Páginas esquecidas – III

– Madame não respondeu ao questionamento do leitor atento…

– Que é você mesmo… este é o terceiro texto que escreve, quando é que você vai escrever sobre mim?

– Eu ouço, madame, mas… o leitor atento ainda está curioso. Eu escrevi como eu fiquei estupefato com sua nudez e, apesar de sua exposição controversa sobre sexo, o leitor atento pode achar que madame mais fala do que faz…

– Desnecessário ressaltar que sua gente é limítrofe. Quando um não quer, dois não fazem. Contente-se em abusar de mim para escrever suas fantasias.

– Mas madame… o público… diante de tantos casos de violência sexual…

– Vocês são bobos, mesmo! Nem sequer cogitaram que faz parte da ginástica de Eros e Afrodite, não apenas a corte, mas desempenhar papéis, ora de vítima, ora de predador. Vocês, homens, se acham dominantes, mas é a mulher quem escolhe seu parceiro, é a mulher quem controla o relacionamento.

– Mas madame… e quando tem um vulnerável envolvido?

– Aquele que vocês consideram vulnerável… não é inocente, ingênuo e assexuado. O vulnerável, a vítima, é o indivíduo nessa sociedade humana doentia. O indivíduo é diariamente bombardeado por mensagens carregadas de erotismo transmitidas publicamente pelos meios de comunicação de massa. A mensagem da sociedade é bem clara, o corpo é uma mercadoria, um produto, para ser consumido e descartado. Desumaniza-se o corpo, dessacraliza-se o sexo. Em uma sociedade onde a sexualidade ainda é cheia de tabus, regras e proibições, a pulsão e a libido irão expressar-se pela violência. Eu fico abismada, pois ao invés de perceber as raízes de seus problemas, criam outros mais pela neurose, histeria e paranoia. Você, escriba privilegiado, admira meu corpo, por acaso seria capaz de afirmar que eu não estou apta a estabelecer um relacionamento?

– N… não, madame, eu não posso afirmar tal coisa. Madame tem sinais de que é plenamente madura.

– Então qual a dificuldade? Não é possível estabelecer um padrão fixo entre idade e maturidade, mas existem sinais que são naturalmente perceptíveis. Eu duvido que alguém seja capaz de comer um fruto que ainda está verde…

– No entanto, isso ocorre…

– O que é um sintoma, uma consequência, o que comprova que a doença está na sociedade humana, não naquele imputado como criminoso. Mas néscios que são, transformam esses casos em uma questão moral e passam a criminalizar até mesmo os relacionamentos sadios. Anos atrás vocês consideravam doença o relacionamento inter-étnico. Vocês ainda consideram doença o relacionamento homossexual. Sua gente se agarra pateticamente a uma divisão binária de gênero e admitem somente um único tipo de relacionamento como “natural”, quando estas coisas são completamente artificiais! A divisão por faixa etária para definir a capacidade de consentimento é igualmente arbitrária. Eu fico muito satisfeita quando vejo que a geração atual está vivenciando, na prática, as ideias da Revolução Sexual que seus avós sonharam. Eu devo a estes jovens o meu sucesso como artista.

– Eu gostaria de saber mais sobre isso, madame. Quando e por que sua carreira artística começou? Como isso se encaixa no projeto de seus pais? Aonde Osmar entra nesse esquema todo?

– Bravos, escriba! Você está sendo mais honesto ao deixar de usar o leitor como subterfúgio. Mamãe é extremamente prática, foi ela quem configurou que eu teria que ser uma grande artista, uma celebridade, para que a humanidade percebesse como são ridículas suas concepções sobre amor, gênero e sexo. Eu não vou dizer que foi fácil e simples, afinal, os proprietários dos meios de comunicação de massa são os principais interessados em manter o sistema.

– Houve resistência?

– Oh, sim! Não por que eu era uma garota jovem e sensual. Disso o mundo do entretenimento está repleto. As empresas estavam renitentes com a minha carreira por causa de minha condição como transgênero. Até pode-se dar espaço para uma artista mulher que é lésbica e espaço para um artista homem que é homossexual, mas eu estava além e aquém dos padrões binomiais de gênero e sexualidade. Eu sou menino e menina e eu gosto de meninos e meninas. Tem dia que eu estou a fim de amar uma pessoa, tem dia que eu estou a fim de amar várias pessoas. Sou eu e apenas eu quem define com quem, com quantos e como o amor será expresso.

– E mesmo com essa resistência, madame é uma celebridade.

