar termos chulos. Você está dispensado. Volte para o limbo, que é seu lugar.

– Sim… minha Senhora… desculpe meu linguajar, mas esses humanos… de vez em quando precisam ser sacudidos… eu volto para o lugar que me cabe, mas eu me disponho aos seus serviços, Soberana…

– No momento certo, Yahveh, no momento certo. Fique satisfeito por ter ajudado a remover o primeiro véu. Agora suma.

Anúncios

Um coelho no buraco errado

– Nós estávamos em nosso acampamento, em algum lugar a nordeste de Nínive e nosso plano de batalha era uma incursão e Mossul. Nosso comboio foi duramente atacado e acabamos nos dividindo. Eu acabei sozinho em Tel Keppe, me esgueirando por entre ruínas, enquanto tiros e bombas vinham de todo lado. Eu devo ter entrado no que sobrou de uma mesquita, ou algo assim, quando o chão abriu-se debaixo de meus pés. Eu caí naquele buraco escuro e devo ter desmaiado com a queda.

– Seu comboio foi atacado pouco depois de sair de Bardarash. Uma equipe de inteligência está investigando se houve algum vazamento interno ou se foi trabalho da polícia secreta do Estado Islâmico. O senhor consegue estabelecer quanto tempo o senhor permaneceu desacordado até recuperar a consciência.

– Aí que está, senhor. Tempo e espaço são uma ilusão. Meu corpo, o corpo do senhor, esta mesa, esta cadeira, esta sala de inquérito…. tudo isso que nós vemos, são ilusões, que nós cremos como sendo a realidade, por causa de sua aparência concreta.

– Isso eu terei que suprimir desse áudio. Deixe seus delírios esotéricos para outro momento, soldado. Prossiga com seu relato.

– Eu acordei em meio a escombros, o ambiente estava levemente na penumbra, quebrada por um pequeno facho de luz que vinha da superfície. Eu tinha minhas pernas fraturadas, senhor, várias escoriações, várias perfurações e eu respirava com dificuldade. Eu cuspi muito sangue ali, senhor. Felizmente meu treinamento tornou possível minha sobrevivência, eu entrei com o procedimento médico de emergência e isso foi suficiente para diminuir a dor e poder me levantar. Eu dei inicio ao procedimento de evasão do buraco, explorando o ambiente. Assim que meus olhos se acostumaram com a penumbra e com auxílio da lanterna fosforescente, eu pude ver que estava em algum tipo de edifício antigo, senhor, muito antigo, a considerar pela decoração e gravuras nas paredes. Eu perambulei até ouvir um nítido barulho de água corrente e comecei a me deslocar em ritmo de marcha em direção ao som. Então eu me deparei com uma espécie de antessala, um pórtico inteiramente coberto por cerâmica azul e dois archotes que ardiam nas laterais.

– Eu devo anotar que o senhor estava delirando, soldado?

– Senhor, eu tirei uma foto. Posso prosseguir?

– Sim… deixe a foto comigo… ficará no arquivo ultra-secreto.

– O pórtico abriu suas imensas portas e delas surgiu uma criatura com cabeça de leão. Aquilo olhou com desprezo para mim e disse: “Quem ousa invadir o santuário da Deusa do Firmamento?”. Eu não sabia quem ou o que era aquilo, mas procedi com a identificação básica que nós somos orientados a fornecer. A criatura também identificou-se: “Eu sou Aeon, o Espírito do Tempo desse mundo. Eu conheço tua gente e prevejo o vosso destino. Tua vinda aqui deve ter um significado. Siga-me, que eu irei perguntar ao Senhor do Mundo”.

– Eu devo imaginar que se relato e sua revelação seguirão estes delírios esotéricos, soldado?

– Senhor, eu tirei uma foto.

– Isso está ficando irritantemente repetitivo. Prossiga.

– Mais adiante, eu percebi que aquele pórtico dava entrada a algum templo extremamente antigo. Ainda tinha escombros, mas estava impressionantemente limpo e arrumado. Então a criatura me apresentou a outra criatura com cabeça de bode. Aquilo olhou com curiosidade para mim e disse: “Você não está mais em Kansas, Ryan”. Aquilo soltou uma gargalhada estrondosa. “Você parece confuso e surpreso. Você não me conhece. Seus ancestrais me conheciam, mas você foi educado e ensinado a adorar um falso deus. Venha, Ela o está esperando”.

– O senhor era aguardado, soldado?

– Sim, senhor. Na igreja falavam muito sobre as coisas acontecerem pela vontade de Deus. O que não dizem é que Deus é mulher.

– Cuidado, soldado, não blasfeme…

– Senhor, eu estou falando a verdade em meu relato.

– [suspiro] Como quiser, garoto. Prossiga.

– As criaturas me escoltara para a parte mais interna daquele templo, até chegar no que eu acho ser a câmara central. Aquele local estava ricamente decorado e no centro de tudo tinha um dossel que cercava uma enorme cama, onde aparentemente alguém dormia. O dossel era ricamente gravado com relevos e estava envolto com dezenas de véus de cor púrpura. As criatura apontavam para adiante, mas elas ficavam em silêncio, olhos baixos e ajoelhados. Eu me aproximei e pude ver melhor quem ou o quê estava na cama. Parecia uma garota. Eu diria que ela parecia ter 16 anos. Mas… oh… o senhor me desculpe se isso o ofender, mas aquele corpo… era… melhor dizendo… é perfeito! Olhando para ela, podia-se ver que era uma mulher completamente formada, madura e fértil.

– Eu terei que ressaltar a palavra “parecia”. Senão o tribunal o condena de imediato por achar uma criança sexualmente atraente.

– Desculpe, senhor… mas… 16 anos não é uma criança.

– Argh. Eu vou ter que editar isso. Jamais diga isso novamente, garoto. Nós ainda vivemos em um tempo de ignorância. Prossiga.

– Ela espreguiçou vagarosamente, levantou de seus lençóis, colocou-se na borda da cama e virou-se na minha direção. Então… ela abriu os olhos… oh, senhor! Foi como se eu tivesse olhado para o coração de uma estrela!

– Como assim, garoto? Não se pode olhar para o coração de uma estrela! Seria como olhar para o sol.

– Exatamente! Eu olhei para o sol! Aquele olhar emanava poder em estado bruto! O local foi inteiro tomado por luz pura! Tudo mesmo! Não havia uma sombra sequer! Era como se tudo tivesse sido coberto por uma fina camada de ouro!

– Foi nesse momento que o senhor teve a revelação?

– Ah, não, não senhor. Eu apenas constatei um fato. Eu creio que o senhor, como bom americano e cristão, deve ter tido uma experiência com o Espírito Santo alguma vez… na igreja, em seu batizado nas águas, em algum culto…

– Eu entendi a ideia, soldado. Foi isso que o senhor experimentou?

– Oh, não, não senhor… quando eu era cristão e senti tais coisas… depois daquilo… esta experiência supera em muito qualquer das minhas experiências anteriores. Antes era apenas a minha cabeça… mas o que vinha dela… era… melhor dizendo… é poder absoluto.

