O gosto amargo do remédio

O Egito tornou-se grande por sua civilização, mas tornou-se notável com a dinastia de Ptolomeu, o general de Alexandre, o Grande, que se tornou o primeiro faraó estrangeiro na terra das pirâmides. Sem seus sucessores e descendentes, Roma não teria conhecido Cleópatra e Judá não teria se helenizado, toda a história do Ocidente seria profundamente diferente.

No entanto, mesmo Cleópatra é uma sombra diante da rainha Arsinoe. Cleópatra ofereceu o seio para a mordida da serpente, diante do dilema amoroso e politico de ser amante de dois Césares. Arsinoe riria de tal patética atitude, pois ela bebia arsênico em pequenas doses para nunca ser vítima de envenenamento, prática comum entre a corte europeia para lidar com regentes indesejados. Arsinoe foi tão grande que sua efígie é vista nas moedas e um culto surgiu onde antes Ishtar dominava, algo que somente foi suplantado mais tarde pelo culto à Isis, algo popularizado pelos Gregos e Romanos, naquilo que foi a primeira religião de massas do ocidente, a primeira religião de origem estrangeira que dominou a então civilização ocidental.

Somente com estudo e pesquisa, descobriu-se o uso farmacêutico dos venenos, um princípio básico que é utilizado na produção de vacinas e centenas de antibióticos. Ao administrar uma dose pequena de veneno, o metabolismo desenvolve uma forma de se proteger de seus efeitos. O remédio é amargo, mas ainda é melhor do que morrer.

O mesmo pode ser dito quanto ao Bem e ao Mal. O herói somente consegue sobrepujar o vilão depois que ele mesmo passou por um tratamento terapêutico que o fez compreender a natureza da maldade, o herói somente pode combater o mal depois dele mesmo ter conhecido, ainda que em doses pequenas, o mal. O antagonista é fundamental para a jornada do herói. Somente com o desafio, a superação, o obstáculo criado pelo antagonista é que o herói consegue fazer grandes feitos.

Mas não queira confiar uma missão a um herói, porque ele é limitado, a despeito de todo treinamento e obstinação, pouco ele poderá fazer se ficar diante de um dilema. O herói é capaz de morrer pelo que acredita, mas é incapaz de matar para atingir seus objetivos. Se realmente quer que algo seja feito, sem questionamentos, sem limitações, sem dilemas morais, o regente deve recorrer ao mercenário. Com o devido estímulo, o mercenário é capaz de uma invejável devoção ao regente.

Esta é a minha parte, a parte racional, racionalmente analisando as coisas como elas são. Mas diante da cena, ver seu palácio quebrado ao meio, ver o salão de audiências ser separado como se fosse uma folha de papel, a parte racional de qualquer um se encolheria de medo. Este não é um texto de romance adolescente e não é um texto de psicanálise, então o pobre escritor não tentará descrever a confusão emocional que se digladia na mente de Elsa.

– Eu… eu ainda não entendo como tudo isso aconteceu, mas… Tyrion, pegue seu corsário, seus soldados e volte para Westeros com a minha mensagem. Fiquem longe de Arendelle. O reino de Westeros está banido de nossas terras para sempre.

– Muito bem, rainha. Hoje nós nos retiramos, vencidos, mas não derrotados. Mas em breve voltaremos, assim que tivermos mais associados, mais força e mais poder.

Tyrion utiliza o aparelho que foi dado pela NERV, o que lhe permitiu sumir da cena, com seu cúmplice e capangas. Elsa ainda está assustada e ofegante, mas percebe que o gigante não está mais visível.

– Du… durak? Você está aí? Você está bem?

– Sim, minha rainha, eu estou aqui e eu estou bem. Mas eu receio me aproximar de vossa majestade nesse… estado.

– Elsa! Onde você está? Você está bem?

– Eu estou bem aqui, Ana e eu estou bem.

– Ninguém perguntou, mas eu também estou bem…

– Cale-se Kris! [Elsa e Ana]

– Eu ouvi o estrondo e vi algo enorme ao lado do palácio e pensei no pior… onde estão os consulentes?

– A maioria correu assim que Tyrion declarou sua intenção de tirar minha coroa… mesmo que isso custasse a minha cabeça… de novo!

– Eu não quero reclamar, afinal você está sã e salva, mas… o que aconteceu aqui? Isso não aconteceria nem se você invocasse Marshmallow, o boneco de neve gigante.

– Bom… hã… isso foi… isso aconteceu graças à intervenção de Durak…

– Como? Isso é impossível!

– Isso é totalmente possível. Eu testemunhei.

– Cale-se Kris! [Elsa e Ana]

– Bom… hã… eu acho que Durak pode nos explicar melhor. Apareça, apresente-se e adiante-se, pois nós somos servas do mesmo Senhor…

De um canto escuro, cheio de detritos e poeira, Durak se apresenta diante de todos, deixando que o brilho do fim da tarde iluminasse sua forma ainda não totalmente revertida para a humana.

– Pelos Deuses! O que é isso?

– Ele… é um dos descendentes do Senhor da Floresta, que os nossos ancestrais cantaram lendas a quem nós acendemos fogueiras em maio em honra e louvor…

– Puxa vida… se eu não visse com meus olhos… eu riria se você me dissesse algo assim.

– Humpf! Você sempre ria quando eu falava de nossas lendas e tradições…

– Cale-se Kris! [Elsa e Ana]

– Eu peço desculpas a vocês, minhas amigas, por terem que me ver em tal estado. Eu sei que o mundo passou por muitas coisas ruins e terríveis, gente que se dizia representante de Deus cometeu diversos crimes e, por isso, a humanidade fechou-se mais em si mesma, separando-a ainda mais da fonte do que é verdadeiramente divino e sagrado. Mas mesmo nesse mundo materialista, consumista, egoísta, os Deuses estão presentes, bem debaixo de nossos narizes, basta que abramos os olhos e queiramos ver.

– Eu acho que sou eu quem te deve desculpas, Durak. Eu desconfiei de você e confesso que eu sinto ciúmes de você. Vai demorar para eu conseguir assimilar que nós não estamos competindo e Elsa não é um troféu. Por mais que eu a ame, ela não me pertence. Ela pertence apenas a ela mesma. O amor é uma porta aberta que ela convida quem ela quer que entre, por mais que isso me doa. Eu espero que possamos ser bons amigos.

– Ai, Ana, você sempre consegue me deixar embaraçada com essas declarações… bobinha, eu te amo! Aliás, assim que nosso palácio for reconstruído, eu irei outorgar um édito reconhecendo todas as formas de amor e relacionamento. Assim você poderá, oficialmente, pedir minha mão em casamento… isso se você não se importar de incluir o Kris e Durak em nossa… amigável união.

– Opa! eu acho um pouco esquisito no momento, mas eu topo!

– Cale-se Kris! [Elsa e Ana]

– Bom… sabe… eu acho que consigo estar em uma relação poliamorosa. Eu não vejo muitos atrativos em homens, mas quando eu olho para o Durak… nossa… eu tenho que rever minhas certezas. O que me diz, parceiro? Gostaria de ser parte de um quadrilátero amoroso?

– Minhas amigas, sabem que dia é hoje? Hoje é véspera do equinócio de primavera. Vamos então celebrar a primavera como os nossos ancestrais celebravam. Vamos comer, beber, fazer música e amor, debaixo do luar, em honra e louvor aos Deuses Antigos. Que Gaia consagre nossa feliz união!

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