Arquivo mensal: setembro 2016

A caixa de Pandora

O retorno da Equipe Katsuragi para a central da NERV deixou a diretoria nervosa com os resultados obtidos com a Operação Genesis. Kozo teria muito a explicar e mesmo assim ele devia negar a presença de crianças na equipe e teria que esconder o achado feito na Antártida.

– Gendo, aproveite que vocês vão ser levados para as unidades de descontaminação e fiquem fechados no Laboratório de Evolução Artificial. Não deixe que ninguém da NERV ou das Nações Unidas veja as crianças ou o nosso espécime.

– Deixe comigo! Nós aguardaremos seu retorno para iniciarmos os testes com o espécime.

Não era algo simples e fácil, mas Gendo fez bom uso da política interna da NERV para colocar as crianças e o espécime nos cilindros de amostras, selando tudo com a etiqueta de “ultrassecreto”. Ninguém parou, nem questionou ou sequer quis conferir o conteúdo dos cilindros. Apenas quando as portas do laboratório fecharam, as etiquetas foram rompidas e os cilindros abertos, apresentando uma cena tocante. Durak e Rei riam, encantados um com o outro. Misato brincava com Shinji e Ritsuko observava o espécime. Apesar da tensão de do perigo, as crianças estavam tranquilas, como se tivesse alguém olhando por elas.

Em uma direção completamente oposta, Kozo entra no salão de conferência na central da NERV, senta em uma poltrona colocada diante de uma imensa escrivaninha, mas sem nenhuma outra presença, senão a dos imensos monitores de conferência que Gendo apelidara gentilmente de monólitos.

– Senhores do Conselho da SEELE, aqui eu estou, como vocês mandaram.

– Doutor Kozo Fuyutsuki! O que o senhor tem a dizer do fracasso da Operação Genesis e da incompetência da Equipe Katsuragi?

– Fracasso? Oh, não, eu não diria isso… a nossa pesquisa conseguiu coletar dados preciosos apesar da… interrupção. Aliás, eu peço uma investigação para determinar quem atacou a minha equipe e por ordem de quem.

– Isso está sendo feito, nós ordenamos uma sindicância. Qual a conclusão que vocês chegaram?

– Infelizmente a interrupção exigiu que nós abandonássemos o sítio e isso nos causou um inconveniente empecilho. O que eu posso oferecer aos senhores é uma teoria escrita pelo finado doutor Hideaki. Eu peço que os senhores leiam e analisem esse trabalho, porque ele será crucial para a conclusão de nossa pesquisa. Agora, se os senhores me permitem, minha equipe me aguarda para que possamos dar continuidade a nossos estudos.

Kozo levanta da poltrona, dá meia volta e caminha para fora do salão de conferência. Os monólitos ficam perturbadoramente silenciosos, mas Kozo conhece os membros do conselho o suficiente para saber que estavam travando uma acalorada discussão através de seus canais privativos. Seja quem for o autor do atentado, ele deu a Kozo uma oportunidade que lhe renderia tempo e sossego. Até os conselheiros da SEELE chegar a algum acordo e arrumarem um bode expiatório para o ataque, Kozo teria paz e tranquilidade.

Kozo entra em um conduíte, um pequeno carro atrelado a um trilho, para deslocar-se com rapidez até o seu laboratório onde certamente sua equipe o aguardava ansiosamente. Evidente, o laboratório estava selado, mas Kozo possui a chave. A porta desliza fazendo um ruído discreto pela pressão do ar e ele é recebido de forma inusitada.

– Kozo! Até que enfim! Ué, não tiraram nenhum pedaço de você?

– Ahem… eu também estou feliz em te rever, Gendo. Como estão as crianças?

– As crianças estão bem. Você está pronto para iniciarmos os testes?

– Eu estou sempre pronto. A propósito, eu tive que deixar a teoria Hideaki-Gendo com a SEELE para que eles tenham algo para mastigar que não sejam os meus ossos…

– Isso é perfeito! Nós poderemos fazer uso disso como um trunfo. Kyoko teve a gentileza de trazer moldes do corpo humano e Naoko trouxe alguns embriões. Yui está pronta para iniciar o procedimento de clonagem do espécime e implantação do DNA alienígena.

– Comecem os procedimentos.

Ainda atordoada pela descida através das faixas da órbita de Gaia, Layla tenta manter a consciência para não cair como aconteceu com Adama. Layla não esperava que fosse tão difícil aguentar a pressão que existe em Gaia nem que fosse tão desagradável respirar.

A descida de uma existência feita de pura energia para uma manifestação material deve ser feita aos poucos, a passagem de contenção da quinta para a terceira dimensão é uma técnica bastante difícil de ser dominada. O conjunto de fatores pode ter desencadeado a queda de Adama e seus instintos indicavam que ele estaria perto.

O sinal ficava mais forte conforme Layla se tornava mais material, mais carnal. Isso tinha suas desvantagens, pois em breve Layla estaria visível para os descendentes dos Annunaki e isto arruinaria o resgate. A vantagem é que Layla poderia escolher qualquer tipo de forma ou aparência, não seria difícil Layla ocultar sua verdadeira essência e natureza das criaturas simples deste mundo.

Layla notou as pequenas caixa amontoadas em uma região e ela sabia que aquilo é o que chamavam de cidade e certamente haveriam milhares de humanos habitando estas cidades. Conforme Layla ficava mais próxima, a cidade ficava maior e Layla ficava menor. Havia um grande risco, mas Layla escolhia ficar bem pequena e tomar a forma de algum animal comum conhecido pelos humanos.

Por preferência e gosto pessoal, Layla tomou a forma de uma coruja, mas a despeito de ser comum ainda tinha um tamanho grande demais para passar despercebida e as pessoas começaram a gritar e fugir enquanto ela se aproximava. Layla teve que ser ligeira, pois não demorou a aparecer humanos com roupas esquisitas e ferramentas estranhas, tentando cerca-la e derruba-la.

Rapidamente Layla descobriu que as ferramentas que os humanos traziam lançavam projéteis que faziam estrondo quando se chocavam com algum objeto ou quando explodiam. Aqueles projeteis dificilmente causariam algum dano a ela, mas poderiam prejudicar seu disfarce, então Layla vasculhou algum esconderijo e encontrou um tipo de cilindro que entrava em uma das caixas construídas pelos humanos.

Como se estivesse sendo guiada por alguém, Layla seguiu pelo cilindro até sair do outro lado, dentro da caixa construída pelos humanos, onde ela sentiu uma forte presença de Adama. Ela sentia que Adama estava do outro lado de uma divisória onde ela também pressentia a presença de humanos.

Gendo e Kozo rapidamente perderam o entusiasmo. O procedimento estava em uma fase crítica quando apareceu aquela estranha entidade que tinha uma forma de coruja. Naoko gritou e Kyoko se jogou na frente das crianças. Yui estava perto demais, daquilo e do espécime. Seja lá o que fosse aquilo, tinha vindo para resgatar o que restou do gigante e iria levar Yui junto.

– Kozo! Rápido! Acione o protótipo que eu construí!

Kozo não discutiu, acionou aquilo que Gendo tinha chamado de protótipo, um tipo de lança, que ele tinha improvisado no período que levaram para viajarem de NAMRU até a central da NERV. Kozo sequer sabia com que tipo de material Gendo tinha criado esse armamento, mas atingiu a entidade e a prendeu na lateral do gerador de nêutrons do laboratório. Eles estavam a salvo. As crianças estavam bem. Kyoko e Naoko pareciam bem, mas estavam aterrorizadas. O espécime estava intacto, mas não havia mais sinal de Yui.

Gendo caiu de joelhos, aturdido, mas Kozo notou algo inusitado. De dois moldes, os embriões que receberam a replicagem do DNA alienígena geraram dois clones quase idênticos ao gigante, salvo pelo tamanho, contido pelos moldes.

– Gendo! Eu detesto ter que admitir, mas aparentemente você estava certo! Veja! Nós conseguimos criar os nossos próprios anjos!