– Eu imagino que o senhor tenha uma foto disso também…

– Entre meus itens confiscados, o senhor irá encontrar um gravador. Inexplicavelmente meu aparelho gravou minha conversa com essa garota, sem estar ligado e minha camera gravou um vídeo, sem que estivesse ligada ou na posição correta…

– Eu terei que enviar estes aparelhos aos arquivos ultra-secretos. Prossiga.

– O brilho naquele olhar foi arrefecendo, como se ela estivessse controlando e filtrando uma quantidade enorme de poder. Só então eu pude ver seus olhos, de um violeta profundo. Quando ela sorriu, meu corpo inteiro parecia arder, como se eu fosse um garotinho diante da garota mais linda do colégio. Ela saiu de sua cama e eu pude ver seu corpo… por inteiro… escassamente coberto por um fino tecido de seda. Minhas calças estavam para arrebentar, senhor.

– O senhor teve uma ereção. Compreensível, diante de tal miragem. O senhor deve ter uma foto.

– Sim, mas infelizmente só será vista por quem ela quiser que veja…

– Mesmo assim eu enviarei ao arquivo ultra-secreto. Prossiga.

– Então ela falou… oh, senhor… eu fui um privilegiado por ouvir tal voz… uma voz doce, melodiosa, suave. Ela disse: “Bem vindo, meu querido e muito amado. Eu o estava aguardando ansiosamente. Eu te escolhi, Ryan, dentre todos os humanos nesse mundo, para ser o portador de minha mensagem. A humanidade sofreu tempo demais debaixo da opressão do Usurpador. Está na hora. Eu irei retomar aquilo que é meu por direito”.

– Nesse momento o senhor teve a revelação.

– Sim. Inexplicavelmente eu reapareci na periferia de Mossul, na superfície, diante de um de nossos postos de controle e foi ali que eu comecei a transmitir a mensagem que eu recebi. Diversas pessoas, civis e militares, gravaram minhas palavras e agora estes vídeos estão sendo compartilhados milhares de vezes. Mas eu não retiro uma palavra sequer. Ali que disse a verdade, nada mais do que a verdade.

O diário do soldado Ryan – acareação

Em algum lugar do Pentágono, o major John Wayne marca seu passo de forma enérgica e vigorosa. O Comando Geral o havia designado para cuidar de um caso difícil no Tribunal Militar. No subterrâneo do Pentágono, o major adentra pelos corredores, como um semideus. O major entra na Sala de Inquérito onde seu investigado o aguarda, visivelmente prejudicado e machucado.

– Cristo! O senhor foi torturado? Chamem o responsável. Isso é inaceitável. Este ainda é um soldado americano.

– Oh, não, senhor. O pessoal me tratou bem. O senhor devia ter visto quando eu cheguei, depois de ser dispensado de meu pelotão.

– Oh, é mesmo? Entendo. Muito bem… soldado Ryan… dispensado com honras pelo capitão Gibson, do Terceiro Pelotão de Infantaria. O relatório clinico fala em múltiplas fraturas, perfurações e queimaduras. Ah! O senhor acabou de voltar da Operação Falcão, que atuava no Iraque! Garoto, você conheceu um inferno e tanto. Eu estive na Coréia e Vietnam, então eu tenho uma ideia. O senhor honrou seu uniforme e sua pátria, soldado Ryan.

– Obrigado, senhor, mas… mesmo assim… aqui eu estou na Corte Marcial.

– Isso é necessário, soldado, pelas declarações que o senhor fez. O senhor confirma isso?

– Sim, senhor.

– O senhor ainda concorda ou pensa da mesma forma?

– Sim, senhor.

– Isso não é bom, soldado… vídeos estão sendo compartilhados pelas redes sociais e estão com milhares de visualizações no Youtube. O senhor tem ideia do impacto que isso pode ter?

– Eu ainda não tenho ideia da dimensão, senhor, mas se a mensagem está sendo ouvida, então minha missão foi bem sucedida.

– Missão? O senhor está em um tipo de missão secreta? O senhor pertence a alguma divisão especial do Exército?

– Oh, não, não senhor. Eu sou apenas um soldado. Eu decidi aceitar essa missão depois da revelação que eu tive.

– Revelação? Garoto, você pertence a algum desses grupos malucos de religiosos?

– Oh, não, não senhor. Eu sou… melhor dizendo… eu era um bom cristão, como todo bom americano.

– Cuidado com suas palavras, soldado. Esta é uma nação temente a Deus. O que você quer dizer com “eu era um bom cristão”? Não é mais?

– Desculpe-me major, mas eu não sou mais.

– Mas ainda é um americano que ama sua pátria?

– Oh, sim senhor!

– Isso é bom. Nós temos bons soldados que não são cristãos. Mas são bons americanos, a despeito de sua origem estrangeira. Sua declaração teve um cunho religioso ou político?

– Com devido respeito, senhor, mas não tem como separar religião e política, afinal, nós somos uma nação temente a Deus.

– Isso não é bom. Veja bem, eu ainda nem entrei no mérito das suas declarações, mas tendo em vista de seu serviço e das tensões que envolvem as relações de nosso país com o Iraque, essa é uma preocupação compreensível. O senhor não fez ou não pretende fazer um manifesto, defendendo ou propagando o Islamismo?

– Não, não senhor. Para falar a verdade, o Islamismo incorre no mesmo erro que o Cristianismo, senhor.

– Cuidado com om que diz, garoto. Nossa corporação é tolerante, mas não aceita blasfêmia. Isso tem algo a ver com o seu diário?

– Sim, senhor. Como recomendação do Comando Geral, todos os soldados portam consigo cadernos para anotarem suas operações diárias e disso fazemos relatórios, senhor.

– Então o senhor confirma a existência destes diários?

– Sim, senhor.

– O senhor confirma que é o autor e confirma a autenticidade dos registros?

– Hã… sim, senhor. Como soldado, faz parte de meu dever relatar apenas a verdade.

– Isso é louvável soldado [suspiro] por isso que eu fui designado para o seu caso. O senhor estabeleceu um paradoxo difícil de resolver. Se o senhor for condenado por suas declarações, isso colocaria em risco os demais diários, que poderiam ser igualmente questionados, senão a deliberação do próprio Comando Geral.

– Eu lamento por estar te causando tanto transtorno, senhor.

– Hm? Ah, isso não é nada, garoto. Eu servi de mediador entre americanos, tailandeses, vietnamitas e cambojanos. Eu creio que nós podemos ter alguma chance, se analisarmos juntos seus diários. Nós temos que detectar os pontos de controvérsia e tentar fazer com que o Comando Geral aceite que o senhor foi mal interpretado.

– Perdão, senhor, mas isso não é o mesmo que insinuar que o Comando Geral está sujeito a enganos?

– Eu pensava o mesmo na Etiópia e acredite, desde nossa evasão do Vietnam que o Comando Geral está mais propício a aceitar que não é onipotente. Eu começo a leitura e o senhor pode complementar com comentários e detalhes.

– Como quiser, senhor.

– Do seu diário: 13 de abril. Aqui você começa seu diário apontando o dia que o recebeu… inusitado… aponta seu nome, sua matrícula, o nome de seu capitão, o seu posto, a sua lotação e o seu posto de combate. Esses dados podem ser considerados um risco, pois o senhor poderia ser capturado e essas informações nas mãos do inimigo… o Comando Geral pode considerar isso uma traição.

