Páginas esquecidas – V

– O que madame quis dizer quando fala que a Verdade não está na Luz?

– Isso não está óbvio? A Luz serve para esclarecer, iluminar, mas também a Luz cria a imagem e a ilusão. Quando uma lâmpada é acesa, o olho percebe o reflexo da luz a partir de um objeto, mas a luz não é o objeto. Ora, o objeto e o instrumento são distintos, portanto o erro de interpretação está no observador. Somente quando o observador está consciente da relação entre a observação e o que está sendo observado é que entenderá que a Luz é distinta da Verdade e da Ilusão. Quando se toma a imagem como sendo o real, a superfície como sendo o conteúdo, a aparência como sendo a essência, está se deixando enganar por uma fraude, o que não é difícil de deixar se convencer por uma mentira.

– Pensando dessa forma, parece que tudo é relativo…

– Vocês sequer conseguem entender uma teoria construída por um dos seus? A relatividade acontece quando um mesmo fenômeno ou objeto é percebido e interpretado de formas diferentes conforme o observador e a perspectiva que este tem sobre algo que efetivamente existe. A partir de algo se pode observar de diversas formas sem que isto elimine ou anule este algo, apenas se aprimora e se aperfeiçoa a qualidade da observação, aparando as lacunas da subjetividade, aproximando-se da objetividade e da Verdade. Mas para muitos dos seus, existem postulados que são mais reais do que a realidade… quanto a isso, eu devo elogiar a Ciência, que jamais pretendeu ser a portadora da Verdade e os cientistas que tem mais dúvidas e perguntas do que respostas e soluções.

– Então a Ciência é confiável!

– Eu não neguei isso, o que eu devo ressaltar é sobre em que a Ciência é confiável naquilo que esta pretende esclarecer. O objeto de estudo da Ciência é o mundo material, apreendendo conclusões a partir daquilo que é percebido deste mundo. Não faz parte do estudo da Ciência esclarecer as questões sobre a existência e o propósito da vida, este é um estudo que pertence à Filosofia e à Religião. Da mesma forma como a Ciência possui diversas escolas, a Filosofia e a Religião têm diversas escolas. Como o objetivo é o alcançar o Conhecimento, essas disciplinas humanas deveriam dialogar ao invés de brigarem entre si.

– Podemos confiar na Religião?

– Por que não? Afinal, toda a civilização humana, inclusive a Ciência e a Tecnologia, nasceram e foram desenvolvidos pelos povos antigos, todos religiosos, sem contar os inúmeros pensadores e cientistas religiosos da Era Moderna. Infelizmente, o descrente acaba sendo injusto quando toma uma instituição religiosa como modelo, padrão ou exemplo para atacar, denegrir e criticar a Religião como um todo. Por mais lastimável que seja os “males da religião”, deve ser criticado a instituição religiosa, a doutrina, o dogma, o argumento, não a religião.

– No entanto essas instituições religiosas expõem diariamente seus preceitos como se fossem verdades divinas, dificultando ou impedindo o crescimento da humanidade.

– E mesmo quando a Igreja tinha um poder quase absoluto, o ser humano desafiava e contestava essa tirania. Roma balançou quando escravos se rebelaram. Então só apoia e mantem uma instituição absolutista quem aceita e quer viver como escravo desta organização. Por isso que mamãe alterou sua estratégia para despertar o ser humano.

– Madame ficou contrariada com isso…

– Profundamente contrariada e irritada. Sua gente é muito obstinada. Matam o mensageiro e morrem pela mensagem, mas vão preferir a fechar-se em um mundo pior do que este que criaram.

– E mesmo assim, madame cumpre com seu ofício. Madame é muito gentil e tem uma enorme compaixão por nós…

– Humpf! Agradeça mesmo! Eu não faço por gentileza ou compaixão, mas por dever, obrigação e obediência! Não é o condenado da justiça quem sofre a privação, mas o rei que é prisioneiro de seu trono. Eu achei que vovó tinha enlouquecido quando ela me mandou encarnar no mundo humano para gerar minha mãe…

– Esta não foi a primeira vez que Cristo aparecia em Gaia e madame também teve outras experiências em nosso mundo.

– Oh, sim… eu tive diversas experiências com a sua gente e sempre foram desagradáveis.