– Sim, graças aos jovens. No princípio eu me apresentava na periferia, locais onde a cultura oficial dominante não manda. O sucesso incomodava e não faltavam testas de ferro, usando o espaço público, falando horrores de mim, do meu espetáculo e da minha audiência. Coitados! Quando me atacavam, inevitavelmente contribuíam para aumentar minha plateia! Mudaram de tom, quando perceberam que estavam perdendo dinheiro e eu soube aproveitar as brechas que me concediam. Sim, eu me tornei um ícone, um ídolo, no qual diversas pessoas podiam se inspirar e encontrar coragem para assumirem suas identidades e preferências sexuais.

– Madame acredita que a humanidade está pronta para dar o próximo passo evolutivo?

– Sim, eu acredito. O meu sucesso é confirmado com casos que aparecem aqui e ali. Pode demorar anos, mas a tendência é dos casos aumentarem, o que é considerado regra e o que é considerado exceção serão questionados.

– Eu imagino que seja esse o objetivo dos planos de seus pais, mas e Osmar?

– Ah… meu irmãozinho… a metade de mim… a metade afastada, exilada… só de pensar nele, eu fico excitada!

– Eu posso convidar o leitor a consultar as estórias que eu escrevi com Osmar?

– Se eu não estivesse pensando em Osmar agora, eu iria te dizer um belo palavrão. O leitor deve ser masoquista para apreciar tal arremedo de literatura.

– Perdão, madame… mas eu sou o único que ousa fazer tal façanha. Por favor, prossiga.

– [suspiro longo e profundo] Você tem sorte de eu estar recordando da primeira vez que eu vi e conheci meu irmão. Foi um momento de reconhecimento e estranhamento. Eu sei que eu e ele temos muito em comum, mas também temos muitas diferenças. Em muitos aspectos, eu sou mais masculina que meu irmão e ele é mais feminino do que eu. Eu tive que interpretar a celebridade afetada, mas a minha vontade era o de abraça-lo e beija-lo, ali mesmo, diante do juiz.

– Deve ter sido enfadonho para madame ouvir a sentença do juiz.

– Felizmente a sessão foi rápida. Dali, eu e Osmar nos dirigimos para a casa de mamãe e eu fiquei me segurando o caminho inteiro.

– Que terrível tortura!

– Foi difícil, mas eu rapidamente esqueci quando papai apareceu e todos pudemos cear em família.

– Eu agradeço por que madame permitiu que eu pudesse compartilhar desses momentos preciosos.

– Humpf! Eu fiquei contrariada quando mamãe insistiu que você deveria testemunhar minha primeira noite com meu irmão.

– Madame Montmart foi muito generosa em me permitir escrever sobre os planos dela.

– Definitivamente, eu considero discutível o gosto de mamãe. Custa-me crer que ela tenha te mordido. Mamãe nunca explicou muito isso, nem sobre seus outros vínculos com a NERV e a Sociedade Zvezda.

– Eu fico imensamente grato e lisonjeado com a presença de madame neste mundo. Por favor, madame, fique à vontade para transitar por minhas estórias.

– Não fique muito convencido, mas eu o fiz. Eu não direi que é um desperdício total. Você, escriba, consegue me fazer rir.

– Madame é muito gentil.

– Eu estou ficando cansada de falar de mim. Que tal contar-me sobre seus amores, Kate Hoshimiya e Rei Ayanami?

– Houve um tempo, em um de muitos multiversos, em que eu trabalhei na NERV como engenheiro, construindo e reparando os EVAs. Ali eu conheci e me apaixonei por Rei Ayanami.

– Ela é bonita?

– Não como madame…

– Humpf! Seus elogios não me afetam! Considere-se privilegiado por estar diante de mim!

– Eu estou imensamente grato, madame. O que me permite falar de Venera sama. Ela me deu de presente para a madame.

– Venera sama é Kate, isso eu sei, mas como você deixou a NERV e seu amor, Rei Ayanami, para então ser adotado pela Sociedade Zvezda e conseguir os favores de Kate?

– Eu descobri e despertei meu… potencial enquanto eu trabalhava para a NERV. O que tornou-se um problema, por causa de Rei Ayanami, dos EVAs e dos Angels. Eu fui expulso e fiquei vagando, até que Venera sama me encontrou. Ela me rebatizou de Durak e tem feito uso de meus dotes até agora.

– Ela é bonita?

– Madame me perdoe, mas… Venera sama é incomparável.

– Humpf! Como se eu fosse sentir ciúmes ou inveja dela! Eu não fico impressionada com seus dotes, escriba. Você incorpora o Senhor do Mundo, o Mestre do Sabbath… grande coisa!

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