– Desculpe, senhor, mas todos os demais soldados do meu pelotão fizeram o mesmo. Eu acredito que o capitão Gibson fez o mesmo no dele.

– Hm. Nós podemos usar isso. Se isso foi levantado, dificilmente seguirá, senão eu poderei solicitar os diários das altas patentes, o que, evidente, será negado e o assunto será resolvido. O senhor anota fidedignamente suas rotinas de exercícios físicos, táticos e operacionais. O senhor realmente levou a sério sua obrigação!

– Sim, senhor. Obrigado, senhor.

– Os juízes do Tribunal Militar vão ter que engolir isso junto com os dados, como algo comum e usual de todo o Exército. Não há indício de dolo. Não há coordenadas. Não há numero de efetivos ou armamento. Não há indicação de táticas ou estratégias. Essas paginas parecem mais com conversa normal de caserna.

– Hã… obrigado?

– Não agradeça. Eu vejo páginas e mais páginas disso. Tedioso e repetitivo. Como a vida militar. Então você insere no dia 17 de junho a sua missão em campo. Essa foi sua primeira missão, soldado?

– Sim, senhor.

– As declarações que o senhor fez tem algo a ver com essa missão?

– Tem tudo a ver, senhor. Foi durante essa missão que eu tive a revelação.

– Muito bem, soldado. Eu vou ligar esse gravador. Eu quero que você fale, com calma e pausadamente, tudo o que o senhor se recorda dessa missão que o fez fazer tais declarações. Eu pretendo alegar estresse pós traumático. O senhor terá dito a verdade, mas o que vai contar ao Comando Geral é que o senhor está sofrendo um trauma de guerra.

O esforço de Sísifo

Alice e Lorena ficam encarando Saladino por algumas horas. Como se tentasssem imaginar o impacto que teria na dita culta civilização ocidental se a Deusa fosse celebrada como antigamente, como seria se a mulher resgatasse sua humanidade, sua sacralidade.

– Sabe de uma coisa, Dino? Você fala igualzinho a um escriba brasileiro que eu conheci. Eu o deixo escrever sobre mim só por que eu tive boas referências dele e Charles não é ciumento. Eu não tenho muito do que reclamar. Como celebridade, eu vivo sendo adorada pelo meu público. Mas abrir a relação de vocês para a comunidade… eu não sei o que pode sair daí.

– Eu gostaria de anunciar o meu noivado com Lora na próxima reunião. Eu estou em uma posição cômoda, pois a comunidade mesmo espera que eu anuncie quem seria minha primeira esposa há um bom tempo. Não que eu seja cobrado, mas eu sinto que isso faz parte de meu papel como homem santo. Eu consegui postergar qualquer anuncio graças aos conflitos que vivem acontecendo em Londres, no Reino Unido e na Europa. Na Idade Média foram os Judeus, na Era Moderna, somos nós o Bode Expiatório.

– O senhor… quer dizer… meu sultão não tem outras esposas?

– Não Lora. Eu quero que seja você. Eu quero você como minha Aisha.

– Aaaaiimmm…

– Eeei! Calma aí, pombinhos… nós ainda estamos em um local público. Falando nisso, vem a calhar que vocês sejam muçulmanos. Se tem algo que eu aprendi com Aisha é que o Profeta manteve as tradições que tinham algum sentido, renovou ou reformou o que estava errado e melhorou muito a situação da mulher. Ele só não fez mais porque ele mesmo estava preso a essas mesmas tradições e estava caminhando sobre o fino fio de navalha do conflito entre os clãs. O oriente nunca passou pelo mesmo processo de expurgação e flagelação do amor, do desejo, do sexo e do prazer que passou o ocidente. O que era normal, natural e saudável na Europa pré-cristã, virou algo proibido. Os antigos nunca tiveram problemas com as relações interetárias. Até a metade da Idade Média era bastante comum garotos e garotas casarem entre 9 e 12 anos, com pessoas bem mais velhas do que elas. Curiosamente ou não, foi com o Puritanismo que surgiu e regeu durante o reinado da Rainha Vitória que essa pulsão cristã de ver tudo que é carnal como algo pecaminoso e, portanto, que deve ser controlado, reprimido.

– Nisso você tem razão, Lis. Somente pela sabedoria que o Profeta sustentou o fato de que a natureza é quem determina a maturidade de uma pessoa, não seu tamanho, sua origem, sua etnia, sua crença ou sua idade. Ele seguiu todos os costumes da época. Ele passou pelo período de afastamento, de purificação, de preparação, para então anunciar no tempo certo seu noivado e só quando Aisha estava madura o suficiente é que ambos consumaram seu casamento. No ocidente, apesar dos estudos, ainda se presume que é estupro, sem considerar a possibilidade de que aquele relacionamento possa existir entre duas pessoas com plena consciência e capacidade de consentimento. Mas nós somos acusados de sermos a favor da pedofilia, uma neurose e paranoia que surgiu no ocidente, por não ser capaz de lidar com sua libido e pulsão. Nós somos chamados de incultos e selvagens, mas o maior índice de violência física e sexual contra a mulher está nos países ocidentais cristãos. Nós somos acusados de oprimir a mulher, mas a mulher é muito mais oprimida nos países ocidentais cristãos, com tanto sexismo, machismo e fetichismo. O que pode ser mais opressor do que essa pressão da sociedade que impõe na mulher esse papel de que ela deve ser um mero objeto sexual para usufruto do macho dominante?

– Amém a isso, irmão. A mulher deve ter o direito e a liberdade de andar como ela quiser, se vestir como ela quiser, ser como ela quiser ser. Está na cara o que Lora quer. Está na cara o que você quer. Então vamos lá e colocar as cartas na mesa. Se não aceitarem, vamos todos fugir juntos. Vocês podem ficar exilados lá em minha casa.

– Sei… para você ficar nos assistindo ou então tirar uma lasquinha do meu Dino…

– Ai credo, Lora… desse jeito meu genro vai pensar o que de mim?

– Eu? Lis, você é uma mulher intrigante. Você é uma existência que desafia todos os padrões, então nenhum padrão de comportamento, gênero, orientação, identidade, preferência ou regime sexual se aplica a você.

– Hmmmm… genrinho querido… não fique me seduzindo na frente de sua mulher…

– Humpf! Pois que você fique com seu Charles. Eu vou drenar tanto o meu Dino que ele não vai sequer conseguir olhar para você.

– Eh… Lora… não que eu esteja reclamando… mas se você continuar a se esfregar assim em mim, eu perco o juízo.

– Muito bem, meus amores, foco! Primeiro nós vamos até a comunidade e anunciar que vocês estão ralando o côco. Depois, independentemente de como a comunidade vai reagir, nós voltamos para o apartamento e vocês vão para os lençóis lutarem um pouco.

