Arquivo mensal: agosto 2016

O carteado da Fortuna

Batendo palmas, transbordando alegria, novamente a Deusa da Sorte permite ao pobre escritor manifestá-la em um texto e ela está carinhosamente olhando para seu carteado. Provocadora, novamente envolve seu irmão, Destino, em suas traquinagens.

– Não é lindo meu baralho, Destino? Eu costumo brincar com os humanos, dando um vislumbre do que pode acontecer nas vidas deles.

– Enlouqueceu? O devir dessas vidas está em minhas mãos. Mostrar o futuro seria atentar contra o livre-arbítrio.

– E quem disse que eu vou mostrar o futuro? Tudo é um jogo, irmãozinho. Oráculos, augúrios, videntes e cartomantes apenas falam do que está em ação aqui e agora, mostram como estão como as energias que reinam no universo. Uma tendência, um movimento, que pode resultar em algo, mas que pode também alterar seu curso. Se o ser humano acha que a previsão astrológica, a posição dos astros, a combinação do zodíaco, mostra seu futuro, isso é problema do ser humano.

– Isso se chama falsidade e vigarice, Fortuna, mas para que isto pudesse te incomodar, você teria que ter alguma consciência, virtude e moral.

– E eu seria incrivelmente chata, limitada e previsível como você, irmãozinho. Eu sou o divino acaso. Em minha mão, o símbolo da espada é um coração invertido.

– Espere um pouco… você não está misturando as dimensões de novo está?

– Hummmm… talvez sim, talvez não… se você tiver algo a me oferecer, pode ser que eu diga que eu estou brincando com aquele peão…

– Ah! Só podia ser! Quando você começa a falar sacanagem é porque você está brincando com a vida do humano chamado Durak. Eu fico intrigado com o que você ganha brincando com a vida desse humano.

– Hummm… digamos que ele tem um… potencial que é muito interessante. Como o coração dele está nas mãos da Deusa do Amor, aquela que foi chamada de Inanna, Ishtar, Afrodite e Venus, eu não consigo ver direito em que direção esta alma vai. Eu tenho impressão de ver nele alguns sinais da presença de nosso pai, mas nem eu sou capaz de imaginar as chances disso ser possível.

– E sua solução é colocar esta pobre alma nessas circunstâncias torturantes? Não é à toa que tantos humanos se tornam descrentes.

– Humpf! Como se nós ligássemos para a opinião de meros mortais! Mas é isso mesmo. Eu quero, eu preciso testar esta alma além dos limites do suportável porque um diamante brota de um carvão.

– Eu nem vou tentar argumentar contigo. Mas com eu sei que você só se satisfaz quando consegue me tirar do sério, diga de uma vez o que seu baralho tem a ver com o humano.

– Irmãozinho, você conjecturou alguma vez porque nossa vizinha, Kali, usa um colar com exatamente cinquenta e duas cabeças humanas?

– Isso está ficando esquisito, até para o seu normal, mas diga lá, Fortuna, qual o mistério do colar que Kali veste?

– São exatamente cinquenta e duas as letras do alfabeto hindu. Meu baralho tem, da mesma forma, cinquenta e duas cartas, divididas em quatro naipes, cada naipe contendo treze figuras. Quatro são as direções do mundo e os elementos da natureza. E, veja só que coincidência, o arcano treze é a Morte no Tarô. Qual carta seria este humano?

– Fortuna… você bebeu ambrosia demais? Você está fazendo menos sentido ainda do que o seu normal.

– Tire uma carta, Destino. Você é tão exato que a carta que você tirar certamente é a que combina com Durak. Lembre-se, a vida dele está em suas mãos. Você vai escolher a sorte dele… ai, que deliciosa ironia!

– Aiai… algo me diz que isso vai acabar mal… para nós. Eu só tenho que tirar uma carta, certo? Depois você vai me deixar em paz?

– Deixe de ser chorão. Tire uma carta.

– Pronto. Satisfeita?

– Um… não… saiu coringa. Isso não faz sentido… se ele é o coringa, o coração dele devia pertencer a mim!

– Eu devo estar ficando contagiado por conviver com você, mas falando em cartas, o coringa não é o arcano do Tolo no tarô?

– Oh, irmãozinho! Que alegria! Só você consegue me entender!

– Não fale isso tão alto! E pare de se esfregar em mim!

– Aummm… eu achei que você me amassse…

– Eu duvido que você saiba o que é amar… você no mínimo deve achar que o amor é perder a razão, perder o rumo, algo que acontece fortuitamente… isso é paixão, não é amor. Amor é querer pertencer, é querer estar preso. O coração só pertence a quem este se dá.

– Humpf! Assim diz o indiferente e cruel Destino! Eu não brinco mais com você. Eu vou assistir sozinha o meu teatro.

– Você… vai me deixar em paz? Graças a Zeus! Eu vou poder trabalhar sossegado! Enfim!

– Humpf! Ingrato! Você vai se arrepender de ter dito isso. Você ainda vai pedir meu perdão de joelhos.

– Hahaha! Esse trabalho é meu, Fortuna! Mas não fique chateada, você pode encontrar entre as danaides uma companhia com mais afinidade contigo.

Fortuna sai batendo perna, fingindo uma expressão séria e zangada, mas a cena não dura muito e ela está radiante novamente, diante de seu cristal, ansiosa para ver como se desbarata a peça que ela arrumou. Os cenários estão prontos, os atores em posição.

Eis o que temos. O emissário do Condado de Vera Cruz, o emissário do reino de Westeros, em suas posições, no hotel. No saguão, o corsário tenta controlar o nervosismo com uma garrafa de rum. Do lado de fora, sentados em um banco, como se esperassem um coche, duas garotas e um garoto aguardam pelo sinal combinado para entrarem em ação. Fortuna pega seu balde de pipoca e refestela-se no divã para assistir o espetáculo.

