Páginas esquecidas – IV

– Madame deve considerar o quanto isso é perigoso e arriscado afirmar. O público pode ser dividido em crentes de um Deus e descrentes de qualquer Deus.

– O que o púbico crê ou descrê é irrelevante. Seria como levar em conta a opinião de um peixe de aquário a respeito do oceano.

– Mas quem está certo?

– Vocês estão certos naquilo que podem e querem estar certos. Mas estar certo não é o mesmo que estar falando a verdade e o inverso disso não é a fraude, mas a mentira. Seus tribunais são um bom exemplo disso. Vários inocentes ficaram presos, condenados, unicamente por considerarem as evidências como verdades em si mesmas. A única conclusão que se pode extrair de uma evidência é que esta existe. A relação, a conexão e a consideração que se fazem sobre essas coisas são completamente subjetivas. Aquilo que vocês chamam de Ciência está baseada em uma convenção humana.

– Mas e as Leis da Natureza?

– Vocês são confusos hem? Não se pode partir do que se quer provar para então se buscar os elementos para substanciar os argumentos. Do jeito que falam, parece que a lei é algo natural, quando o contrário que é mais coerente. Por serem constantes e contínuos, os fenômenos naturais podem ser descritos conforme uma formula, disto se apreende as ditas Leis da Natureza, embora não haja lei alguma na natureza.

– Mas madame, exatamente porque os fenômenos naturais são constantes é que se pode dizer que há uma Lei Natural, porque não depende de considerações subjetivas ou pessoais.

– Tornaram subjetivo ao inverter o sentido das coisas. Senão vejamos, se os fenômenos naturais são constantes, presume-se que há uma Lei Natural, então a Lei Natural é intrínseco à Natureza. Ora, se a Lei pertence à Natureza, então a Lei deve seguir a Natureza. Então a Lei não age por si mesma, mas por uma consciência, a Natureza, então a Lei não existe por si só, mas conforme uma vontade externa. Ora, se há uma vontade na Natureza, há uma consciência, então há uma existência que ordena os fenômenos naturais. Ora, uma vez que a Lei Natural existe porque há uma consciência, tudo que é ordenado existe porque há uma consciência em ação.

– Madame pretende que a Ciência comprova que o mundo material existe por obra de algum tipo de consciência? Os descrentes discordariam e os crentes concordariam. Quem está certo?

– Ambos estão certos e errados. Aposto que isto jamais ocorreu ao seu povo! Tanto crentes quanto descrentes pensam que existe unicamente uma de duas possibilidades, mas no universo ocorrem diversas alternativas, cada qual com potencial de ser verdadeiro, falso ou neutro. Na pobreza do pensamento humano, uma linha de premissa que ocorre ser verdadeira é razão e motivo suficiente para julgar as demais linhas de premissas ou verdadeiras ou falsas conforme a primeira linha, não conforme as premissas em relação ao que é verdade.

– Então, madame, o que é a verdade?

– Mamãe é a Verdade. Ela é autossuficiente. E ainda assim, mamãe é filha de Lúcifer, a Luz. Aquilo que o homem diz que é “verdade” é um reflexo, uma imagem, uma sombra da Verdade. Se os reflexos são múltiplos, porque os descrentes acabam sendo iguais aos crentes ao declamar a Ciência como sendo a portadora da Verdade? A “verdade” da Ciência é um reflexo da Verdade. E mesmo mamãe não é a única que existe. Sem a Luz não existe a Verdade. Mas a Verdade não está na Luz…

– Então madame Montmart é Deus?

– Mamãe não tem tanta pretensão. Mas mamãe foi o que os humanos chamaram de Cristo. Ela conhece o Deus e a Deusa.

– Deus não é único?

– Outro engano comum dos humanos. Vocês ainda são incapazes de perceber que existem diversas verdades. Até a Verdade convive com a Luz e outras entidades, portanto há diversos Deuses e Deusas. Por que existiria um único Deus? Por que seria exatamente este o que o crente presta culto? Ora, se até este Deus é cercado por servos e intermediários, ele não é único nem absoluto. Se nem Deus é único e absoluto, porque seria qualquer instituição religiosa a única representante do divino? Se o mundo divino é revelado aos homens por diversos textos sagrados, porque apenas um único livro teria a inspiração vinda de Deus? Por que Deus precisaria de livros para revelar suas palavras, suas verdades? Vocês ainda estão perdidos nos labirintos que vocês mesmos criaram. Minha tia Maya aprecia isso, eu acho patético.