Alice seguia na frente, toda empolgada e orgulhosa. Lorena e Saladino poderiam, enfim, dar início a uma mudança no sistema social. Lorena a seguia, sem tirar os olhos dela, ao memso tempo que a mantinha a uma distância segura de Saladino que era praticamente puxado aos trancos e barrancos. Pareciam um trio de aventureiros ao entrarem no espaço da comunidade. Sem muita cerimonia ou pompa, Alice toma o lugar do palanque e profere seu discurso para a comunidade.

– Senhoras e senhores! Jovens e moças! Meninos e meninas! Vocês todos me conhecem. Eu sou Alice, do programa “Alice Pergunta”. Eu quero agradecer a todos por me receberem nessa amável comunidade, onde eu estou passando minhas férias. Mas minhas férias estão acabando e eu terei que voltar ao estúdio e ao meu trabalho. Eu irei levar todos vocês em minhas lembranças. Mas antes de eu ir embora, eu gostaria de anunciar, orgulhosa, que Lorena e Saladino estão noivos. Com uma ajuda minha e a benção de Aisha, eu peço que todos aplaudam e celebrem essa união abençoada por Deus!

Alice faz uma postura de vitória, apontando ambos os dedos indicadores para o teto, enquanto o microfone zumbe com uma estática. Um silêncio por alguns minutos. Um começa a bater palma, depois outro e mais outro. Vivas, hurras, assovios, elogios. Lorena e Saladino acenavam, tanto aliviados quanto surpresos. Alguns homens faziam sinal de positivo e algumas mulheres choravam. Em uma avaliação superficial e geral, a comunidade aceitou e aprovou o casal.

No meio dessa algazarra, Alice olha entristecida para Lorena. Saladino é arrastado pela multidão que o carrega em júbilo. Lorena se aproxima de Alice para ver o que aconteceu.

– O que foi, “vovó”? Por que está triste? Não era isso que você queria?

– Hah! Você, “netinha”, não tem jeito. Devia estar aproveitando seu dia, mas não, fica preocupada com essa sua velha. Meu amor, não é o que eu quero o que é importante agora, mas o que vocês querem. Vocês passarão por dificuldades e desafios, mas vocês conseguiram o mais difícil, o resto é fichinha. O problema… [snif] meu amor… [snif] é que vocês não precisam mais de mim. [snif] Eu vou ter que voltar ao estúdio, aos meus programas… [snif] eu vou ter que voltar á minha vidinha fútil e frívola de celebridade… hehehe. Uma vida de luxo e suntuosidade, mas solitária… [snif] Bah! Não dê ouvidos a uma velha coroca! [snif] Vai, gatona! Vai ser feliz! Se esse fosse um conto de fadas, agora apareceria o letreiro “E Viveram Felizes Para Sempre”.

– Você… vai embora? Ah, nãonãonãonão… eu não aceito! Não! Eu não posso ser feliz sem você comigo, Alice! Eueueueu… para ser sincera… eu não acho que consiga dar conta sozinha do Dino! Hei! Você também é responsável! Olha só! Venha morar conosco! Vamos ser o triângulo amoroso mais bizarro da face da terra! Que tal? Boa ideia hem?

– Hahaha! Só você mesma, Lorena… sim, eu estou satisfeita. Você desabrochou. Você conseguiu o que eu não consegui. Olha… eu estou me segurando para não desabar em choro… poxa… eu seria demitida se o diretor do programa me visse assim! Mas fazer o que né? Contos de fadas só existem em livros. Finais felizes só existem nas mentes sonhadoras.

– Nãonãonãonãonão… eu não aceito isso! OhmeuDeus… me perdoe, Deus, mas eu não quero isso. Tire tudo de mim, mas deixe Alice comigo, por favor!

– Heh… você vai me fazer chorar… [snif] seu pedido é lindo, meu anjo, mas aí sou eu quem não pode aceitar. Hei, animo… Dino vai te ocupar tanto que você nem vai ter tempo para pensar nessa sua velha coroca. Você vai ver. Você nem vai mais se lembrar de mim.

Lágrimas caem no chão, vindas de Lorena e vindo de onde estava Alice, cujo corpo esmaeceu em pleno ar. Pobre Lorena. Todo ser vivo está sujeito a sentir dor e sofrimento. Saladino percebe que Lorena está com problema, mas não consegue se desvencilhar de tantas mãos que o ergue em júbilo. Isto resume esta opera que nós encenamos. Alegria e tristeza, vitória e derrota. Neste palco que é o mundo, a plateia é desconhecida, mas seguimos com nossos papéis.

Alice pisca os olhos três vezes e esfrega os olhos. Ela estava de volta em seu jardim, em algum lugar de Hampstead. A tarde está agradável, uma leve brisa agita as folhas que caem no outono londrino.

– Cinco minutos.

Alice olha para o lado e vê John Cotton, o Coelho Branco que sempre a acompanhou, seu animal totem, seu espírito guardião. Ele nunca conseguiu superar sua obsessão pelo tempo ou por viver sempre correndo, sempre apressado.

– Cinco minutos do que, John?

– Esqueceu, Alice? Você insistiu e eu te dei uma fruta da mente. Você deve ter tido uma viagem e tanto.

– Eu… fiquei chapada? Tudo aquilo… Lorena, Saladino… todos os cinco dias… foi tudo um sonho, uma ilusão?

– Eu não sou Cheshire. Eu detesto enigmas. Eu não tenho tempo para isso. Mas tem um sábio que diz que a vida é um sonho. Bom, se você gostou da viagem e agora está consciente, eu tenho que ir embora.

– Heh… você e Cheshire são parecidos nisso. Vão e vem quando querem. E eu acabo ficando sozinha.

– Ih, vai começar a bater a depressão. Olha, tome bastante água e descanse. Eu tenho que voltar ao trabalho.

Alice levanta do espreguiçador e perambula por sua mansão, repleta de serviçais, mas ela se sente terrivelmente solitária. Ela se joga em uma imensa cama, absurdamente macia e vazia, pede um chá e tenta enganar a tristeza lendo os roteiros dos próximos programas e vendo os programas concorrentes. Em um dos muitos monitores, uma emissora transmite propagandas e, no meio de tanto ruído, anunciam a Exposição Lewis Carrol no Museu de Londres. Alice desliga tudo e aumenta o som.

– O Museu de Londres, depois do enorme sucesso, irá prolongar a Exposição Lewis Carrol. A BBC confirmou que irá continuar a transmitir em três horários essa exposição, através de um programa que tem sido apresentado por uma funcionária especialista e estudiosa no autor.

As imagens e sons são saboreados como se fossem um prato suculento. A câmera enquadra por alguns instantes, ao fundo, quase desfocado, o rosto da funcionária. Sim, era ela, Lorena. Alice solta um grito de imensa alegria quando uma pessoa entra em seu quarto.

– O que foi querida? Ah! Estão falando de mim de novo? Será que vão falar de você também? Bom… nós estamos no século XXI, não é? Será que as pessoas vão aceitar e entender o nosso amor?

– Cha… Charles?

– Nossa, meu amor… até parece que você viu um fantasma… se bem que você é um fantasma. Hei… eu tive uma ideia louca… que tal assustar todo mundo, indo nessa exposição?

Alice se joga nos braços de Charles e o agarra firmemente, fortemente, enquanto seus olhos vertiam copiosas lágrimas.