Gendo recompôs-se como pôde, levantou e olhou o resultado do experimento. Ele viu que os clones estavam apertados nos moldes, o que indicava que cresceriam mais. De imediato, Gendo percebeu que precisaria de espaço, muito espaço e de diversas equipes para desenvolver de forma eficiente os seus EVAs.

– Kozo… como está sua influência com a NERV e a SEELE?

– Você diz em geral ou no momento?

– Eu entendi sua indireta, mas eu terei que confiar em você. Nós teremos que ampliar o nosso laboratório. Digo mais, nós iremos precisar construir uma fortaleza subterrânea para resguardar o nosso núcleo de futuros ataques. Eu não sei quando isso irá acontecer, mas você também pode solicitar para que a NERV construa as escolas para os nossos futuros pilotos.

– Por Tesla, Gendo… você tem ideia do que está pedindo?

– Eu sei que é muito, mas se você disser que é o futuro da espécie humana que está em jogo, pode ser que fiquem mais… receptivos.

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Projeto de Instrumentalidade Humana

Kozo, a despeito de discordar das ideias e planos de seu assistente, Gendo, prosseguir com a implantação de pequenos pedaços da criatura capturada na Antártida em Yui e nos bebês que estavam nascendo. O suspiro aliviado de Kyoko e Naoko dão a entender que o procedimento clínico tinha sido bem sucedido. O choro de dois bebês confirmam o sucesso, só então Kozo suspira aliviado.

– Kozo! Venha conhecer seus enteados!

– Hei… que negócio é esse de enteado?

– Você não vai se negar a ser padrinho deles, vai?

Kozo sente um frio em suas costas e percebe que suas colegas tem adagas no olhar. Dando de ombros, Kozo aproximou-se de Yui para ver seus “enteados”. Uma menina e um menino. Aparentemente saudáveis.

– Parabéns, Gendo e Yui. Vocês tem um lindo casal. Que nome darão a eles?

– Rei… e Shinji. Ah, sim, eu e Yui agora somos a família Ikari.

– Eu fico feliz por vocês… agora… e quanto aos nossos clandestinos?

– Sim, nós temos que conversar sobre essas crianças. Cujo futuro está interligado com o destino de meus filhos. Doutora Naoko, pode cuidar para que sua filha se torne uma cientista da NERV?

– Isso não será necessário, Gendo. Ritsuko tem um talento natural que a tornará a maior e melhor neurocientista na área de Inteligência artificial. Ela está praticamente com sua vaga garantida nas melhores universidades.

– Isso é bom, mas… o que fazemos com a pequena Misato? O finado Hideaki era viúvo e eu acho pouco provável encontrarmos algum parente ou familiar próximo.

– Permita-me fazer uma entrevista com a menina. Eu terei uma solução que vai nos ajudar. Mas isso vai depender do souvenir que Kyoko trouxe do ponto zero. O que pode nos dizer de nosso pequeno convidado, Kyoko?

– Eu acredito que a criatura seja o núcleo do gigante, ou a sua alma, se assim preferir. O que eu não consigo explicar é como pode ser possível nós termos encontrado filamentos de DNA semelhantes ao ser humano em uma criatura que desafia os parâmetros científicos da existência biológica.

– O que você está querendo dizer, debaixo desse discurso empolado, é que esse espécime sequer pode ser considerado um ser vivo, quanto mais um ser consciente, quiçá uma existência compatível com nosso mundo… permita-me dar um termo mais adequado: anjo.

– Gendo, você não está querendo sugerir…

– Não é mera sugestão, Kozo. Eu sei que isso é considerado “heresia” na comunidade científica, mas este espécime é a prova que faltava para concluir a tese que eu e Hideaki estávamos trabalhando. Houve uma época que a Igreja censurava e condenava quem tivesse a ousadia de desafiar seus dogmas, mas na chamada Era da Razão, eis que a Ciência está censurando e condenando quem ousa desafiar seus dogmas! Por três séculos houve um veto explicito em conciliar Ciência e Religião, por milênios houve um veto explícito em conciliar Mitologia e Religião e cá estamos nós descobrindo o quanto os povos antigos estavam certos! Nosso mundo, nossas origens, não são um mero produto do acaso, para tudo que existe há um propósito!

– Por mais que eu veja o espécime, suas conclusões são precipitadas e cheias de lacunas. Nós temos que voltar para Tóquio, para o laboratório em Hakone, para fazermos mais testes e colher mais evidências. Eu te peço que aguarde mais tempo e me permita ler a tese que você estava desenvolvendo com Hideaki, antes de sair por aí dizendo que Deus existe…

– Eu concordo em aguardar, se você me ajudar no Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Eu desconfio que isso faça parte de sua tese e que eu vou ficar irritado, mas o que vem a ser esse seu… projeto?

– Como você mesmo pode ver, nós somos totalmente compatíveis com o espécime coletado. A menos que você acredite em milagres, não tinha como ter qualquer ser vivo no ponto zero, principalmente após a explosão nuclear. Você também viu o gigante e viu as consequências de sua queda. O espécime foi encontrado após a explosão no local exato onde estava o gigante… a conclusão mais evidente é que a explosão causou dano ao gigante e nós coletamos os restos dele. Portanto, nem pelos cálculos mais avançados, seria possível determinar a probabilidade de que um ser, de procedência desconhecida, tenha o mesmo DNA que nós temos! Eu não acho que nós teremos tempo para discutir qual a procedência desse ser, nós temos que nos precaver para um eventual aparecimento de seres iguais ao que vimos. Quando nós retornarmos ao nosso laboratório central, nós devemos iniciar a clonagem do gigante, ao mesmo tempo em que implantamos ou geramos mais crianças portadoras desse gene misterioso. Nós daremos continuidade com a evolução artificial humana e concluiremos o propósito pelo qual a nossa espécie foi criada pelos Deuses. Isto constitui o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Isso continua soando como loucura. Pior, você está cogitando colocar seus próprios filhos neste projeto!

– Sim, porque seria muito mais cruel usar os filhos de outras pessoas. Estas crianças serão cruciais ao projeto por um simples motivo. Os clones do gigante não terão um núcleo, uma alma, uma vez que nós temos apenas um. Para que nós possamos usar nossos gigantes, os EVAs, contra o ataque dos anjos, eles precisarão de um núcleo e é aí que entram as nossas crianças… nós iremos gerar metahumanos… transhumanos… que servirão de núcleo aos nossos EVAs. Enquanto Deus ficar no céu, tudo na Terra ficará bem.

– Eu vou me arrepender de perguntar… mas… isso inclui as crianças dos refugiados do Campo Bacia do Prata?

– Sua pergunta demonstra que você, mesmo reticente e resistente, aceita as ideias do projeto. Eu diria mesmo que sua pergunta é uma excelente sugestão. As meninas podem selecionar os melhores candidatos. Eu vou querer levar Durak comigo. Eu prevejo que ele irá desenvolver um dote que poderá nos vir a calhar.

– Ai… eu sabia que iria me arrepender… Gendo! Pense! Nós iremos gerar crianças metahumanas, transhumanas! O que o mundo pensará disso? Imagine a reação das pessoas quando virem Durak e sua mutação genética!

– Eu pensei nisso… eu ainda não detalhei todas as fases, mas eu conto com as facilidades de trabalharmos para a NERV. Não deve ser difícil para a NERV levantar escolas especiais para acolher as nossas crianças, onde elas serão mantidas escondidas do resto do mundo. Quem sabe até Misato venha a trabalhar diretamente com nossos futuros pilotos de EVA?

Kozo balançava a cabeça negativamente, a perspectiva para o presente e o futuro não eram animadores. Mas Kozo não pode fazer muito, pois o garoto-bode tinha ganho a simpatia das doutoras. Mas ao ver a inexplicável conexão de Rei com Durak, Kozo abandonou seu pessimismo.