Como esfolar um tigre

A população de Arendelle observava a cena que desenrolava em sua avenida central onde duas figuras tentavam acertar o passo, pois um era enorme e outro era pequeno. Harlaw estava acostumado a provocar atenção do público por suas roupas e etnia, mas pela primeira vez estava se sentindo embaraçado por causa de sua estatura.

– Hei, gênio, seu plano de nos misturarmos e passarmos despercebidos do público foi por água abaixo.

– Isso é digno de ser contado… um capitão de ferro com vergonha. Que tal uma aposta? Vamos perguntar a algum habitante local o que mais chama a atenção? Eu te dou cem coroas de ouro se disserem “anão”, mas eu ganho cem coroas de ouro se disserem “corsário”. Essa sua aparência de pirata dos mares chama atenção até no Caribe.

– Bah! Eu sou um lobo do mar, com orgulho. Nós não temos vidas cercadas de luxo e riqueza. Não é nada prático estar cheio de roupas e acessórios em um navio, então eu não trouxe nenhuma muda de roupa, gênio.

– Animo, corsário. Essa avenida não deve ser mais longa do que as estradas de Westeros. Mas você pode voltar ao seu navio e ao tédio se quiser.

– Nem pensar. Algo me diz que nós encontraremos um desafio e eu vivo para superar desafios. Minha espada clama por sangue.

– Ali em frente eu vejo alguns habitantes locais fazendo saudação para um figurão. Será este o emissário de Southerly?

– Meu olhar de águia está vendo um almofadinha bem parecido com você, então deve ser alguém importante do governo local.

– Neste caso, bico calado e deixe que eu falo com o almofadinha… saudações, caro senhor, saudações. Nós viemos de fora e procuramos o Grande Hotel Orloff e vimos a população local lhe direcionando apupos… o senhor deve ser uma pessoa muito importante, correto?

– Saudações… senhores… sim, eu sou Kristoff, o Primeiro Ministro e os senhores são?

– Oh, meus modos! Muito prazer, senhor Primeiro Ministro, eu sou Tyrion Lannister, o Conselheiro do rei Jeoffrey e este é nosso Ministro da Marinha, almirante Harlaw. Nós estamos aqui como emissários do reino de Westeros para estabelecer uma aliança com o reino de Arandelle, por isso nos foi recomendado nos hospedarmos no Grande Hotel Orloff, poderia ter a gentileza de indicar sua localização?

– Os senhores estão próximos. Siga por mais quatro quadras. O hotel é bem grande, vocês o avistarão. Enquanto os senhores se acomodam, eu vou no palácio providenciar uma audiência aos senhores. Até um contato futuro, eu recomendo que os senhores almocem no Fritz.

Tyrion fez uma firula e puxou Harlaw consigo na direção indicada na velocidade que suas curtas pernas conseguiam fazer e deram de frente com a frente do hotel, guarnecida com uma coluna que dispunha orgulhosamente seu nome e os prêmios que ganhou.

– Pelas barbas de Netuno! Isso é mais decorado do que uma nau capitânia!

– Eu estive em lugares melhores, mas se é aqui onde o Diabo se encontra, é aqui que devemos estabelecer nosso posto.

– Hei, gênio, tem duas garotas e um garoto olhando com bastante indiscrição em nossa direção.

– Mas… de novo com essa vergonha de ser visto pela população local?

– Bah! Esses são tão forasteiros quanto nós. Será que são espiões de outro reino?

– Tudo é possível nessa ocupação, meu caro capitão! Venha, vamos confronta-los, pois eu creio que nós possamos ter interesses em comum. Hei, garotos! Adiantem-se, aproximem-se, pois nós somos servos do mesmo senhor.

Harlaw manteve sua mão no cabo da espada enquanto Tyrion encarava o grupo com indiferença. O garoto é alto e franzino, cabelos pretos e inseguro, pois seguia bem detrás. As garotas iam na frente, uma tinha belos e longos cabelos vermelhos e outra tinha cabelos curtos e azuis. A ruiva adiantou-se e foi tratando com Tyrion.

– Boa tarde, senhor. Eu sou Asuka Langley e vim em nome da NERV para criar uma aliança de Arendelle com o Japão e vocês, quem são?

– Tyrion Lannister, Conselheiro Real do rei Jeoffrey, do reino de Westeros, em companhia de nosso Ministro da Marinha, almirante Harlaw. Nós também temos… negócios a tratar com a rainha.

– Um anão e um corsário, os comandantes do batalhão que tentou, desastrosamente, invadir e tomar Arendelle. Vocês não tem ideia onde estão se metendo.

– Har! Garotinha de cabelos azuis sabe muito não é? Vejamos se é tão esperta quando eu te espetar em minha espada!

– Meu nome é Rei Ayanami, Harlaw Greyjoy. E esse seu canivete não pode me ferir.

– Falem baixo! Durak pode nos ouvir…

– E quem seria esse? Meu caro garoto…

– Shinji Hikari. Eu sou Shinji. E nós estamos aqui provavelmente com o mesmo objetivo, que é imobilizar Durak, o emissário da Sociedade Zvezda, o metahumano. Nós o conhecemos… em outras de nossas missões e Rei está certa, vocês não tem ideia do que estão enfrentando.

– Hah! Acham mesmo que alguma coisa consegue fazer frente ao tiro dos canhões de nossos navios de ferro? Digam onde eu posso encontrar esse tal de Durak e verão como eu o estripo feito camarão!

– Cale-se Harlaw! Agora não é momento para farolagem! Estas pessoas tem vantagem sobre nós de conhecer o alvo, vamos ouvi-los. Talvez nós possamos trabalhar em conjunto para benefício mutuo.

