O cabelo de Selene

No lado oculto da lua uma criatura observa, alarmada, duas explosões na superfície de Gaia e se angustia com a falta de sinal vindo de Adama ou dos Annunaki. Enviada para ser a guia e responsável pelo jovem anjo, Layla tem que decidir se vai atrás de Adama ou se volta para Nibiru.

Dentre tantos candidatos entre os anjos, entre tantos semideuses em potencial, houve uma surpresa geral quando Anu, o Grande Rei, nomeou Adama como embaixador dos Deuses Antigos para confabular com os descendentes dos Annunaki.

Como sua preceptora e professora, Layla evidentemente sentiu-se orgulhosa que seu pequeno prodígio tenha conseguido ganhar a confiança do Grande Rei, mas os boatos que falavam dos costumes dos macacos pelados, chamados de humanos, habitantes de Gaia, era estarrecedores e Layla não hesitou em exigir diante do Elohim [Assembleia dos Deuses] que ela fosse enviada junto com Adama para a colônia em Selene.

Foi desolador ver como Adama ficou consternado quando se depararam com a degradação da colônia em Selene, destruição causada pela presença humana. Layla recorda de quando era jovem como Adama, uma mera aia servindo a grande Ishtar, quando os Annunaki construíram Edin, a Cidade dos Deuses, em uma região repleta de rios, uma região conhecida como Mesopotâmia.

Enlil havia discutido com severidade quando Enki apresentou o plano para manipular o DNA de primatas para gerar os que seriam chamados de humanos. Layla os achava engraçadinhos, esses primatas quase pelados e escuros que saltitavam com vivacidade em volta dos Deuses. Até que houve uma batalha entre os Deuses, Gaia e Nibiru quase colidiram, mas ficaram próximos demais e aconteceu um cataclismo que ficou registrado em Akasha como sendo o Segundo Impacto.

Layla balançava sua cabeça negativamente, fazendo balançar seu cabelo de fios de prata, ela não queria aceitar, mas as explosões não deixam dúvidas. Os humanos haviam feito algo com Adama. O Grande Rei a havia alertado para os perigos da missão e para que ela jamais permitisse que seu vínculo com Adama interferisse com suas obrigações, mas era tarde demais, ela estava apaixonada por Adama desde que Enki tinha decretado que ela geraria com Adama os humanos. Mesmo sabendo da proibição, Layla desceu em direção à Gaia, na esperança de poder resgatar seu amado.

O intercomunicador emite um sinal, mas Layla encontra-se próximo da estratosfera de Gaia, não ouve o chamado tão esperado de Nibiru. Estrategicamente acompanhando a órbita de Júpiter, um corpo celeste do tamanho de Marte mantém sua presença incógnita. Corpo celeste ou nave espacial, para os donos, projetistas e criadores, os Annunaki, não faz diferença alguma. Existem preocupações maiores do que com meras convenções humanas e o Elohim está reunido especialmente para deliberar sobre seus projetos e intenções com os habitantes de Gaia.

– Meu pai! Eu peço permissão para falar!

– Permissão concedida. Com a palavra, Marduk.

– Irmãos! Irmãs! Nossos pais e avós! Nobres Deuses! Nós não podemos mais aguardar. Findou-se o período no qual fixamos que Layla e Adama deveriam descer para nossa colônia em Selene e de lá fossem até Gaia, nosso destino final. Nós não recebemos qualquer sinal ou notícia de nossos valorosos jovens anjos. Eu vos digo, temos que agir!

– Meu irmão, permissão para interceder.

– Permissão concedida. Com a palavra, Enlil.

– Meus irmãos, minhas irmãs, meus filhos e filhas, meus pais e avós, nobres Deuses, todos nós conhecemos bem o ímpeto juvenil de Marduk, mas nós não podemos agir precipitadamente. Nós não queremos provocar outra guerra entre os Deuses nem causar o Terceiro Impacto. Foi o nosso Grande Rei em pessoa quem confiou a Layla e Adama a missão crucial de preparar os humanos para o nosso retorno, onde poderemos concluir nosso projeto. Nós devemos manter nossa confiança em nossos emissários.

– Eu protesto!

– Marduk!

– Perdão, meu pai, eu sei que os Deuses Antigos dizem que eu sou jovem e impetuoso, no entanto, quem os salvou da fúria de Tiamat? Eu! Não foi Enki, não foi Enlil. Embora tenha sido o ciúme e inveja entre meus amados tios que tenha desencadeado a guerra entre os Deuses, guerra que despertou e provocou a ira de Tiamat. Eu fui e derrotei Tiamat, como meu amado tio pode me desacreditar dessa forma diante desse Elohim?

– Basta, Marduk. A palavra ainda está com seu tio.

– Obrigado, meu irmão, mas eu devo agradecer ao protesto feito por Marduk. Nobres Deuses, eu não vou perturbá-los com detalhes que acarretou a guerra entre os Deuses, mas não vou negar que minha rivalidade com Enki funcionou como estopim. Tiamat, que nós lembremos dela com carinho, teve seus motivos para nos atacar. Sim, este Elohim escolheu Marduk para enfrentar Tiamat. Foi também este Elohim que deu a Marduk a couraça, o escudo, a lança e a espada para a refrega. Minha filha Ishtar teria sido muito mais bem sucedida em enfrentar Tiamat sem precisar desses apetrechos, mas nós escolhemos Marduk para refrear a fúria de Tiamat, não para mata-la. Quando Tiamat caiu, Nibiru e Gaia quase se tocaram e aconteceu o cataclismo. No meu ponto de vista, Marduk é o responsável pelo Segundo Impacto e o nosso exílio. O caminho da espada acaba em morte. Nós devemos seguir o caminho da diplomacia. Isso é o que eu tenho a dizer.