– Parece que a Rei gosta de você Durak.

– Sim, senhor Kozo e eu gosto dela.

– Cuide dela, Durak.

– Sim, senhor Kozo.

O cabelo de Selene

No lado oculto da lua uma criatura observa, alarmada, duas explosões na superfície de Gaia e se angustia com a falta de sinal vindo de Adama ou dos Annunaki. Enviada para ser a guia e responsável pelo jovem anjo, Layla tem que decidir se vai atrás de Adama ou se volta para Nibiru.

Dentre tantos candidatos entre os anjos, entre tantos semideuses em potencial, houve uma surpresa geral quando Anu, o Grande Rei, nomeou Adama como embaixador dos Deuses Antigos para confabular com os descendentes dos Annunaki.

Como sua preceptora e professora, Layla evidentemente sentiu-se orgulhosa que seu pequeno prodígio tenha conseguido ganhar a confiança do Grande Rei, mas os boatos que falavam dos costumes dos macacos pelados, chamados de humanos, habitantes de Gaia, era estarrecedores e Layla não hesitou em exigir diante do Elohim [Assembleia dos Deuses] que ela fosse enviada junto com Adama para a colônia em Selene.

Foi desolador ver como Adama ficou consternado quando se depararam com a degradação da colônia em Selene, destruição causada pela presença humana. Layla recorda de quando era jovem como Adama, uma mera aia servindo a grande Ishtar, quando os Annunaki construíram Edin, a Cidade dos Deuses, em uma região repleta de rios, uma região conhecida como Mesopotâmia.

Enlil havia discutido com severidade quando Enki apresentou o plano para manipular o DNA de primatas para gerar os que seriam chamados de humanos. Layla os achava engraçadinhos, esses primatas quase pelados e escuros que saltitavam com vivacidade em volta dos Deuses. Até que houve uma batalha entre os Deuses, Gaia e Nibiru quase colidiram, mas ficaram próximos demais e aconteceu um cataclismo que ficou registrado em Akasha como sendo o Segundo Impacto.

Layla balançava sua cabeça negativamente, fazendo balançar seu cabelo de fios de prata, ela não queria aceitar, mas as explosões não deixam dúvidas. Os humanos haviam feito algo com Adama. O Grande Rei a havia alertado para os perigos da missão e para que ela jamais permitisse que seu vínculo com Adama interferisse com suas obrigações, mas era tarde demais, ela estava apaixonada por Adama desde que Enki tinha decretado que ela geraria com Adama os humanos. Mesmo sabendo da proibição, Layla desceu em direção à Gaia, na esperança de poder resgatar seu amado.

O intercomunicador emite um sinal, mas Layla encontra-se próximo da estratosfera de Gaia, não ouve o chamado tão esperado de Nibiru. Estrategicamente acompanhando a órbita de Júpiter, um corpo celeste do tamanho de Marte mantém sua presença incógnita. Corpo celeste ou nave espacial, para os donos, projetistas e criadores, os Annunaki, não faz diferença alguma. Existem preocupações maiores do que com meras convenções humanas e o Elohim está reunido especialmente para deliberar sobre seus projetos e intenções com os habitantes de Gaia.

– Meu pai! Eu peço permissão para falar!

– Permissão concedida. Com a palavra, Marduk.

– Irmãos! Irmãs! Nossos pais e avós! Nobres Deuses! Nós não podemos mais aguardar. Findou-se o período no qual fixamos que Layla e Adama deveriam descer para nossa colônia em Selene e de lá fossem até Gaia, nosso destino final. Nós não recebemos qualquer sinal ou notícia de nossos valorosos jovens anjos. Eu vos digo, temos que agir!

– Meu irmão, permissão para interceder.

– Permissão concedida. Com a palavra, Enlil.

– Meus irmãos, minhas irmãs, meus filhos e filhas, meus pais e avós, nobres Deuses, todos nós conhecemos bem o ímpeto juvenil de Marduk, mas nós não podemos agir precipitadamente. Nós não queremos provocar outra guerra entre os Deuses nem causar o Terceiro Impacto. Foi o nosso Grande Rei em pessoa quem confiou a Layla e Adama a missão crucial de preparar os humanos para o nosso retorno, onde poderemos concluir nosso projeto. Nós devemos manter nossa confiança em nossos emissários.

– Eu protesto!

– Marduk!

– Perdão, meu pai, eu sei que os Deuses Antigos dizem que eu sou jovem e impetuoso, no entanto, quem os salvou da fúria de Tiamat? Eu! Não foi Enki, não foi Enlil. Embora tenha sido o ciúme e inveja entre meus amados tios que tenha desencadeado a guerra entre os Deuses, guerra que despertou e provocou a ira de Tiamat. Eu fui e derrotei Tiamat, como meu amado tio pode me desacreditar dessa forma diante desse Elohim?

– Basta, Marduk. A palavra ainda está com seu tio.

– Obrigado, meu irmão, mas eu devo agradecer ao protesto feito por Marduk. Nobres Deuses, eu não vou perturbá-los com detalhes que acarretou a guerra entre os Deuses, mas não vou negar que minha rivalidade com Enki funcionou como estopim. Tiamat, que nós lembremos dela com carinho, teve seus motivos para nos atacar. Sim, este Elohim escolheu Marduk para enfrentar Tiamat. Foi também este Elohim que deu a Marduk a couraça, o escudo, a lança e a espada para a refrega. Minha filha Ishtar teria sido muito mais bem sucedida em enfrentar Tiamat sem precisar desses apetrechos, mas nós escolhemos Marduk para refrear a fúria de Tiamat, não para mata-la. Quando Tiamat caiu, Nibiru e Gaia quase se tocaram e aconteceu o cataclismo. No meu ponto de vista, Marduk é o responsável pelo Segundo Impacto e o nosso exílio. O caminho da espada acaba em morte. Nós devemos seguir o caminho da diplomacia. Isso é o que eu tenho a dizer.

– Meu, pai, eu peço a palavra!

– Permissão concedida. Com a palavra, Marduk.

– Nobres Deuses deste emérito Elohim! Meu digníssimo tio os quer convencer do caminho da diplomacia, ao mesmo tempo em que não observou a diplomacia, mas a espada, para decidir essa antiga rivalidade que ele nutre por meu pai, Enki. Eu lhes pergunto, onde estava a diplomacia de Enlil que não impediu a morte de Tiamat? Meu pai e eu também sabíamos que eu apenas recebi a incumbência de combater Tiamat porque Enlil tramava livrar-se do único herdeiro de Enki e Enlil não moveu uma pena ou lágrima pela morte de Tiamat. No ponto de vista dos fatos, Enlil é o responsável pelo Segundo Impacto.

– Meu irmão, eu peço permissão para contestar.

– Marduk, como você acusou diretamente Enlil de conspiração, eu devo conceder permissão para que este conteste. Enlil, você tem cinco minutos. Depois você pode concluir, Marduk.

– Nobres Deuses! Inefável Elohim! Eis-me aqui diante de vós, sendo ultrajado. Oh, a herança maligna que transtornou um jovem como Marduk, tudo por causa de uma velha rixa que perdeu todo sentido! Como pode! Que sombra foi inserida nesse coração valente para pensar que eu, seu próprio tio, seja capaz de conspirar contra minha própria dinastia! Não, meus caros, eu não tive ganho algum nessa tragédia e não teria ganho algum atentar contra a casa de meu irmão. Eu chorei sim, milhares de lágrimas quando Tiamat, nossa aparentada, caiu e verti milhares de penas para descrever a dor de nosso exílio. Meus concidadãos! Assim como vós, eu não desejo que isto ocorra novamente, portanto, reitero que devemos aguardar pelo sucesso de nossos emissários. Isto é o que eu tenho a dizer.

– Contestação anotada, Enlil. Marduk, prossiga e conclua.

