Rebordosa pós-férias

Eu participei do primeiro turno das eleições para a prefeitura de São Paulo antes de entrar em férias. Contrariando a “tradição paulistana” o pleito foi resolvido no primeiro turno e, para a alegria de muitos, João Dória será nosso prefeito a partir de 2017. Quando eu voltei de férias, no Rio de Janeiro Marcelo Crivella levou o pleito no segundo turno. Os resultados dessas eleições explicam muito a nossa história e eu vou dissertar sobre isso.

Quando eu era jovem e estava na escola, eu aprendi sobre os hábitos eleitorais nada ortodoxos de nossa população. A fauna e flora política brasileira a cada ano eleitoral é um bom exemplo disso, mas o fato mais pitoresco foi quando a cidade paulistana “elegeu” para vereador Cacareco, o rinoceronte domiciliado no Zoológico e Tião, o macaco, teve sua candidatura lançada na cidade carioca.

Para os jovens leitores deve ser incompreensível, mas houve uma época em que os votos eram declinados em cédulas de papel. Eu me recordo como as apurações transcorriam durante três dias, com diversos escândalos de votos excedentes, urnas impugnadas, violadas, sequestradas. Não podemos nos esquecer de que mesmo o hábito de votar foi implantado na época da República e é historicamente notória a existência de “currais eleitorais” no nordeste sob o domínio dos “coronéis”. Na época da monarquia e da colônia, os cargos eram indicados, frequentemente a troco de muito ouro, algo que permanece até hoje, mas isso é outra história.

O voto, na República Velha, era para poucos. Os poucos eleitores tinham interesses privados e particulares, quando não estavam influenciados por uma oligarquia. A alternância do poder respeitava mais os interesses das elites do que da população. Confirmando seu histórico político conservador, o governo brasileiro sucedeu a diversos golpes de Estado. A República foi um golpe de Estado contra a Monarquia. O Estado Novo foi um golpe de Estado na República Velha. Getúlio Vargas foi o primeiro de muitos ditadores militares que assumiram o governo brasileiro por intermédio da Força Militar.

Entre 1945e 1964 houve um interstício híbrido, onde o Brasil oscilou entre o Presidencialismo e o Parlamentarismo, mas a instabilidade política e ideológica da época fechou a “Segunda República” com o golpe Civil-Militar, onde vigorou os Anos de Chumbo e o Estado de Exceção.

Somente a partir de 1979 é que o Brasil passou para o “Período de Transição”, quando se revogou a lei [inconstitucional] que apenas permitia a existência de dois partidos: Arena e MDB. Evidente, mesmo assim as eleições não seriam livres e democráticas. Ainda estava em vigor, nas eleições de 1978, a Lei Falcão, que delimitava a forma e o conteúdo da propaganda eleitoral, forma e conteúdo que permanecem até hoje, com acréscimo da linguagem publicitária.

O Brasil começou a ter noção de eleições diretas a partir de 1982, mas somente com a Constituição de 1988 é que se configura o conceito de eleições livres, diretas e democráticas, para todos os cargos eletivos. O direito de voto passou a ser universal, deixando de ser um privilégio de poucos. Apesar disso, ainda subsiste nos dias de hoje o voto de cabresto, a compra de votos e os currais eleitorais. Isso evidentemente piora e muito a característica política do brasileiro como conservador, apolítico, desinteressado em exercer sua cidadania ou de participar mais ativamente da vida política do seu país.

A “vitória” do Cacareco foi apenas um de muitos casos que demonstra o grau de analfabetismo político que vigora no Brasil. Outras personagens, mais humanas, ao menos supostamente, também foram eleitas com base nesse conceito do “voto de protesto”, onde o eleitor conservador demonstrava todo seu despeito com a Democracia e o Estado de Direito. Seria fácil para eu falar do fenômeno eleitoral que foi a eleição de Fernando Collor, mas eu creio ser mais impagável a eleição de Enéas Carneiro. Para se ter uma noção, ele gerou toda uma leva de clones e ele praticamente tornou possível a eleição de Tiririca e de tantos outros palhaços e celebridades que empesteiam as eleições.

O fim de 2015 foi marcado por uma eleição majoritária que seguiu com um “terceiro turno” ao longo de 2016, um ano que está marcado pela instabilidade política e pela ação inconstitucional e antidemocrática de diversos setores e empresas. O caso é que o eleitor brasileiro médio, apolítico, conservador, cristão e adverso ao conceito do Estado de Direito foi retroalimentado com um discurso reacionário de direita.

As empresas de comunicação de massas, em mãos de uma oligarquia, cuidaram de linchar publicamente a presidente legitimamente eleita e seu partido, ao mesmo tempo em que protegia e omitia os partidos e os políticos vinculados aos seus interesses. Entusiasmado, incentivado e encorajado com esse discurso, o brasileiro médio conservador e apolítico engrossou as manifestações pelo Impeachment, ressoando as mesmas palavras de ordem ditadas pelas elites, um discurso recheado de discriminação, preconceito, intolerância e sectarismo. Estava em pauta a “conservação da família tradicional brasileira cristã”. Todos os avanços e progressos conquistados a duras penas em 28 anos estavam correndo o risco de serem revogados. O que o eleitor brasileiro médio, conservador e apolítico queria era “protestar” contra o Governo [supostamente de esquerda], mas também quis protestar contra a “perda” de seus direitos [privilégios] que acredita ter perdido com os programas de inserção social.

João Dória venceu as eleições na capital paulistana exatamente porque ele conseguiu catalisar esse sentimento do eleitor brasileiro médio. Mas sua vitória não pode ser comemorada, afinal, o total de votos brancos e nulos superam em número os votos que ele recebeu, algo que ficou evidente no resultado em geral em todo o Brasil, Rio de Janeiro incluído, onde Marcelo Crivella ganhou graças ao enorme eleitorado evangélico [cristão e conservador]. Marcelo Crivella ganhou como uma “resposta” aos direitos concedidos à comunidade LGBT, como uma forma de combater a “doutrinação ideológica” nas escolas e para dar um fim às discussões sobre a “teoria de gênero”.

O ano de 2017 está pensando seriamente em suspender sua vinda ao Brasil. Os relatos que o ano de 2016 tem lhe enviado demonstra que o Brasil está mais conservador do que antes. Pior, não demora muito para que aqui apareça uma extrema-direita como aconteceu na Europa, tendo Jair Bolsonaro como possível candidato à presidência da república. Cronos resiste aos pedidos do ano de 2016 por exílio ou aposentadoria antecipada, mas prometeu que seria retirado do Brasil o mais rapidamente o possível para evitar a vergonha. Eu fico imaginando como nós iremos contar e explicar o que aconteceu no Brasil em 2016 aos nossos netos.

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