O mal estar político

Eu acabei de ler o artigo do Rodrigo da Silva intitulado “Pare de chamar os outros de fascistas. Você nem sabe o que essa palavra quer dizer”. Um título grandioso [no sentido que é muito extenso], mas que coloca o articulista na posição de especialista, alguém que sabe mais do que os leitores e, colocando-se confortavelmente no pedestal, se propõe a dar uma aula para o público ignorante.

A pergunta a partir da qual este expõe seu artigo é mais interessante do que o texto inteiro: “alguém saberia realmente explicar o que exatamente é o fascismo? Ou será que todo mundo repete essa palavra sem ter a mais remota noção do que ela significa?”

Evidente, o autor o sabe… ou será que está tão confuso quanto os leitores? afinal, o próprio autor diz [cita]: “não existe nenhuma definição universalmente aceita do fenômeno fascista, nenhum consenso, por menor que seja, quando à sua abrangência, às suas origens ideológicas ou às modalidades de ação que o caracterizam”. Isso não impede do mesmo autor afirmar, em seguida: “Ainda que vago, no entanto, mesmo sem um aparato ideológico abrangente ou pensadores influentes, há alguns elementos escancarados a respeito da natureza do fascismo.” E lista quatro características para detectar o que é o “verdadeiro fascismo” [falácia do escocês]: antiliberal, trabalhista, populista, autoritário.

Isto posto, o autor tenta induzir o leitor a achar que o fascismo não tem coisa alguma com o liberalismo, o capitalismo, o “mercado livre” e todas as coisas com as quais o autor certamente deve ficar de calças molhadas ao imaginar o mundo perfeito, o Mundo do Liberalismo. Só que não.

O Fascismo, assim como o Liberalismo, são conceitos políticos que surgiram em um determinado contexto histórico e devem ser compreendidos e analisados como tais. O autor embarca na mitologia do Liberalismo, esquecendo as circunstâncias históricas de seu aparecimento e ignora [ou omite] que a atual crise econômica é um resultado direto do neoliberalismo [Era Reagan/Thatcher], que o Liberalismo é uma forma de Capitalismo, o maior patrocinador e mantenedor dos regimes ditatoriais de direita. Então muita calma nessa hora.

Esperar que o autor tenha autocrítica suficiente para sair dessa visão edulcorada de mundo utópico liberal é esperar demais.

Os EUA [que é o país idealmente liberal] só é liberal para aquilo que serve aos seus interesses. Os EUA tem uma Industria Bélica bem sucedida graças ao Liberalismo de conveniência e são os EUA quem mais promovem guerras em seu papel de patrulha mundial, quando não arma, treina e municia grupos mercenários [Daesh, Taliban, Al Quaeda, etc]. Os EUA, a “Terra da Liberdade” invadiu diversos países soberanos com as desculpas mais esfarrapadas possíveis. Conclusão: o Liberalismo não significa democracia.
Seguindo a logica do articulista, presume-se que o Liberalismo seja anti-trabalhista, o que é bastante lógico, na visão dos teóricos liberais, a maioria proprietários de indústrias, donos de bancos, etc. Novamente, não é coincidência que nos EUA não existem leis trabalhistas. Causa um certo embaraço saber que a escravidão teve fim somente porque existiam razões econômicas para tal. O Liberalismo defende unicamente a lógica do mercado, do comércio, o que significa considerar tudo como mercadoria, o que permitiria, portanto, comprar, vender e comercializar pessoas como se fossem coisas. Conclusão: o Liberalismo não significa liberdade.

Seguindo a lógica do articulista, presume-se que o Liberalismo seja anti-popular, o que é paradoxal, afinal o Capitalismo [portanto o Liberalismo] somente existe dentro da lógica do consumo de massa e a propaganda é utilizada exatamente para garantir que um produto seja “popular”. Tanto a popularidade de um produto quanto o populismo de um governante segue a mesma lógica: agrada-se o público com coisas fúteis, supérfluas, para que o sistema seja mantido. Com tantos pensadores, teóricos, economistas e colunistas que escrevem ao público vendendo a mitologia do Liberalismo, em verdade está se querendo e pretendendo que o Liberalismo seja popular, o que faz o Liberalismo [e o liberal] ser populista. Conclusão: o Liberalismo é uma hipocrisia.

Pelas análises diante da primeira e segunda características fica patente que o Liberalismo pode ser autoritário também e efetivamente acaba sendo, basta lembrarmos que a Grécia foi empurrada para o buraco com a imposição de uma política econômica ditado pelo Eurogrupo nos moldes do neoliberalismo. Outros países rumam na mesma direção, mas os pobres apologéticos do neoliberalismo apenas falam da crise na Grécia como sendo “resultado” da política econômica errada de justiça social, mas países eminentemente neoliberais, capitalistas, também estão em crise financeira, portanto, a causa é a política econômica neoliberal [que, por sinal, tem suscitado o reaparecimento do neofascismo na Europa]. Conclusão: o Liberalismo tende a fomentar o Fascismo.

Destrinchada a pretensão do articulista, permanece a pergunta do que é Fascismo e o que significa isso. Para ser sucinto, o Fascismo é um fenômeno que deve ser estudado em suas circunstancias históricas. o Fascismo surgiu como um movimento de resistência à modernização que estava acontecendo no mundo, o que nos dá duas características: o Fascismo é reacionário e conservador. Em suas formas mas conhecidas, que surgiram na Alemanha e na Itália, o Fascismo [sendo reacionário e conservador], rejeitando o progresso, idealizou de forma romântica o passado, ainda que para isso propunha ações que simplesmente perderam todo o sentido. A Alemanha tentou recriar seus “dias de glória” com o III Reich, a Itália tentou recriar seus “dias de glória” ressuscitando o Império Romano, mais especificamente o César, o Dictator [daí a origem da palavra moderna “ditadura”]. Tanto a Alemanha quanto a Itália aniquilaram a ideia moderna de Estado para instituir a figura do líder, o Fuhrer, o Duce. O Liberalismo quer diminuir senão aniquilar o Estado, então este está perigosamente próximo do Fascismo. A política é mais complexa do que aparenta.

Atualmente, falar ou defender ideias do Fascismo não é bem visto e [infelizmente] a palavra é utilizada exatamente para evitar ou diminuir o debate [algo muito comum entre extremistas, de direita e de esquerda]. O Fascismo caiu no ocaso da filosofia politica unicamente porque, digamos, perdeu no embate da Segunda Guerra Mundial, mas ao vermos as ações e políticas executadas pelos EUA, ao vermos a ascensão da extrema-direita na Europa, o mundo ocidental não venceu, mas assimilou o Fascismo. Considerando que a geopolítica econômica mundial é neoliberal, chegamos à conclusão inevitável que o Liberalismo tem seu lado fascista.

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