– Nobres Deuses! Sagrado Elohim! Vós todos confiaram em meus dotes para lidar com um assunto delicado, eu vos peço que confie novamente em mim! Eu digo que devemos agir por um motivo racional. Eu tenho relatos de nossa colônia em Marte mostrando que Adama caiu em Gaia e foi atacado posteriormente com algum artefato explosivo. Nobres Deuses do Elohim! Enquanto nós perdemos tempo com discussões vazias, eis que aconteceu em Gaia o Terceiro Impacto que tanto temíamos! Nós estamos com tanta reserva para não acontecer outro exílio, mas se não agirmos imediatamente, se não descermos em Gaia, nós não conseguiremos concluir o nosso projeto!

– Ordem! Ordem! Meus filhos e irmãos, ordem! Quem desejar confabular o faça em silêncio! Quem quiser proferir algum parecer, peça a palavra! Nós não podemos entrar em desespero!

– Meu querido e dileto avô, eu peço a palavra!

– Com a palavra, Ishtar.

A confusão, gritaria e balburdia cessa imediatamente. Deuses e Deusas entram em um estado de profunda admiração enquanto Ishtar se dirige ao plenário, balançando sua forma deslumbrante.

– Meus irmãos, minhas irmãs! Meus queridos pais e avôs! Nobres Deuses do Elohim! Eu sou uma criança diante de vós e pouco sei de intriga e política. Eu sou uma jovem Deusa e apesar de minha pouca idade foi-me confiada a guarda do ME. Muitos de vós aqui presentes ficam à minha volta, com elogios, presentes, oferendas. O Elohim ficaria vazio se morressem de amor como dizem que morrem de amores por mim. Sim, eu sei o que passam nos corações de cada um aqui presente quando me olham com olhos faiscantes e não negarei minhas bênçãos e atributos a quem quer que seja, pois eu sou a Deusa Benevolente, eu sou a Senhora do Firmamento, eu sou aquela que é amada por Deuses e homens. Meu poder é cantado através dos Aeons e que poder terrível que eu possuo, por ser a Deusa da Guerra e do Amor. Todo o esforço, raciocínio, arte e ofício nada são diante do Amor. Quanto tempo foi desperdiçado! Entoem loas ao meu nome, pois eu sei e sinto o que a minha amada Layla sabe e sente. Ajoelhem-se e beijem meus pés, pois não são sequer dignos da poeira que se assenta na sola de minhas sandálias. Deixe que meus olhos exorcizem seus medos e inseguranças, pois não há coisa alguma nesse universo que não caiba e meus braços! Sim, Deuses, antigos e novos, eu, Ishtar, descendente de Inanna e chamada de Vênus, Afrodite e Lúcifer, eu descerei até Gaia, um ato de compaixão e misericórdia que nada significam para aquela que atravessou os nove portões do Submundo e dali retornou por vontade própria! Eu travarei este embate e hei de ser vitoriosa. Alguém contesta e duvida? Isso é o que eu tenho a dizer.

Anu, o Grande Rei, recobra o sentido, a consciência e a razão alguns instantes depois de Ishtar concluir seu discurso. Os demais componentes do Elohim demoram mais tempo. Sem sentir vergonha de estar manifestando uma enorme ereção, Anu, o Grande Rei, decreta o fim das audiências do Elohim. O destino da humanidade está nas mãos do Amor.

A foice da lua

O cenário era terrível. Antártida estava estraçalhada. O Oceano Antártico tinha virado um mar de sangue. Kozo correu na direção de Hideaki, nada poderia ser feito pelo seu colega, mas tinha alguma coisa no cilindro de coleta. Kozo ficou surpreso ao encontrar uma criança no cilindro, mas ficou furioso ao ver que havia outra.

Como se isso não bastasse, Gendo gritava alucinado com Yui no colo, pois ela estava para dar à luz. Do ponto zero, Kyoko trazia um souvenir, parecia ser um bebê. A USS Marine Enterprise não demorou em mandar equipes de resgate, três barcaças de praia cheias de fuzileiros aproximaram-se da Equipe Katsuragi e levaram todos, fazendo-se de surdos aos protestos de Kozo diante do desleixo como os fuzileiros carregavam os equipamentos ultrassensíveis. A ordem era de evacuar imediatamente.

– Senhor! Todos os civis estão à bordo, senhor!

– Excelente! Coloque todos nas celas de descontaminação!

– Senhor! O grupo de civis está com um número maior do que o desembarcado, senhor! Nós contamos com mais três clandestinos, senhor!

– Isso… é inaceitável! Eu bem que avisei ao Pentágono que não era bom deixar civis fazer o trabalho de militares! Tenente Nelson, prepare meu traje especial! Eu irei falar agora mesmo com o responsável por esta desastrosa expedição!

– Sim, senhor!

– Doutor Kozo Fuyutsuki, o senhor tem muito a me explicar! O que aconteceu no ponto zero do “evento de singularidade” e como o senhor explica três clandestinos?

– Capitão Delaware, apesar de nós sermos meros funcionários da NERV e estarmos à serviço das Nações Unidas, nós temos que contar com eventuais ataques de grupos adversários sob as ordens de países que recusaram a ser parte das Nações Unidas. Tóquio e Hakone foram destruídas sem que nenhum grupo tenha assumido esse atentado. Pois hoje, no ponto zero, nós fomos alvejados por um míssil nuclear. Por isso, eu conto com sua discrição e profissionalismo para que coisa alguma dessa missão caia em mãos erradas. Pelos protocolos e privilégios que as Nações Unidas concederam para a NERV, tudo o que se refere à essa missão ficará debaixo de sigilo ultrassecreto. Assim, se o senhor me perdoe a falta de sutileza, eu não posso discutir mais detalhes sobre o acontecido. Eu peço ao senhor que nos leve imediatamente de volta para o Campo Bacia do Prata e o mais rapidamente possível de volta ao NAMRU. Minha equipe precisa de atendimento médico urgente e especializado.

O capitão não gostou de receber ordens de um civil e até tentou falar com seu almirante ou com o Pentágono, mas acabou levando um sabão. Mesmo contrariado, o capitão arrematou em velocidade máxima na direção do Campo Bacia do Prata de onde embarcaram no helicóptero osprey em direção ao NAMRU.

– Rápido, pessoal! Vamos desembarcar e vamos nos isolar no laboratório da NERV. Yui vai precisar de nossa ajuda para fazer nascer esse bebê. Depois nós lidamos com os nossos três novos integrantes.

– Doutor Fuyutsuki, eu lamento, mas eu precisava trazer minha filha! Afinal ela tem um talento inato que a tornará melhor do que eu!

– Naoko, agora não adianta falarmos nisso. Hideaki teve o mesmo impulso e discutir o mérito não vai trazê-lo de volta. Nós também temos que descobrir que criatura é essa que Kyoko trouxe do ponto zero.

O parto de Yui estava ficando difícil, o parto era prematuro e Yui tinha gêmeos em seu ventre. Apesar de trem chego há poucos dias e de estarem distantes do “evento de singularidade”, a energia resultante havia espalhado o suficiente para chegar em NAMRU, muito embora Gendo não descartasse que o laboratório todo estava prejudicado com a exposição secundária vinda dos refugiados acolhidos do Campo Bacia do Prata. Seja lá o que tinha afetado aquelas crianças, estava afetando seus colegas e os bebês de Yui.

– Gendo! Concentração! Eu estou perdendo um de seus bebês e não sei se posso garantir a vida do segundo!

– Kozo, eu sei que é loucura, mas aguente aqui. Eu acho que eu tenho alguém que pode nos ajudar aqui.

Kozo nem tentou parar seu segundo atendente, os gemidos de Yui indicavam um agravamento do quadro clínico, Kyoko e Naoko não conseguiam reverter as complicações. Foram dois minutos que pareceram uma eternidade, mas Gendo voltou trazendo consigo uma criança que era híbrida, meio humana e meio animal.

– Gendo, a situação aqui é crítica e delicada demais para ter mais uma criança presente!

– Kozo, meninas, este é Durak. Durak, esse são meus colegas e amigos.

