O mito da objetividade

Muita coisa está deixando de ser dita diante do projeto “escola sem partido”, inclusive por pensadores, críticos e farsantes. Um exercício de questionamento é necessário, sobretudo quando a página dedicada a “explicar” o projeto contêm artigos que evidenciam exatamente o oposto do que se pretende.

Alguns conceitos iniciais são necessários para descascar esse abacaxi. Segundo os próprios autores do projeto, define-se a escola como “centros de produção e difusão do conhecimento, abertos às mais diversas perspectivas de investigação e capazes, por isso, de refletir, com neutralidade e equilíbrio, os infinitos matizes da realidade”.

O filósofo riria dessa proposição, afinal, “conhecimento” não é apenas o objetivo. A partir do momento que você define a escola/ o conhecimento como necessariamente “objetivo”, está se assumindo uma posição o que, portanto, anula a “neutralidade”.

A fachada do projeto é o de “combater” o que, no entender dos autores do projeto, é a utilização da escola como instrumento de doutrinação. Então devemos partir do pressuposto de que tal “doutrinação” existe, é tangível, é demonstrável e consistiria em um “desvio” da “verdadeira” função da escola. A despeito da fachada vendida pelos idealizadores do projeto, o objetivo é o de extirpar apenas um tipo de ideologia. Pelo conteúdo da página e dos textos, fica evidente que a postura dos postuladores deste projeto são conservadores e avessos a qualquer tipo de pensamento que estes consideram “inapropriados” ou contrários aos “valores tradicionais do ocidente cristão”, um completo contrassenso ao que o próprio projeto propõe.

Tipos de conhecimento

Uma pessoa tem diversos tipos de conhecimento à sua disposição. Existem seis tipos de conhecimento: conhecimento técnico, conhecimento estético, conhecimento empírico, conhecimento filosófico, conhecimento teológicoeconhecimento científico. A escola é um local propício para adquirir os diversos tipos de conhecimento além do “objetivo”. O ser humano perderia muito conhecimento se dispensasse o conhecimento subjetivo, perderia simplesmente em tentar separar os diversos conhecimentos por esta pobre dicotomia, pois existem diversos graus de objetividade e subjetividade dentro de uma mesma matéria.

Objetividade

Por mais que a objetividade seja algo necessário, útil e confortável para a Ciência, um filósofo riria da presunção, pois não resolve as questões que envolvem o objeto, a observação, o observado, o ambiente e o contexto. Diversas matérias do conhecimento humano se definem como “objetivas”, isto pressupondo que isto signifique “mais exato”, “mais certo”, o que nos conduz ao extremo de que é um conhecimento invariável, inquestionável.

Isso não é Ciência, afinal, inúmeros cientistas continuam suas pesquisas exatamente para refinarem nosso conhecimento, quando não descartar por completo teorias obsoletas. Mas… se o conhecimento é “objetivo”, ele deveria ser infalível, invariável… certo? Para isso existe a Filosofia. E a Ciência utiliza muito a Filosofia, bem como o pensamento abstrato.

Cientistas que também são pensadores perceberam a sutileza de que a natureza da observação sofre variações do que se observa, conforme o ambiente, o observador e seu contexto cultural. Esta é uma questão que divide a Filosofia, algo existe por si mesmo ou existe quando observado? Aquilo que é observado pode ser objetivamente observado ou sofre influência da bagagem cultural que o observador carrega? Qual a influência que o ambiente ou o contexto exerce sobre o objeto e o observador? Qual a influência que a simples presença do observador pode exercer no objeto observado? A objetividade é possível, mas é desejável? A subjetividade pode ser diminuída, mas convêm ser eliminada? Ao assumir uma postura diante destas questões, cessa a neutralidade.

Escola e ensino

A construção de uma escola é um resultado politico de um governo, em uma época, em uma sociedade, em uma cultura. A existência da escola acontece dentro de um propósito definido, portanto a escola em si mesma não tem como ser neutra. A indispensável presença e postura de um professor diante de uma classe descarta qualquer neutralidade. As escolhas que o professor faz de determinados autores ou obras aniquila qualquer neutralidade. A escola é um lugar onde um professor está presente diante de uma classe de alunos para transmitir o conteúdo de uma determinada matéria. A especialização de cada professor a uma determinada matéria demonstra que na neutralidade não há escola nem ensino.

Premissas problemáticas

Os idealizadores do projeto demonstram, portanto, serem contraditórios, porque identificam um determinado conteúdo como “inadequado” e que o ensino de tais conteúdos seriam “doutrinação”, elegendo como ideal somente os conteúdos que consideram “adequados”, um conhecimento supostamente “objetivo” e “neutro”. Ao eleger apenas um programa e descartar outro, sem argumentos melhores, inexiste objetividade e neutralidade.

O projeto é nulo por suas próprias premissas. Pressupõe que uma escola, o ensino e o professor devem ser objetivos e neutros. Considerando que estes eventos acontecem dentro de um contexto político, social e cultural, estes ideais são inexistentes e impossíveis. O professor não é um equipamento, é um ser humano, com opiniões, preferências e opções que são refletidas nas obras e autores escolhidos. O projeto é inócuo simplesmente porque o que se pretende é que o conservadorismo reconquiste a hegemonia na sala de aula. O projeto é reacionário porque pretende cessar ou eliminar o questionamento ou a contestação pelos alunos. O projeto é fascista porque quer alienar o aluno de qualquer tipo de educação ou conscientização política. O projeto é falso, porque qualquer versão ou opinião sobre as questões políticas e socioculturais são tendenciosas e subjetivas. O projeto é absurdo, pois ao colocar a educação familiar acima da educação escolar perde-se a neutralidade, a objetividade e criará atritos entre os envolvidos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s