Páginas esquecidas – I

Como o ofício de escritor é exigente. Um escritor não cria uma estória, ele é possuído por uma. O resultado, o livro, é letra morta. Nada ou pouco se fala do histórico dos personagens. Nada ou pouco se fala dos eventos que precederam e contribuíram para construir o cenário desfraldado pelo escritor.

Eu ainda não contei de minhas aventuras em Westeros. Eu ainda não contei de minhas aventuras na NERV. Eu contei de minha aventura na Sociedade Zvezda, eu contei diversas estórias que desafiam os tabus. Você, meu leitor, é cúmplice desse compêndio subversivo.

Uma estória pode ser contada de diversas formas, de uma estória puxa-se outra fiada. Neste espaço as estórias se entrelaçam e se misturam. Aqui eu contei sobre Magritte, sobre Osmar, mas caberiam muitas outras estórias, se eu contasse a versão de Mansfield ou de Javier.

Arrisque-se comigo, leitor, para explorarmos e desafiarmos os limites que a sociedade nos impõe. Eu conto com sua colaboração e apoio para nos aventurarmos nessa região tão temida e desconhecida que é o subconsciente, onde todas nossas pulsões, libidos, inseguranças, medos, fraquezas, frustrações e recalques existem, vivem e são reais, concretas.

Delicie-se, comigo, com as memórias guardadas no diário de Leila Etienne. Madame tem um coração enorme por permitir tal coisa.

“Abrir os olhos é algo simples, mas da primeira vez a luz incomoda e dói. O pulmão queima enquanto o ar o estufa. Vultos correm de um lado para outro, o som do movimento é quase insuportável. Somente quando os olhos se acostumam com a luz é possível reparar melhor o que são os vultos. Ao ver o outro, começamos a perceber algo sobre nós mesmos, sobre este mundo e sobre o que vem a ser viver.”

– Hei, estúpido, como que você pode contar de algo que eu escrevi se eu estou deitada, sabe-se lá aonde?

– Madame, perdão! Eu tomei um trecho posterior de seu diário para inserir o leitor na cena inicial.

– Você é mesmo estúpido… vamos, deixe que eu descreva o cenário para que o leitor se situe.

“França em primavera. Em algum lugar de uma cidade chamada Lacroix, que fica ao norte de Murano. Em instalações discretas e escondidas, padres e cientistas estão reunidos para concluir um projeto ricamente financiado pela família Montmart”.

– Eu ouvi alguns bocejos. Madame não está ambientando o leitor no cenário, madame está enfiando o leitor no cenário.

– Cale-se! Como ousa! Esse trecho foi escrito por mon papa! Respeito!

– A platéia deve ser apresentada a seus pais…

– Bah! Néscios! Que leiam seus terríveis arremedos de estórias!

– Madame, diga que é filha de Vera Montmart e Joe Magritte.

– Esta é uma verdade, mas é uma meia-verdade, nes pá? Como eu posso descrever a minha… condição especial?

– Eu sugiro que madame os inste a ler minha estória com Alraune.

– Está me comparando… com aquela boneca?

– Oh, não! Madame é muito mais linda e perfeita.

– Humpf! Mais tarde eu te castigo. Mas enfim, eu nasci bem ali, naquela cama hospitalar.

– O pessoal deve estar confuso. Madame, nós nascemos em um parto, tirados do ventre de nossas mães. Quando madame abriu os olhos, madame não era um bebê.

– Há! Eu nada tenho com criaturas inferiores. Um ser perfeito como eu somente pode ser gerado por complexos processos que envolvem religião e ciência.

– Mas o público, madame… dificilmente irá compreender a natureza da união que aconteceu entre o senhor Magritte e a senhora Montmart.

– Pelo visto você deve ser um especialista… será que você esqueceu que eu sou a protagonista? Eu estava lá, eu nasci, então eu que sei.