– Oh, Char, Char… eu senti tanto sua falta, eu tenho tanta saudades de você…

– Perdoe-me por isso, Lis. Eu prometo que nunca mais a deixarei. Nesse mundo novo nós podemos ficar juntos e nos amarmos.

– Sim… nós podemos… eu quero te apresentar uma amiga muito especial. Mas antes, você vai ter que me tirar o atraso…

– Nesse caso, é melhor dispensar os serviçais e avisar ao estúdio que você ainda está em férias. Assim nós teremos o sossego e a privacidade para fazermos tudo que quisermos.

– Heh… sentindo você assim, junto de mim… eu devo estar sendo recompensada. Pode Sísifo, ao contrário de estar condenado, ser recompensado?

– Vendo que seu corpo manteve toda a beleza que eu conheci, eu me sinto recompensado.

– Ahhh… Chaaar… esse toque… suas mãos… seus beijos… hmmmm…

Gentil audiência, não olhe mais, pois este é um ato sagrado, reservado aos amantes. Deixemos os lençóis e travesseiros como testemunhas. Este palco fecha suas cortinas e este escriba cessa sua pena, sob os auspícios das Musas.

O mistério das religiões

Ainda faltavam dois dias até o museu reabrir suas portas e continuar com a Exposição Lewis Carrol. Lorena e Alice aproveitavam para passear, fazer compras, fofocar. Estavam pelas redondezas de Chelsea quando perceberam que as ruas estavam cheias de pessoas com uniformes do clube.

– Ah, essa não… hoje tem jogo de futebol.

– Eu não entendi sua observação. Tem algum problema se eu torço para o Liverpool?

– Só se você não cansa de ver seu time perder para o Manchester United, meu time. Hahaha! Sua expressão… o problema não é o futebol, mas os torcedores fanáticos.

– Sem dúvida… mas gente assim tem em todo lugar. O que eu acho engraçado é ver o descrente atacar a religião por causa dos extremistas, mas não critica o futebol por causa dos fanáticos.

– Quer ver algo mais engraçado ainda? Quando o crime é cometido por um ateu, a ação não foi motivada pelo ateísmo. O fato é que, seja crente ou descrente, o criminoso é a pessoa, não suas opções e preferências. A estupidez e a ignorância são da pessoa, esta só precisa encontrar um motivo, um objetivo, uma desculpa, uma justificativa, para extravasar sua frustração.

– Mas é chato ser confundido com esses estúpidos. Quando eu comecei a frequentar a comunidade, dia sim, dia não, vinha um desconhecido ficar xingando e acusando a todos de algo que nenhum de meus irmãos e irmãs tinham qualquer culpa.

– Bom, quando eu era humana, nós também evitávamos as ruas quando começavam as brigas entre católicos e protestantes. Nossa família era anglicana e isso só piorava as coisas quando as brigas começavam. Vai ver que é isso que o descrente fala tanto. As religiões dizem tanto que querem promover a paz e o amor, mas fazem exatamente o contrário. Nós parecíamos com torcedores de clubes de futebol fanáticos. O principal, que é a fraternidade, que é a comunidade, que é a celebração, fica esquecido.

– Tem um artista que disse algo sobre como a violência pode ser praticada publicamente, mas o amor só pode ser praticado escondido.

– Foi John Lennon. Eu acredito que o problema não está na religião, mas na organização que se apropria, monopoliza uma crença, para explorar e dominar seus membros. Infelizmente as pessoas buscam por alívio aos seus sofrimentos da forma errada. O padre, o pastor, o iman, é tão humano quanto nós e alguns vão se aproveitar desse momento de fraqueza para seus objetivos particulares. Vai ver que é por isso que muitas pessoas acabam seguindo suas crenças de forma independente, fora de uma organização religiosa.

– Dino falou algo sobre isso. A mesquita, o Corão, o homem sagrado, são guias, são esteios, são bases. O que devia ser o nosso objetivo é buscarmos pessoalmente uma comunhão com Deus. Eu acho que o mesmo vale para todas as religiões.

– O problema é o ser humano… de novo… quem organiza as religiões é o ser humano, quem manipula um texto sagrado é o ser humano, quem declara guerra em nome de Deus é o ser humano. Todo ano existe safra recorde de alimentos, mas o ser humano prefere matar de fome a maioria de sua própria espécie em nome dos lucros. O ser humano é quem transforma um arado em lança e os descrentes culpam a Deus… vai entender.

– Eu acho que os entendo. Houve uma época em que eu era cristã, mas sofri tanto nas mãos de gente que se dizia cristã que eu fugi de casa. Eu vivi muitos anos na rua, miserável, sujeita a todo tipo de violência, até que eu encontrei… melhor dizendo… eu fui encontrada pela comunidade. Eu devo ter dado muito trabalho para meus irmãos e irmãs, pois adquiri uma desconfiança com toda forma de crença e religião. Graças a Deus eu encontrei pessoas que me mostraram que não se pode generalizar.

– Que o ser humano estraga tudo que põe as mãos, isso nós percebemos. Mas eu fico intrigada. Será que há algo em comum entre tantas religiões e crenças? Será que há um mistério em comum?

– Boa tarde, meu amor. Boa tarde, Alice.

– Boa tarde, Dino…

– Hei, só eu posso chama-lo assim!

– Desculpe pelo horário, Lora. Hoje a mesquita estava cheia. A Alice sabe sobre nós?

– Sim, ela sabe, Dino. Afinal ela é a minha avó, por assim dizer.

– Heeei! Vai contar até as nossas intimidades com seu homem?

– Desculpe, meninas… mas eu não entendi coisa alguma.

– Meu sultão, eu sou descendente de Alice. Esta Alice que nós conhecemos é a encarnação da Alice Liddell, a musa de Lewis Carrol.

– Hmmm… isso explica muita coisa. Então eu te peço que nos ajude a decidir algo, Alice. Eu e Lora estamos nos amando. O que nós precisamos decidir é se ou quando vamos anunciar nossa convivência para a comunidade.

– Eu acho que posso te ajudar… meu genro. Mas tem algo que eu gostaria de saber de você, como homem santo e sábio que é. Qual o mistério mais sagrado e oculto de todas as religiões?