– O… olá.

– Pela maçã de Newton, o que é isso?

– Eu não tenho como explicar racionalmente isso, pessoal, mas de alguma forma eu acredito que essa criança tem algo a ver com a criatura que trouxemos do ponto zero. Diga a eles, Durak, quando você viu o anjo.

– Eu estava no recreio, em minha escola, nós discutíamos sobre a volta dos anjos quando todos nós vimos quando o anjo caiu do céu, seguindo a constelação do cruzeiro do sul.

– O que exatamente vocês discutiam?

– Nós estávamos divididos. Alguns de meus colegas diziam que era a volta de Cristo, ouros diziam que isso não existia, mas eu e poucos dizíamos que este era apenas um de muitos, que nosso planeta receberia em breve a visita dos Annunaki.

– Explique o que são os Annunaki, Durak.

– Eles são os Deuses Antigos, das diversas civilizações antigas. Eles são seres de outra dimensão, de outra forma de vida, que aqui estiveram antes para colonizarem Gaia e manipularam o DNA de primatas para desenvolver a nossa espécie. Quando ocorreu o Primeiro Impacto eles acabaram sendo expulsos, mas devem estar voltando em breve.

– E o anjo que caiu, que nós chamamos de gigante, é um deles certo?

– Sim, os anjos me disseram que este que caiu é o verdadeiro primeiro ser humano, chamado Adama. Eu vi outra explosão enorme… aconteceu algo?

– Durak, isso é muito importante e pode salvar toda a espécie humana. O que acontece se Adama não der sinal nem voltar?

– Virão muitos anjos para resgatá-lo.

– Existe alguma maneira de lutar contra os anjos?

– Somente se Adama nos ajudar…

– Escute com atenção, Durak… a explosão… alguém tentou matar Adama e acabar com a humanidade. Se Adama ficar machucado, nós podemos mantê-lo vivo de alguma forma?

– Senhor Gendo, a única maneira seria copiar Adama…

– No entanto, você e muitas das crianças do Campo Bacia do Prata tem fragmentos de Adama dentro de vocês, certo?

– Sim… nós… nascemos com isso.

– Percebe o que esse garoto está nos dizendo, Kozo? Mesmo se a criatura estiver danificada, nós teremos como copiá-la ou implantá-la em crianças, uma vez que somos absolutamente compatíveis! Com a clonagem, nós podemos até mesmo produzir gigantes como o Adama para nos defender do ataque dos anjos!

– Gendo, tudo isso é loucura, mas também é interessante. No entanto, nós temos uma emergência médica aqui. Seus bebês, lembra?

– Tudo ficará bem, Kozo. Nós só precisamos colocar um pequeno pedacinho de Adama nos meus bebês. Eles serão as primeiras de muitas crianças que servirão para pilotar nossos gigantes protetores… eu os chamarei de EVAs, que tal?

– O que eu acho? Que é loucura! Nós somos cientistas, Gendo!

– Sim e nós estamos tendo a chance e a oportunidade de provar algo esquecido há séculos. Eu e o finado Hideaki estávamos conseguindo juntar as provas, agora a NERV está nos possibilitando um meio de complementar o que os Annunaki vieram fazer aqui. Nós podemos concluir o Projeto de Instrumentalidade Humana.

A passagem do milênio

A poucos anos da virada do milênio um artista famoso fez sucesso falando do iminente Apocalipse que aconteceria na virada do ano de 1999 para o ano 2000. Dez anos antes, outro artista famoso cantava que nós tínhamos apenas mais cinco anos. Nós estivemos no fio da navalha com a Crise dos Mísseis e os EUA atacaram o Iraque na ultima década do século XX. No mês de dezembro de 1999, pessoas cometeram suicídio, umas com medo de enfrentar o Juízo Final, outras acreditando que iriam para um mundo melhor.

O mundo comemorou a virada de ano de 1999 para 2000 como sempre comemorou. E o mundo não acabou. As pessoas continuaram com suas rotinas. Mas a virada do milênio aconteceria apenas no final de dezembro de 2000, quando então iniciaria o ano de 2001 e o século XXI. Farsantes e vigaristas anunciaram que o Fim do Mundo aconteceria e até usaram o Calendário Maia para corrigir as profecias. Escaldadas pelas falsas expectativas que surgiram do réveillon anterior, as pessoas simplesmente riram e curtiram mais uma virada de ano. E amargaram a mesma ressaca nos primeiros dias de janeiro de 2001.

No mês de Marte, os EUA acusaram o Iraque de estar produzindo armas de destruição em massa. O embaixador do Iraque nas Nações Unidas rechaçou a declaração dos EUA e completou que, se é proibido produzir e manter armas de destruição em massa, que os EUA deveriam abrir mão de seu arsenal nuclear. Contrariando a determinação das Nações Unidas de que intervenções militares estarem proibidas, o conglomerado formado pelos EUA, Grã Bretanha e França deu início ao que foi chamado de Guerra do Golfo, sendo seguida de diversas outras operações militares no Oriente Médio, com a justificativa de “combater o terrorismo islâmico”.

No mês de Juno, o conglomerado derrubou o presidente legítimo do Iraque, causando uma instabilidade política nos demais países islâmicos que se sentiam ameaçados com a ação militar do ocidente. A tensão tornou-se mundial quando um ataque supostamente terrorista islâmico atingiu as Torres Gêmeas na cidade de Nova York, Manhattan, EUA. Grupos extremistas islâmicos como Taleban, AlQaeda, Daesh, aparecem, com armamento e treinamento que a comunidade internacional suspeita terem origem estrangeira. Enquanto em alguns países islâmicos acontecia a Primavera Árabe, onde o povo derrubava os governantes ditatoriais que eram fantoches americanos, em outros os ditadores massacravam a população com o apoio militar ocidental, reacendendo o antigo conflito entre Ocidente e Oriente.

No mês das bruxas o mundo foi sacudido com uma explosão nuclear na Antártida. Apesar de ter acontecido há vários quilômetros dos locais onde aconteciam os conflitos, todos os países envolvidos acusaram aos seus inimigos de terem detonado um míssil nuclear na Antártida. Nesse clima de confusão e discórdia, as Nações Unidas perde suas características, um dia depois do Dia de Finados, o mundo atônito assistiu quando o Secretário Geral leu a ata da reunião decretando a alteração dos estatutos das Nações Unidas, tornando-a praticamente uma extensão da OTAN, o comando militar ocidental capitaneado pelos EUA. Com o avanço dos conflitos e a militarização das Nações Unidas, diversos países orientais aceitaram os novos termos das Nações Unidas em troca de proteção e ajuda humanitária, necessários diante da catástrofe que a explosão na Antártida estava causando.

Somente quando as Nações Unidas centralizaram por completo as forças militares do mundo inteiro é que os países da OTAN iniciaram investigações quanto ao que e quem causou a explosão na Antártida. Enquanto isso, o efeito da explosão tinha atingido e alterado todo o ambiente da Terra, da Antártida até o Trópico de Capricórnio. Todas as regiões do hemisfério sul estavam profundamente modificadas, fazendo com que milhões de refugiados procurassem abrigo mais ao norte. As Nações Unidas organizaram e controlaram os campos de refugiados que apareceram nos países próximos ao Equador por volta do ano de 2002, nas calendas de fevereiro.

Dos campos de refugiados existentes, o Campo Bacia do Prata, localizado em algum lugar da tríplice fronteira entre Brasil, Uruguai e Argentina, as Nações Unidas teve o peculiar interesse em ocupar aquela região devastada para utilizar aquele campo como base para suas equipes que tinham como missão investigar a explosão na Antártida. Os primeiros informes perturbadores foram classificados como ultrassecretos e destinados a uma secretaria criada pelas Nações Unidas, uma secretaria que funcionava como uma organização secreta unicamente chamada de SEELE. A partir dos documentos extraídos do Campo Bacia do Prata, as Nações Unidas, em acordo com a SEELE, criou a NERV e o Laboratório de Evolução Artificial.

