Corpos olímpicos e realidade aumentada

O ano de 2016 ficará na história do Brasil por causa da instabilidade política pela qual estamos passando. Outros eventos ficam apagados, como se fossem convidados: neste ano a cidade do Rio é a sede das Olimpíadas e acontece a Bienal do Livro em São Paulo.

Quando a Copa do Mundo foi sediada também no Rio de Janeiro ficou sem resposta e passada a questão da conveniência, necessidade e possibilidade, afinal, nós temos esse complexo de vira latas, como se nós não tivéssemos capacidade ou competência para sediar um evento internacional. Em um país em desenvolvimento, estas questões não são sociais, mas políticas.

Tanto a Copa do Mundo quanto a Olimpíada são eventos esportivos que envolvem interesses sociais, políticos e econômicos, porque não dizer então que são espetáculos e, como tais, em um mundo contemporâneo capitalista, tornam-se um filão para diversas indústrias, inclusive a Mídia.

Como produto e fenômeno da tecnologia, os meios de comunicação de massa subsistem por conta da audiência e esta tem decaindo com o surgimento da internet. O jornal, a rádio e a televisão estão sendo substituídos pelas tecnologias recentes que disponibilizam a internet dentro dos aparelhos celulares chamados smartphones.

Praticamente, o smartphone está substituindo também a necessidade de ter um monitor de televisão, de sinal de cabo, de console de jogos e de computadores. Uma pessoa tem na palma da mão as ultimas noticias, acessa sues files e seriados quando quiser, pode escolher e jogar diversos jogos online, ela consegue criar e manter uma rede social virtual, quando não cria toda uma segunda vida nesse mundo virtual.

A tecnologia está disponibilizando em tempo real e de forma mais acessível e democrática algo que as religiões majoritárias não conseguiram: está possibilitando ao ser humano um distanciamento, uma negação desse mundo, em prol de um “mundo melhor”, não em um além, mas gerado pelos gigabytes de um hard drive. Através de seu avatar, sua encarnação eletrônica, o ser humano consegue transcender sua materialidade, sua carnalidade e sua finitude.

Há tempos os esportes perderam seus ideais de outrora. Há tempos a Formula Um caiu na mesmice, limitada pelas regras do Mercado do Entretenimento. Há tempos o Futebol perdeu seu carisma, maculado pelos esquemas de corrupção envolvendo times, juízes, jogadores e a Televisão. As Olímpiadas, antes arma ideológica de um mundo cindido por um muro, tenta sobreviver, emulando nos eventos a fórmula do circo contemporâneo e consegue porque ainda é esteticamente a comprovação daquilo que o ser humano busca no mundo virtual, que é a plástica do corpo.

Enquanto a tecnologia promove a ilusão aos sentidos com a realidade aumentada, mostrando o virtualmente real e o realmente virtual, cabalmente provando que nem tudo que existe é concreto e nem tudo que é concreto é existente, as Olimpíadas mostram como são ilusórios ou frágeis os limites da física e do corpo. O ser humano assiste porque vê no atleta o corpo ideal que podemos ter e que os limites são uma construção social.

As delegações olímpicas são ainda maiores e melhores do que as equipes futebolísticas. Portugal ganhou a Eurocopa com um time composto por jogadores de todas as partes do mundo, imigrantes, uma seleção cosmopolita como todas as outras, um verdadeiro tapa na cara da xenofobia. As delegações olímpicas vão além de quebrar essas fronteiras entre os países, elas quebram as barreiras do próprio sistema social, pois atletas representantes de países do terceiro mundo podem conseguir uma medalha, mostrando que a vitória, o sucesso, o mérito, não é monopólio e privilégio de poucos. A medalha de ouro no peito de um atleta de origem humilde mostra que não faz mais sentido mantermos a segregação, a desigualdade, o preconceito, a intolerância. As delegações olímpicas mostram que todos são capazes, desde que sejam dados os meios, os acessos, as condições e as oportunidades.

O que vemos nas Olimpíadas não é um homem, uma mulher, mas pessoas, corpos, que são plásticos, moldáveis, leves e fortes ao mesmo tempo. Aqui não se aplicam as leis da física, da biologia, da anatomia, só existem pessoas, cada qual com sua sexualidade, fora de qualquer padrão fixo de gênero. As Olimpíadas mostra que existe mais gêneros além de “homem” e “mulher”.

Atualmente o racismo é inaceitável, ainda demorará algum tempo para cessar a xenofobia e talvez só daqui a alguns anos acabe o sexismo. Dizer que uma atleta mulher é masculinizada e que um atleta homem é feminilizado é “generismo”. Uma mulher não deixa de ser uma pessoa, um ser humano, só por não corresponder aos padrões estéticos impostos pela sociedade. Um homem não deixa de ser uma pessoa, um ser humano, só por não corresponder aos padrões de relacionamento impostos pela sociedade. Toda pessoa merece ser respeitada, qualquer que seja sua aparência, seu gênero, sua identidade, opção, orientação e preferência sexual.

Tal como o Pokémon, que nós “vemos” existir na realidade aumentada, que é virtualmente real, mas que é uma existência conceitual, o gênero que nós “vemos”, faz parte de uma “realidade aumentada” gerada pelos padrões socioculturais e que pode ser criado, inventado, misturado ou trocado a gosto de seu usuário. Tal como o atleta olímpico mostra, nós podemos deixar de existir dentro de limites restritivos, nós podemos quebrar essas barreiras e nos tornar efetivamente humanos.

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