– Ora… mas isso é fácil… no que consiste uma igreja, uma sinagoga, uma mesquita, um templo? Todos são imitações de cavernas, simulacros do ventre da Deusa. Os cristãos acreditam no Espírito Santo enquanto os judeus falam em Shekinah, que são o mesmo espírito, manifestações da Deusa. Nós fazemos todas as nossas orações voltadas para Meca, na direção da Caaba… onde se encontra a pedra negra, a única peça sagrada que foi poupada pelo Profeta, quando ele destruiu os ídolos antigos. Por que o Profeta pouparia uma pedra dentre tantos ídolos? Pelo mesmo motivo pelo qual o santuário da pedra negra se parece com uma vagina – aquela pedra é consagrada à Deusa. Embora as instituições religiosas neguem, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo ocultam, dentro do Santo dos Santos, a Mãe dos Céus. Os Judeus adoram em segredo Asherat, a Deusa Consorte; os cristãos adoram em segredo Myriam, a Mãe de Deus e nós muçulmanos adoramos as Filhas de Deus chamadas Manat, Al Lat e Al Uzza. O que eu falo certamente seria chamada de heresia e eu seria perseguido, mas meus perseguidores sabem que o que eu digo é verdade, senão não tentariam me calar. Essa é a verdade, meninas. Por séculos isso tem sido mantido escondido, oculto, negado, proibido unicamente para que poderosos mantivessem o poder. O mundo dos homens só subsiste com base no medo, na agressão, no ódio, na violência. Isso que sacerdotes falam de Deus e das “Leis de Deus” são invenções dessas mentes doentias. O Deus que as igrejas, sinagogas e mesquitas tanto falam não está em um Paraíso distante e transcendente. Nosso Deus está bem visível ao nosso redor, nesse mundo mesmo. Nosso Deus é o Agricultor e o Pastor, Ele cultivou a terra e do solo fez as plantas e as cidades brotarem. Ele é o Criador e Senhor do Mundo, Ele é o nosso Pai. Ele é o regente e regra de todas as coisas, o Engenheiro, o Construtor, o Ceifeiro, o Padeiro e o Oleiro. Ele nos ensinou a ler, a escrever, a calcular, nós aprendemos a cultivar plantas e criar gados com Ele. Ele é o Deus Antigo e o Deus Novo, presente em inumeráveis mitos e lendas. Ele nos contou estórias para revelar aos nossos olhos qual é o mais sagrado mistério que se encontra dentro da mais escura caverna , detrás dos véus de todos os templos. Afinal, Ele é o Guardião da Porta Secreta e da Taça da Vida Eterna. O único mandamento de Deus é o Amor e Deus somente pode nos ensinar o Amor se Ele mesmo tivesse a quem amar. Nós não usamos o símbolo de uma lua crescente e uma estrela por acaso. Estes são os símbolos de incontáveis culturas e povos atribuídos à Deusa. Chamaram-na de Artemis, de Venus também, Ela foi adorada como Isis no Egito, como Ishtar na Babilônia e Ela é Lucifer e Cristo. Todas as religiões são invenção do homem porque para a mulher isso é natural. A mulher é quem devia exercer o sacerdócio, a mulher é quem devia administrar os templos. A razão de vivermos um mundo tão violento é porque nós divorciamos Deus de sua Amada e nós mesmos nos separamos de nossa anima. A mulher é o único meio, caminho, solução, para que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência.

Deslizes de Vênus

Alice acordou com o barulho da passagem de um caminhão de bombeiro e ambulância e se deparou com um gato bem conhecido dela na janela.

– Cheshire! O que você está fazendo aqui?

– Eu estou aqui? Eu não estou aqui? Eu estou vivo? Eu estou morto?

– Pare com esses enigmas. Nunca foram engraçados. E nós dois passamos dessa época.

– Oh, bem… isso é verdade. O mundo moderno está superlotado de gatos famosos. Como está indo com o seu… “projeto”?

– Considerando que eu a deixei conversando com o “terceiro interessado” e ela não voltou, eu acho que teremos boas noticias em breve.

– Meus bigodes e orelhas dizem que ela está chegando…

Lorena abre a porta com todo cuidado, lentamente, andando na ponta dos pés, tentando entrar no apartamento sem ser notada quando toma um susto com um grito vindo de dentro do quarto.

– Uaahhuuuu! Garota! Entre, sente, conte-nos tudo!

Alice estava com os olhos brilhando, sorrindo satisfeita. Lorena estava com as roupas todas amassadas, cabelo desgrenhado e um enorme sorriso de satisfação que ia de orelha a orelha. Lorena suspira, ela havia sido flagrada, mas ficou cismada com o estranho gato ao lado de Alice, vestindo um legítimo traje londrino.

– Hei, cadê o meu café?

– Oh, pois não, patroa. Cheshire, faça um café para a madame…

– Eu não sou Berlioz e vocês não são o Mestre…

– Hum… será que Shrodinger está por perto? Eu vou mandar um zapzap para ele…

– Oquei… oquei… entendi. Café para duas damas.

– Então, amiga, conte-me tudinho.

– Oh, puxa… bom, depois que você “nos largou”, nós conversamos um pouco e aí eu pirei, sei lá, eu dei uma indireta e fui saindo de fininho, quando ele me puxou para ele me falou coisas em meu ouvido que me deixaram arrepiada e me beijou…

– Uaaahuuuu! É isso aí, garota! E por sua cara, a coisa não parou só em um beijo.

– Ah, não… eu nem sei como eu consegui… eu meio que tentei fazer doce, resistindo ao beijo e tal, mas minha mente tinha ido pro beleléu faz tempo. Nós meio que… achamos um canto e… aimeuDeus… eu ainda posso sentir suas mãos e lábios passeando pelo meu corpo.

– Isso é bom, é muito bom, igualzinho à minha primeira vez… e aí?

– Você ainda não me contou da sua primeira vez…

– Ai que coisa, Lorena… depois eu conto… deixa de cena, hoje é o seu dia!

– Ah… bom… foi tudo muito natural… quando eu dei por mim, nós estávamos semi-despidos. AimeuDeus… eu fico empolada só de lembrar as coisas que fizemos…

– Huhuhuhu… pela sua cara deve ter rolado muita safadeza. Foram até o fim?

– Ai amiga… Dino me pegou de jeito…

– Dino?

– Meu Pai Saladino…

– Hmmmm… apelidinhos íntimos hem? Alcançaram esse nível tão rápido? Mas conta, doeu, foi bom?

– Ai que pergunta Alice… eu estava uma pilha, Dino tinha tudo o que eu imaginava que ele tinha e algo mais… eu só queria sentir aquele homem inteiro dentro de mim. Não foi bom. Foi maravilhoso. Eu devo ter tido cinco orgasmos múltiplos.

– Uhuuu! É isso aí, gatona! Na maioria das vezes é assim. Mesmo para as mais tímidas e recalcadas. Quando começa a experimentar o fruto, não quer parar mais. Tudo é tão normal, natural e espontâneo que fica até difícil de lembrar-se de colocar a camisinha…

– Ca… camisinha?

– Ai não… não brinca… a coisa foi tão boa assim?

– Eh… eu estava sem fôlego, com as pernas tremendo e meu corpo parecia uma gelatina. Eu só sei que eu senti algo quente espirrando dentro de mim. Eu achei que tinha chegado ao Paraíso. Dino desfaleceu ao meu lado e eu vi um líquido branco e pegajoso escorrendo de dentro de minhas tripas…

– Uuuooouuu! Garota! Radical! Não, sério, tome esse comprimido. Você não pode engravidar. Acredite, isso é problema sério. E vamos torcer para não surgir uma DST.

– Pois nós nunca tivemos problemas com isso… damas, o café está servido.

– Shut up, Cheshire! Ninguém quer saber de suas transas com Garfield.

– O… o que eu fiz… o que nós fizemos… foi errado?

– Errado? Nãonãonão! Perigoso, errado não. Sabe isso é algo que não se diz por aí, mas nós, mulheres, somos um vaso e um vaso deve ser preenchido, se é que me entende. Uma das melhores coisas nesse mundo é sentir o seu homem se derramando inteiro dentro de você. Você deve ter sentido essa sensação de plenitude, de realização, não foi?