– Não há coisa alguma que possam nos oferecer em troca, anão. Nem o seu corsário com todos os navios que tiver em seu comando. Eu sou a única que poderia enfrentar Durak de igual para igual.

– Eu não duvido de sua capacidade, senhorita, mas o caso é que estamos aqui e, sem saber coisa alguma, sem poder fazer coisa alguma, o fato é que nós seremos atingidos caso enfrentem esse tal de Durak aqui e agora. Sua organização… a NERV… não vai gostar de ter casualidades civis, tampouco gerar um problema diplomático se casualmente nós falecermos devido a uma operação precipitada.

– Vocês não conhecem a NERV…

– Mas nós sabemos que a rainha tem a capacidade de controlar o gelo e eu venho de um reino que lida com esse tipo de criatura todos os dias. Este tal de Durak deve ter vindo com esse mesmo propósito, visando usar o poder da rainha em favor da Sociedade Zvezda.

– Muito sagaz de sua parte, anão.

– Eu vou falar com major Misato. Afinal, eu sou a comandante aqui.

– Só em seus sonhos, cabeça de fogo.

– Cai dentro, garota melancólica!

– Hei, nós devíamos estar trabalhando em cooperação!

– Cala a boca, Shinji! [Rei e Asuka]

– Ahem… eu sei que vocês tem uma missão importante, mas como eu sou a parte mais sensível presente, eu me ofereço para ser a isca para pegar o tigre e vocês o esfolam.

Shinji congela no lugar, embasbacado, Asuka olha Tyrion com desprezo e Rei começa a rir. Harlaw dá de ombros e guarda a espada na bainha. Está tudo nas mãos da Fortuna.

Os tentáculos da conspiração

Ancorado em uma distância de cem milhas além do mar territorial de Arendelle, uma caravela de velas negras decoradas com a imagem de um calamar tem dois tripulantes discutindo vigorosamente.

– Isso é inaceitável. Eu não suporto esperar um minuto a mais. Onde está o sinal?

– Pelos Deuses Harlaw, como você é impaciente!

– Você! Você é o culpado, anão! Você me garantiu que o batalhão era o melhor grupo de mercenários. Você disse e garantiu que Arendelle seria nossa em dois minutos e nós estamos parados aqui há trinta minutos! Deve ter acontecido algo! Eu ouvi tiros e explosões!

– Evidente meu capitão de ferro, não se pode tirar a coroa de um legitimo governante com delicadeza. Acalme-se que eu enviei meus batedores para checar a situação. Não se pode confiar muito em mercenários. Eles podem estar muito bem dividindo o reino agora mesmo.

– Humpf! Dizem que seu excesso de inteligência compensa sua falta de estatura, mas como espera que mercenários vigiem mercenários?

– Ah, esse é um segredo de negócios. Além do que um Lannister sempre paga suas dívidas. Um pouco de animo vai te fazer bem, veja, eis que uma de minhas “andorinhas” está de volta.

– Senhor… meu senhor… que horror!

– Hei, fale devagar, respire, homem! Até parece que viu o Diabo em pessoa…

– Pelo Santo Padre… sim, meu senhor… eu vi o Diabo em pessoa. Eu sou o único sobrevivente…

– O… Diabo… você viu o Diabo… pode descrevê-lo?

– O Santo Padre que me perdoe… eu terei que pagar muitas missas… horror! Parecia um urso enorme com chifres e trouxe o fogo do próprio Inferno com ele… horror!

Um estampido seco, cheiro de pólvora no ar e miolos volteiam feito pássaros até mergulharem no mar. Tyrion lança um olhar desaprovando o exercício de balística, pois sua cabeça estava perigosamente na trajetória.

– Nem adianta ficar com essa expressão de puta de porto. Nós lidamos com essas coisas assim. Eu não desejo durar mais do que meus companheiros. Um guerreiro honrado prefere morrer a ser o único sobrevivente.

– O que é muito admirável e honrável de sua parte, Harlaw, mas este é um princípio de sua família, Greyjoy. Eu duvido que este coitado sequer seja de alguma casa. Se isso chegar aos ouvidos de nossos… voluntários, vai ficar difícil conseguir juntar outro batalhão.

– Bah! Pois nós devíamos ter feito tudo isso ao estilo Greyjoy. Eu posso juntar facilmente dez navios de ferro. Nós só temos que chegar, cercar a baía e disparar os canhões. Arendelle é remodelada e nós nos tornamos reis. O que me faz questionar o sentido de estarmos aqui, para começo de conversa.

– Para o começo de conversa, sou eu o comandante, pelo simples motivo que eu tenho o cérebro e você tem os músculos. O nosso jovem rei Joffrey Baratheon quer que tomemos o trono de Arendelle porque, aparentemente, a rainha tem o poder de controlar o gelo e isso é um trunfo e tanto para combater os gigantes azuis.

– Seres com poderes sobrenaturais… nosso jovem rei deve estar lendo muita bobagem.

– Eu não seria tão apressado em descartar algo unicamente porque não sabemos ou não acreditamos nisso. Nosso rei conta com os conselhos indispensáveis da rainha Cersei e, embora ela negue, eu sei que ela contratou um mercenário do reino de Southerly que dizem ser um metahumano.

– Sei, não há qualquer suspeita por ela ser sua irmã. Há! Só os velhos acreditam ainda nessa bobagem dos gigantes azuis que vivem além da muralha de gelo ao norte de Westeros. Cá estamos bem mais ao norte e não vejo gigante algum, apenas gente como a gente.

– Então como explica o sumiço de um batalhão inteiro? Como explica a visão do soldado sobrevivente?

– Elementar, meu caro Watson, o soldado inventou o Diabo para desertar depois que o batalhão foi desbaratado pelas tropas locais. Há! Eu sempre quis dizer isso.