– Oh, não, eu jamais teria tal ousadia. Mas permita-me explicar que a união do senhor Magritte e da senhora Montmart foi um Hiero Gamos, uma união sagrada que, como tal, gerou uma descendência divina, mas havia um empecilho… a forma perfeita era perfeita demais para continuar a existir nesse mundo. O ser perfeito teve que ser dividido em dois. Ou a forma perfeita havia surgido como gêmeos siameses. Madame era a metade que estava no hospital da Abadia de Lacroix.

– M… muito bom… isso foi satisfatório… eu vou te perdoar… dessa vez.

– Madame é muito compreensiva. Eu te agradeço por tamanha compaixão.

– Bien tout. Eu estava ali, naquela cama hospitalar, cercada de criaturas que, com o decorrer do tempo, eu conclui que, a despeito de serem inferiores, eram semelhantes a mim.

– Conte ao público como se deu essa percepção de consciência de si mesma, de sua composição material, de sua consciência sobre o próprio existir, de como identificou seu corpo e a semelhança com minha gente?

– Mais ennui… eu sou capaz de sentir, capaz de expressar tal sentimento e capaz de conceituar o que sinto, portanto, por sentir, eu sou e por ser, posso pensar e por estar ciente de mim mesmo e de minha condição, eu sou consciente.

– Isso é bastante evidente. Madame deve ter comparado estas impressões com o que observava das criaturas que a cercavam e chegou a conclusão lógica de que havia uma semelhança.

– Il est evident!

– A despeito de para mim ser evidente aos meus olhos, como podemos convencer ao público de que madame é superior ao ser humano?

– Comme je pourrais parlez… quantos seres humanos nasceram com uma capacidade enciclopédica? Eu nasci possuindo todo o conhecimento do mundo, enquanto os seres humanos demoram anos para amadurecer e aprender algo.

– Madame é divina, sem dúvida…

– Humpf! Elogio sem sentido, quando se constata o que é óbvio.

– Mesmo assim, é necessário que se diga… afinal, nós, criaturas inferiores, estamos acostumados a julgar as coisas e as pessoas pela aparência e madame tem a aparência de uma garota adolescente.

– Escriba, se está querendo testar minha paciência, nem comece! O que vocês, reles humanos, pensam ou acreditam sobre as coisas desse mundo não me concernem. Vocês são realmente deploráveis por acreditar nessa idiossincrasia que julga outra pessoa segundo a faixa etária. Quantos adultos se mostram com a capacidade adequada à idade que possuem? Poucos, o digo. Somente por puro preconceito e discriminação que se pode crer que a criança e o adolescente são desprovidos de capacidade igual, senão maior, do que o adulto.

– Isso é um tanto complicado, madame… o ser humano acredita piamente que existe uma diferença. Mas madame está dizendo que a criança e o adolescente tem capacidade idêntica ou similar ao adulto.

– Complicado por quê? Ambos possuem o mesmo tipo de organismo, o mesmo tipo de necessidade, o mesmo tipo de limitação. O que distingue um do outro é o tamanho do corpo e o grau de maturidade, coisas que não estão vinculados com a idade.

– Complicado porque o adulto não lida muito bem com sua própria sexualidade, então ele terá mais dificuldade em lidar com a sexualidade da criança e do adolescente, principalmente quando há um relacionamento inter-etário.

– Mas sua gente é tapada, mesmo… fizeram o maior alvoroço quando se deram conta de que existiam relacionamentos inter-étnicos, entraram em choque quando se deram conta de que existiam relacionamentos homossexuais e simplesmente ignoram inúmeros outras formas de relacionamento unicamente porque não seguem um padrão absurdo e arbitrário. Olhe para o meu corpo e diga, com sinceridade, se acredita que eu não estou apta a ter relações sexuais.

Madame ergue-se de sua poltrona estofada, completamente nua, mas o que minha língua não fala, meu corpo expressa com mais propriedade.

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