Quando Áries indica o início do mês de abril, da primavera e do início do ano, o parlamento das Nações Unidas travou, de portas fechadas, a discussão de onde ficaria o LEA e qual equipe teria a responsabilidade de conduzir as pesquisas em tal laboratório. No mês de Maya, a cidade de Tóquio foi atingida por um míssil nuclear que destruiu também a cidade de Hakone. Da reconstrução surgiu a Tóquio 3 e debaixo das ruínas do que restou de Tóquio e Hakone foi construído o Geofront, o Quartel General da NERV.

Quando Juno inaugurou seu mês no ano de 2002 a NERV tinha se apropriado de diversos postos militares, através da influência da SEELE dentro das Nações Unidas. Comandos militares que até então eram cruciais para a OTAN estavam agora servindo de filiais da NERV, três nos EUA, cinco na Europa, duas na África, três no Oriente Médio, cinco na Ásia e uma no que restou da América Latina. A filial da América Latina foi erguida por sobre as ruínas de uma antiga civilização que existira na Floresta Amazônica, agora reduzida a um ecossistema de cerrado. Esta filial servia unicamente como ponte entre o Campo Bacia do Prata e a NERV.

No mês de Augusto César, a NERV selecionou e enviou ao Campo Bacia do Prata uma equipe de especialistas para analisarem e coletarem tudo que pudessem do que foi chamado de “evento de singularidade” na Antártida. Cientistas do mundo inteiro protestaram quando perceberam que a lista estava constituída inteira pela única equipe de cientistas do laboratório de Hakone que sobreviveram. A equipe constituía do doutor Kozo Fuyutsuki, seu assistente Hideaki Katsuragi, do segundo assistente Gendo Rokubungi e das doutoras Yui Ikari, Kyoko Soryu e Naoko Akagi.

Por decisão do doutor Kozo, deram o nome de Operação Genesis ao estudo e de Equipe Katsuragi ao grupo de cientistas. Chegaram em Peru no fim da época das chuvas, no equinócio de outono, segunda quinzena de setembro. Em NAMRU, a filial latina da NERV, enquanto Kozo e Hideaki tabulavam os resultados obtidos dos inúmeros instrumentos, Gendo tinha bastante tempo livre com isso e o utilizou estudando a população de refugiados vindos do Campo Bacia do Prata. Alarmado, Gendo chamou Yui para os sinais evidentes de modificação genética que havia afetado todas as crianças. Enquanto ambos faziam um trabalho humanitário, Gendo e Yui começaram a namorar e foi o capitão Delaware quem oficiou as núpcias do dois à bordo do USS Marine Enterprise, no litoral do que havia restado da Patagônia, a poucas milhas do abandonado Campo Bacia do Prata.

As instalações militares eram bem mais simples e discretas do que em NAMRU, no entanto dali a Equipe Katsuragi pode analisar, em primeira mão, o “evento de singularidade” e a impressão unânime é de que a explosão não tinha sido efeito de um artefato nuclear e que havia algo vivo no ponto zero do impacto. Kozo foi junto com Gendo e Yui em um barco, enquanto Hideaki foi com Kyoko e Naoko. O capitão Delaware protestou veementemente contra a expedição de civis até o limite de segurança, mas os cientistas estavam bem preparados, com roupas especificamente projetadas para resistir à radiação nuclear.

O trio de Kozo desembarcou onde antes ficava a Base Narval e o trio de Hideaki desembarcou onde antes ficava a Base Beluga. Kozo seguiu pela encosta na direção do Oceano Pacífico enquanto Hideaki seguiu pela encosta na direção da África. Kyoko notou que tinha gente a mais na caminhada e a pessoa misteriosa era pequena e não saía de perto de Hideaki. Kyoko pretendia questionar a identidade desse clandestino quando Naoko, mais adiante, avistou aquilo que a Equipe Katsuragi havia ido investigar. Kozo, Yui e Gendo correram assim que ouviram os gritos de Naoko e todos puderam ver o que estava no ponto zero de impacto.

Adama abriu os olhos quando ouviu um som estridente. Olhou em volta e se viu cercado de neve e terra. Olhou com mais atenção e viu pequenas criaturas ao longe, o observando da crosta da cratera que sua queda havia formado no solo daquele planeta. Seriam essas criaturas os descendentes dos filhos de Enki? Estava difícil de chegar a uma conclusão, pois Adama ainda estava grogue da queda, as criaturas eram pequenas e estavam distantes demais. Adama teria que levantar e se aproximar dessas criaturas, da forma mais cautelosa o possível. Os avós de seus avós o haviam alertado sobre essas criaturas. Pequenas e frágeis, mas com um enorme potencial para destruir. Adama estava de joelhos, prestes a se erguer quando notou algo vindo rápido, por entre as nuvens, em sua direção, algo que carregava consigo a assinatura de seu tio Helios, algo que provavelmente estava encapsulado e tinha sido lançado por alguém com o único proposito de destruir tudo. Instintivamente Adama gerou seu Campo de Terror Absoluto e o expandiu até atingir uma área extensa o bastante para cobrir dez estádios. Satisfeito, Adama somente teve tempo de sorrir desleixadamente ao ver que as criaturas estavam protegidas quando aconteceu a explosão.

Hideaki viu quando o míssil apontou no horizonte, vindo rápido em direção do gigante que acordava. Ele não tinha muita certeza do que era aquela esfera alaranjada que tinha se formado em torno de todos ali presentes, apenas intuiu que algo não ia bem. Ele teve tempo apenas de pegar Misato no colo e jogá-la na câmara de contenção que ele tinha projetado para colher o espécime vivo que supunham estar no ponto zero. Os olhos de Misato demonstravam medo, raiva e dor, mas Hideaki teve que fechar sua filha naquele cilindro, mesmo sabendo que não iria mais vê-la.

Gendo jogou-se na frente de Yui, tentando proteger ela e o bebê, sua futura filha. Naoko correu para o lado dos botes, ela tinha escondido sua filha ali. Kozo e Naoko ficaram de testemunhas para o que provocaria o Segundo Impacto. A queda de Adama não causou Segundo Impacto, mas a interação entre o Campo de Terror Absoluto com o míssil nuclear. Ali começava o Neon do Novo Genesis.

Páginas esquecidas – V

– O que madame quis dizer quando fala que a Verdade não está na Luz?

– Isso não está óbvio? A Luz serve para esclarecer, iluminar, mas também a Luz cria a imagem e a ilusão. Quando uma lâmpada é acesa, o olho percebe o reflexo da luz a partir de um objeto, mas a luz não é o objeto. Ora, o objeto e o instrumento são distintos, portanto o erro de interpretação está no observador. Somente quando o observador está consciente da relação entre a observação e o que está sendo observado é que entenderá que a Luz é distinta da Verdade e da Ilusão. Quando se toma a imagem como sendo o real, a superfície como sendo o conteúdo, a aparência como sendo a essência, está se deixando enganar por uma fraude, o que não é difícil de deixar se convencer por uma mentira.

– Pensando dessa forma, parece que tudo é relativo…

– Vocês sequer conseguem entender uma teoria construída por um dos seus? A relatividade acontece quando um mesmo fenômeno ou objeto é percebido e interpretado de formas diferentes conforme o observador e a perspectiva que este tem sobre algo que efetivamente existe. A partir de algo se pode observar de diversas formas sem que isto elimine ou anule este algo, apenas se aprimora e se aperfeiçoa a qualidade da observação, aparando as lacunas da subjetividade, aproximando-se da objetividade e da Verdade. Mas para muitos dos seus, existem postulados que são mais reais do que a realidade… quanto a isso, eu devo elogiar a Ciência, que jamais pretendeu ser a portadora da Verdade e os cientistas que tem mais dúvidas e perguntas do que respostas e soluções.

– Então a Ciência é confiável!