– Você está citando a fala de um personagem de livro como se ele fosse real e quer discutir se existem seres sobrenaturais? Você é um legítimo descrente, Harlaw.

– Há! Eu faço o que eu posso.

– Então faça. Desçamos nós ao bote e lancemos em busca do Diabo nas terras de Arendelle.

– Nós dois? Sozinhos? Contra todos os temidos Homens de Neve, como é chamado o exército de Arendelle?

– Ora, vejam só! O frio e cruel Harlaw, que não hesita em despachar gente para o outro mundo, teme a morte? Creia, meu capitão de ferro, não perderá um fio de seu bigode. Se tem algo que eu conheço bem é a fraqueza do ser humano. Seja aqui em Arendelle ou lá entre os Dothraks, o ser humano tem a mesma fraqueza por ouro e ouro é a minha arma. Vamos ver se meu ouro consegue amansar esse Diabo.

– Há! Isso é o mesmo que querer apagar o fogo com betume! Mas vamos, adiante, pisemos em terra seca, que é melhor do que ficar parado nesse navio.

Tyrion e Harlaw entram no bote e o grande corsário fica com os remos enquanto o anão serve de timoneiro. Um transeunte que visse tal cena certamente pensaria estar delirando em ver um corsário remando um bote que é dirigido por um anão. Impossível encontrar dupla mais disparatada, um homem alto e negro, pelas roupas e peles, ao lado de um meio-homem de faces rosadas e cabelos ruivos. Felizmente não tem transeunte algum em trilhas, a dupla segue território adentro até encontrar uma vila.

– Vamos nos misturar com o público. O populacho adora fofocar sobre a vida da corte.

– Ah, claro, nós somos pessoas completamente normais e comuns, ninguém vai se dar conta de que somos forasteiros…

– Shush! Você conhece navios, marés, ventos e estrelas. Eu conheço gente e as pessoas são incrivelmente ingênuas e crédulas.

– Assim diz o anão que conheceu o Diabo…

– Chega de troça! Tente parecer o mais normal possível. Nós só temos que procurar habitantes em confabulação… ali! Um mercador, algumas senhoras, conversando diante de um armazém, perfeito!

O estranho dueto aproxima-se do grupo de pessoas com a maior desfaçatez e postam-se como se fossem invisíveis, esperando uma brecha na conversa para interromper e, com uma conversa aparentemente frugal, obter a informação que precisavam.

– As senhoras não precisam ficar alarmadas. Nossa Arendelle está segura.

– Assim espero, senhor Market. Eu ouvi tiros e explosões e achei que estávamos sendo invadidos.

– Nosso general Olaf jamais permitiria isso.

– Eu tenho certeza disso, mas eu ouvi dizer… dizem… que tem um forasteiro… que foi contratado por nossa rainha… tipo um agente secreto…

– Senhora Mirtes, não acredite em boatos!

– Ah, mas deve ser verdade! Minha prima, Clotilde, disse que viu nosso Primeiro Ministro com um homem estranho, lá no Grande Hotel Orloff.

– Certamente algum embaixador de outro reino, afinal nossa rainha quer abrir Arandelle ao mundo.

– Perdão, caros cidadãos, mas poderiam nos dizer para que lado fica o Grande Hotel Orloff?

– Oh! Pelos Deuses! O que é isso? Isso fala! Eu pensei que fosse uma criança. Os senhores são forasteiros que vieram para ter audiência com a rainha?

– Sim, nós viemos de longe e precisamos descansar. Nos foi recomendado ir ao Grande Hotel Orloff, mas não sabemos como chegar lá.

– Ah, isso é fácil. Consegue ver a campa do sino da estação de trem? Ali tem a avenida central, basta seguir pela avenida até o fim e os senhores encontrarão o hotel.

A guerra é um baile

Flores se abrem no jardim como se saudassem o alvorecer, pássaros chilreiam em louvor a Hélios e Ana esfrega os olhos tentando acordar para só então se dar conta que dormiu completamente nua no chão. Instintivamente busca por Elsa, que denuncia sua presença ali perto com um ronco e ela está igualmente dormindo completamente nua no chão.

– Bom dia, Ana. Eu espero que tenha dormido bem. Eu tomei a liberdade de preparar o desjejum para você e Elsa, eu espero que não se importem.

– Você! Foi você! Nos embebedou e se aproveitou de nós, não é, mercenário?

– Oh, não, de forma alguma! Você e Elsa se embebedaram voluntariamente com a excelente cerveja da casa. Mais ou menos depois da quinta caneca, você e Elsa tiraram toda a roupa e começaram a transar. Vocês bem que tentaram me incluir em suas… brincadeiras e, admito, eu fiquei muito tentado, mas eu preferi me divertir assistindo à distância.

Os portões da sala de audiências faz um tremendo estrondo com a entrada repentina de Kristoferson, afoito em anunciar algo.

– Elsa! Ana! Nós esta… oh, pelos Deuses! Vocês estão nuas!

– Não perca o controle, senhor Primeiro Ministro. Eu sei que é difícil, afinal, uma das coisas mais belas deste mundo é a nudez feminina, mas eu creio que você tem algo importante a dizer.

– Não queira ensinar minha função… forasteiro! Elsa! Nós estamos sendo invadidos… tem um batalhão com a bandeira do Reino das Ilhas do Sul avançando na direção da capital de Arendelle!

– Hã? Invadidos?

– Argh! Deve ser os homens de Hans vindo resgatá-lo! Vamos, Elsa, vamos lutar!

– Se me permitirem, eu gostaria de cuidar desse… incomodo, se não for uma ofensa aos seus Homens das Neves.

– Oh, meus Deuses! Chá, bolo, bacon e ovos! De onde veio esse café da manhã?