– Meu, pai, eu peço a palavra!

– Permissão concedida. Com a palavra, Marduk.

– Nobres Deuses deste emérito Elohim! Meu digníssimo tio os quer convencer do caminho da diplomacia, ao mesmo tempo em que não observou a diplomacia, mas a espada, para decidir essa antiga rivalidade que ele nutre por meu pai, Enki. Eu lhes pergunto, onde estava a diplomacia de Enlil que não impediu a morte de Tiamat? Meu pai e eu também sabíamos que eu apenas recebi a incumbência de combater Tiamat porque Enlil tramava livrar-se do único herdeiro de Enki e Enlil não moveu uma pena ou lágrima pela morte de Tiamat. No ponto de vista dos fatos, Enlil é o responsável pelo Segundo Impacto.

– Meu irmão, eu peço permissão para contestar.

– Marduk, como você acusou diretamente Enlil de conspiração, eu devo conceder permissão para que este conteste. Enlil, você tem cinco minutos. Depois você pode concluir, Marduk.

– Nobres Deuses! Inefável Elohim! Eis-me aqui diante de vós, sendo ultrajado. Oh, a herança maligna que transtornou um jovem como Marduk, tudo por causa de uma velha rixa que perdeu todo sentido! Como pode! Que sombra foi inserida nesse coração valente para pensar que eu, seu próprio tio, seja capaz de conspirar contra minha própria dinastia! Não, meus caros, eu não tive ganho algum nessa tragédia e não teria ganho algum atentar contra a casa de meu irmão. Eu chorei sim, milhares de lágrimas quando Tiamat, nossa aparentada, caiu e verti milhares de penas para descrever a dor de nosso exílio. Meus concidadãos! Assim como vós, eu não desejo que isto ocorra novamente, portanto, reitero que devemos aguardar pelo sucesso de nossos emissários. Isto é o que eu tenho a dizer.

– Contestação anotada, Enlil. Marduk, prossiga e conclua.

– Nobres Deuses! Sagrado Elohim! Vós todos confiaram em meus dotes para lidar com um assunto delicado, eu vos peço que confie novamente em mim! Eu digo que devemos agir por um motivo racional. Eu tenho relatos de nossa colônia em Marte mostrando que Adama caiu em Gaia e foi atacado posteriormente com algum artefato explosivo. Nobres Deuses do Elohim! Enquanto nós perdemos tempo com discussões vazias, eis que aconteceu em Gaia o Terceiro Impacto que tanto temíamos! Nós estamos com tanta reserva para não acontecer outro exílio, mas se não agirmos imediatamente, se não descermos em Gaia, nós não conseguiremos concluir o nosso projeto!

– Ordem! Ordem! Meus filhos e irmãos, ordem! Quem desejar confabular o faça em silêncio! Quem quiser proferir algum parecer, peça a palavra! Nós não podemos entrar em desespero!

– Meu querido e dileto avô, eu peço a palavra!

– Com a palavra, Ishtar.

A confusão, gritaria e balburdia cessa imediatamente. Deuses e Deusas entram em um estado de profunda admiração enquanto Ishtar se dirige ao plenário, balançando sua forma deslumbrante.

– Meus irmãos, minhas irmãs! Meus queridos pais e avôs! Nobres Deuses do Elohim! Eu sou uma criança diante de vós e pouco sei de intriga e política. Eu sou uma jovem Deusa e apesar de minha pouca idade foi-me confiada a guarda do ME. Muitos de vós aqui presentes ficam à minha volta, com elogios, presentes, oferendas. O Elohim ficaria vazio se morressem de amor como dizem que morrem de amores por mim. Sim, eu sei o que passam nos corações de cada um aqui presente quando me olham com olhos faiscantes e não negarei minhas bênçãos e atributos a quem quer que seja, pois eu sou a Deusa Benevolente, eu sou a Senhora do Firmamento, eu sou aquela que é amada por Deuses e homens. Meu poder é cantado através dos Aeons e que poder terrível que eu possuo, por ser a Deusa da Guerra e do Amor. Todo o esforço, raciocínio, arte e ofício nada são diante do Amor. Quanto tempo foi desperdiçado! Entoem loas ao meu nome, pois eu sei e sinto o que a minha amada Layla sabe e sente. Ajoelhem-se e beijem meus pés, pois não são sequer dignos da poeira que se assenta na sola de minhas sandálias. Deixe que meus olhos exorcizem seus medos e inseguranças, pois não há coisa alguma nesse universo que não caiba e meus braços! Sim, Deuses, antigos e novos, eu, Ishtar, descendente de Inanna e chamada de Vênus, Afrodite e Lúcifer, eu descerei até Gaia, um ato de compaixão e misericórdia que nada significam para aquela que atravessou os nove portões do Submundo e dali retornou por vontade própria! Eu travarei este embate e hei de ser vitoriosa. Alguém contesta e duvida? Isso é o que eu tenho a dizer.

Anu, o Grande Rei, recobra o sentido, a consciência e a razão alguns instantes depois de Ishtar concluir seu discurso. Os demais componentes do Elohim demoram mais tempo. Sem sentir vergonha de estar manifestando uma enorme ereção, Anu, o Grande Rei, decreta o fim das audiências do Elohim. O destino da humanidade está nas mãos do Amor.

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