O amanhã nunca virá

O pobre escritor carrega consigo uma benção e uma maldição. Inúmeros outros existem como ele e aparentemente o padrão de uma estória é desta acabar com um final feliz. Aquele com quem ele compartilha sua sina, o leitor, não está em situação melhor, diante de tantos títulos a disposição. Um livro com muitas páginas ou com grande tiragem não é necessariamente o melhor, o conteúdo da televisão está aí para mostrar que a popularidade é sinônimo de falta de substância.

Eu perdi a conta de quantas vezes eu ouvi dizer: leiam os clássicos. Os livros e autores que agora carregam os louros do reconhecimento não eram considerados clássicos em sua época.

Desde que inventaram a industrialização do livro que o ofício de escritor tem perdido seu sentido, como aconteceu com os filósofos e a filosofia.

Sócrates nunca se formou em filosofia e o pouco que sabemos dele e de seu pensamento senão por Platão. Com o aparecimento dos meios de comunicação de massa, multiplicaram-se o numero, tanto de escritores quanto de filósofos.

Em um mundo onde o ego é tão importante quanto a popularidade, inevitavelmente uma mera opinião expressa será confundida com a crítica. Tudo está perdido quando se diz que o jovem crítico é intolerante, como se o adulto crítico ou o velho crítico fossem tolerantes. A intolerância não está nem na idade nem na crítica, mas em reiterar estereótipos e preconceitos.

Horror do horror, quando o conservador desacredita da crítica quando esta comete o crime de vir da juventude. Fingindo ter algum conhecimento de psicanálise, dirá o fanfarrão do alto de seu pedestal, pedante e judicioso, que o jovem critica sem estudo, por mero fetiche, contesta a algo por uma mera opção de gosto, por sonhar ousadamente em usar do mesmo véu sagrado que este se acha imaculadamente travestido. Toda essa presunção se desfaz quando o pobre escritor, que escreve filosofando e filosofa escrevendo, anota que a palavra Senado tem a mesma raiz de senil.

Nada incomoda mais aos adultos e velhos do que essa noção de que sua época, seu tempo, bem como todas suas certezas e convicções virão a ser postos abaixo com as novas gerações. A mudança é um processo, não tem uma forma ou programa central, não está nas mãos de uma instituição nem é privilégio de qualquer grupo. Eu sou um filho da Revolução Sexual e sei que ninguém prometeu que seria fácil, que nós teríamos um mundo melhor. Isso somente será realidade quando nós nos tornarmos efetivamente humanos.

Horror do horror, quando o liberal desacredita da liberdade quando esta comete o crime de não satisfazer suas ansiedades. Por algum complexo, frustração ou trauma, confunde o efeito, a consequência, como sendo a causa. A dita e decantada liberdade sexual no mundo ocidental existe apenas na aparência. Não há liberdade sexual quando há uma imposição estética, quando a mulher somente é considerada livre quando expõe seu corpo como coisa ao macho dominante. Não há liberdade sexual quando há o reconhecimento de apenas uma forma de relação sexual, uma única forma de união e apenas um único padrão de gênero.

Nós ainda vivemos em uma sociedade opressiva e repressora, a pornografia é a institucionalização da supremacia masculina, a pornografia reforça e endossa a doutrina cristã que torna tudo que é referente ao corpo, ao desejo, ao prazer, algo pecaminoso, vergonhoso, sujo, condenado, proibido, perigoso e vulgar. A pornografia, tal como esta é produzida, nos moldes do mercado, dos meios de comunicação de massa, é a principal causa contemporânea da frigidez, da histeria e das parafilias.

Torna-se suspeito aquele que se apresenta como filósofo mas que, enquanto por um lado defende a quebra de tabus que são problemáticos na cultura ocidental cristã, por outro lado afirma que o excesso de sexualidade causa frigidez, assexualidade e pornografia. O aparente excesso de sexualidade é parte do problema, não a causa. Para acertar o diagnóstico temos que olhar os sintomas. A excessiva exposição erótica e sensual do corpo [especialmente o feminino] faz parte do recalque sistemático promovido pela sociedade.

Retomando: tanto a pornografia como a prostituição são fenômenos sociais, ferramentas, exploradas comercialmente dentro da concepção judaico-cristã, onde o corpo, o amor, o prazer, o desejo, o sexo, são destituídos de seus valores intrínsecos, de seus valores místicos, como parte de nossa natureza, que fazem parte da vida e da saúde de todo ser vivo. Os meios de comunicação de massas expõem, de forma deliberada, a sexualidade e a sensualidade, especialmente a feminina, mas na forma de um produto, de uma coisa, fazendo também da nudez feminina e da mulher um objeto, uma coisa, algo que pode ser comprado, que se torna propriedade, que deve estar dominado ou sujeito ao seu proprietário. Quando a sensualidade e a sexualidade da mulher voltara pertencer a ela, nos moldes dela, retomando seus valores intrínsecos e místicos, acabam a violência física e sexual, acabam a necessidade de existir a pornografia e a prostituição, acabam as causas da frigidez e da histeria.

A estória ainda está sendo escrita e ninguém deve esperar por um inevitável final feliz. Não existem soluções prontas e a humanidade não precisa de salvadores ou redentores. A humanidade precisa ser a protagonista de sua estória. Uma estória que não precisa ter um fim, mas sempre um recomeço, que nós contamos aqui e agora. Não esperemos por um futuro ou um amanhã dourado, o amanhã nunca virá. Tornemos real essa utopia, esse Paraíso, hoje mesmo.

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