– Elsa, agora não é momento de cuidar da larica pós-sexo. Nós estamos sendo invadidas, lembra?

– Of noffo nofo omugo pofe codor do todo.

– Agora é a minha vez de dizer… Elsa, olha seus modos! Não fale de boca cheia!

– Ah, delicada edelweiss… mesmo de boca cheia ainda mantêm a classe. Apenas acene, minha rainha, sim ou não, quer que eu cuide desse incômodo?

Elsa acena afirmativamente enquanto engole um enorme pedaço de bolo empurrado goela abaixo com uma xícara de chá, diante do espanto de Ana e Kristoferson.

– Nesse caso, eu vou me arrumar aqui mesmo. Sabe, Elsa, eu não espero que entenda ou aceite o que está para ver, mas para mim a guerra é um baile, então eu devo estar devidamente trajado.

Durak pega a maleta que carregava, a abre e, sem vergonha ou pudor, tira toda a roupa, expondo seu corpo talhado por músculos e cicatrizes.

– Elsa, o campo de batalha não é um lugar agradável. Eu ouso te solicitar que espere aqui.

Durak parecia compenetrado enquanto vestia algo como uma armadura, feita de algum tipo de couro, por sobre o qual afivelava um suporte com duas espadas.

– Eu… eu recuso sua recomendação. Eu sou a rainha de Arendelle e você está a meu serviço. Por Arendelle e por minha coroa, eu tenho que estar ciente e presente por seus atos.

– Como desejar, minha rainha. Eu compreenderei se ficar com medo.

Durak deu um sorriso maligno e seus olhos brilharam. Ele sacou suas espadas e iniciou sua preparação para o embate. Elsa percebeu que aumentou a pressão do ambiente enquanto Durak emitia uma aura que desprendia de seu corpo na forma de uma névoa escura.

– Alvo localizado. Inimigo detectado. Protocolos um a cinco ativados. Liberando cinco por cento do poder. Executar!

Com uma velocidade incrivelmente enorme, Durak parte na direção do batalhão inimigo. Elsa, Ana e Kristoferson taparam os ouvidos, pois houve uma onda de choque. Apreensiva, Elsa ficou na soleira de seu palácio, tentando acompanhar a ação, mas pouco podia ser visto, apenas ouvido. Ao longe era possível ouvir o som de gritos de pavor e de corpos sendo retalhados. Tiros, explosões e então um silêncio assustador. Elsa apertou suas mãos, sentiu seus lábios ressecarem, seu coração ficou acelerado e ela sentiu um aperto no peito.

– E… ele está bem, não está?

– Quem liga?

– Bom, eu acho que vou mandar Olaf para enfrentar o batalhão.

– Isso não será necessário, senhor Primeiro Ministro. Não sobrou ninguém vivo.

Saindo dentre as sobras das árvores, Durak aparece, completamente coberto por sangue e carregando algo nas mãos.

– Minha rainha… eu te ofereço… a cabeça do líder dos invasores.

Durak desembrulha o que parece ser o pedaço de uma capa empapada de sangue e expõe a cabeça do duque de Weselton.

– O… oh, meus Deuses!

– E… eu não me sinto muito bem… eu acho que vou… bluaaargh!

– Vo… você acabou com um batalhão inteiro… sozinho? Isso é impossível! Isso não é humano! Que Diabo você é?

– Sua pergunta é estranha, Ana… sua irmã controla o inverno, você controla o outono e acha que são as únicas metahumanas que existem?

– Vo… você está bem? Está ferido?

– Eu estou bem, Elsa, sem sequer um arranhão.

– Mas… tiros… explosões…

– Essas coisinhas? Ah! Nunca me incomodaram.

– Oquei, oquei, você conseguiu impressionar a garota. Mas ela é a minha garota, ouviu? Minha!

– Ana!

– Nada tema, princesa. Afinal, eu também estou jurando minha lealdade e oferecendo meu serviço a você. Então você aceita esta minha humilde oferenda?

– Irk! Jogue fora essa coisa nojenta. Kris, feche a boca e providencie para o senhor Durak um local adequado para seu descanso, onde ele deve aguardar até segunda ordem.

O lado debaixo do Equador

– Mas… quem te deixou entrar? Vocês, latinos, são todos assim, folgados?

– Absolutamente, senhor Primeiro Ministro. Eu creio que sua orientação foi bem clara. Eu devia esperar o senhor falar com a rainha e então entrar. O senhor falou com a rainha, eu entrei.

– Está tentando me fazer de bobo? Evidente que sua entrada depende de uma permissão expressa dada pela rainha!

– Permita discordar, senhor Primeiro Ministro. O senhor não disse que eu deveria aguardar uma permissão dada pela rainha. Isso me lembra de quando eu estive em Westeros. A rainha Cersei decapitou o coitado que embaraçou a minha entrada. Pobre coitado, perdeu a cabeça por causa de protocolo.

– Oh! Você conheceu o Reino de Westeros!

– Sim, vossa magnifica majestade. Eu posso me aproximar?

– Ah, que Diabo! Venha, sente-se ao meu lado. Eu quero saber de tudo do Reino de Westeros.

– A digníssima Princesa Ana se opõe?

– Por que não? Kristoferson interrompeu demais a minha… “audiência” com a rainha!

– Ei, o penetra aqui é esse mercenário!

– Basta! Os dois! Kris, seja mais assertivo quando der informações, especialmente aos emissários. Ana, foi você quem insistiu que nós devemos estabelecer bons relacionamentos com outros reinos, então receba este emissário com o respeito merecido. Vamos, venha, sente-se!

– Muito agradecido, vossa magni…

– Elsa. Chame-me de Elsa.

– Então, Elsa, pode me chamar de Durak. Eu vou tomar este assento.

– Você esteve mesmo no Reino de Westeros?