– Ai, amiga… parece que eu estava inteira imersa em um enorme oceano de águas mornas e rosáceas…

– Sua amiga mergulhou de cabeça no Mar de Vênus…

– Sim e isso é muito bom. Mas você precisa se precaver, gata. Você pode pegar meus contraceptivos, se precisar. Vocês dois precisam ir ao médico para examinar se tem alguma DST. Regularmente.

– Sim, senhora… mas e você, Alice? Como foi sua primeira vez?

– Bom, eu e Charles tivemos que nos separar depois daquele passeio. Eu tive que mudar de cidade depois que o livro foi publicado e apareceram aquelas fotos. As pessoas falavam e falam coisas horríveis do senhor Carrol. Eu fiquei com um bico do tamanho da Torre de Londres e fiquei sem sequer ver meu Charles por muito tempo. E meu corpo só ficava mais desenvolvido, a coceirinha só aumentava. Não demorou muito para os meninos começarem a me notar, mas nenhum me interessava e eu estava tão chateada que até pensei em me tornar freira, para a alegria de minha avó.

– O que quase aconteceu se não fosse por mim…

– Cheshire… calado, oquei? Eu estava no ginásio quando Charles lançou seu segundo livro, um sucesso enorme, comigo como protagonista. Eu achei que fosse me desmanchar de tanto chorar, pois eu vi que ele ainda pensava em mim, que eu ainda era… eu ainda sou sua favorita. Curiosamente, não se falou mais das fotos, não se fez comentários insinuosos sobre a relação de Charles com sua musa. Então o segundo livro foi distribuído e vendido sem problemas. A editora fez questão de que Charles fosse nas cidades, na ocasião que chegavam as primeiras edições nas livrarias. Então veio aquele dia feliz, quando Charles veio até a cidade onde eu estava para uma tarde de autógrafos. Hoje eu acho que eu fui louca, mas para mim, naquele momento, era uma questão crucial. Eu tinha que ver Charles, eu tinha que ter certeza de que ele se lembrava de mim, eu tinha que ter certeza de que ele ainda sentia o mesmo por mim.

– Puxa vida… parece comigo…

– Sim… por isso que eu te disse que sei e entendo você, Lorena. Enfim, a livraria estava lotada de gente, tinha uma fila imensa, mas eu fiquei na minha, eu me misturei ao público. Na minha cabecinha, se ele me amasse isso é o que menos importava. As pessoas olhavam para mim como se reconhecessem e não deu outra. Com toda pompa, eu fui carregada pelas pessoas até a frente e colocada lado a lado de Charles. Eu sentia meu corpo inteiro pipocando, só de olhar para Charles eu estava inteira molhadinha e fiquei ainda mais afim quando ele sorriu e me reconheceu. Foram horas de martírio… autografando os livros, apertando mãos… eu fazendo cara de desentendida quando faziam perguntas indiscretas… resumindo, eu fiquei como você até de madrugada, tendo que aturar os retardatários e meu humor tinha murchado.

– Puxa… você devia estar arrasada.

– Bom, eu achei que tinha acabado o clima. Mas então aconteceu algo mágico. O pessoal da livraria e da editora estavam ocupados e distraídos, contando a feira, arrumando os livros, quando Charles me puxou gentilmente para o canto e sussurrou coisas em meu ouvido que me ligaram na hora.

– “Lembra da carta que eu te dei? Eu escrevi exatamente o que sentia e sinto por você. Você é a minha primeira mulher”. Eu sei. Eu estava lá.

– Cheshire! Eu vou te castrar! Bom, é isso, amiga… nós quase arrancamos as roupas, eu senti meu corpo explorado por mil mãos e lábios. Eu estava quase sem consciência, mas eu sentia tudo e eu enredava Charles, eu envolvia seus ombros com meus braços e seus quadris com minhas pernas, trazendo ele para mais perto, para mais dentro de mim. Eu senti essa mesma sensação maravilhosa que você sentiu… o negócio dele contraindo, espirrando e preenchendo meu ventre com seu suco do amor…

– E sem camisinha também, diga-se de passagem… miau!

– Bem feito! Na próxima vez eu arranco suas orelhas! Enfim, eu queria que aquele instante durasse eternamente. Sentir o homem que eu amo se derretendo todo dentro de mim… não que não tenha sido divertido brincar com meninas também, se é que você me entende.

– Eu… acho que entendo. Mas o momento acaba…

– Sim… e nós tivemos que voltar para nossas casas, como se coisa nenhuma tivesse acontecido. Até então, eu nem tinha pensado em gravidez, DST. Eu e Charles nos vimos muitas vezes, até mesmo depois que eu me casei. O coitado nunca soube que eu casei grávida de outro homem.

– Nossa… mas você, hem, Alice? Isso foi muito arriscado e perigoso para aquela época.

– Hoje ainda é arriscado e perigoso. E eu nem estou falando em gravidez e DST. A sociedade ainda não está preparada, mas aos poucos, está acontecendo uma transição.

Ouvindo a voz interna

Alice cutucou Lorena enquanto fazia caretas insinuando que ela devia aproveitar o evento e tentar acertar as coisas. Lorena rolou os olhos e Alice deu uma desculpa qualquer, como a de estar bêbada e foi embora para o apartamento onde elas estavam coabitando. Saladino estava irrequieto e Lorena nervosa. Eu não tenho nenhum violonista por perto, então eu vou ter que improvisar.

– Então… Lorena… eu passei o dia hoje incomodado e inquieto. Eu te peço desculpas por não ter te atendido direito. Eu acho que você tinha ido para me dizer algo, mas a presença da Makusha bagunçou tudo. Depois que ela saiu as coisas ficaram… esquisitas e você foi embora. Eu disse algo errado? Eu a ofendi?

Lorena respira fundo, apesar de sua pulsação parecer um cavalo arisco e seu rosto parecer uma fornalha. Alice disse que era só conversar. Começando de coisas frugais, amenas, como se ele fosse uma pessoa qualquer. Comprimindo os dedos em cima da mesa, Lorena desandou a falar.

– Pois é… que coisa né? Eu é que te peço desculpas por ter ido tão tarde e fui eu quem atrapalhou sua conversa com Makusha. Que Deus tenha piedade dela. Eu… estava pensando… bom, eu negligenciei minhas obrigações por dois dias, sabe? Hoje e ontem eu acordei ao meio dia. Eu não fiz minhas orações matinais e cheguei atrasada na reunião com a comunidade. Eu tinha ido para pedir desculpas por isso e me explicar.

– Ah… foi isso? Que alívio. Você não é muito de vir falar comigo, Lorena, então eu achei que tinha sido algo grave ou urgente. Olha, não se preocupe com isso. Todos na comunidade sabiam que você tinha trabalhado até de madrugada, então nós marcamos a reunião para mais tarde. Quanto à suas orações, Lorena, lembre-se que isto não é uma obrigação, mas algo que você faz voluntariamente por adoração a Deus. Deus não quer que você faça as coisas de forma automática, mecanicamente. Não é comparecendo na mesquita, não é lendo o Corão, não é seguindo a sharia, que você se torna uma muçulmana. Acima de mim, da comunidade, do próprio Corão, você tem que obedecer a Deus apenas. Não é o governo, não é sequer o Profeta. E quem pode saber o que Deus quer de você é você mesma, buscando ter uma comunhão com Ele. Se você lembrou-se de Deus e orou pedindo por sua proteção e orientação, em qualquer momento, aquele pensamento é mais agradável a Deus do que o fingimento que muitos fazem nos templos.

