Doping social

Apenas no ano passado descobriu-se algo que aparentemente devia ser óbvio: os casos de corrupção envolvendo times de futebol, dirigentes, empresas, árbitros e a própria FIFA. Aqui no Brasil, diversas competições locais ficaram sob suspeita de resultado combinado. Muita coisa tem que ser explicada no envolvimento de dirigentes da CBF e empresas de televisão em esquemas de compra de publicidade, na venda de ingressos e no monopólio de transmissão dos jogos. Pelo menos dois jogadores famosos estão tendo que se explicarem na justiça suas condições diante do Imposto de Renda. Ainda é pouco, se considerarmos os valores imorais pagos aos jogadores famosos em comparação ao salário de um professor e se colocarmos que estes altos salários não tem tido o equivalente “produtivo”.

Neste ano veio à tona algo que também devia ser óbvio: os casos de atletas que foram eliminados das competições olímpicas por doping. Um ou outro acabam perdendo as medalhas que conquistaram, mas aconteceu nas Olimpíadas Rio 2016 o primeiro caso de “doping coletivo”, onde o COI [Comitê
Olímpico] excluiu toda a delegação de atletismo da Rússia por doping. Até o momento, o COI não cogitou outras medidas como o de rever os resultados e medalhas olímpicas conquistadas pela Rússia em outras competições, incluindo quando esta era parte da URSS.

O que podemos esperar de competições esportivas quando seus organizadores ou participantes comprometem a lisura do pleito? Perde-se todo o sentido de uma concorrência quando, o organizador ou o participante, procuram formas de fraudar o resultado. Mas nós podemos afirmar que uma concorrência sempre será justa? Inevitavelmente não, do contrário todos estariam no alto do pódio. As diferenças e as desigualdades existem e são parte da natureza, mas certas diferenças e desigualdades não são naturais, mas artificiais, produtos e consequências de um sistema.

Eu vou aproveitar as Olimpíadas como analogia para o que eu vou chamar aqui de “doping social”.

Cada atleta, de cada país, tem os meios, os acessos, as ferramentas e os treinos necessários para deixa-lo no máximo de sua forma para a competição. Mesmo assim somente há um único vencedor, embora as margens de diferença entre o segundo, o terceiro colocado sejam quase mínimas. Aqui se entende que existe uma “vantagem” natural própria como altura, fôlego, tônus muscular, DNA, talento, que fazem aquele atleta o que vai ocupar o pódio mais alto. Talvez em outro momento, em outra condição e até em outra competição estas marcas sofram variações [visto que são naturais] e outro ganhe sua coroa de louros.

Cada indivíduo, de cada sociedade, nem sempre tem os mesmos meios, os mesmos acessos, as mesmas ferramentas nem as mesmas capacitações necessária para enfrentar a competitividade inerente do sistema capitalista, um sistema que se sustenta na desigualdade artificialmente gerada.

Voltemos ao exemplo das Olimpíadas e do atleta. As chances de desempenho caem vertiginosamente quando o atleta não pode ou não tem condições de se dedicar exclusivamente ao treino. As chances de “produzir” resultado sofrem uma variação negativa quando o atleta não tem os equipamentos ou o acompanhamento necessário para que o exercício o capacite para a competição. Agora imaginem o caso de uma competição onde o organizador impõe condições arbitrárias ou impossíveis para que a competição aconteça, ou que um adversário adquira de forma fraudulenta uma vantagem sobre os demais participantes. Esta não é uma competição justa e não há mérito no competidor que alcança o lugar mais alto do pódio.

Nisto consiste o absurdo da teoria da meritocracia. Omitindo as condições desleais da competição, acaba tornando as condições sociais privilegiadas de certos indivíduos, não como sendo artificiais, um “doping social”, mas como condições “naturais”. Assim considera-se como “normal” e “natural” que o indivíduo bem sucedido seja homem, branco, heterossexual e cristão, justificando e explicando abjetamente que a condição dos “outros” [a “minoria”] é uma consequência não do sistema, mas da “natureza” destes.

Nisto consiste a justiça social: fornecer a todos os indivíduos os meios e os acessos necessários para que a “competição social” seja mais leal, justa e humana.

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