– Perfeitamente, digni…

– Ana. Se você vai tratar informalmente minha irmã, trate informalmente comigo, Durak.

– Ahem. Sim, Ana, eu estive no Reino de Westeros a serviço da rainha Cersei. Eu recebi das mãos dela este cajado da casa de Lannister.

– O que me garante que não tirou do corpo de um nobre que você mesmo matou?

– Ana! Olhe os modos!

– Está tudo bem, Elsa. Eu estou ciente de que latinos tem uma péssima reputação aqui no Velho Mundo e, para minha fortuna, eu venho de terras do além mar, do Novo Mundo, de Southerly, do Condado de Vera Cruz. Os Deuses devem saber dos boatos e fofocas que a corte diz de minha gente.

– Só me diga isso. Você tem algum vinculo com os ingleses ou franceses?

– Oh, não, Elsa. Parte de Southerly foi colonizada pelos espanhóis e outra parte por portugueses. Um tipo de latino, diferente dos italianos.

– Isso para mim é o suficiente. Eu não sou fútil a ponto de me deixar influenciar por boatos e fofocas. Eu quero saber tudo sobre Southerly e o seu condado.

– Não há muito a falar disso, Elsa, nós existimos há pouco mais de quinhentos anos e somos um povo miscigenado. Você teria que navegar muitos dias na direção oeste e mais outros na direção sul, abaixo da linha do Equador, para encontrar o Condado de Vera Cruz.

– Nossa… isso é… bem ao sul… mais ao sul do que Itália e Espanha. Seu condado deve ser superquente.

– Tem partes bem quentes e partes bem frias, Elsa. O Novo Mundo é exagerado em muitas coisas. Meu condado, por exemplo, é grande como cinco reinos do Velho Mundo.

– Mas isso é… grande demais! Como seu governo consegue administrar tudo isso?

– Ah, essa é a parte ruim. Nosso condado é reconhecido pelo seu tamanho, sua riqueza natural, seu imenso potencial, mas o governo é nosso “desastre natural”, se é que me entende.

– Isso é terrível. Eu sinto muito. Você deve ter raiva de governos e governantes.

– Absolutamente não, Elsa. Eu sou pragmático. Pessoas são pessoas, com ou sem cargo. Pessoas agem em busca de seus objetivos. Foi por essa minha… habilidade em tratar dessas peculiaridades da política que a rainha Cersei convidou-me para atende-la. As intrigas e entranhas da corte do Velho Mundo são entediantes, em comparação com os meandres das repúblicas existentes em Southerly.

– Eu devo dizer então que muitos dos boatos que eu ouvi são verdadeiros e você é realmente um mercenário.

– Ana! Modos!

– Tudo bem, ela está certa, Elsa. Quem nasce e convive com falsários, ladrões, bandidos, estupradores, assassinos e pervertidos acaba adquirindo essa… natureza. A rainha Cersei queria ter certeza de que tinha alguém confiável e leal o suficiente para… fazer o que deve ser feito, sem questionamentos, sem hesitações, sem dilemas ou dúvidas morais. Conhece alguém que pode ser tão virtuoso e tão perverso assim ao mesmo tempo?

– N… não… só em lendas…

– Pois é isso que eu te ofereço, Elsa. O meu serviço, a minha lealdade. Eu obedecerei ao seu menor capricho, seja ele qual for. Eu posso arrancar a cabeça de seu Primeiro Ministro Kristoferson, sem pestanejar. Eu sou capaz de levar aos pés de sua cama o coração de seu general Olaf, sem hesitar.

– A… ah… ahahaha… aah… está quente aqui não? Bebe algo, Durak? Chá? Vinho?

– Elsa, estamos a três graus celsius. Arendelle ainda não se recuperou por inteiro do inverno que você provocou…

– Ana! Não chateie o convidado com bobagens!

– Qual é? Será que eu vou ter que lembrar quem disse sobre ter tido o suficiente do mundo lá fora? Será que eu vou ter que te lembrar do Príncipe Hans?

– Eu devo concordar com Ana, Elsa. Como amostra de minhas… habilidades, eu estou ciente do que ocorreu entre você e Hans. Se for seu desejo, como prova de minha lealdade, eu posso… dar um jeito no “príncipe charmoso”.

– Espere um pouco. Você, forasteiro, está dizendo que pode nos livrar desse incomodo que é Hans, preso em nossos calabouços, sem que isso nos custe coisa alguma nem que nos incrimine?

– Sim, Ana. Mas somente se for o desejo de Elsa.

– Olha, eu estou começando a gostar de você. Você merece uma boa cerveja de nossa adega. Nós herdamos dos dinamarqueses e belgas a arte de fazer excelentes cervejas.

– Que bom que chegamos a alguma coisa! Copeiro real! Traga um barril com a nossa melhor cerveja!

– Só para constar, mercenário. Eu vou ficar de olho em você. Não pense que vai tirar vantagem da Elsa com a cerveja.

– Ana! Modos!

– Na minha ótica, Ana, considerando que é um contra duas e a cerveja é da casa, eu receio que seja eu quem está em risco de ser depenado…

Além de Arendelle

– Ufa… essa foi por pouco. Ana, quando você descobriu o plano do Príncipe Hans?

– Bom, eu desconfiei das… intenções dele no baile de sua coroação, quando ele flertou com metade da corte… começando comigo.

– Ainda bem que eu criei meu exército de Homens da Neve, cavaleiros leais e de boa estirpe, descendentes do nosso bom e velho rei Haroldo.

– Que não teriam ajudado em coisa alguma se não fosse a sua “skoldmo” aqui…

– Ah, não comece, Ana. Foi bastante… embaraçoso explicar as coisas depois que você me beijou.

