Porque é mais fácil

O titulo do texto é baseado em uma cena do anime Arjuna.

As redes sociais tem ultimamente chamado a atenção de analistas, críticos e inclusive da Mídia Tradicional por causa dos comentários e conteúdos desavergonhadamente preconceituosos, intolerantes, racistas, homofóbicos, misóginos e elitistas. Nossa sociedade hipócrita não gosta quando se vê espelhada.

Um questionamento é necessário, diante de tantas páginas e blogues que aparentemente não sentem a menor vergonha em disseminar o pior discurso de direita possível.

O que pode fazer com que uma pessoa comum, até mesmo com estudo, optar conscientemente defender e lutar por ideais que são evidentemente contrários ao bom senso ou mesmo contra sua classe?

Uma piada contada em um texto fala de um professor de geografia dizendo que existe norte e sul, direções, que não pode ser confundido com superior e inferior. Eu posso fazer uma paródia e dizer que existe leste e oeste [direita e esquerda], que são direções, mas é um equívoco acreditar que os polos políticos, direita e esquerda, deixaram de existir.

Historicamente, o que é esquerda e direita tinha uma posição espacial [geográfica] em relação ao rei, mas uma analise politica e filosófica nos mostra que havia mais do que meras diferenças de localização entre a esquerda e a direita. Basicamente, aqueles que se postavam à direita do rei postulavam políticas favoráveis ao monarca e aqueles que se postavam à esquerda do rei postulavam políticas favoráveis ao povo. Aqui são necessárias muitas aspas, pois a noção do que é povo atende a convenções que são discutíveis, em termos legais, jurídicos, sociais, linguísticos e filosóficos.

Por mais estranho que possa parecer, nem mesmo na França Monarquista estes grupos tinham um consenso sobre suas posições políticas. Quem estava na direita eram, geralmente, nobres e aristocratas que, frequentemente, entravam em atrito com o rei em busca de mais privilégios que atendessem aos seus objetivos. Aqueles que estavam na esquerda eram, geralmente, burgueses e comerciantes que, frequentemente, procuravam meios de restringir para as massas os direitos que eles pleiteavam em nome do povo. Portanto, muita calma antes de definir uma revolução ou um regime como sendo de esquerda, pois existe muita gente que é de esquerda, mas que também é conservadora, liberal, moderada, extremista, etc.

Por não ter um programa ou pensamento único, pensadores com desonestidade ou preguiça intelectual afirmam que não existe mais a distinção entre esquerda e direita. A despeito das diferentes opiniões e interesses nas pautas, é possível congregar um ideal em comum, na direita e na esquerda que os possa distingui-los. A direita quer o direito para poucos, a esquerda quer o direito para todos.

Esta é praticamente a tônica dos textos, criticas e argumentos que se podem ver nas páginas e blogues de direita. Com frequência, se sentem acuados simplesmente por que sentem que seus privilégios, sua posição social, estão ameaçados por que mais pessoas estão tendo acesso aos direitos que antes eles acreditavam ter o monopólio e a exclusividade. Isso responde metade da questão, ainda falta dizer como ou porque uma pessoa comum adota uma postura política que visivelmente é contrária aos seus interesses, pessoais, profissionais e classistas.

No mundo contemporâneo é raro uma pessoa notar que está tendo uma vida socialmente privilegiada. Afinal, nós somos doutrinados desde o berço pelos nossos pais, por nossos amigos, por nossos colegas, pela escola, pela sociedade e pela Mídia [daí que é estúpido falar em “escola sem partido”] a assumirmos determinados padrões como sendo os “corretos”, e quanto mais nós estivermos próximos [ou reforçando] as “normas sociais”, mais nós fazemos juz ao sucesso ou à riqueza que nós “conquistamos”. Nós começamos a tomar os nossos méritos, os nossos privilégios, como algo “natural”, não como o resultado de uma conjuntura sociopolítica.