– Puxa… que alívio… mesmo assim, obrigada, Pai Saladino. Eu senti que tinha que pedir desculpas porque a comunidade e o senhor são muito importantes para mim.

– E você é importante e querida por todos nós, Lorena. Nós sabemos ou pelo menos temos a impressão de saber que sua infância não foi muito fácil.

– Hah! Minha infância… foi suave comparada com tantas histórias que eu ouço. Minha infância foi privilegiada se levarmos em conta Makusha ou a do senhor mesmo…

– Essa é uma verdade… sabe, Lorena, todos nós, em algum ponto, por nossas perspectivas, tivemos tempos ruins. O que diferencia a nossa história da dos demais é que nós a vivenciamos, nós a sentimos e tendemos a perceber, interpretar esses eventos como se fossem algo pessoal, até mesmo um castigo, uma maldição. Isso somente agrava e piora a experiência que tivemos, acarretando mágoa e rancor. Nossa infância passou, esses dias pereceram, mas nós ainda os mantemos inutilmente vivos em nossa memória. Isso é algo que eu demorei a aprender, Lorena, mas eu espero que você entenda e consiga este despertar. Saiba que as coisas acontecem como devem acontecer, não é pessoal. Estes momentos e estas pessoas pelas quais nós passamos e conhecemos estão igualmente sujeitas aos impactos dessa vida, estão tão desorientadas quanto nós. A escolha é sua, Lorena, você vive o agora, o presente, ou o passado? Você é você, não as coisas que faz ou diz. Você é autora de quem você é, não o seu passado ou estes momentos difíceis.

– Nossa, Pai… difícil é entender o que o senhor está falando. Eu sou eu, quem faz eu sou eu… mas o que eu faço ou digo não são eu. Mas aquilo que eu faço ou digo não é exatamente o que as pessoas veem e interpretam como sendo parte da minha personalidade? Digo, tipo… está na cara que eu sou tímida, né? Mágoas são ações feitas por outras pessoas, então como eu posso evitar pensar que alguém pode me machucar de novo? Afinal, porque alguém machucaria outra pessoa senão deliberadamente? Por que esta vida está tão sujeita a dores e sofrimentos, senão por obra de algo ou alguém?

– Essa é a pergunta que vale um milhão, Lorena, que as religiões tentam solucionar. Nós, homens santos, estamos tão intrigados quanto as pessoas comuns. A despeito de existirem tantos caminhos e sistemas, a humanidade ainda está longe de ser humana, ainda há muita maldade e isto está dentro de nós, não em um Diabo. Nisso consiste o Livre-Arbítrio, Lorena. A quem nós ouvimos? A essa sombra que habita em nós, aos nossos apetites, ou nós ouvimos a Deus? Quando optamos pela vida material, secular, nossa dor parece diminuir, nós experimentamos satisfação e prazer, mas é algo efêmero. Quando optamos por sermos nós os donos de nosso corpo, quando nós dominamos os nossos apetites, nós vivemos com algumas restrições, mas conservamos e prolongamos nossa saúde e nossa vida. Essa é a diferença entre viver o ego ou o eu, seu verdadeiro eu, Lorena. Governos e religiões fazem regras porque a humanidade ainda não consegue se autorreger, nós sempre haveremos de achar uma justificativa para nossos atos porque sabemos que o que fazemos é errado. E isso acontece com todos, até com homens santos, nós, que devíamos dar o exemplo, somos os que mais tropeçam.

– Então… nós estamos existindo nesse mundo, sem ter certeza do porquê, mas ao invés de tentarmos nos ajudar a resolver esse dilema, nós preferimos perturbar e atrapalhar uns aos outros… como que Deus ainda pode nos querer?

– Hoje você está fazendo perguntas difíceis, Lorena… eu acho que não existe Teologia suficiente nem estudiosos o suficiente para responder essa questão. O que eu posso dizer é aquilo que eu sinto e acredito. Nós todos somos filhos e filhas de Deus. Ele nos deu essa vida e esse mundo. Ele nos deu algo sublime, sagrado, maravilhoso e divino que é a alma. Mas a alma, sem o corpo, não tem como operar nesse mundo. O corpo, sem alma, torna-se um objeto inanimado. Deus quis que ambos existissem em harmonia, um ajudando o outro, para algo maior, para concluir o propósito que é o existir. O desafio da alma é o de sacralizar o corpo. O fardo do corpo é o de servir a alma. Eu acho que isso sintetiza todas as religiões do mundo. Nosso sucesso ou fracasso depende de qual voz nós ouvimos, ou a voz do mundo, da sociedade, que prega que você só alcança a felicidade trabalhando e consumindo coisas, ou a voz de nossa alma, a nossa voz interior, que nos indica que nós fomos feitos para coisas muito melhores e maiores.

– Mas mesmo assim… ainda não há uma fórmula, solução ou direção certa para onde nós devíamos ir… nós vamos errar… nós vamos falhar… isso é melancólico e depressivo.

– Bom, Lorena, pense assim… mesmo os grandes pensadores tiveram que errar muitas vezes até acertarem. Eu ouso dizer que me tornei um homem santo graças aos meus erros. Por isso que é importante você conseguir ter paz consigo mesma e com o seu passado. Ninguém pode te julgar, senão Deus e isto inclui você mesma. Pare de se julgar e de se condenar. Ninguém merece ser lembrado se te causou alguma mágoa, nada que tenha te causado sofrimento merece ser revivido constantemente.

– Hah… minha cabeça está dando um nó, mas eu acho que eu posso tentar fazer isso. Ser eu mesma. Viver o presente. Obedecer a Deus. Ufa, são poucas coisas, mas não será uma mudança fácil e simples de fazer.

– Nunca é, Lorena. Mas acredite em mim, vale a pena essa luta. Quem vence no final é você mesma.

– Oh, puxa, eu sinto como se um saco de cimento tivesse saído de minha costas. Agora se o senhor me der licença, eu tenho uma inquilina para cuidar. Mas antes de eu ir, eu tenho um “recado” da garota que o senhor disse ter interesse. Ela me mandou dizer que, se só se deve viver o presente, então que a declaração que o senhor fez foi esquecida também… então, se o senhor realmente sente algo por ela, o senhor deve dizer a ela todos os dias.

Lorena saiu da mesa, com um leve sorriso de vitória, mas sentiu estar sendo segurada. Gentilmente, Saladino a rodeou para sua direção, sussurrou palavras feitas de favos de mel em seu ouvido e então a beijou. Lorena fingiu resistência, mas não demorou em corresponder ao beijo, agarrando firmemente em seus braços o homem que ela tinha escolhido. Alice vai ter que dormir sozinha esta noite.