– Hunf! Eu não lembro de ter ouvido você ter protestado… muito pelo contrário, você retribuiu o beijo e, apesar de ser chamada de Rainha do Gelo, você estava bem quente.

– Olha, se você vai insistir nisso, eu vou ter que chamar o Kristoferson.

– Que você, muito gentilmente, depois de uma noite de amor comigo, sua irmã, nomeou como Primeiro Ministro…

– Shushh! Ana! Não em voz alta! General Olaf pode acabar te escutando…

– O que? Será que ele é um cabeça de vento e não um Homem de Neve? Elsa, todo mundo em Arendelle sabe que nós estamos transando.

– Eu não estou te ouvindo, lalalala…

– Oquei, eu não vou te forçar a admitir, eu sou sua irmã, mas você ainda é a rainha daqui. E como tal, nós temos que pensar em como melhorar o nosso reino estabelecendo bons relacionamentos comerciais com outros reinos.

– Nem pensar. Eu tive o suficiente do mundo lá fora com o Príncipe Hans das Ilhas do Sul. Onde fica isso mesmo?

– Bom, nossos parentes dizem que se nós somos descendentes dos monarcas noruegueses e dinamarqueses, então o Reino das Ilhas do Sul é conhecido como Grã-Bretanha, um conjunto de ilhas colonizadas por outros de nossos antecessores, os Anglos e Saxões, parentes dos Germanos.

– Ah! Ingleses! Só podia ser! E o tal de duque de Weselton?

– Descendente dos Normandos, que colonizaram o litoral da Gália.

– Ah! Franceses! Só podia ser! Risquem esses reinos. O que sobra?

– A Europa é grande, “vossa majestade”…

– Está querendo me dar aulas de geografia, Ana? Eu lembro muito bem que você quem ficava de recuperação na escola…

– E eu lembro muito bem que foi você quem me atingiu na cabeça com uma bola de neve…

– Está bem, vamos parar. Senão vamos acabar brigando e eu não quero dormir sozinha. Eu gosto dos belgas, holandeses, austríacos e todos os reinos do leste europeu. Nós temos embaixadores suficientes?

– Eu acho que sim, mas… e mais ao sul? Tem os espanhóis e os italianos.

– Argh! Latinos! Quentes demais, pegajosos demais, orgulhosos demais, convencidos demais.

– E lá vem a Rainha do Gelo de novo. Sabe, Elsa, nós temos que trabalhar nessa imagem que nós somos um povo frio e insensível.

– Pois eu chamo isso de educação e etiqueta, Dama do Outono.

– Aha! Quem está usando apelidos de infância agora?

– Eu ficaria a tarde toda listando os seus apelidos que eu aprendi do Garoto da Rena…

– Kris… depois eu “converso” com ele. Mas voltando ao foco do assunto, se você tem tanta aversão por latinos, está fora de cogitação qualquer acordo com o Reino de Southerly?

– Mas… que Diabo é isso?

– Onde é a pergunta certa… reinos que surgiram em terras do outro lado do oceano. Reinos novinhos em folha, com um imenso potencial e riquezas inexploradas, reinos que estão ansiosos em receber reconhecimento da Europa, depois que se tornaram independentes. O problema é que anteriormente estes reinos eram colônias de ingleses, franceses e latinos.

– Puxa vida… e além de Constantinopla? Tem os reinos persas e asiáticos que ainda não consideramos.

– Destes, quem não gosta sou eu. Ali a mulher é muito oprimida e há muita restrições a outras formas de relacionamento amoroso.

– Que estranho… as notícias falam do oriente como uma terra de promiscuidade…

– E a senhora ficou toda animadinha né? Depois eu que sou a Dama do Outono hem?

– Ana! Você sempre consegue me deixar envergonhada! Você acaba sempre falando de sexo!

– Mmmm… e eu sei que você gosta que eu fale dessas coisas em seu ouvido, enquanto geme descontroladamente pela ação de meus “dedos mágicos”…

– Ah! Ana! Aqui não! Não na sala do trono! Alguém pode chegar e… mmmmm….

– Ora, ora… “vossa majestade”, você está toda molhada… e eu nem comecei…

– Cofcof… ahem… com licença, Rainha Elsa, Princesa Ana…

– Kris! Olaf! Graças aos Deuses vocês chagaram! Eu e Ana estávamos… eh… conversando sobre futuros tratados diplomáticos com outros reinos.

– Sem problema, Rainha Elsa. Eu aceitei e superei o fato que minha rainha e minha princesa estão transando, a despeito de serem irmãs. Olaf ainda está na terapia, mas ele é mais lento para essas coisas. Se vossas majestades me permitem, tem um emissário do Condado de Vera Cruz pedindo audiência.

– Condado de Vera Cruz? De qual reino?

– Ele vem de Southerly, majestade. Uma viagem longa para um emissário, mas eu desconfio de que ele seja um mercenário.

– Uma mera diferença semântica, meu caro Primeiro Ministro. Apenas uma pequena diferença semântica separa um emissário de um mercenário. Desculpem minha intromissão, vossa iluminada majestade. Diante de vossa magnifica presença encontra-se um mero escravo de vossa vontade, Sir Durak Llyffant.

Atores amadores

Uma imagem que eu vi na internet vai servir de base para refletirmos sobre este ultimo texto sobre Olimpíadas, abarcando o Brasil [e nosso complexo de vira-latas] e os EUA [o Grande Irmão bem-sucedido].

Eu creio que a imagem foi retirada de alguma reportagem estrangeira. Nela está o nosso presidente em exercício, Michel Temer, tendo “acting president of Brazil” como legenda. Em uma tradução menos literal, “acting” é “atual”, mas para nosso exercício de raciocínio, eu vou deliberadamente traduzir “acting” como “atuando”. Michel Temer está fazendo o papel de presidente. Ele está “encenando” e, convenhamos, ele é um ator canastrão.