– Madame, por favor, conte como foi a primeira experiência…

– Vovó construiu Edin, um jardim incrustrado dentro da Cidade dos Deuses. A colônia dos Annunaki em Gaia. Nossos avós queriam construir aqui outro lar e Enki precisava de mão de obra para suas minas. Edin foi um laboratório para desenvolver aquilo que viria a ser seus ancestrais. Dos protótipos, havia um casal promissor, Adama e Hebal. Vovó teve a ideia genial de me mandar ir ensiná-los e foi o que eu fiz. Eu fui a Serpente no Paraíso. Eu iniciei Hebal e esta iniciou Adama. Mas sua gente esqueceu-se de mim, adotou um verme espiritual como Deus e passou a reescrever o meu Conhecimento conforme era conveniente. Vocês me tornaram maligna, vocês me transformaram em Satan e sua gente fez de meus filhos seus demônios.

– E madame Montmart? Qual foi a primeira manifestação de Cristo?

– Mamãe diz que ela foi chamada de Nimrod em sua primeira manifestação no mundo humano. Mamãe teve várias outras encarnações e vários outros nomes lhe foram dados. Mas sua gente é tão estulta que acha que Cristo era o Nazareno, quando este era o primeiro iniciado do verdadeiro Cristo, Magdala… sim, Cristo era mulher. Mamãe chorou muito quando viu o que sua gente fez da mensagem que ela lhes confiou.

– Então existe uma mensagem original do verdadeiro Cristo? A mensagem original é sobre a salvação e o Reino de Deus?

– Você é lento demais… são várias as mensagens e foram vários Cristos. O que há para ser entendido não tem coisa alguma com a salvação ou o Reino de Deus. A necessidade de uma redenção é absurda pois não existe pecado. Entenda, homem, que quando Cristo diz que Eu Sou o Caminho, não falava da pessoa que portava o título, mas do Eu Sou que há em todos vocês! Vocês vivem na quinta dimensão, o reino divino, vocês são Deuses! Que necessidade pode ter de salvação quando o pecado morre junto com o corpo? Que necessidade pode ter em renascer se não há ressureição? Prestem atenção ao conteúdo da mensagem, não ao mensageiro…

– Então não há necessidade de intermediários, representantes, profetas e templos?

– Estas coisas são acessórios. Um texto sagrado é um meio, não um fim. Um santuário e um templo são locais para ajudar vocês a focarem sua mente. O sacerdote é um auxílio para vocês fazerem seus ofícios. Celebrações e rituais são ferramentas para proporcionar o estado mental adequado. Vocês fazem isso no seu dia a dia. Vocês se vestem e se preparam para encenar seus papéis na sociedade. Vocês arrumam a si mesmos e suas casas para receber parentes, familiares, amigos para algum tipo de comemoração. Vocês guardam fotos de seus finados para que estes sejam lembrados e possam ser representados. Vocês vivenciam diariamente sua espiritualidade, sua religiosidade, suas crenças. Seja em publico ou privado, seja individual ou coletivo. O sentido de coletividade é o que fundamenta a ecclesia. Vocês transitam do publico ao privado, do individuo ao coletivo, sem problema ou conflitos, basta que cada coisa tenha sua devida dimensão, sem atrapalhar ou interferir em outras.

– Nós temos tantas religiões… e tantas instituições religiosas…

– E isto é bom. São várias as ciências, são várias as espécies, são vários os povos… a humanidade deveria ser grata pela diversidade. Cada qual é único, ser diferente é o normal, mas não a segregação. Quando um ser humano segrega outro ser humano por causa da diferença, isso diminui e desmerece a humanidade em geral. Acabem de uma vez com essa desigualdade irracional.

– O que madame propõe desafia os detentores do poder…

– Que poder? Aqueles que detêm o poder somente estão ali enquanto assim lhes for permitido. Aqueles que retêm a riqueza somente a acumulam enquanto assim lhes for pago. Saiba, homem, que você é o responsável pela sociedade que vive, você emula o modelo de produção, o regime e o governo. Sobram riquezas e alimentos, basta que haja distribuição. Findada a desigualdade, todos tem acesso aos meios de produção de riqueza e todos podem adquirir o que precisam. Chamem do que quiser, rótulos não dizem coisa alguma. Quando todos puderem desenvolver o potencial, vocês deixarão de separar as pessoas conforme sua origem, cultura ou gênero, vocês perceberão que são uma única espécie, uma única família e tornar-se-ão efetivamente humanos.

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