Donald nas Olimpíadas

the-donaldO fenômeno de Donald Trump na corrida presidencial enquanto acontecem as Olimpíadas nos faz lembrar como a política é importante. Um filósofo olharia para os EUA e veria o obvio: ali não há uma democracia, mas o triunfo de Trump não é uma prova do fracasso da democracia, mas de que precisamos entender como e porque isso está sendo possível, com ajuda da antropologia e da psicologia. Acenar a influência dos meios de comunicação de massas não é suficiente, para um sociólogo e historiador.

Existe um ponto em comum entre democracia e as Olimpíadas: a Grécia Antiga. Mas a “democracia ateniense” estava longe de ser democrática, pois estava restrita aos que eram considerados cidadãos, excluíam-se as mulheres, servos e estrangeiros. Em seu formato original, as Olimpíadas eram igualmente restritas aos atletas oriundos das cidades-estados, sendo vetada a participação de outros povos, ao contrário do que Goscinni e Uderzo mostrou nos quadrinhos “Asterix”.

As Olimpíadas, assim como a democracia, em seu formato atual, são “invenções” modernas, são resultados dos regimes e Estado que surgiram entre o fim da Idade Média e início da Era Moderna. Há uma polêmica de quando uma Era acaba e outra começa, mas há sempre um período de transição onde esse “limite” fica mais borrado. Entre o estertor da Idade Média e o alvorecer da Era Moderna aconteceram a Renascença, a expansão marítima, a Colonização, o aparecimento do Iluminismo, as revoluções e apareceram os primeiros países republicanos.

Quando alguém perguntar o que devemos aos franceses, lembre-se da Revolução Francesa. Antes dela, leis e direitos eram para poucos, para os nobres e eventualmente aos burgueses. A ideia de um Estado de Direito, democrático, regido por leis [uma Constituição] e por direitos universais [para todos, sem exceção] nasceu por e pela Revolução Francesa. Para ser mais exato, a identidade e a personalidade da Europa e dos países que a formam também é uma “invenção” moderna. Quando as Olimpíadas foram resgatadas de seu ocaso [provocado por um édito de um César cristianizado] esta renasceu como uma arma de propaganda ideológica até a queda do muro de Berlim.

Na Era Contemporânea, as Olimpíadas assimilaram a lógica do Mercado e da Mídia. Nesse mundo pós-moderno, está sendo cada vez mais difícil definir o que é democracia, sobretudo com o ressurgimento do Fascismo, um evento que paradoxalmente aconteceu dentro da “democracia moderna”. O fenômeno de Trump nos EUA mostra que isso é mais complexo do que aparenta, mas é compreensível quando analisamos a história dos EUA. A democracia americana não é muito diferente das Olimpíadas modernas: são ferramentas políticas para outra coisa, que não seja a concorrência justa entre os participantes e que seja para manter o público como espectador da história.

Curiosamente, as Olimpíadas somente são o que são [e existem] graças à presença do Estado na produção econômica. Os países que são desenvolvidos e ricos são o que são porque aplicaram uma política econômica completamente oposta da agenda neoliberal que é vendida como panaceia aos países em desenvolvimento. Se o progresso e o desenvolvimento fossem medalhas olímpicas, os países desenvolvidos estão competindo com inúmeras vantagens e impondo regras que simplesmente impossibilitam que os países em desenvolvimento sequer consigam passar na “nota de corte”. Isso evidentemente é algo que os apologistas do neoliberalismo vão tentar negar e esconder, mas nessa Olimpíada Econômica, os países desenvolvidos participam dopados, ao mesmo tempo em que sabotam as possibilidades dos países em desenvolvimento.

Outro aspecto que é paradoxal e contraditório por si mesmo é a dita “democracia americana”. Brasileiros, mesmo intelectuais, criaram uma verdadeira paixão platônica pelos EUA que os faz ver a realidade sociopolítica desse país com óculos cor-de-rosa. Os americanos conquistaram sua independência com a ajuda dos franceses, holandeses e espanhóis. Os ingleses perderam a guerra porque o Reino Unido tinha outras frentes de batalha a ganhar na Europa. O curioso é que os americanos são defensores do liberalismo idealizado por Adam Smith, politica econômica que se fosse seguida não faria dos EUA uma potencia militar e econômica.

Os EUA surgiram e se identificou como sendo a “Terra da Liberdade”, enquanto colônia, assim foi, mas em relação à Coroa Britânica, mas não em relação aos seus habitantes.