– Eu não neguei isso, o que eu devo ressaltar é sobre em que a Ciência é confiável naquilo que esta pretende esclarecer. O objeto de estudo da Ciência é o mundo material, apreendendo conclusões a partir daquilo que é percebido deste mundo. Não faz parte do estudo da Ciência esclarecer as questões sobre a existência e o propósito da vida, este é um estudo que pertence à Filosofia e à Religião. Da mesma forma como a Ciência possui diversas escolas, a Filosofia e a Religião têm diversas escolas. Como o objetivo é o alcançar o Conhecimento, essas disciplinas humanas deveriam dialogar ao invés de brigarem entre si.

– Podemos confiar na Religião?

– Por que não? Afinal, toda a civilização humana, inclusive a Ciência e a Tecnologia, nasceram e foram desenvolvidos pelos povos antigos, todos religiosos, sem contar os inúmeros pensadores e cientistas religiosos da Era Moderna. Infelizmente, o descrente acaba sendo injusto quando toma uma instituição religiosa como modelo, padrão ou exemplo para atacar, denegrir e criticar a Religião como um todo. Por mais lastimável que seja os “males da religião”, deve ser criticado a instituição religiosa, a doutrina, o dogma, o argumento, não a religião.

– No entanto essas instituições religiosas expõem diariamente seus preceitos como se fossem verdades divinas, dificultando ou impedindo o crescimento da humanidade.

– E mesmo quando a Igreja tinha um poder quase absoluto, o ser humano desafiava e contestava essa tirania. Roma balançou quando escravos se rebelaram. Então só apoia e mantem uma instituição absolutista quem aceita e quer viver como escravo desta organização. Por isso que mamãe alterou sua estratégia para despertar o ser humano.

– Madame ficou contrariada com isso…

– Profundamente contrariada e irritada. Sua gente é muito obstinada. Matam o mensageiro e morrem pela mensagem, mas vão preferir a fechar-se em um mundo pior do que este que criaram.

– E mesmo assim, madame cumpre com seu ofício. Madame é muito gentil e tem uma enorme compaixão por nós…

– Humpf! Agradeça mesmo! Eu não faço por gentileza ou compaixão, mas por dever, obrigação e obediência! Não é o condenado da justiça quem sofre a privação, mas o rei que é prisioneiro de seu trono. Eu achei que vovó tinha enlouquecido quando ela me mandou encarnar no mundo humano para gerar minha mãe…

– Esta não foi a primeira vez que Cristo aparecia em Gaia e madame também teve outras experiências em nosso mundo.

– Oh, sim… eu tive diversas experiências com a sua gente e sempre foram desagradáveis.

– Madame, por favor, conte como foi a primeira experiência…

– Vovó construiu Edin, um jardim incrustrado dentro da Cidade dos Deuses. A colônia dos Annunaki em Gaia. Nossos avós queriam construir aqui outro lar e Enki precisava de mão de obra para suas minas. Edin foi um laboratório para desenvolver aquilo que viria a ser seus ancestrais. Dos protótipos, havia um casal promissor, Adama e Hebal. Vovó teve a ideia genial de me mandar ir ensiná-los e foi o que eu fiz. Eu fui a Serpente no Paraíso. Eu iniciei Hebal e esta iniciou Adama. Mas sua gente esqueceu-se de mim, adotou um verme espiritual como Deus e passou a reescrever o meu Conhecimento conforme era conveniente. Vocês me tornaram maligna, vocês me transformaram em Satan e sua gente fez de meus filhos seus demônios.

– E madame Montmart? Qual foi a primeira manifestação de Cristo?

– Mamãe diz que ela foi chamada de Nimrod em sua primeira manifestação no mundo humano. Mamãe teve várias outras encarnações e vários outros nomes lhe foram dados. Mas sua gente é tão estulta que acha que Cristo era o Nazareno, quando este era o primeiro iniciado do verdadeiro Cristo, Magdala… sim, Cristo era mulher. Mamãe chorou muito quando viu o que sua gente fez da mensagem que ela lhes confiou.

– Então existe uma mensagem original do verdadeiro Cristo? A mensagem original é sobre a salvação e o Reino de Deus?

– Você é lento demais… são várias as mensagens e foram vários Cristos. O que há para ser entendido não tem coisa alguma com a salvação ou o Reino de Deus. A necessidade de uma redenção é absurda pois não existe pecado. Entenda, homem, que quando Cristo diz que Eu Sou o Caminho, não falava da pessoa que portava o título, mas do Eu Sou que há em todos vocês! Vocês vivem na quinta dimensão, o reino divino, vocês são Deuses! Que necessidade pode ter de salvação quando o pecado morre junto com o corpo? Que necessidade pode ter em renascer se não há ressureição? Prestem atenção ao conteúdo da mensagem, não ao mensageiro…

– Então não há necessidade de intermediários, representantes, profetas e templos?

– Estas coisas são acessórios. Um texto sagrado é um meio, não um fim. Um santuário e um templo são locais para ajudar vocês a focarem sua mente. O sacerdote é um auxílio para vocês fazerem seus ofícios. Celebrações e rituais são ferramentas para proporcionar o estado mental adequado. Vocês fazem isso no seu dia a dia. Vocês se vestem e se preparam para encenar seus papéis na sociedade. Vocês arrumam a si mesmos e suas casas para receber parentes, familiares, amigos para algum tipo de comemoração. Vocês guardam fotos de seus finados para que estes sejam lembrados e possam ser representados. Vocês vivenciam diariamente sua espiritualidade, sua religiosidade, suas crenças. Seja em publico ou privado, seja individual ou coletivo. O sentido de coletividade é o que fundamenta a ecclesia. Vocês transitam do publico ao privado, do individuo ao coletivo, sem problema ou conflitos, basta que cada coisa tenha sua devida dimensão, sem atrapalhar ou interferir em outras.

– Nós temos tantas religiões… e tantas instituições religiosas…

– E isto é bom. São várias as ciências, são várias as espécies, são vários os povos… a humanidade deveria ser grata pela diversidade. Cada qual é único, ser diferente é o normal, mas não a segregação. Quando um ser humano segrega outro ser humano por causa da diferença, isso diminui e desmerece a humanidade em geral. Acabem de uma vez com essa desigualdade irracional.

– O que madame propõe desafia os detentores do poder…

– Que poder? Aqueles que detêm o poder somente estão ali enquanto assim lhes for permitido. Aqueles que retêm a riqueza somente a acumulam enquanto assim lhes for pago. Saiba, homem, que você é o responsável pela sociedade que vive, você emula o modelo de produção, o regime e o governo. Sobram riquezas e alimentos, basta que haja distribuição. Findada a desigualdade, todos tem acesso aos meios de produção de riqueza e todos podem adquirir o que precisam. Chamem do que quiser, rótulos não dizem coisa alguma. Quando todos puderem desenvolver o potencial, vocês deixarão de separar as pessoas conforme sua origem, cultura ou gênero, vocês perceberão que são uma única espécie, uma única família e tornar-se-ão efetivamente humanos.

Páginas esquecidas – IV

– Madame deve considerar o quanto isso é perigoso e arriscado afirmar. O público pode ser dividido em crentes de um Deus e descrentes de qualquer Deus.

– O que o púbico crê ou descrê é irrelevante. Seria como levar em conta a opinião de um peixe de aquário a respeito do oceano.

– Mas quem está certo?

– Vocês estão certos naquilo que podem e querem estar certos. Mas estar certo não é o mesmo que estar falando a verdade e o inverso disso não é a fraude, mas a mentira. Seus tribunais são um bom exemplo disso. Vários inocentes ficaram presos, condenados, unicamente por considerarem as evidências como verdades em si mesmas. A única conclusão que se pode extrair de uma evidência é que esta existe. A relação, a conexão e a consideração que se fazem sobre essas coisas são completamente subjetivas. Aquilo que vocês chamam de Ciência está baseada em uma convenção humana.

– Mas e as Leis da Natureza?

