Páginas esquecidas – II

– Escriba! Você está ficando irritantemente repetitivo, previsível e enfadonho. Você tem obsessão em falar, pensar e sonhar de sexo. Você está aqui para escrever sobre mim!

– Perdão, madame! Eu não tinha ideia de que isso a incomodava.

– Não seja ridículo! Ver essa coisinha ereta jamais me incomodou. O que é irritante é essa patética inconsistência do ser humano diante do sexo, algo que devia ser normal, natural e parte de uma vida saudável, sua gente ora vitupera, ora elogia, o sexo e a sexualidade.

– Talvez madame possa esclarecer a nós, seres inferiores, como deveríamos nos comportar quanto ao corpo, ao desejo, ao prazer, nessa ginástica de Eros e Afrodite.

– O problema de vocês, humanos, é que pensam demais, raciocinam demais, preocupam-se demais. Sua espécie é a única que complica demais algo simples e natural. Cada espécie tem formas e sinais para que os indivíduos sintam atração. Havendo atração e interesse mútuos, pouco importa quem são, quantos são, todos os atos de amor e prazer são lícitos.

– Esta é uma verdade muito dura de entender, madame.

– Este é um problema de vocês, criaturas inferiores. Vocês romantizam e idealizam o amor de certa forma que nada tem de natural. Ao invés de viverem e expressarem sua libido e pulsões, vocês preferem ter uma meia vida cheia de tabus, regras e proibições. Acreditam mesmo que amor e sexo são coisas belas, bonitas e enlevadas. Acham mesmo que amor e sexo conseguem existir sem violência e brutalidade! Como se fosse possível consumar a consagração da carne sem dor ou sofrimento! Pior, vocês ficam admirados que o êxtase do amor é perigosamente próximo de morrer. Esse conceito delicado e civilizado de amor não existe e não é natural.

– O que madame propõe é muito ofensivo…

– Você diz isso como se eu me importasse… mas isso nunca o impediu de escrever desafiando esses tabus da sociedade, que é o que você pretende, exatamente, pedindo-me para contar minha estória, usando-me como subterfugio e assim oferecer ao leitor uma válvula de escape.

– Eu posso dizer ao leitor que madame permite isso porque a deixa excitada?

– Pouco me importa o que você e os leitores pensam. Podemos continuar a minha estória?

– Sim, madame, por favor.

– Então eu passei vários anos na Abadia de Lacroix sentindo um terrível vazio e ausência. Eu me recusei a acreditar que eu era a única, vivendo cercada de criaturas inferiores. De alguma forma eu sabia que existia alguém semelhante a mim.

– Madame pressentia ou sabia que existia seu irmão, seu gêmeo, sua outra metade, o Osmar?

– Não adiante o roteiro, escriba! Antes eu fui conduzida ao convento da Abadia de Lacroix, onde eu conheci os meus tutores, Madre Justine e Irmã Charity.

– Que são sua avó e sua tia.

– Não me interrompa!

– Mas o público tem que entender, madame… aliás, madame poderia desvendar o mistério que envolve Nathan Mansfield.

– Isso é museu. Eu sou a obra prima.

– Oh… bem… eu vou ter que inventar…

– Um castigo mais do que conveniente para você. Enfim, vovó e titia cuidaram de mim. Neste período eu percebi que eu estava sendo orientada, preparada, para algo grandioso.

– Foi durante esse período que madame encontrou com sua mãe e pai?

– Sim! Estes foram dias muito felizes. Quando mamãe veio me visitar, eu pude confirmar o quanto eu sou especial e o quanto vocês são inferiores.

– O público está inquieto com essa afirmação, madame. Como se deu tal confirmação?

– Muito bem… eu estava em um convento, uma das muitas ordens de uma instituição religiosa que alega ser representante de Deus. Minha natureza e condição, por elas mesmas, são uma aberração e uma contestação aos dogmas desta instituição. Como se a minha presença não fosse embaraçoso o suficiente para a Igreja, eis que minha mãe se manifesta, sem qualquer dificuldade ou empecilho. A Igreja é total e absolutamente contra a Verdade. Mamãe era a encarnação da Verdade.

– Permita-me madame, instar ao leitor para reler o “Caso Keller” e as estórias derivadas.

– Escreva… se não tem outro remédio.

– Madame foi sua mãe quem lhe falou sobre seu irmão?

– Oh, não, ela veio me falar de papai. No dia seguinte papai veio me visitar e foi ele quem me disse sobre Osmar e os planos deles para o nosso futuro.

