O preço da vida

Layla despertou sentindo a dor em seu corpo, os sons dos humanos doíam em seus ouvidos como milhares de sinos tocando. Seria essa a terrível habilidade humana? Como uma criatura teria capacidade de construir uma arma que era capaz de atingir e ferir um anjo? O que uma criatura dessas seria capaz de fazer aos seus iguais?

Layla sabia que estava desfalecendo, sua respiração estava pesada, o sangue em suas veias queimava e esvaía-se pelas feridas. Por que ela não morrera? Ela fracassara, há poucos metros de seu amado Adama. Ela podia senti-lo perto e isso de certa forma a consolava.

Layla tentou, em vão, gritar para os seus, avisar sobre a incrível capacidade humana em destruir qualquer coisa existente. Mas não saem palavras, ela engasgava e poderia se afogar em seu próprio sangue se insistisse. Por que os Deuses a abandonaram? Seria possível que o Elohim não a tinha visto e ouvido? Ela, pequena e desengonçada, tinha sido capaz de sentir Adama. Ela não abandonaria seu amado. Por que os Deuses não fazem algo? Por que os Deuses permitem tanta dor e sofrimento?

– Layla… você está blasfemando?

No fundo da dor, no fundo da escuridão, no fundo da prisão de carne, Layla ouviu e sentiu a doce sensação que ela raramente sentia. Seria a voz de Adama em sua mente? Não… é alguém mais antigo… mais poderoso… só há uma unica existência que seria capaz de superar todas as barreiras…

– Minha senhora… eu sinto dor…

– Evidente, Layla, tudo que vive sente dor e sofre.

– Por que os Deuses fizeram a vida assim?

– Oh, não, Layla… nós não fizemos a vida assim, a vida é assim porque é assim que tem que ser.

– Eu não entendo, senhora…

– Ah, Layla… você está parecendo essas crianças mimadas, os seres humanos… Viver e existir nesse mundo cheio de restrições significa estar longe distante, da Fonte. Viver nesse mundo significa se afastar daquilo que nos nutre, nos alimenta, nos acolhe, nos embala. Viver neste mundo significa ter que procurar outras formas de nos manter vivos, daí a dor e o sofrimento. Nisso não há culpa ou vergonha, mas quem vive nesse mundo assim escolheu viver.

– Perdão, senhora… mas a dor que sinto foi-me infringida pelos humanos.

– Acha mesmo que eles e você estão separados? Esse é um sintoma da existência nesse mundo. Eles não a viram como você é. Você não os viu como eles são. Eles a atacaram porque tiveram medo e a causa de todo medo é a ignorância. Você estava prestes a atacá-los porque estava com raiva e a causa de toda raiva é a ignorância.

– Eu não entendo, senhora… como eu e eles podemos ser uma mesma existência?

– Ah, Layla… ao selar sua essência em um veículo mais propício a este mundo, você perdeu toda sua conexão… Você é você, uma existência unica, assim como Adama e cada um dos seres viventes, mas todas estas existências estão conectadas. Você esquece que foi com sua carne e sangue, com a carne e sangue de Adama, que a humanidade foi gerada? Eis o vínculo, o elo, a conexão.

– Mas os humanos… atacaram e feriram Adama… eles me atacaram e feriram!

– Eles ao menos podem alegar ignorância em sua defesa… mas você, Layla, minha amada serva? Você pergunta como os Deuses a esqueceram… como você pôde me esquecer!

– Minha senhora… eu nunca a esqueci!

– Mesmo? então porque ainda se queixa das dores? Esqueceu que existe dor no amor? Esqueceu que o ápice do amor é semelhante ao morrer? Se me ama, tire os espinhos que prendem seu corpo e desça dessa cruz.

– Minha senhora… eu não posso!

– Creia-me, Layla, você pode. Mas você prefere acreditar que esse corpo que veste é real. Você prefere acreditar que estes espinhos são reais. Você prefere acreditar que esta dor e sofrimento são reais.

– Minha senhora… eu sinto essa dor, essa sensação faz com que eu perceba que meu corpo é real, concreto e existente, portanto não é questão de crer, mas a questão de ser!

– O que não é não pode ser, Layla… Você é ser, eu sou ser, essas criaturas são seres. A  dor não é um ser, então não é. A dor é um resultado, não uma causa. Eliminando a causa, cessa a consequência, portanto a dor e o sofrimento são estados efêmeros.

– Se é assim, então também são a alegria e a felicidade!

– Oh… está voltando sua raiva contra mim, Layla?

– N… não… minha senhora… me perdoe…

– Como posso perdoá-la se não há culpa? Como eu poderia condená-la, eu, a Deusa Benevolente?

– M… minha senhora… eu não sou digna…

– Está querendo me ensinar quem eu posso ou não distribuir minhas bênçãos?

– N… não, minha senhora… eu apenas estou confusa… eu ainda não entendo por que Adama caiu, por que eu fui crucificada…

– Layla, quer que eu fique em seu lugar?

– Não! Jamais!

Ah! Enfim, eu sinto o seu amor. Pois esse é o mistério da vida, Layla. Ninguém pode tomar o seu lugar. Ninguém mais senão Adama teria que cair. As coisas acontecem com um propósito, então as existências igualmente. Relembre cada dia de sua vida, Layla. Tudo o que aconteceu com você foi necessário para que você pudesse ser você. Você somente se desenvolveu, cresceu e se tornou a minha ajudadora graças a estas experiências que você teve! Você está exatamente aonde você deveria estar! Se você não cumprisse com seu destino, ninguém mais poderia. Ninguém pode te substituir, nem sofrer no seu lugar. Você deixaria de ser você, de ser essa existência maravilhosa e sublime, se por acaso tivesse passado por outras experiências. Você morreria se relegasse a outro esta dor que sente agora. Ninguém pode salvá-la, nem redimi-la. Ninguém poderia ocupar a sua cruz.

– Ninguém mais pode sofrer o que eu tenho que sofrer… ninguém pode me salvar a não ser eu mesma… somente quando eu aceito a mim mesmo e esta vida como são é que eu supero a dor e o sofrimento…

– Bravos! Nem a minha existência entre os humanos, chamada de Cristo, Buda, Krishna, diria melhor.

– Mesmo assim… minha senhora… como posso servi-la melhor?

– Oh, minha criança… serve-me com excelência. Abrace-me e aceite ser abraçada por mim. deixe-me sentir o calor de seu abraço…

Ishtar abraça Layla e a coloca em estado de hibernação. Layla adormece envolta pelo arrebatamento do êxtase. Para os Deuses e anjos, o tempo corre de forma diferente. O que são meros dias para os Deuses, são anos aos humanos.

Em algo a SEELE é semelhante ao Elohim. Não houve consenso e a NERV aproveitou disso para construir e desenvolver o Geofront, o megacomputador MAGI, as escolas para os futuros pilotos e conseguiram desenvolver a primeira unidade EVA.

Quando eu voltar de minhas férias, eu contarei sobre meus anos ocultos na NERV.

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