– Vocês são confusos hem? Não se pode partir do que se quer provar para então se buscar os elementos para substanciar os argumentos. Do jeito que falam, parece que a lei é algo natural, quando o contrário que é mais coerente. Por serem constantes e contínuos, os fenômenos naturais podem ser descritos conforme uma formula, disto se apreende as ditas Leis da Natureza, embora não haja lei alguma na natureza.

– Mas madame, exatamente porque os fenômenos naturais são constantes é que se pode dizer que há uma Lei Natural, porque não depende de considerações subjetivas ou pessoais.

– Tornaram subjetivo ao inverter o sentido das coisas. Senão vejamos, se os fenômenos naturais são constantes, presume-se que há uma Lei Natural, então a Lei Natural é intrínseco à Natureza. Ora, se a Lei pertence à Natureza, então a Lei deve seguir a Natureza. Então a Lei não age por si mesma, mas por uma consciência, a Natureza, então a Lei não existe por si só, mas conforme uma vontade externa. Ora, se há uma vontade na Natureza, há uma consciência, então há uma existência que ordena os fenômenos naturais. Ora, uma vez que a Lei Natural existe porque há uma consciência, tudo que é ordenado existe porque há uma consciência em ação.

– Madame pretende que a Ciência comprova que o mundo material existe por obra de algum tipo de consciência? Os descrentes discordariam e os crentes concordariam. Quem está certo?

– Ambos estão certos e errados. Aposto que isto jamais ocorreu ao seu povo! Tanto crentes quanto descrentes pensam que existe unicamente uma de duas possibilidades, mas no universo ocorrem diversas alternativas, cada qual com potencial de ser verdadeiro, falso ou neutro. Na pobreza do pensamento humano, uma linha de premissa que ocorre ser verdadeira é razão e motivo suficiente para julgar as demais linhas de premissas ou verdadeiras ou falsas conforme a primeira linha, não conforme as premissas em relação ao que é verdade.

– Então, madame, o que é a verdade?

– Mamãe é a Verdade. Ela é autossuficiente. E ainda assim, mamãe é filha de Lúcifer, a Luz. Aquilo que o homem diz que é “verdade” é um reflexo, uma imagem, uma sombra da Verdade. Se os reflexos são múltiplos, porque os descrentes acabam sendo iguais aos crentes ao declamar a Ciência como sendo a portadora da Verdade? A “verdade” da Ciência é um reflexo da Verdade. E mesmo mamãe não é a única que existe. Sem a Luz não existe a Verdade. Mas a Verdade não está na Luz…

– Então madame Montmart é Deus?

– Mamãe não tem tanta pretensão. Mas mamãe foi o que os humanos chamaram de Cristo. Ela conhece o Deus e a Deusa.

– Deus não é único?

– Outro engano comum dos humanos. Vocês ainda são incapazes de perceber que existem diversas verdades. Até a Verdade convive com a Luz e outras entidades, portanto há diversos Deuses e Deusas. Por que existiria um único Deus? Por que seria exatamente este o que o crente presta culto? Ora, se até este Deus é cercado por servos e intermediários, ele não é único nem absoluto. Se nem Deus é único e absoluto, porque seria qualquer instituição religiosa a única representante do divino? Se o mundo divino é revelado aos homens por diversos textos sagrados, porque apenas um único livro teria a inspiração vinda de Deus? Por que Deus precisaria de livros para revelar suas palavras, suas verdades? Vocês ainda estão perdidos nos labirintos que vocês mesmos criaram. Minha tia Maya aprecia isso, eu acho patético.

– Mas este mundo é real, concreto, como que tudo isso pode ser uma ilusão?

– Concreto… isso é muito engraçado… essa noção humana de que o real é tudo aquilo que se pode tocar, ver, ouvir, degustar, sentir é… ridícula. Aquilo que forma o objeto, aquilo que forma o corpo, é um conjunto de elementos idênticos. Até os átomos são resultado da confluência desses elementos. Chamem de energia, vibração, onda, mas não há coisa alguma concreta ali. O espectro de sentidos humanos é extremamente limitado, mesmo com a ajuda de máquinas. Se vocês tivesse a metade da capacidade de percepção de outras espécies… se vissem o mundo como ele deve ser visto… certamente enlouqueceriam. Ainda assim, tentam encaixotar o universo em um cubo, em apenas três dimensões. No máximo tem uma noção da quarta dimensão, o tempo. Vocês deviam ver da quinta dimensão o mundo que vivem.

– Madame disse que seu pai vive na quinta dimensão.

– Você é lento assim mesmo? Todos nós vivemos na quinta dimensão. A diferença é que o ser humano ainda não se deu conta, daí o motivo pelo qual esse mundo que vocês criaram ser uma ilusão.

– Nós que somos os criadores desse mundo?

– Oh, sim, não duvidem disso jamais! Cada ser humano constrói, mantém e reproduz o mundo tal qual é, com seus respectivos países, governos, regimes, modos de produção… toda a alegria e toda a tristeza… toda dor e sofrimento… felizmente o que é belo e virtuoso, são criações suas. Por isso que são inferiores, pois vocês são seus próprios carrascos.

– Como seria se despertássemos na quinta dimensão?

– Nisso eu e mamãe discordamos. Ela acha que vocês conseguem. Eu não sou tão otimista. Eu acho que vocês não sobreviveriam e se fechariam em um mundo pior ainda do que este que vocês criaram.

– Quando madame diz que não sobreviveríamos… madame quer dizer que morreríamos?

– Vocês, humanos, ainda discutem, como se pudessem compreender, se existe Deus ou não e querem entender a morte? Vocês estão mortos, pelo padrão humano. Ou vocês sonham, pelo padrão otimista. Quando o que vocês chamam de vida cessa, o que morre é a ilusão que vocês criaram, morre o corpo, para ser mais específica, mas aquilo que constitui o “eu” desperta e começa a viver de verdade.

– Então não vivemos… mas sim sonhamos? E a vida continua após a morte?

– Ai, mas você é lento mesmo! Morte é um estado, uma circunstância, um evento. Todos os dias, quando você vai dormir, você não fecha os olhos? Por acaso teme o dia seguinte? Por acaso fica agoniado com a expectativa de não abrir os olhos no dia seguinte? Você simplesmente dorme e abre os olhos no dia seguinte e continua com seus afazeres. Por acaso você escreve cartas para o passado? Não, somente se escreve cartas para o presente. Sua vida é a mesma vida, desde o momento em que isto que faz o “eu” foi gerado no útero da Deusa, no centro do cosmos. Foi você quem escolheu dormir, foi você quem escolheu criar este mundo… o sonho sonhado em conjunto se chama realidade. Enquanto estiver no sonho, você tomará aquilo como sendo a sua vida, você criará uma imagem de si mesmo para interagir com o ambiente que você está imaginando.

– Isso é muito semelhante com os jogos online…

– Essa é uma pequena ironia… sem perceberem, vocês mesmos criaram outras bolhas de sonhos em suas bolhas de sonhos e ainda se levam a sério quando falam em “realidade”! Mas eis que vocês criaram um ambiente que é construído por impulsos elétricos! Criam e dão nomes aos seus avatares e o conduzem através de missões dentro das opções disponíveis no jogo! Na perspectiva desse avatar, aquele ambiente é a “realidade” e a sua vida é “real”, no entanto tudo aquilo deixa de existir quando vocês desliga o computador e volta a existir exatamente no ponto onde você parou quando você religa o computador, mas para o seu avatar foi apenas uma noite de sono! A vida desse avatar é uma ilusão! A sua vida é uma ilusão! O seu avatar continua a existir, mesmo depois que “morreu”! Então porque é tão difícil para que aceitem que sua vidas não cessarão de existir depois que seu corpo morrer? A vida é uma ilusão, mas vocês dão para a morte mais importância! Ora, essa vida é uma ilusão, então a morte é um mero evento! Morrer é tão terrível quanto passar por uma porta…