Eu nunca vou esquecer quando uma drag queen disse em uma reportagem que todos nós nos montamos. Todos nós encenamos papéis, em nossa rotina, nós vestimos diversas máscaras, conforme a situação, nós desempenhamos conforme um roteiro, restando a dúvida se somos coautores. Curiosamente isso nos incomoda quando percebemos que uma pessoa pública [existe “pessoa privada”?] mostra outra faceta, como o jogador Neymar deixou escapar, ao tentar agredir torcedores após o jogo Brasil e Alemanha, apesar de sua pose com uma faixa evangélica. Neymar foi criticado porque deixou cair a máscara dele.

Para ser bem sincero, toda pessoa é pública, o conceito de pessoa existe somente dentro de uma sociedade, de um grupo. O que podemos distinguir é qual parte de nossa vida é de conhecimento público e qual parte de nossa vida nós preferimos manter reservada. A nuance entre vida pública e privada tem ficado mais borrado com as redes sociais. Nada nos estimula mais do que saber da vida de uma atriz e um ator. Paradoxalmente nós transformamos em um espetáculo a invasão da privacidade e nos deliciamos ao ver que os nossos ídolos e heróis não são muito diferentes de nós.

Nós vibramos tanto com uma novela, um filme e uma competição esportiva porque, no fundo, nós queremos e precisamos que exista um ídolo e um herói, alguém precisa ocupar o pedestal, o trono, o pódio. O sucesso, o clamor, o aplauso, o elogio, são uma comprovação de que aquele que se sobressai, aquele que é melhor, terá o seu mérito reconhecido. O ator, o atleta, o político, estão onde estão porque “merecem”, se prepararam para isso, foram habilitados para serem merecedores dos louros da vitória. Mas nós nos decepcionamos quando o político que devia nos representar é pego envolvido em um esquema de corrupção, como se nós não tivéssemos esse defeito, quando tentamos dar o famoso “jeitinho brasileiro”.

A vitória de um atleta, a despeito de suas condições sociais, é um alento necessário para um povo nascido e criado como pequenos burgueses. O atleta brasileiro é duplamente herói: pela falta de estrutura, investimento e apoio para formar futuros atletas; pela superação da segregação social que muitos atletas têm que enfrentar para sequer entrar em uma escola militar para ser atleta. Ali, no pódio, o atleta brasileiro é a prova da necessidade de termos programas sociais e de promovermos cada vez mais a justiça social, coisas que são impossíveis na economia de mercado livre, no neoliberalismo.

Para isso o Brasil e o brasileiro precisa reinventar sua identidade, nós precisamos criar essa identidade chamada de “brasileiro”, nós temos que ser os protagonistas e autores de nossa história se queremos ter um país chamado Brasil. Nós temos que achar um meio termo entre o complexo de vira-lata e o ufanismo, algo que ficou estampado nas colunas criticando ou elogiando o empenho do Brasil com e na Olimpíada. Por razões históricas, políticas, econômicas e sociais, nós não devemos nos comparar com os países ricos nem ficar lastimando nossa herança cultural como colônia.

Tal como a pessoa comum diante do ídolo, do herói, o Brasil só vai alcançar a plena soberania quando parar de adular e copiar o Grande Irmão. Vendilhões no Templo do Desenvolvimento apresentam como tudo que é americano como sendo necessariamente bom para os brasileiros, confirmando nosso complexo de vira-lata. Como bom vendedores de promessas vazias, os vendilhões omitem a história do Grande Irmão, onde o Estado, principal empreendedor, protegeu e investiu em suas indústrias até se tornarem autônomas e competitivas e, ainda assim, até na “Terra da Liberdade”, existem barreiras comerciais.

O Estado Americano é o maior autor da grandeza americana, não apenas na economia, mas também nas Olimpíadas. O Estado Americano oferece subsídios para as universidades “privadas” poderem formar futuros profissionais e esses subsídios incluem bolsas de estudos para que atletas talentosos consigam entrar na universidade, algo parecido com o sistema de cotas no Brasil. O Estado é quem mais investe na construção de prédios e ginásios esportivos. Mas para o vendilhão do neoliberalismo, o Grande Irmão tem muitas medalhas porque o Estado não se intromete e ainda canta uma falsa vitória afirmando que o espírito olímpico é liberal, quando não é, pois as condições dos atletas e dos países participantes estão bem longe desse ideal utópico, como eu analisei em meu texto “Doping Social”.

Um contraponto necessário e importante é lembrar da vitória de Portugal na Eurocopa. Uma seleção feita de imigrantes, uma seleção miscigenada, venceu a Eurocopa para nos mostrar que nenhum país é, em absoluto, o único exclusivo merecedor de seu sucesso e riqueza. O Grande Irmão seria um país de Terceiro Mundo se tivesse aplicado a política econômica neoliberal que agora tentam nos vender. O Grande Irmão seria um país em desenvolvimento, se não tivessem migrado para lá a tecnologia e os profissionais de outros países. Quando o Grande Irmão aplicou o neoliberalismo [era Reagan] quase quebrou, da mesma forma como a Grã Bretanha quase quebrou [era Thatcher] com o neoliberalismo. O Grande Irmão está passando por uma crise, assim como a Europa e ambos sabem no fundo que somente conseguirão se manter no pódio se fizerem exatamente o inverso do que apregoam aos países em desenvolvimento.

Tal como nas Olimpíadas, somente quando mais gente, mais pessoas, puderem ser inseridas na sociedade, puderem ser treinadas e preparadas, é que haverá mais crescimento e desenvolvimento econômico. Somente com a diminuição ou erradicação da desigualdade social injusta é que poderemos, efetivamente, almejar subir no pódio e reclamar pelos louros de nossa vitória.