Desde a chegada dos primeiros colonos [imigrantes,
fugitivos, perseguidos, expatriados, prisioneiros, hereges, estelionatários,
ladrões, etc] houve uma sistemática e deliberada eliminação dos nativos americanos.

Na “Terra da Liberdade”, na “maior democracia do ocidente” não havia nem há lugar para os nativos americanos. Em seus anos de desenvolvimento, um país em desenvolvimento ainda agrário e produtor de matéria prima, os EUA não titubearam em adquirir mão de obra escrava e mesmo nos dias de hoje o americano afrodescendente continua sendo cidadão de segunda categoria. A “Terra da Liberdade”, a “maior democracia do ocidente” cresceu e formou-se mantendo africanos na escravidão e isto acabou unicamente por interesses econômicos e não humanitários.

Quando alcançou a hegemonia política e econômica, os EUA careciam de mão de obra barata para as indústrias e serviços domésticos, o que conseguiam com os imigrantes, principalmente os latinos, que acreditaram que os EUA eram o Eldorado e a “Terra da Oportunidade”, tal como os primeiros americanos, mas o que acharam foi uma América preconceituosa, intolerante e racista. A “Terra da Liberdade”, a “maior democracia do ocidente” era apenas para os privilegiados, estava apenas acessível ao homem branco heterossexual e cristão.

Depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA tornaram-se os justiceiros, patrulheiros e policiais de todo o mundo. Com desculpas esfarrapadas e motivos torpes, os EUA invadiram e tiraram a soberania de diversos países, sem falar na contribuição que deram para inúmeros regimes ditatoriais, na Europa e nas Américas. A “maior democracia do ocidente” só aceita o seu tipo de democracia. A “Terra da Liberdade” só aceita o “livre comércio” que facilite a aquisição barata de matéria prima em troca de produtos industrializados caríssimos.

Para os EUA não há negocio mais proveitoso e lucrativo do que a guerra. A indústria bélica americana é sustentada e patrocinada pela indústria militar americana. Não basta que americanos matem outros americanos, desde que usufruam seu “direito de portar armas”, desconfia-se que a CIA está patrocinando, armando e treinando os ditos grupos fundamentalistas islâmicos e seus atentados terroristas, tudo para que o medo e paranoia mundial resultem em mais políticas restritivas de direitos, mais políticas de vigilância, mais armas sendo vendidas. A “Terra da Liberdade”, a “maior democracia do ocidente” é a maior interessada e patrocinadora das inúmeras guerras em todo mundo.

Como se isso não bastasse, o sistema eleitoral americano, ele mesmo, por si próprio, o maior responsável pelo fenômeno Trump, é uma comprovação de que a América está longe de ser um regime democrático.

O futuro presidente americano não será escolhido diretamente pelo voto do americano, mas pelo voto dos delegados, eleitos por voto distrital, um tipo de Colégio Eleitoral. O Brasil teve algo parecido durante a Ditadura Civil-Militar.

O ambiente politico e eleitoral americano é bem complexo e confuso. Cabe ao Congresso definir quais são os distritos e quantos delegados cada distrito tem direito. Um distrito, mais populoso, muitas vezes é representado por poucos delegados e vice-versa. O Congresso costuma alterar esses números com frequência, bem como a forma como o voto dos delegados é tabulado, por isso houve um tremendo alvoroço quando houve a eleição de George Bush para presidente, nas regras anteriores venceria outro, mas as regras foram alteradas… durante a competição. Na “terra da Liberdade”, na “maior democracia do ocidente”, o que vale é o sistema e quem o manipula, não a vontade do eleitor americano.

Se as Olimpíadas fossem como o sistema eleitoral americano, Donald Trump ganharia, sozinho, sem sequer competir, todas as medalhas, de todas as modalidades. No pódio, Donald Trump garantiria que isso permaneceria, matando os competidores e proibindo que existam outras Olimpíadas.

Quando um intelectual, um filósofo, critica a política americana e o sistema eleitoral americano, este não está com raiva do povo nem odeia a democracia. Ele critica o candidato e as condições que tornaram possível tal aberração, para que não apareça outro Adolf Hitler. Um intelectual, um filósofo, não presume que o povo seja burro, ignorante, alienado ou manipulado, mas que existam circunstâncias que propiciem a polarização dos medos e inseguranças do povo em torno de uma “solução” ou de um “salvador da pátria”. Nisso não há democracia, mas tirania e ditadura.

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