– Qual foi a sensação de conhecer seu pai e saber que madame tinha um irmão gêmeo?

– Ah! Eu fiquei imensamente encantada e maravilhada! Papai… vai escrever isso?

– Sim, madame.

– Apesar dos riscos?

– Sim, madame.

– Então que seja. Eu não tenho receio algum de dizer que eu senti prazer nos braços de minha mãe. Mas com papai… nossa! Mamãe quem me ensinou o que é ser feminina, mas foi meu pai quem me mostrou o que é ser mulher. Sua gente jamais entenderá ou atingirá tal tipo de evolução. Seres evoluídos, seres superiores, tem um relacionamento e um comportamento que é um escândalo para suas mentes primitivas. Por isso suas vidas são repletas de recalques e frustrações.

– Madame… recebeu educação sexual diretamente de seus progenitores?

– Evidente que sim! A função de uma família é educar e ensinar seus descendentes e isto inclui ensinar as coisas sobre o corpo, o desejo, o prazer, o amor e o sexo. O ambiente familiar é incomparavelmente mais seguro e saudável do que o ambiente social.

– Madame, isso é muito delicado… minha gente pode interpretar isso de maneira errada…

– Bah! Não me amofine com coisas pequenas. Como eu disse, isso é irrelevante. Se vocês acreditam que uma pessoa por causa de sua faixa etária não tem uma sexualidade, isso é problema de vocês.

– Madame… o público… pode entender que eu esteja fazendo apologia ao abuso e à violência sexual.

– Sua gente é retardada? Eu vou repetir. Não existe amor sem dor e sofrimento. Senão ninguém mataria por ciúmes. Não existe êxtase sem perder quase completamente sua consciência. No gozo, não faz muita diferença se é sangue ou sêmen que é espirrado.

– Madame!

– Que foi? São vocês que criaram pruridos, são vocês que criaram palavras para definir o que é permitido e o que é proibido. Mas eu vejo aqui diversas notícias que mostra que isso é pura hipocrisia. Perde-se a conta de casos de presidente, reis, imperadores e até mesmo papas que consumaram relações sexuais que a sociedade considera imoral. No mundo do entretenimento, perde-se a conta de artistas que desafiaram esses falsos conceitos sociais. A despeito disso, sua gente ainda fica escandalizada com casos de relacionamentos sexuais entre professores e alunos. O que será de sua gente quando descobrirem que existem relacionamentos sexuais entre progenitores e descendentes?

– Eu vou evitar de usar tais palavras, mas… tendo em vista o peso e gravidade do que expomos, o leitor atento irá questionar por que, então, madame aparenta desgostosa diante de minha excitação?

– Eu estava prevendo que chegaríamos a isso. Usa o leitor como subterfúgio para justificar seus aportes delirantes. Convenhamos que não faz muito sentido utilizar a violência para punir quem cometeu uma infração contra as normas sexuais que a sociedade demarcou. Afinal, sua gente sente prazer ao agredir o suposto criminoso, o que corrobora minha tese. A violência não evita nem corrige a causa do ato perpetrado. Nem poderia, pois sua civilização nasceu e cresceu graças ao estupro, incesto e adultério.

– Madame como nós podemos asseverar tal fato?

– Digamos que seja verdade, que exista este Deus Cristão e que a Bíblia seja verdadeira. Deus fez com que Eva tenha surgido de Adão e este a engravidou. Isso se chama incesto. Abraão tinha Sara, mas resolveu ter um filho com Hagar. Isto é adultério.

– Faltou o estupro…

– Digamos que seja verdade o mito da fundação de Roma. Na falta de mulheres, os Romanos raptaram e engravidaram à força as Sabinas. Isto é estupro. E a lista continua infinitamente, em diversas lendas e mitos. Estas coisas não acontecem por mero acaso, coincidência ou arbitrariedade. Estas coisas aconteceram por que fazem parte da libido e pulsão do ser humano. Mas o ser humano preferiu se esconder debaixo dessa capa chamada cultura e civilização. Podem dizer que antes seus ancestrais eram incultos, mas o mundo contemporâneo é construído em uma redoma de vidro que não consegue mais controlar e disfarçar que vocês tem as mesmas pulsões e libidos que seus ancestrais. Quando uma espécie rejeita e renega sua essência, quando rejeita seu corpo e sexualidade, o que assume o lugar é o ódio, a agressividade e a violência. Tais coisas diminuirão somente quando sua gente conseguir voltar a expressar a sexualidade de forma normal, natural e saudável.

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