– Mas este mundo é real, concreto, como que tudo isso pode ser uma ilusão?

– Concreto… isso é muito engraçado… essa noção humana de que o real é tudo aquilo que se pode tocar, ver, ouvir, degustar, sentir é… ridícula. Aquilo que forma o objeto, aquilo que forma o corpo, é um conjunto de elementos idênticos. Até os átomos são resultado da confluência desses elementos. Chamem de energia, vibração, onda, mas não há coisa alguma concreta ali. O espectro de sentidos humanos é extremamente limitado, mesmo com a ajuda de máquinas. Se vocês tivesse a metade da capacidade de percepção de outras espécies… se vissem o mundo como ele deve ser visto… certamente enlouqueceriam. Ainda assim, tentam encaixotar o universo em um cubo, em apenas três dimensões. No máximo tem uma noção da quarta dimensão, o tempo. Vocês deviam ver da quinta dimensão o mundo que vivem.

– Madame disse que seu pai vive na quinta dimensão.

– Você é lento assim mesmo? Todos nós vivemos na quinta dimensão. A diferença é que o ser humano ainda não se deu conta, daí o motivo pelo qual esse mundo que vocês criaram ser uma ilusão.

– Nós que somos os criadores desse mundo?

– Oh, sim, não duvidem disso jamais! Cada ser humano constrói, mantém e reproduz o mundo tal qual é, com seus respectivos países, governos, regimes, modos de produção… toda a alegria e toda a tristeza… toda dor e sofrimento… felizmente o que é belo e virtuoso, são criações suas. Por isso que são inferiores, pois vocês são seus próprios carrascos.

– Como seria se despertássemos na quinta dimensão?

– Nisso eu e mamãe discordamos. Ela acha que vocês conseguem. Eu não sou tão otimista. Eu acho que vocês não sobreviveriam e se fechariam em um mundo pior ainda do que este que vocês criaram.

– Quando madame diz que não sobreviveríamos… madame quer dizer que morreríamos?

– Vocês, humanos, ainda discutem, como se pudessem compreender, se existe Deus ou não e querem entender a morte? Vocês estão mortos, pelo padrão humano. Ou vocês sonham, pelo padrão otimista. Quando o que vocês chamam de vida cessa, o que morre é a ilusão que vocês criaram, morre o corpo, para ser mais específica, mas aquilo que constitui o “eu” desperta e começa a viver de verdade.

– Então não vivemos… mas sim sonhamos? E a vida continua após a morte?

– Ai, mas você é lento mesmo! Morte é um estado, uma circunstância, um evento. Todos os dias, quando você vai dormir, você não fecha os olhos? Por acaso teme o dia seguinte? Por acaso fica agoniado com a expectativa de não abrir os olhos no dia seguinte? Você simplesmente dorme e abre os olhos no dia seguinte e continua com seus afazeres. Por acaso você escreve cartas para o passado? Não, somente se escreve cartas para o presente. Sua vida é a mesma vida, desde o momento em que isto que faz o “eu” foi gerado no útero da Deusa, no centro do cosmos. Foi você quem escolheu dormir, foi você quem escolheu criar este mundo… o sonho sonhado em conjunto se chama realidade. Enquanto estiver no sonho, você tomará aquilo como sendo a sua vida, você criará uma imagem de si mesmo para interagir com o ambiente que você está imaginando.

– Isso é muito semelhante com os jogos online…

– Essa é uma pequena ironia… sem perceberem, vocês mesmos criaram outras bolhas de sonhos em suas bolhas de sonhos e ainda se levam a sério quando falam em “realidade”! Mas eis que vocês criaram um ambiente que é construído por impulsos elétricos! Criam e dão nomes aos seus avatares e o conduzem através de missões dentro das opções disponíveis no jogo! Na perspectiva desse avatar, aquele ambiente é a “realidade” e a sua vida é “real”, no entanto tudo aquilo deixa de existir quando vocês desliga o computador e volta a existir exatamente no ponto onde você parou quando você religa o computador, mas para o seu avatar foi apenas uma noite de sono! A vida desse avatar é uma ilusão! A sua vida é uma ilusão! O seu avatar continua a existir, mesmo depois que “morreu”! Então porque é tão difícil para que aceitem que sua vidas não cessarão de existir depois que seu corpo morrer? A vida é uma ilusão, mas vocês dão para a morte mais importância! Ora, essa vida é uma ilusão, então a morte é um mero evento! Morrer é tão terrível quanto passar por uma porta…

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