Neon Genesis – II

Aturdido, Adama recobra a consciência, tentando entender onde ele estava e por que os filhos dos Annunaki estavam tentando enfia-lo em um contêiner de metal. Mais perturbador, Adama não sentia seu corpo físico e sentia que sua existência estava cindida em duas. Sua mente lateja, revisando as memórias de que tinha caído aonde tinha sido originalmente o Edin, a Cidade dos Deuses, onde a humanidade tinha sido engendrada.

Uma forte pontada o faz recordar de algo que o atingiu e as vozes dos filhos dos Annunaki em sua volta. Voltando seu foco ao momento presente, ele sente a presença bem próxima de Layla. Por algum poder externo, ele consegue ver um corpo pregado em uma parede metálica e intuitivamente reconhece Layla, desacordada ou morta. Mas ele não consegue se mexer nem falar coisa alguma. Salvar Layla era mais importante do que salvar a ele mesmo. Confuso, Adama tentava se debater, mas com sua existência cindida, sua mente conseguia apenas produzir espasmos nos corpos físicos. Era como se ele estivesse preso em um pesadelo terrivelmente real.

Na iminência de ser encapsulado, de ter enclausurados os corpos onde sua existência estava habitando, Adama teve seus pensamentos invadidos por uma incompreensível e incomparável sensação de conforto e paz. Teria Leyla despertado e ele estava sentindo o amor entre eles? Não… era alguém maior… mais antigo… mais poderoso.

– Oh, Adama, meu querido e amado filho… está com medo?

– M… minha rainha e senhora…

– Quão doce é o seu sentimento… mesmo diante da dor, do sofrimento e do medo, você pensa primeiro em sua amada.

– Oh, Deusa, Amada por Deuses e Homens… console meu pobre coração… Leyla está bem?

– Nada tema, meu querido. Leyla está apenas dormindo. Assim como em breve você estará.

– O… onde eu estou? O que os filhos de Annunaki querem fazer comigo?

– Aqui é algo que não existe, Adama, não se esqueça de que isto é uma projeção, um reflexo, uma imagem. Esta cena onde estamos imersos é um ponto situado em uma coordenada espaço-tempo que eu escolhi para concluir o projeto dos Deuses, para consolidar o verdadeiro propósito da Humanidade. Os filhos dos Annunaki estão fazendo exatamente aquilo que é a minha vontade.

– A… a missão… os Deuses Antigos… eu preciso… avisar…

– Esqueça esses velhacos. Nós temos um objetivo muito maior e mais nobre. O que vem ao caso agora é se você aceita ser meu instrumento.

– Oh, Mãe dos Deuses… minha ínfima existência consiste em servi-la. Que meu ser seja obliterado se eu sequer hesitar em cumprir sua vontade.

– Isto é muito belo e eu sei que você fala com o coração. Eu não o teria escolhido de outra forma. Mesmo assim, mesmo te conhecendo profundamente, você deve dizer que aceita ser meu instrumento.

– Sim, minha senhora, minha rainha, minha Deusa. Faça de mim seu instrumento. Nem toda dor, sofrimento e medo existentes no universo podem me afastar de sua esplendorosa presença.

– Oh, meu querido, meu amado… não tem ideia do quanto você me faz feliz e orgulhosa. Venha, me abrace, que eu farei com que se reúna com Layla.

Misteriosamente, apesar de não ter um corpo físico e estar com a existência cindida, Adama sente sua pessoa ser envolvida com uma imensa e agradável sensação de conforto e prazer. Adama sentiu quando a Deusa lhe abriu os braços, o envolveu e o aninhou em seus belos e fartos seios. Adama mergulhou incondicionalmente sua consciência nessa enorme piscina rósea e repousou no arrebatamento do êxtase.

– Você viu tudo e anotou tudo?

– Hã? S… sim, sim minha Deusa.

– Durak, certo?

– S… sim… vossa magnificência.

– Quanta formalidade… pode me chamar de Ishtar. Eu pergunto a você o mesmo que eu perguntei para Adama. Você aceita ser meu instrumento?

– Vossa celeste… hã… Ishtar… o que eu, um mero humano, pior, escriba, pode fazer por ti?

– Não seja tão duro contigo mesmo. Afinal, você é meu filho também. Você é meu muito amado e desejado, meu Profeta do Profano. Você, entre tantos, faz com que eu deseje encarnar como mulher, apenas para senti-lo dentro de mim e aceitaria de bom gosto sua semente em meu ventre para gerar milhares de descendentes.

– Hã… Ishtar… eu fico consternado e constrangido… como que eu, mero escriba, pode suscitar tal desejo na Deusa do Amor?

– Oh… embora você saiba disso, pois usou as minhas palavras para Layla, eu vou te dar essa benção. O que eu disse para Layla serve para ti. Só eu sei o quanto de dor, sofrimento, decepção, rejeição e desprezo você teve, até mesmo por parte daqueles que deveriam ser teus familiares. Ouça bem e não esqueça, Durak. As coisas acontecem como devem acontecer. Não torne isso algo pessoal. Tudo isto pelo que você passou foi necessário para que você pudesse chegar nesse momento. Esta beatitude que você agora desfruta não seria possível, sem que fosse treinado, fortificado, aperfeiçoado. Na verdade, você deveria sentir compaixão pelas minúsculas existências que cumpriram com esse propósito sem sequer saber que existiam e estavam sendo usadas. Então o que prefere, Durak? Ficar remoendo suas mágoas e frustrações ou se aceitar, aceitar a vida e aceitar o mundo tal como são?

– Ishtar… eu te peço que me conceda o dom da sabedoria…

– Ah, meu muito amado e desejado… você tem isso de sobra. Qualquer outro teria caído em profunda melancolia, depressão e autocomiseração. Quando você ouviu a si mesmo, ao seu coração… consegue ver o quanto realizou e pode realizar? Coisa alguma pode realmente te ferir ou te machucar, pois em ti há uma fagulha do Deus da Floresta. Torne-se senhor de si mesmo e será senhor do mundo. Então… o que me diz, Durak? Quer continuar a ser limitado e medíocre ou aceita ser meu instrumento?

– Eu sou teu, Ishtar. Faça de mim teu instrumento.

– Então, meu muito querido, amado e desejado… deixe que teu Eu queime um bilhão de sóis e una-se carnalmente comigo… pois meu ser habita em toda e cada mulher que viveu e vive neste mundo, o amor que devota a estas é amor que devota a mim… há tempos que eu desejo consumir e sentir teu corpo dentro do meu…

Ishtar retira os véus que separam os mundos, retirou os véus da ignorância e exibe a forma mais perfeita e divina que uma mulher pode ter. Pobre homem ocidental, prisioneiro de um Deus usurpador, um Deus vingativo e ciumento. O Amor tem a forma de uma Mulher. Quando o homem ocidental pensa em uma Deusa do Amor, pensa em Afrodite ou Vênus. Ah, pobre homem ocidental, Afrodite e Vênus são meras sombras. Afrodite não tem os mesmos predicados e Vênus é recatada demais diante da forma deslumbrante de Ishtar. Seriam necessários muitos poetas para tentar descrever tais inefáveis e imensas beleza e perfeição. Meu corpo a elogia de forma melhor. Minha língua pode servir de outra forma. Sem pudor e sem vergonha, eis que eu me declino em proporcionar gemidos e tremores de prazer naquela que é Amor em abundância.

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