O carteado da Fortuna

Batendo palmas, transbordando alegria, novamente a Deusa da Sorte permite ao pobre escritor manifestá-la em um texto e ela está carinhosamente olhando para seu carteado. Provocadora, novamente envolve seu irmão, Destino, em suas traquinagens.

– Não é lindo meu baralho, Destino? Eu costumo brincar com os humanos, dando um vislumbre do que pode acontecer nas vidas deles.

– Enlouqueceu? O devir dessas vidas está em minhas mãos. Mostrar o futuro seria atentar contra o livre-arbítrio.

– E quem disse que eu vou mostrar o futuro? Tudo é um jogo, irmãozinho. Oráculos, augúrios, videntes e cartomantes apenas falam do que está em ação aqui e agora, mostram como estão como as energias que reinam no universo. Uma tendência, um movimento, que pode resultar em algo, mas que pode também alterar seu curso. Se o ser humano acha que a previsão astrológica, a posição dos astros, a combinação do zodíaco, mostra seu futuro, isso é problema do ser humano.

– Isso se chama falsidade e vigarice, Fortuna, mas para que isto pudesse te incomodar, você teria que ter alguma consciência, virtude e moral.

– E eu seria incrivelmente chata, limitada e previsível como você, irmãozinho. Eu sou o divino acaso. Em minha mão, o símbolo da espada é um coração invertido.

– Espere um pouco… você não está misturando as dimensões de novo está?

– Hummmm… talvez sim, talvez não… se você tiver algo a me oferecer, pode ser que eu diga que eu estou brincando com aquele peão…

– Ah! Só podia ser! Quando você começa a falar sacanagem é porque você está brincando com a vida do humano chamado Durak. Eu fico intrigado com o que você ganha brincando com a vida desse humano.

– Hummm… digamos que ele tem um… potencial que é muito interessante. Como o coração dele está nas mãos da Deusa do Amor, aquela que foi chamada de Inanna, Ishtar, Afrodite e Venus, eu não consigo ver direito em que direção esta alma vai. Eu tenho impressão de ver nele alguns sinais da presença de nosso pai, mas nem eu sou capaz de imaginar as chances disso ser possível.

– E sua solução é colocar esta pobre alma nessas circunstâncias torturantes? Não é à toa que tantos humanos se tornam descrentes.

– Humpf! Como se nós ligássemos para a opinião de meros mortais! Mas é isso mesmo. Eu quero, eu preciso testar esta alma além dos limites do suportável porque um diamante brota de um carvão.

– Eu nem vou tentar argumentar contigo. Mas com eu sei que você só se satisfaz quando consegue me tirar do sério, diga de uma vez o que seu baralho tem a ver com o humano.

– Irmãozinho, você conjecturou alguma vez porque nossa vizinha, Kali, usa um colar com exatamente cinquenta e duas cabeças humanas?

– Isso está ficando esquisito, até para o seu normal, mas diga lá, Fortuna, qual o mistério do colar que Kali veste?

– São exatamente cinquenta e duas as letras do alfabeto hindu. Meu baralho tem, da mesma forma, cinquenta e duas cartas, divididas em quatro naipes, cada naipe contendo treze figuras. Quatro são as direções do mundo e os elementos da natureza. E, veja só que coincidência, o arcano treze é a Morte no Tarô. Qual carta seria este humano?

– Fortuna… você bebeu ambrosia demais? Você está fazendo menos sentido ainda do que o seu normal.

– Tire uma carta, Destino. Você é tão exato que a carta que você tirar certamente é a que combina com Durak. Lembre-se, a vida dele está em suas mãos. Você vai escolher a sorte dele… ai, que deliciosa ironia!

– Aiai… algo me diz que isso vai acabar mal… para nós. Eu só tenho que tirar uma carta, certo? Depois você vai me deixar em paz?

– Deixe de ser chorão. Tire uma carta.

– Pronto. Satisfeita?

– Um… não… saiu coringa. Isso não faz sentido… se ele é o coringa, o coração dele devia pertencer a mim!

– Eu devo estar ficando contagiado por conviver com você, mas falando em cartas, o coringa não é o arcano do Tolo no tarô?

– Oh, irmãozinho! Que alegria! Só você consegue me entender!

– Não fale isso tão alto! E pare de se esfregar em mim!

– Aummm… eu achei que você me amassse…

– Eu duvido que você saiba o que é amar… você no mínimo deve achar que o amor é perder a razão, perder o rumo, algo que acontece fortuitamente… isso é paixão, não é amor. Amor é querer pertencer, é querer estar preso. O coração só pertence a quem este se dá.

– Humpf! Assim diz o indiferente e cruel Destino! Eu não brinco mais com você. Eu vou assistir sozinha o meu teatro.

– Você… vai me deixar em paz? Graças a Zeus! Eu vou poder trabalhar sossegado! Enfim!

– Humpf! Ingrato! Você vai se arrepender de ter dito isso. Você ainda vai pedir meu perdão de joelhos.

– Hahaha! Esse trabalho é meu, Fortuna! Mas não fique chateada, você pode encontrar entre as danaides uma companhia com mais afinidade contigo.

Fortuna sai batendo perna, fingindo uma expressão séria e zangada, mas a cena não dura muito e ela está radiante novamente, diante de seu cristal, ansiosa para ver como se desbarata a peça que ela arrumou. Os cenários estão prontos, os atores em posição.

Eis o que temos. O emissário do Condado de Vera Cruz, o emissário do reino de Westeros, em suas posições, no hotel. No saguão, o corsário tenta controlar o nervosismo com uma garrafa de rum. Do lado de fora, sentados em um banco, como se esperassem um coche, duas garotas e um garoto aguardam pelo sinal combinado para entrarem em ação. Fortuna pega seu balde de pipoca e refestela-se no divã para assistir o espetáculo.

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