A capacidade de doutrinação inerente da sociedade não pode ser subestimada. Torna-se um caso de interesse filosófico e psicológico entender como é possível o fenômeno Fernando Holiday, um negro que dissemina como verdades o besteirol neoliberal do MBL, um de muitos negros que assimilaram e reforçam ideais que são contrários aos interesses de sua etnia. Torna-se um caso de interesse filosófico e psicológico entender como é possível o fenômeno Sara Winter, uma mulher alegadamente ex-feminista, que agora reproduz um discurso favorável ao patriarcado.

Mas estes são exceções, a regra é que a postura da pessoa de direita é sempre reacionária, sempre age contra qualquer coisa que desafie sua leniência intelectual, seu questionamento e contestação a algo que o mantêm em uma gaiola dourada. Tudo aquilo que incomoda ou sacode aqueles conceitos e valores que lhes foram inculcados como sendo parte da “tradição cultural ocidental cristã” somente pode ser coisa de “comunista”, como a postura de direita costuma chamar pejorativamente qualquer forma de pensamento de esquerda.

Eu devo relembrar que aquilo que é chamado de esquerda não tem um programa ou pensamento único. Em determinados temas é mais fácil ver debates, discussões e diferentes posturas políticas entre as pessoas de esquerda. As pessoas de direita gostam de posar publicamente que são mais cultos e estudados, mas não é o que aparenta, pela tônica do discurso que despejam diante do público. Eu não estou colocando em questão nem duvidando da capacidade de leitura e estudo dessas pessoas, mas que inequivocamente o discurso que apresentam aponta para a aceitação de apenas uma interpretação ou versão dos fatos. Basta ver que postulam o privilégio e monopólio sobre o conhecimento, mas não de todo o conhecimento, somente do conhecimento aprovado, canonizado.

Uma pessoa de esquerda não tem tanta sorte. Nós estudamos tanto quanto senão mais do que uma pessoa de direita. Nós nos cobramos, nos controlamos e comparamos uma bibliografia mais extensa antes de escrever algo. Nós tentamos levantar um tema para o debate, para o questionamento, para a contestação. Nós tentamos garantir a pluralidade de opiniões, na expectativa que os interlocutores também se informem antes de opinar. Mas nosso conhecimento não é reconhecido pelo seu conteúdo, argumentação ou fatos apresentados, é descartado unicamente por ser de esquerda. Curiosamente, as pessoas de direita apontam as pessoas de esquerda como sendo defensoras do pensamento único.

A pessoa comum tende a refletir nas redes sociais aquilo que está causando mal estar na mesma sociedade que promulga, estimula e professa tais valores. Isso é patente nos programas, comerciais e noticiários veiculados pela Mídia. Esta, por ser um meio de comunicação de massas nas mãos de poucos privilegiados, é a expressão mais clara das normas sociais que são consideradas aceitáveis. O que se vê na telinha é o endosso de que o certo, o bom, é ser homem branco, heterossexual e cristão. Esta é a imagem ideal da pessoa que nasce com privilégios sociais como se fossem “direitos naturais”. Para a imensa maioria de pessoas que não se encaixam nesse padrão resta a cidadania secundária, relegado a ser a “minoria”, quando não lhe é negado até sua humanidade.

Quando pessoas de esquerda escrevem, nós não queremos acabar com os direitos, mas amplia-los. Nós não queremos destruir a civilização ocidental, nós queremos torná-la uma civilização humana. Nós não queremos acabar ou tirar a propriedade, nós queremos que os meios e o acesso a esse direito seja universal. Nós não queremos tirar sua liberdade religiosa, mas garantir que a liberdade possa existir para todas as religiões. Nós não queremos censurar sua opinião, seu pensamento ou sua crença, mas apenas apontar que você está cobrindo seu preconceito e intolerância com esses mantos. Nossa crítica não é contra sua pessoa, sua crença, sua postura política, mas contra o conteúdo que existe nesse discurso.

Discursos que estimulam o ódio, o medo e a violência somente continuam porque é mais fácil.

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